As fronteiras ibero-americanas na obra de Sérgio Buarque de Holanda
INTRODUÇÃO
A noção de fronteira adquire variados significados no mundo contemporâneo.
Fronteiras como delimitações de territórios ou como metáforas da vida social,
fronteiras porosas e rígidas, barreiras ou formas de travessias, diferenças e
sincretismos, limites e caminhos. A palavra passa a ser bastante utilizada nos
textos e discursos académicos sobre os limites entre as áreas de conhecimento e
as formas híbridas de percepção dos fenómenos sociais na actualidade.
A fronteira é, por definição, um termo polissémico e que pode ser apreendido
mediante diferentes metáforas. Recordo um pequeno ensaio de Simmel (2001)
intitulado “ponte e porta”, para pensar algumas dimensões das fronteiras. As
metáforas da ponte e da porta são indicativas das fronteiras que delimitam e
atravessam a experiência humana e as vivências em determinados espaços sociais.
A ponte como uma criação humana que consegue unir o que a natureza havia
separado. A construção do caminho e a percepção dos trajectos e dos pontos de
ligação. A porta como algo que estabelece um limite, a edificação de barreiras
entre o interno e o externo, uma separação num espaço que antes era
naturalmente unificado. Contudo, a porta simboliza também a passagem, o
cruzamento entre o fora e o dentro, entre a objectividade e a subjectividade da
vida dos indivíduos em sociedade. A ponte e a porta são símbolos, metáforas da
nossa experiência colectiva e individual.
Essas metáforas podem ser associadas ao próprio título de um dos livros de
Sérgio Buarque de Holanda, Caminhos e Fronteiras.Neste caso, as travessias e
barreiras adquirem significados históricos específicos em relação à experiência
singular da expansão paulista e brasileira, em comparação com outros processos
de colonização no continente americano.
Neste artigo distancio-me de algumas interpretações sobre o autor centradas na
“identidade nacional”, visto que estas, às vezes, acabam por cristalizar ideias
sobre a especificidade cultural brasileira
1
. Os conceitos de homem cordial, de patriarcado e de personalismo tornaram-se
expressões quotidianas que justificam o modo brasileiro de ser, em contraste
com outros comportamentos políticos nacionais. Acredito que o deslocamento de
algumas interpretações com características “essencialistas” para uma abordagem
centrada na dinâmica das fronteiras permite compreender o movimento permanente
destas configurações históricas.
Realizei uma leitura de Raízes do Brasil (edições de 1936, 1948 e 1956) na
confluência de outros trabalhos do autor produzidos nas décadas de 40 e 50,
especialmente Caminhos e Fronteiras (1994 [1957]) e Visão do Paraíso(2000
[1959]). As separações que geralmente ocorrem entre a obra ensaísta do autor
(Raízes do Brasil) e os seus trabalhos historiográficos (Monções, Caminhos e
Fronteiras, O Extremo Oeste, Visão do Paraíso, Do Império à República,na
colecção “História da Civilização Brasileira” estão na origem de uma divisão do
trabalho interpretativo verificada entre sociólogos, cientistas políticos e
historiadores. Os sociólogos e cientistas políticos geralmente estudam Raízes
do Brasil comparando este texto com obras consagradas de outros autores
brasileiros e, muitas vezes, os historiadores dedicam-se aos livros do autor
que foram construídos a partir de um trabalho circunscrito e mais minucioso com
as fontes.
Não se trata de tentar preencher lacunas de Raízes do Brasil com argumentos
desenvolvidos nestas outras obras, pois sabemos que o livro é datado, como
muitas vezes afirmou o próprio autor. O meu intuito é perceber o próprio
percurso do pensamento do autor, as suas reformulações, as descontinuidades e
as continuidades em relação a este ensaio inaugural.
Procuro construir neste artigo a noção de fronteiras ibero-americanas a partir
de quatro sentidos de fronteira: (1) a Península Ibérica como “zona de
transição” e “território-ponte” entre a Europa, a África e a América; (2) as
fronteiras enquanto marcos de diferenças entre a colonização portuguesa e
castelhana na América; (3) as frentes de expansão e os processos de
americanização; (4) a ideia de transição das raízes ibéricas para um mundo
moderno e urbanizado.
FRONTEIRAS IBÉRICAS
Uma das linhas mais comuns na interpretação de Raízes do Brasil é perceber o
primeiro capítulo como uma forma de explicação histórica sobre os “males de
origem” da sociedade brasileira. Se os brasileiros são tradicionalistas,
autoritários, patriarcais, contrários às associações espontâneas, são-no porque
“herdaram” estes comportamentos políticos principalmente de Portugal. Afinal de
contas, de lá vieram as formas de organização social e política, o “resto foi
matéria que se sujeitou bem ou mal a essa forma” (Holanda, 1948, p. 32).
A maneira como Sérgio Buarque de Holanda principia e encerra o primeiro
capítulo de Raízes do Brasil abre margem para uma visão estática e que não
valoriza a imensa contribuição de outras matrizes culturais (africanas e
ameríndias) na formação da sociedade brasileira. Nesta matriz interpretativa,
os brasileiros são uma espécie de “neoportugueses” e adaptam alguns valores
culturais dos indígenas e africanos. A fronteira pode ser entendida aqui como
limite intransponível, as marcas permanentes de origem e as transposições
culturais e políticas das margens da Europa para o outro lado do oceano
atlântico (Finazzi-Agrò, 2008, p. 415).
Nesta perspectiva, a reflexão do capítulo fica centrada na discussão da cultura
da personalidade e na ausência de uma cultura do trabalho como maneira de
explicação do atraso e da falta de modernidade do Brasil. O mundo ibérico
caracteriza-se pelo personalismo, pela aversão ao trabalho manual e pela falta
de espírito de cooperação por interesses. O personalismo ibérico é fruto do
prestígio pessoal, da “sobranceria” espanhola e da ruptura com as hierarquias
sociais naturalizadas de uma concepção escolástica do mundo.
Acredito que as“fronteiras da Europa” não significam simplesmente essa
“transplantação” de instituições e valores políticos de Portugal para os
territórios coloniais transoceânicos. É importante pensar a Península Ibérica
como uma zona de transição cultural e, portanto, aberta aos influxos externos,
sendo os seus habitantes mais maleáveis às mudanças noutros contextos de vida.
A região ibérica é um lugar de fluxos de pessoas, ideias e técnicas, onde as
formas sociais não adquirem contornos definitivos. A organização política e
social neste território de transição ou “região indecisa” entre a Europa e a
África não adquire um carácter rígido e de imobilidade capaz de ser
“transplantada” sem sofrer alterações2.
As misturas de povos e as influências culturais de diferentes etnias e
religiões na história da Península Ibérica são pouco trabalhadas no primeiro
capítulo de Raízes do Brasil. Entretanto, em texto apresentado na Escola de
Sociologia e Política em 1958, o autor detalha as diversas misturas e
diferenças entre “portugueses”, “escravos negros”, “mouros”, “mouriscos”,
“judeus” e “cristãos-novos”. De uma maneira geral, o historiador enfatiza as
misturas e hibridismos étnicos, mas, ao mesmo tempo, as profundas barreiras
religiosas que se erguem entre esses povos no contexto de Portugal
quinhentista, que “parece destoar do concerto europeu” (Holanda, 1958, p. 145).
A sociedade de transição, movimentos de povos, fusões culturais e de classes
produz também uma complexa relação política entre as concepções “arcaicas” e
“modernas”. O que aparentemente é moderno torna-se um obstáculo para a
efectivação de processos mais universais da modernidade ocidental. Por exemplo,
o modo de vida dos povos ibéricos parece anteceder as concepções modernas de
liberdade individual, mas ao mesmo tempo o personalismo é uma forma tradicional
que bloqueia a concretização de outros valores modernos. De uma maneira geral,
há uma tensão permanente entre uma “modernidade precoce” em alguns aspectos —
como a liberdade pessoal, a falta de hierarquias, uma burguesia mercantil e uma
maior mobilidade e proximidade entre as classes — e as formas ditas modernas,
como as acções cooperativas e uma maior organização racional do trabalho. Este
tipo de relação não favorece a ruptura com as tradições. Pelo contrário, essas
características específicas dos ibéricos bloqueiam a realização mais extensiva
dos valores culturais novos.
As“fronteiras da Europa” não são somente barreiras intransponíveis, mas também
“zonas de contacto”, “territórios-ponte”, que sinalizam aberturas e movimentos.
Um olhar mais atento ao fluir do texto e dos acontecimentos da colonização
permite perceber os contornos, formas e conteúdos diversos e as expressões
políticas advindas de outros territórios europeus. Embora se possa inferir essa
dupla leitura deste capítulo a partir de duas maneiras de entender a fronteira
(“limite intransponível” e “zona de transição” e “fluidez”), o facto é que
estão presentes neste ensaio de Sérgio Buarque os marcos de uma “herança” do
mundo ibérico que deixam as suas marcas no processo colonizador português nas
regiões de além-mar. Em trabalhos posteriores, especialmente os que produziu
durante o período em que esteve em Itália (1953-1954), ele relativiza esse peso
da “mentalidade ibérica” na explicação do Brasil. Numa conferência em Genebra
(1954), o historiador afirma que “supor a existência de uma misteriosa
‘mentalidade ibérica’, sempre igual a si mesma e capaz de uma resistência
obstinada a todas as influências externas ou a todas as mudanças possíveis,
seria sucumbir à sedução destes argumentos idealistas que nada explicam”
(Holanda, 1954, p. 5).
Nesta fase, o autor já havia produzido vários artigos historiográficos sobre a
expansão paulista e tivera acesso a muitos arquivos sobre o contexto dos
descobrimentos em Itália. Souza, comentando o texto de Holanda (2002 [1954]) A
Contribuição Italiana para a Formação do Brasil
3
, destaca a aproximação feita pelo historiador entre o carácter mercantil da
experiência colonizadora dos portugueses no tempo dos descobrimentos e as
actividades comerciais dos italianos no contexto medieval. Sérgio Buarque
distancia-se da “singularidade ibérica” e aponta outros elos de influência
advindos de diversas regiões da Europa.
Uma releitura de Raízes do Brasil em diálogo com estes outros textos
possibilita uma crítica interna a essa interpretação, que enfatiza a herança
ibérica, e permite uma maior aproximação a outras possibilidades de
interpretação das “matrizes culturais” brasileiras. Neste sentido, as formas
políticas e sociais que os brasileiros “herdaram” do mundo ibérico não foram
somente a cultura da personalidade e a ausência da cultura do trabalho, mas
também formas fronteiriças (mestiçagem, mobilidade, plasticidade do português,
etc.) e influxos advindos de outros contextos europeus capazes de reconfigurar
e adquirir conteúdos muito distintos no percurso colonial e nacional.
FRONTEIRAS DA COLONIZAÇÃO
A Península Ibérica aparece no capítulo “Fronteiras da Europa” como uma região
fronteiriça e unitária, sem diferenças substanciais entre Portugal e Espanha.
Os limites internos são explicitados quando o autor investiga as diferenças nas
colonizações americanas realizadas por estes dois países ibéricos. Neste
contexto, a fronteira ibero-americana pode ser vista como algo que demarca
diferenças no interior do processo de colonização das nações ibéricas no
continente americano. As fronteiras internas (como barreiras, limites) do mundo
ibérico são construídas mediante metáforas que representam as diferenças nos
processos de exploração e na organização política e urbana dos novos espaços
conquistados.
Sérgio Buarque de Holanda interessou-se desde cedo pela literatura e história
dos países vizinhos ao Brasil e pelas comparações entre a experiência histórica
brasileira e dos povos hispano-americanos. No seu primeiro texto publicado em
1920 no Correio Paulistano, denominado “A originalidade literária”, já
demonstrava um conhecimento de vários autores dos países sul-americanos
4
. Neste artigo tece as suas primeiras comparações entre os portugueses e os
espanhóis que posteriormente serão retomadas em Raízes do Brasil e em Visão do
Paraíso: “o povo português, menos idealista e, se quiserem, mais prático que o
espanhol, não teve uma impressão tão sutil da natureza do Novo Mundo como
aquele” (Holanda, 1996 [1920], p. 37).
Provavelmente, uma das preocupações principais da obra de Sérgio Buarque de
Holanda terá sido a de pensar o lugar da sociedade brasileira, com as suas
especificidades regionais, na vida americana e especialmente na latino-
americana. Neste sentido, o autor teceu diversas comparações sobre as
diferenças dos processos de colonização dos castelhanos e dos portugueses no
continente americano em diferentes momentos dos seus escritos.
No quarto capítulo de Raízes do Brasil, intitulado, na 2.ª edição, “O semeador
e o ladrilhador”, o autor delimita as diferenças entre essas duas formas de
colonização. A diferença não diz respeito ao carácter específico de cada povo
nem às distinções psicológicas e culturais entre as nações colonizadoras. O
marco da diferença é principalmente de natureza política, económica e militar.
Castela havia reconquistado recentemente o seu território do domínio árabe,
conquistara um imenso território além-mar e dominava outras regiões da Europa.
As pressões para manter a unidade territorial diante dos distintos reinos que
formavam o “Estado espanhol” e o domínio dos territórios conquistados na Europa
e na América foram centrais para o desenvolvimento de uma colonização
centralizadora e ordenadora. Portugal, por sua vez, adquirira a sua unidade
territorial ainda no século xiii sem enfrentar divergências internas com outros
reinos. Além disso, já havia reconquistado o seu território do domínio mouro
antes da Espanha e constituía-se como um reino de cunho comercial.
A expressão dessas diferenças políticas dos Estados ibéricos no processo de
colonização americana pode ser vista, em Raízes do Brasil, no próprio traçado
das cidades no continente sul americano. Enquanto as cidades hispano-americanas
foram construídas com planeamento, através da precisão da linha recta e em
lugares estratégicos, conforme ao plano e à legislação castelhana, as cidades
na América portuguesa foram sendo implantadas ao sabor dos fluxos comerciais e
populacionais, obedecendo geralmente às curvas sinuosas dos próprios acidentes
geográficos. A observação do traçado e da localização das cidades na América
espanhola e portuguesa permite-lhe identificar outras diferenças entre estas
duas formas de colonização: interior e litoral, rural e urbano, norma abstracta
e realismo.
Em Visão do Paraíso, uma década após a 2.ª edição de Raízes do Brasil(1948),
há uma ampliação e revisão do contraponto político sobre o papel da Espanha e
de Portugal nos processos de conquista da América. Provavelmente devido a novas
leituras do autor sobre o capitalismo mediterrâneo e o império espanhol
5
, complementadas com novas informações sobre a geopolítica da Coroa portuguesa
na conquista do território no continente americano. A singularidade da formação
do império espanhol é retomada no último capítulo deste livro, intitulado
“América portuguesa e Índias de Castela”. Os reinos que formavam a Espanha
continuavam com legislações e soberanias específicas e somente o reino de
Castela
6
detinha o exclusivismo das terras do “ultramar”. O estatuto jurídico de
“Índias de Castela” estabelecia que estes territórios estavam submetidos às
leis castelhanas e os habitantes eram súbditos do rei de Castela, da mesma
forma que os habitantes da Península e das outras regiões europeias
conquistadas pela “Espanha”
7
. Tudo isso no plano da legislação, mas é necessário relativizar a rigidez dos
documentos legais em terras do “l’obedezco pero no lo cumplo”. Na prática
política havia uma prioridade de controlo imperial do “coração” da Europa
cristã, em detrimento de um domínio mais efectivo das Índias de Castela.
Esta organização política específica possibilitou, segundo o autor, uma maior
liberdade às iniciativas individuais nas Índias de Castela e o próprio controlo
da Coroa, tão destacado em Raízes do Brasil, é relativizado. A extensão do
império castelhano nas terras americanas reflecte as contradições entre a
rigidez do controlo centralizador de Castela e as autonomias dos reinos que
formam a Espanha e que também aparecem nos territórios de além-mar.
Já a colonização portuguesa na América é um prolongamento nas “rotas do
Atlântico” das actividades de comércio que outros povos já executavam desde a
antiguidade, especialmente os “mestres italianos” na Idade Média. Em Visão do
Paraíso, Sérgio Buarque destaca a influência dos navegantes italianos para
explicar o carácter mercantil e costeiro da experiência portuguesa na América.
Desta forma, a concessão de capitanias hereditárias e a implementação de um
sistema económico de “plantações” de açúcar e algodão não foram invenções
portuguesas, mas influências de experiências coloniais executadas por
venezianos e genoveses nas colónias do mar Negro, Crimeia, Chipre e Creta. Além
disso, foram os navegantes genoveses que guiaram as navegações portuguesas na
origem da expansão lusitana.
Entretanto, refere uma diferença fundamental entre a expansão portuguesa e as
experiências italianas: “a expansão lusitana é inseparável de uma hipertrofia
do poder real”, enquanto as iniciativas particulares predominam principalmente
no caso genovês. Ao contrário do que defende em Raízes do Brasil, o historiador
destacará aqui o peso do controlo do Estado no processo de colonização da
América portuguesa: “nas possessões lusitanas, ainda que pareça afrouxar-se, em
dadas ocasiões e em certos lugares, como sucede com a criação das capitanias
hereditárias, a presença ativa da Coroa, faz-se sentir desde que principie a
colonização regular” (Holanda, 2000, p. 395).
Além destas diferenças políticas nos processos coloniais, é possível também
demarcar fronteiras internas nos movimentos de colonização portuguesa na
América. Em Raízes do Brasil, o autor apresenta dois exemplos regionais no
interior da América portuguesa que se diferenciam do quadro geral: a expansão
dos paulistas no planalto de Piratininga nos séculos xvii e xviii e a extracção
e o controlo do ouro e diamantes em Minas no século xviii. No primeiro caso, a
experiência de São Paulo é vista “como um momento novo de nossa história
nacional”, pois os “pioneers paulistas não tinham suas raízes do outro lado do
oceano, podiam dispensar o estímulo da metrópole e faziam-se frequentemente
contra os interesses imediatos desta” (Holanda, 1948, p. 142). A acção autónoma
dos bandeirantes, rompendo com o controlo metropolitano, inauguraria um
movimento singular da região paulista na formação da sociedade brasileira.
No período da escrita da 1.ª edição do referido ensaio, Sérgio Buarque ainda
estava preso a uma abordagem que identificava as “raízes” da nação antes da
existência da nacionalidade e à ideia de que as bandeiras representavam um
movimento completamente autónomo em relação aos interesses da Coroa portuguesa.
Perfilhava ainda uma concepção apologética dos bandeirantes, vistos, nesse
momento, como “figuras monumentaes” no movimento de dilatação das fronteiras
nacionais (Holanda, 1936, p. 72). Nos textos historiográficos posteriores,
especialmente as obras Caminhos e Fronteiras(1957)e O Extremo Oeste(1986),
tanto a ideia de “protonação” como a “apologia” a determinados bandeirantes
desfazem-se, mas a importância da singularidade desta sociedade continua
presente na maneira de explicar os processos materiais e geopolíticos de
americanização e de modernização dos territórios conquistados em direcção ao
extremo Oeste.
A exploração do “ouro das Gerais” no século xviii, como desdobramento do
movimento dos bandeirantes, ocasiona novos movimentos de populações em direcção
ao interior, ultrapassando a faixa costeira. Em Raízes do Brasil, a
especificidade deste processo está relacionada com o controlo da Coroa sobre
estes novos territórios do ouro. No caso da “Demarcação diamantina” construiu-
se um “Estado dentro do Estado”, “com limites rígidos e definidos” que ninguém
podia ultrapassar sem sofrer as punições do “Estado repressor e policial”, que
tudo fiscaliza. A liberalidade da Coroa portuguesa em contraste com o Estado
espanhol, inclusive em relação à presença de estrangeiros, desaparece neste
momento do controlo destas riquezas minerais no interior do território colonial
português.
Estas experiências regionais de interiorização do domínio colonial português,
das iniciativas privadas e dos controlos estatais aproximam o semeador do
ladrilhador e diluem-se as fronteiras que marcavam as diferenças entre a
colonização espanhola e a portuguesa nestes territórios regionais: “o tempo
mudará tal situação, e no século xvii é um pouco a imagem do império espanhol,
das Índias de Castela, que irá empolgar por sua vez os portugueses” (Holanda,
2000, p. 403).
A diferença entre estas duas colonizações está relacionada com a acção das
coroas portuguesa e castelhana no continente americano. Entretanto, as
metrópoles não controlam tudo e surgem movimentos relativamente autónomos que
produzem novas fronteiras (frentes de expansão), aumentando os limites
territoriais da colónia portuguesa. A partir de uma visão detalhada sobre a
expansão colonial dos bandeirantes em direcção ao interior, Sérgio Buarque
perspectiva novos sentidos de fronteira nesta sociedade movediça do planalto de
Piratininga. Neste movimento, o autor ultrapassa qualquer concepção “genética”
de “transplante cultural” entre a Europa e a América e direcciona a
investigação histórica para o contacto cultural e os fluxos da cultura material
do “Brasil em movimento”, a dinâmica entre índios e mamelucos na expansão do
interior do país.
FRONTEIRAS EM MOVIMENTO
A aventura colonial produz novas fronteiras materiais e simbólicas. A aventura,
para Simmel, significa uma ruptura com a rotina da existência, uma aproximação
ao sonho, à arte e ao jogo. Ela contém a vantagem de superar limites,
ultrapassar obstáculos e deslocar horizontes. Mantém uma relação inorgânica com
o mundo, simboliza o “gesto do conquistador e o aproveitamento da oportunidade”
(Simmel, 2004, p. 185). Para Sérgio Buarque, o aventureiro (português, espanhol
e até inglês) foi o tipo predominante na conquista e exploração europeia do
novo continente. O colonizador português não impôs “normas fixas e indeléveis”
e caracterizou-se pela “mobilidade e plasticidade social”
8
na adaptação às técnicas e alimentos locais, permitindo novas zonas de
contactos e assimilação de valores materiais e simbólicos de outros povos
(Holanda, 1948, p. 52).
Em Raízes do Brasil, a maleabilidade e a plasticidade dos portugueses
possibilitaram a adopção de técnicas de cultivo dos indígenas e de formas e
conteúdos sentimentais e culturais dos negros, tais como a expressão artística
dos Setecentos e o Rococó, o “gosto pelo exótico”, a “sensualidade brejeira”,
os “caprichos sentimentais”, entre outros aspectos. “Americanizava-se ou
africanizava-se conforme fosse preciso” (Holanda, 1948, p. 75). Neste ensaio
inaugural, a descrição de algumas das zonas de contacto entre culturas
diferentes ainda estava centrada na perspectiva da plasticidade do português no
“Novo Mundo”. Entretanto, a visualização destas zonas de contacto cultural e de
absorção das experiências sentimentais e alimentares dos outros povos talvez
possa ser vista como um primeiro sinal para a necessidade de relativizar o peso
da matriz ibérica e, portanto, como um movimento interpretativo em direcção a
outras abordagens sociológicas e históricas que enfatizassem a dinâmica do
processo de americanização de técnicas, valores e crenças.
Nos trabalhos historiográficos sobre a expansão paulista para o Oeste, Sérgio
Buarque retoma o tema do contacto entre a cultura adventícia e a dos povos
indígenas, esboçado em Raízes do Brasil,destacando então a contribuição da
experiência e do conhecimento indígena assimilados pelos sertanistas na
conquista dos sertões brasileiros. O autor compara a forma sedentária e estável
da colonização do litoral, especialmente das regiões de plantio da cana-de-
açúcar, com o movimento e instabilidade dos caminhos, das veredas tortuosas dos
bandeirantes.
O historiador manifesta-se contrário à mitologia do bandeirante que vinha sendo
construída pela historiografia paulista e brasileira9, despindo-o das suas
roupas e botas elegantes e mostrando-o a percorrer os “rudes caminhos” e as
veredas de “pés descalços”. Neste movimento de desconstrução mitológica, o
autor faz uma leitura singular dos saberes, formas de orientação e de
construção dos caminhos pelos indígenas e da maneira como estes conhecimentos
dos “povos naturais da terra” foram apreendidos e incorporados pelos
sertanistas como forma de sobrevivência e de conquista dos novos territórios.
Além disso, a expansão dos bandeirantes deixa de ser interpretada somente a
partir do ângulo da espontaneidade e autonomia dos paulistas, em oposição aos
projectos da Coroa portuguesa, e passa a ser compreendida, particularmente O
Extremo Oeste,a partir da combinação dos interesses geopolíticos da Coroa
portuguesa de ocupar o território do Oeste em disputas com a Coroa de Castela e
os interesses individuais e colectivos dos mamelucos paulistas que impulsionam
a passagem de todos os limites em busca das fronteiras e das riquezas de
Cuiabá (Vangelista, 2005).
A fronteira em movimento dos bandeirantes permite apreender diferentes tempos e
espaços no estudo da singularidade da expansão paulista. É importante destacar
inicialmente o próprio tempo histórico de produção dos trabalhos de Sérgio
Buarque sobre a expansão paulista (Monções, 1945; Caminhos e Fronteiras, 1957 —
colectânea de artigos publicados em anos anteriores; O Extremo Oeste, 1986 —
texto inacabado publicado após a morte do autor. Trata-se do cenário da
discussão da “Campanha da marcha rumo Oeste” no período de Getúlio Vargas
(1930-1945) e das estratégias geopolíticas de ocupação dos “espaços vazios” do
território nacional, especialmente os debates em torno da construção de
Brasília e de ocupação geopolítica da região Centro-Oeste do Brasil. Para
Vangelista (2005), a problemática da conquista e colonização do território
nacional no contexto da produção historiográfica ilumina, provavelmente, a
importância que adquirem as questões sobre a ocupação do território no período
colonial na obra deste historiador.
A relação entre presente e passado está sempre vincada na maneira como o
historiador investiga esta fronteira em movimento. Provavelmente, a própria
influência modernista sobre a sua obra terá favorecido a busca de processos de
modernização e lugares de tradição e permanência, o que se reflecte na
singularidade das suas concepções sobre esta ocupação territorial na longa
duração.
Neste sentido, as fronteiras em expansão, tal como são encaradas por Sérgio
Buarque, não se restringem à experiência colonial e ao movimento das bandeiras
paulistas. O autor está interessado em compreender processos de modernização
capitalista e o hibridismo da cultura material noutros ciclos de ocupação do
território. Sérgio Buarque centra-se nas mudanças que ocorreram ao longo dos
séculos nos caminhos dos bandeirantes, monçoeiros, tropeiros e fazendeiros nos
séculos xvii, xviii e xix e interpreta estas transformações económicas e
sociais a partir de diferentes ângulos
10
. Mas, ao mesmo tempo, o historiador recorda muitos vestígios, marcas e
heranças dos séculos anteriores na cultura dos camponeses, caboclos e caipiras
do tempo presente. Há um tempo que se conserva lentamente no mundo rural em
contraste com o mundo urbano que apaga as poeiras dos caminhos do passado.
“Essa destreza com que sabiam conduzir-se os naturais da terra, mesmo em sítios
ínvios, herdaram-na os velhos sertanistas e guardaram-na até hoje nossos
roceiros” (Holanda, 1994, p. 20).
No sentido de perceber a especificidade da ocupação do território paulista,
Sérgio Buarque formula diversas comparações com outros espaços de ocupação
colonial. O movimento de interpretação do autor ora destaca a singularidade
paulista a partir de usos e técnicas indígenas, em oposição ao “Nordeste” da
colónia portuguesa e às “Índias de Castela”, de que são exemplos a utilização
em grande quantidade do couro de anta, enquanto na América espanhola e no
“Nordeste” da colónia portuguesa este couro era desperdiçado, ou a “civilização
do milho” no planalto paulista, em contraste com o consumo da farinha de
mandioca no “Nordeste” e no litoral desta colónia. Noutros casos, as
semelhanças desta fronteira paulista expandem-se para outros territórios do
continente. “Cera e mel foram sempre na América portuguesa, como na espanhola,
produtos típicos de povoações nascentes ou situadas nas fronteiras de um mundo
agreste” (Holanda, 1994, p. 44).
A singularidade da sociedade em movimento do planalto paulista aparece em
vários momentos como oposição ao “Nordeste” da cana-de-açúcar. Para Vangelista
(2005), trata-se de uma crítica à interpretação de Gilberto Freyre (1996
[1933]) em Casa Grande & Senzala,que constrói uma imagem do Brasil a
partir do mundo da cana-de-açúcar, situado no que viria a ser a região
nordeste do país. Entretanto, Gilberto Freyre, em Interpretação do Brasil (2001
[1947]), já apresenta, no capítulo “Fronteiras e plantações”, este contraste
entre a sociedade fixa e hierarquizada do litoral brasileiro e a sociedade
móvel e horizontal dos territórios ocupados pelos bandeirantes.
O que aparece de distintivo na interpretação de Sérgio Buarque parece ser a
comparação a partir do uso diferenciado de técnicas e produtos de origem
indígenas nestes territórios e a compreensão do lugar geopolítico de São Paulo
na relação com Cuiabá e com Assunção, lugar geoestratégico do domínio espanhol
na região platina, especialmente no livro O Extremo Oeste(Vangelista, 2005). Se
Gilberto Freyre constrói uma imagem do Brasil a partir de um determinado
horizonte de vivência e de compreensão do país, Sérgio Buarque também imagina
um “Brasil em movimento” em busca dos caminhos particulares da expansão
paulista.
O que leva o autor a conceptualizar tantas fronteiras para explicar os
contactos culturais entre povos adventícios e indígenas num cenário geográfico
específico e em contextos históricos distintos? Que influências
historiográficas e antropológicas traduz o autor na sua maneira singular de
observar a expansão paulista?
De acordo com Wegner (2000), as viagens aos Estados Unidos na década de 40 do
século xx e os contactos com historiadores norte-americanos e com a teoria da
fronteira de Frederik Turner foram importantes para a construção de uma
interpretação específica da expansão dos paulistas a partir da fronteira em
movimento. Embora a conferência de Turner TheSignificance of the Frontier in
American History (1893) esteja impregnada de uma visão evolucionista,
classificando os pioneiros como civilizados e os indígenas como selvagens,
Wegner realça o núcleo explicativo desta teoria e compara-a com a interpretação
que Sérgio Buarque faz da conquista do Oeste brasileiro. Claro que há
diferenças temporais, espaciais e técnicas entre a experiência norte-americana
de expansão da fronteira no século xix e o movimento expansionista dos
paulistas desde o século xvii, já enfatizadas pelo próprio Sérgio Buarque. O
que Wegner propõe é uma aproximação entre os momentos principais da experiência
da fronteira em Turner e Sérgio Buarque de Holanda.
Segundo esta perspectiva, a própria organização dos capítulos do livro Caminhos
e Fronteiras obedece a este movimento da fronteira (entre populações, hábitos,
instituições, técnicas e idiomas heterogéneos), o qual, num primeiro momento,
se caracteriza pela adopção por parte dos colonizadores dos métodos de
observação e das técnicas de sobrevivência dos “naturais da terra”. Os
bandeirantes rastrearam os caminhos dos indígenas, utilizaram muitas das suas
técnicas de caça e pesca, formas de alimentação, maneiras de encontrar água nas
plantas e extrair o mel das abelhas. Em seguida, o movimento de recuperação de
técnicas europeias no contexto das monções e das tropas. Por fim, o processo de
simbiose entre produtos, técnicas e conhecimentos dos indígenas e dos
colonizadores na agricultura, na fabricação de tecidos e noutras técnicas
quotidianas.
Embora Wegner enfatize essa aproximação lógica entre a tese da fronteira de
Turner e os trabalhos de Sérgio Buarque sobre a expansão do Oeste paulista,
considero que o olhar de Sérgio Buarque sobre essas fronteiras em movimento se
distancia da perspectiva de Turner. Em mais de um momento, em Caminhos e
Fronteiras, o autor critica a tese de Turner e considera extremamente
complicado a aplicação desta teoria para explicar outros contextos históricos
situados em sociedades específicas. Há uma formulação histórica singular e de
múltiplos olhares sobre a fronteira nestes trabalhos de Sérgio Buarque de
Holanda. Podemos afirmar que Turner observa a fronteira através dos valores do
individualismo e da democracia dos pioneiros, não consegue ver outros seres
humanos do outro lado dos limites da “civilização” (observa somente selvageria,
deserto, wilderness). Sérgio Buarque, por sua vez, aproxima-se de uma
perspectiva antropológica que reconhece a humanidade e conhecimento legítimo do
“outro”. Percebe a importância destes saberes práticos de orientação, bebidas,
comidas e vestimentas dos indígenas aprendidos pelos mamelucos e portugueses no
processo de domínio dos sertões paulistas e de outras regiões em direcção ao
Oeste. Para Françozo (2007), os indígenas não são obscurecidos na “selva” e no
“deserto/sertão” e nem são vistos somente como escravos capturados pelos
bandeirantes. Os índios são agentes do conhecimento, dominam o terreno e
ensinam aos recém-chegados novos caminhos e fronteiras da conquista do interior
do Brasil.
Entretanto, os indígenas não são os agentes históricos principais destes
trabalhos sobre a expansão paulista. A fronteira é pensada, neste momento, como
frente de expansão da sociedade colonial e nacional, zona de contactos entre os
colonizadores e os indígenas. Embora exista, por parte de Sérgio Buarque, todo
um esforço intelectual de produzir um duplo olhar sobre a fronteira
(conhecimentos indígenas e adaptação dos bandeirantes, monçoeiros, tropeiros),
ainda está presente uma abordagem analítica mais direccionada para os que estão
em posições dominantes nestas frentes de expansão. Os contactos culturais entre
indígenas e bandeirantes e as maneiras como os bandeirantes incorporaram os
saberes indígenas são mais enfatizados nesta análise do que os conflitos, os
extermínios e as subordinações que poderiam ser observados a partir das
perspectivas das sociedades indígenas.
NOVAS FRONTEIRAS
As três concepções de fronteiras (zona de transição ibérica, diferenças
políticas e históricas entre colonização espanhola e portuguesa e frentes de
expansão na América) remetem principalmente para o contexto colonial. Estas
abordagens estão centradas no lugar específico da Península Ibérica e do
movimento de exploração dos povos ibéricos no continente americano. A quarta
noção de fronteira, que tento sistematizar, está focada na discussão política
sobre a transição brasileira. A fronteira pode ser aqui entendida como passagem
entre a “tradição ibérica e colonial”, que singulariza a sociedade brasileira e
uma sociedade moderna que a ocidentaliza.
A preocupação de Sérgio Buarque com os dilemas do presente na sociedade
brasileira inspira a sua interpretação sobre o passado ibérico e colonial. Nas
passagens anteriores sobre os outros sentidos de fronteira há uma tensão
permanente entre tradição e modernidade. O personalismo ibérico é compreendido
na intersecção entre a negação das hierarquias feudais e o individualismo
moderno. O realismo português, em contraste com a fantasia dos espanhóis, é
aparentemente moderno, mas remete para o concreto e para o pormenor das
crónicas medievais. As monções são entendidas como percursos fluviais de
transição e racionalização comercial dos caminhos a pé dos sertanistas e dos
passos ligeiros dos cavalos dos tropeiros em direcção a um mundo que produz
outros trajectos. Estradas que apagam rastos de outros tempos e que também se
extinguem na competição dos trens que trilham em direcção às actividades
comerciais e urbanas.
Influências modernistas
11
e inquietações democráticas produziram no seu modo de pensar um cuidado
permanente em observar as formas de conservação das forças políticas e
culturais, em tensão com as forças sociais nascentes que poderiam produzir
mudanças políticas importantes. O livro Raízes do Brasil, especialmente o
último capítulo, gira em torno desta tensão entre o tradicional e o moderno e
entre as “saídas” democráticas e autoritárias. O historiador percebe os
caminhos das mudanças que se estão a processar e, num sentido normativo, deseja
alterações mais substanciais e modernizadoras para a sociedade brasileira e
para os outros países da América Latina.
O autor analisa a abolição da escravatura (1888) como um marco importante na
alteração das relações económicas e sociais. As mudanças não são somente de
ordem política, restritas à transição do império para a república (1889). Mas
dizem respeito, principalmente, às modificações advindas do declínio das
aristocracias do açúcar e da ascensão da produção do café na região do Rio de
Janeiro e no Vale do Paraíba, em São Paulo, bem como do fim do trabalho escravo
e da expansão do trabalho livre. As plantações de café, embora fossem similares
ao modelo das grandes propriedades do “ciclo da cana”, modificam a relação
entre a cidade e o campo. Os proprietários geralmente deixam de viver no
campo, e a cidade passa a constituir o pólo predominante de poder e de estilo
de vida. Em 1840, o Oeste da província de São Paulo configurava-se como lugar
singular de modernização nestas relações rurais e urbanas.
Além deste processo de urbanização, as relações de trabalho alteram-se
substancialmente com o fim do tráfico negreiro, a abolição da escravidão e a
ampliação do trabalho livre. Todas essas mudanças económicas e sociais convivem
com formas políticas tradicionais, herança ainda viva do personalismo, do
patriarcado e do caciquismo e caudilhismo das sociedades latino-americanas.
Para alguns intérpretes, um dos principais temas de Raízes do Brasil é a
discussão sobre os obstáculos à efectivação da democracia (Candido, 1995 [1967]
e 1998; Rezende, 1996; Sanches, 2001). A problemática põe em destaque o
contraste entre uma aristocracia (rural e do espírito) que simboliza os valores
do passado que necessitam de ser “exorcizados” (personalismo, patriarcado,
cordialidade) e uma democracia liberal importada e mal enraizada nesta parte do
território americano. As mudanças democráticas geralmente são vistas pelas
elites brasileiras como simples alterações dos detentores do poder ou como uma
crença de que as “revoluções” podem ser implementadas por decreto, sem
alterações substanciais na base económica e na base social de composição das
classes e dos valores sociais.
Os limites que separam e distanciam a vida social da organização política de
tipo liberal democrática são centrais na discussão sobre a transição entre o
iberismo e o americanismo nas sociedades latino-americanas. Embora haja todo um
movimento de “aniquilamento” da herança ibérica no contexto das mudanças
económicas e sociais que vinham ocorrendo na sociedade brasileira desde meados
do século xix, não se tinha ainda configurado nitidamente, nos anos 30, um
novo estilo de organização social capaz de superar determinadas raízes
personalistas e aristocráticas. “O americano ainda é interiormente inexistente”
e as expressões democráticas da vida americana não se constituíram como o
“mundo de formas vivas” em oposição ao “mundo das fórmulas e dos conceitos”
(Holanda, 1936, pp. 137 e 146).
As sociedades latino-americanas, com exceção do Uruguai no período do governo
de José Batlle y Ordóñez (1903-1907 e 1911-1915), não enraizaram as
experiências democráticas e vêem de maneira positiva os governos personalistas
e aristocráticos. O personalismo “conseguiu abolir as resistências da demagogia
liberal, acordando os instintos e os sentimentos mais vivos do povo” e tem
produzido “uma estabilidade política que de outro modo não teria sido possível”
(Holanda, 1936, p. 152).
Sérgio Buarque de Holanda, especialmente no período da escrita da 1.ª edição de
Raízes do Brasil, em 1936, vivia os dilemas e impasses das formas autoritárias
e democráticas da vida política europeia, latino-americana, e particularmente
do Brasil. Uma leitura cuidadosa do último capítulo deste ensaio não aponta
somente para uma linha de raciocínio: crítica do personalismo e desejo de
implementação de uma ordem efectivamente democrática no Brasil, como ficou
consagrada na interpretação de Antonio Candido (Candido, 1995 [1967])
12
. O que observamos é que o autor se posiciona do lado dos argumentos da
democracia liberal para criticar as formas políticas oligárquicas e
personalistas, mas que também olha o mundo do outro lado da fronteira liberal —
a partir de um certo vitalismo das raízes positivas do personalismo — e critica
as “leis mortas”, a democracia como conjunto de fórmulas e de conceitos vazios.
A tensão entre a herança, a conservação e o aniquilamento lento das formas
políticas de matriz ibérica e colonial chama a atenção para um novo movimento
em direcção à modernização económica, social e política, a ocorrer também
noutros países da América Latina (Holanda, 1948). Sérgio Buarque faz referência
às alterações na estratificação social da sociedade mexicana desde os
movimentos revolucionários de 1917, as reformas de 1925 no Chile, que obtiveram
como resultado “o aniquilamento do poderio exclusivo dos hacondadose da
oligarquia administrativa”, e o “significado das vitórias eleitorais
ultimamente alcançadas [década de 40] no Brasil e na Argentina pelas massas dos
trabalhadores, embora a sua articulação tenha sido aproveitada e em grande
parte alimentadapor forças retrógradas” (Holanda, 1948, p. 272).A fronteira
enquanto transição entre o iberismo e o americanismo não é específica da
sociedade brasileira. Os processos de modernização aproximam esses países,
“herdeiros” de determinados valores políticos e culturais dos países ibéricos e
dos domínios coloniais. No México, Chile, Argentina e Brasil, a transição
democrática acontece lentamente, mediante composições entre conservadores e
radicais e em direcção a uma experiência americana centrada em valores
igualitários, racionais e de efectiva participação política de outras classes
sociais.
As mudanças descritas até aqui e os desejos políticos de consolidação de uma
experiência democrática na sociedade brasileira, explícitos a partir da 2.ª
edição de Raízes do Brasil passam a impressão de que somente mediante o
“aniquilamento”, um “cataclismo” ou a “revogação da velha ordem colonial e
patriarcal” se poderia construir o americanismo no Brasil. Entretanto, Sérgio
Buarque pondera e afirma que essas raízes tradicionais e longínquas não são
totalmente negativas, que há espaços possíveis de confluência que
caracterizariam a particularidade brasileira no continente americano. Na
construção dessa nova sociedade não há uma barreira intransponível entre
determinados valores ibéricos, aqueles originários do continente americano e os
ideais liberais e democráticos ocidentais. O historiador enfatiza então a
repulsa do brasileiro “por toda hierarquia racional”, a crença na “autonomia do
indivíduo”, a falta de resistências às influências novas advinda do mundo
urbano e a “relativa inconsistência dos preconceitos de raça e de cor”
(Holanda, 1948, pp. 277-278).
Sérgio Buarque associa ainda a confluência de valores culturais brasileiros com
a concepção de “bondade natural” disseminada no contexto da Revolução Francesa
(1789), visando aproximar a singularidade da cordialidade brasileira com “as
construções dogmáticas da democracia liberal”. Esta aproximação abriu margem
para interpretações parciais e polémicas sobre o significado do “homem
cordial”, especialmente com o escritor Cassiano Ricardo. Este autor associava a
cordialidade à bondade como característica permanente do homem brasileiro.
Sérgio Buarque discordou diversas vezes desta vinculação entre cordialidade e
bondade, bem como do seu carácter essencialista. Em carta-resposta a Cassiano
Ricardo, Holanda afirma que “a própria cordialidade não me parece virtude
definitiva e cabal que tenha que prevalecer independente das circunstâncias
mutáveis de nossa existência [...] Associo-a antes a condições particulares de
nossa vida rural e colonial, que vamos rapidamente superando” (Holanda, 1956,
pp. 313-314).
Como fio condutor desta transição, podemos dizer que a fronteira americana é
pensada, por um lado, como zona de tensão entre o “Brasil rural” e o “Brasil
urbano”, entre as experiências políticas autoritárias e democráticas, entre as
“forças vivas” e as “leis mortas”, entre a ordem e a desordem da vida política
brasileira no contexto republicano. Por outro lado, como uma “zona de
confluência e de simpatia” entre o iberismo, os processos de adaptação e
americanização do período colonial e o “nosso americanismo”. Neste duplo
sentido, está presente o sentido de impasse, tensão, obstáculo, que terá de ser
superado para que haja a efectivação de uma nova sociedade brasileira.
Em suma, as fronteiras na obra de Sérgio Buarque de Holanda podem ser
compreendidas mediante os vários movimentos analíticos construídos ao longo do
texto. Não são noções rígidas, pensadas mediante tipologias que pretendem
cristalizar o pensamento do autor. Trata-se de uma maneira flexível de pensar
alguns dos seus trabalhos e de criticar as dicotomias produzidas no debate
sobre o iberismo e o americanismo. Este debate tende a unificar em dois grandes
grupos de países o continente americano: um mundo de tradição latina, ibérica e
católica e outro de herança anglo-saxónica, protestante e moderna
13
. Sérgio Buarque, ainda que no início da sua carreira literária reproduza os
argumentos de Enrique Rodó (1991 [1900])
14
sobre a espiritualidade da América Latina e o utilitarismo dos Estados Unidos,
questiona, em trabalhos posteriores, a homogeneidade destes grandes blocos e
apresenta, em vários níveis de interpretação, a diversidade das experiências
regionais e nacionais no continente americano.
Para o autor, durante a conferência em Genebra em 1954, todas essas realidades
são heterogéneas, e tanto os Estados Unidos têm muitas diferenças regionais
como os países da América Latina apresentam as mais variadas formas de
composição étnica, linguística, de processos migratórios e diferentes
experiências de desenvolvimento técnico. Sérgio Buarque apresenta então o
exemplo específico da cidade de São Paulo, como contraposição a qualquer imagem
homogénea e cristalizada das sociedades latino-americanas: “uma cidade como São
Paulo, com seu ritmo de crescimento sem equivalente nos últimos anos [...]
dificilmente está em consonância com a imagem de imobilidade que se faz das
sociedades latino-americanas” (Holanda, 1954, p. 3).
Portanto, as fronteiras ibero-americanas compreendem inicialmente as matrizes
culturais transoceânicas que foram deslocadas para o continente americano.
Estas “raízes” já eram híbridas de povos, culturas, classes sociais e de tensão
entre o tradicional e o moderno. Ainda que houvesse muitas semelhanças nos
valores culturais e políticos dos portugueses e espanhóis, existiam também
diferenças políticas e económicas importantes que demarcaram fronteiras
(barreiras) entre a colonização castelhana e portuguesa. Entretanto, as
matrizes ibéricas abrem-se para outras influências externas no contexto europeu
e na colonização americana e possibilitam a construção de pontes em direcção ao
americanismo da experiência brasileira. O movimento de distanciamento das
fronteiras ibéricas e de aproximação das fronteiras americanas pode ser pensado
a partir de uma dupla noção de americanismo: o processo de americanização no
contexto colonial mediante a adaptação do português aos elementos materiais e
simbólicos da cultura indígena; e o movimento paradoxal de aproximação e
distanciamento aos valores de igualdade social da democracia americana,
conforme formulação de Aléxis de Tocqueville (Wegner, 2000).
CONSIDERAÇÕES FINAIS: UM ESTILO FRONTEIRIÇO
As noções de fronteira aqui destacadas não visam esgotar os vários significados
do termo nos diferentes momentos da obra deste autor. Outros sentidos podem ser
sistematizados no aprofundamento das investigações. Além disso, os sentidos
seleccionados não são tipologias rígidas e separadas, mas metáforas que
possibilitam vários significados interpretativos. Há elos de contacto. Os
“territórios-ponte” aproximam-se das “zonas de confluência” e das “frentes de
expansão” e podem contribuir para a construção de uma abordagem específica
sobre os processos de colonização e modernização do continente americano.
A perspectiva aberta pela abordagem das fronteiras permite reflectir também
sobre o próprio estilo de escrita do autor, pois “a linguagem e as palavras
eram as pontes entre a sua consciência e a dos testemunhos da época” (Dias,
1988, p. 73). O último capítulo de Caminhos e Fronteiras, intitulado “Redes e
rendeiras”, pode ser pensado como um fio de inspiração do seu estilo de
escrever e de criar metáforas que simbolizam os eventos e as representações
históricas. As palavras usadas durante a urdidura do capítulo apreendem o
movimento das rendeiras e das redes feitas nos teares portugueses e indígenas,
na produção de panos compactos e largos e nos movimentos verticais e
horizontais destes teares. Durante a sua narração, as palavras buscam os
significados destes movimentos das rendeiras e das mudanças ocorridas nos seus
mundos: “a abrideira”, “o lançamento de cada um dos fios da trama”, “a trama e
urdidura”, “as varandas laterais e as franjas correspondentes”, “desenhos ou
combinações” e “efeito final”.
A acção das rendeiras e os usos das redes podem ser pensados como uma metáfora
dos processos mais amplos e fluidos da vida social. Os “fios da trama” do texto
de Sérgio Buarque aproximam-se das imagens das formas e conteúdos da
socialização, tal como é encarada por Simmel, em que “a cada instante se tecem
fios deste género, se desatam e voltam a atar, se substituem por outros, se
entrelaçam com outros” (Simmel, 1986 [1908], p. 30).
A própria obra de Sérgio Buarque pode ser pensada como um campo de experiência
fronteiriça na construção do conhecimento sobre a sociedade brasileira, a
singularidade paulista, a sociedade latino-americana ou sobre o mundo
americano. Os livros Raízes do Brasil, Caminhos e FronteiraseVisão do Paraíso
foram tecidos em diferentes momentos através de linhas que contrastam e outras
que aproximam, fios entrelaçados que produzem semelhanças e diferenças, raízes
e mudanças, limites e travessias na compreensão dos valores políticos,
culturais e simbólicos da singularidade brasileira e paulista. Mas também os
processos de fusão da cultura material e as transposições, adaptações e difusão
das mentalidades neste amplo cenário de encontro, desencontro, choques e de
“fusão de horizontes” que a experiência do continente americano permitiu a
diferentes agentes históricos.
As raízes, fronteiras e visões do mundo americano tecem-se com estes fios e
teias em que se entrelaçam a crítica literária, o ensaio sociológico e as
pesquisas historiográficas centradas na cultura material e no campo das
mentalidades. Não há separações entre as discussões metodológicas,
epistemológicas e as narrativas históricas. Nos rastos, nas pegadas e indícios
observados atentamente pelos indígenas nos caminhos em direcção ao interior, o
autor discute uma nova maneira de entender a metodologia antropológica e
histórica. Para Souza, “muito antes das considerações de Carlo Ginzburg sobre o
conhecimento indiciário, Sérgio Buarque de Holanda aborda este problema em
‘Veredas de pé posto’ e em ‘Samaritanas do sertão’, detendo-se sobre a dimensão
cultural dos sentidos e da percepção” (Souza, 1995, p. 10). E através da
experiência e fantasia dos cronistas e navegantes no contexto dos
descobrimentos Sérgio Buarque distancia-se de uma visão de ciência moderna como
ruptura com os saberes anteriores e aproxima a racionalidade e a magia dos
renascentistas e dos fundadores do racionalismo e do empirismo modernos.
As fronteiras enquanto limites entre as áreas do conhecimento (literatura,
sociologia, antropologia, geografia, história, etc.) são questionadas e abrem-
se para novas fronteiras que se tecem como travessias, mesclas, entrelaçamentos
e combinações possíveis.