Da sodomita à lésbica: o género nas representações do homo-erotismo feminino
INTRODUÇÃO
As representações dominantes da feminilidade têm-se organizado em torno de duas
imagens extremas: a da voracidade sexual e da lascívia da mulher caída e a da
assexualidade da mulher respeitável. A actividade sexual tem sido definida como
domínio masculino, sendo a sexualidade masculina assumida como modelo universal
da sexualidade e o coito como o acto sexual por excelência. Este entendimento
da relação entre sexualidade e género e a ideia de que o género se organiza num
binário são essenciais para se perceber os modos de representar o homo-erotismo
1
feminino. Sendo o género comummente associado ao exercício da sexualidade, as
atitudes face ao homo-erotismo feminino parecem ter oscilado sempre entre a
condenação de uma luxúria exclusivamente feminina e a descrença na autonomia
sexual das mulheres. Paralelamente, a concepção binária do género tem
sustentado uma leitura da lésbica como mulher máscula.
Apesar das inúmeras referências históricas a mulheres que mantiveram ligações
emocionais fortes com outras mulheres, a possibilidade de haver uma sexualidade
específica e exclusivamente feminina parece ter sempre baralhado os
observadores. As suas descrições revelam a dificuldade em conciliar a crença no
princípio da passividade feminina e a possibilidade de as mulheres se poderem
envolver em práticas sexuais na ausência do que é entendido como a sua condição
indispensável, o falo.
Neste artigo pretende-se dar conta do modo como o homo-erotismo feminino tem
sido definido em estreita articulação com o género, com particular incidência
nos discursos jurídicos e clínicos, contribuindo para o aparecimento da
categoria social da lésbica, definida pela sua suposta masculinidade. À
semelhança do que acontece noutras sociedades europeias, é possível verificar
que também em Portugal a estabilização das categorias classificatórias
propostas pela sexologia entre os séculos xix e xx foi acompanhada por
dificuldades em traçar as suas fronteiras de forma clara e por apropriações
externas ao seu campo de produção, que impedem uma leitura linear dos seus
conteúdos.
EXISTIRÁ SEXO ENTRE MULHERES?
Até ao aparecimento do primeiro Código Penal Português, em 1852, as práticas
sexuais entre indivíduos do mesmo sexo, subsumidas na figura lata da sodomia,
eram condenadas pelas Ordenações Afonsinas (1446), Manuelinas (1512) e
Filipinas (1603), bem como pelas Leis Extravagantes. À sodomia estavam
reservadas as penas mais graves de todos os crimes sexuais contemplados nas
Ordenações, que incluíam também o travestismo e o uso de máscaras, a molícia
e a bestialidade (Aguiar, 1926, 1930; Braga, 1994; Dias, 1989).
Além das Ordenações, as práticas sexuais eram reguladas pelos regimentos da
Igreja, aplicados pela Inquisição, que parecia ter especial interesse na
perseguição do pecado nefando, expressão aplicável a diversas práticas não
reprodutivas contidas na noção de sodomia. A pena de morte seria aplicada aos
condenados por sodomia apenas quando ocorresse grave escândalo público e à
terceira reincidência, a partir da qual os indivíduos eram considerados
incorrigíveis. Em alternativa, havia penas de degredo e açoite, mas, ao
contrário dos homens, em princípio as mulheres condenadas ouviria[m] a
sentença na sala da Inquisição, não indo ao auto público de fé pelo grande
escândalo que daí resultaria (Aguiar, 1930, p. 9). Segundo Mott (1987, p. 30),
são raros os processos contra mulheres por práticas homossexuais existentes na
Torre do Tombo, não havendo registo de nenhuma condenada que tivesse sido
queimada pela Inquisição.
Com as Ordenações Manuelinas estabelece-se, pela primeira vez, uma pena
expressamente dirigida às práticas sexuais entre mulheres, na sequência de
incertezas quanto ao texto das Ordenações Afonsinas, que as não mencionava
explicitamente (Aguiar, 1926, pp. 520-521). Com efeito, em 1499, no reinado de
D. Manuel, havia já sido promulgado um assento régio com o objectivo de
esclarecer se as penas estabelecidas nas Ordenações para a sodomia se
aplicariam ou não aos actos sexuais entre mulheres e a ambas as envolvidas
(Aguiar, 1930, p. 15). As dúvidas dos juízes incidiam sobre duas questões
fundamentais: primeiro, saber se duas mulheres podiam, realmente, ter sexo
juntas; segundo, se ambas deviam ser condenadas ou apenas aquela que,
supostamente, usurpava o papel masculino.
A sodomia entre mulheres deixou de ser perseguida em 1646, por decisão do
Conselho Geral da Inquisição de Lisboa, embora se tivesse mantido a pena de
degredo para as condenadas por esse crime (Mott, 1987, pp. 30-31). Na óptica
dos juízes, as práticas sexuais entre mulheres enquadravam-se melhor no
conceito de molícia, que abrangia toques sexuais de natureza vária, incluindo
a masturbação, a que estavam reservadas penas mais leves. A Inquisição
considerava só estar verdadeiramente perante o pecado nefando cometido entre
mulheres quando havia penetração com recurso a pénis artificiais (Braga, 1996,
p. 87). Ainda assim, tratava-se de uma modalidade excluída da categoria da
sodomia perfeita, definida como penetratiocum seminis effusione (penetração
com ejaculação de sémen) (Mott, 1987). A impossibilidade desta prática no caso
das mulheres terá sido a principal razão pela qual, segundo Mott (1987, pp.
141-142), os inquisidores portugueses de meados do século xvii deixaram de
considerar as práticas sexuais entre mulheres como um crime, apesar de as
continuarem a englobar na categoria do pecado mortal da concupiscência.
Embora o homo-erotismo feminino tenha sido conhecido em Portugal quer entre
mulheres comuns, quer entre a aristocracia2, poucas terão, portanto, chegado às
barras dos tribunais. Mas, se a ideia de uma maior brandura na punição do homo-
erotismo feminino é parcialmente suportada pela leitura dos regulamentos, o
menor número de condenadas pode ter decorrido, igualmente, da sua difícil
inteligibilidade para uma parte dos seus contemporâneos e da presença de
valores e representações que o encaravam como uma infracção menor.
As ligações emocionais intensas entre mulheres as amizades românticas
particularmente emblemáticas da burguesia são outro exemplo paradigmático
dessas representações. De acordo com Faderman (1992), num contexto apostado em
reprimir a expressão da sexualidade, especialmente a feminina, essas amizades
foram durante algum tempo encaradas como uma espécie de iniciação à
verdadeira relação amorosa, que devia ser heterossexual e consagrada pelo
casamento. As jovens eram incentivadas a manter uma relação próxima com uma
amiga especial, com quem trocavam não só confidências, mas também promessas
ardentes de devoção eterna, desde que a sua conduta permanecesse no limiar da
decência. Entre as mulheres que permaneciam solteiras, parece ter sido também
louvado o relacionamento íntimo com uma amiga que era, por vezes, encarada como
uma companhia alternativa a um marido enquanto não aparecesse pretendente à
altura. Mesmo quando casavam, as amigas especiais mantinham, frequentemente, a
sua centralidade emocional. Muitas mulheres da chamada primeira geração de
mulheres novas
3
, profissionais escolarizadas e financeiramente independentes, parecem,
todavia, ter optado durante toda a vida por este tipo de relacionamento
(Newton, 1984; Faderman, 1992; Vicinus, 1982).
Como se esperava que as mulheres fossem assexuadas, não é de excluir que muitas
delas também se vissem dessa forma e não chegassem a reconhecer a natureza
erótica que o olhar actual detecta nas suas amizades. De acordo com Katz (1996,
pp. 46-47), esta crença era sustentável no quadro de um mundo pré-freudiano,
onde o amor não implicava o eros, permitindo tanto aos homens como às mulheres
respeitáveis mencionarem explicitamente os seus sentimentos apaixonados sem os
associarem directamente à sensualidade. Como nota o autor, num mundo que
resumia o sexo ao coito, muitos actos de prazer que não envolvessem a
penetração vaginal não eram proibidos e podiam nem sequer ser considerados
sexuais.
Parece, no entanto, que o incentivo familiar e social às amizades femininas não
impedia uma vigilância atenta, o que significa que havia sempre o risco de as
fronteiras social e moralmente aceites serem transgredidas (Diggs, 1995; Moore,
1996; Vicinus, 1982 e 1996). Muitas dessas mulheres terão, aliás, reconhecido o
carácter erótico das suas amizades, o que terá constituído uma fonte de tensão
permanente entre elas, existindo, igualmente, registos que indiciam a presença
de envolvimento sexual (Bullough e Bullough, 1977; Edwards, 1995; Vicinus,
1982).
A ansiedade em torno das amizades românticas parece ter recrudescido
precisamente quando começam a deixar de ser vistas como uma moratória, ou uma
solução de recurso, para passarem a constituir uma alternativa ao casamento
(heterossexual) e, consequentemente, uma recusa da submissão aos papéis de
esposa e mãe. Não por acaso, isto torna-se notório mais ou menos
simultaneamente ao surgimento do feminismo da primeira vaga, à formulação pelos
médicos da categoria da invertida e à sua progressiva aceitação social
(Edwards, 1995; Faderman, 1992; Vicinus, 1982). Em Portugal, no início do
século xx, Aguiar (1926) chama a atenção para o que pode residir por trás de
uma ligação aparentemente inocente. Defendendo que a homossexualidade feminina
não é rara, mas é menos pública e menos aparente do que a masculina, denuncia
a possibilidade de se poderem mesmo realizar diante de outras pessoas, certas
práticas homossexuais que, desde que se não esteja prevenido, passarão
despercebidas, como beijos, carícias várias, etc. (Aguiar, 1926, p. 359).
Assim, se os poucos julgamentos conhecidos de mulheres acusadas de manter
práticas sexuais com outras mulheres mostram a dificuldade dos especialistas,
em especial dos juízes, em perceberem o que podiam elas fazer em termos
sexuais, a partir do momento em que os sexólogos criaram a categoria da
invertida, tornou-se claro que, qualquer que fosse a forma como fossem
encaradas, existiam mulheres que preferiam outras mulheres como parceiras
amorosas e sexuais. Os novos sistemas de classificação sexual complicavam o
afastamento da suspeição face às relações íntimas entre mulheres e a ignorância
do seu eventual carácter erótico e/ou sexual. Simultaneamente, para as mulheres
envolvidas tornava-se mais difícil escapar à classificação social de que podiam
agora ser alvo e às suas consequências, retirando-lhes a protecção de que
haviam gozado até aí.
Como nota Abranches (2001, p. 272), é precisamente na transição do século xix
para o século xx que em Portugal tanto a figura da ainda não sexuada miss
angélica como a da assexuada preceptora inglesa são substituídas pela imagem da
abominável inglesa, autónoma e feminista, cuja masculinidade podia, enfim,
esconder outro tipo de deboche só sugerível o lesbianismo. Daqui
decorreria, segundo a autora, a recrudescência das denúncias do perigo de
britanização das mulheres portuguesas, menos associado ao vestuário
masculino do que às suas ideias emancipadoras (Abranches, 2001, p. 277).
Os primeiros estudos nacionais dedicados à análise do homo-erotismo feminino
enquadram-se, quer em termos de modelos explicativos, quer dos procedimentos de
diagnóstico, na linha das obras dos sexólogos europeus da época. As teses dos
autores portugueses reflectem tentativas de articulação mais ou menos
conseguidas de contributos associados aos paradigmas da degenerescência e do
darwinismo social e ao mais recente modelo da psicanálise (cf. Aguiar, 1926,
1930 e 1932, Moniz, 1901 e 1906, e Silva, 1896). À semelhança dos seus
congéneres europeus, os médicos portugueses oscilavam entre a procura de
sintomas físicos, anatómicos e morfológicos da inversão sexual e a
identificação dos seus sinais psicológicos e/ou sociológicos. Esta preocupação
dupla, como nota Terry (1990), parece traduzir dois embaraços reconhecidos a
custo pelos próprios: a dificuldade de encontrar provas inequívocas de que o
homo-erotismo radicava em falhas com expressão antropométrica visível e a de
fazer coincidir uma realidade diversificada com um modelo explicativo bastante
rudimentar.
As teorias dominantes sobre a inversão, ou a homossexualidade os termos são
já usados como sinónimos , assentam no pressuposto central de que o exercício
da sexualidade está directamente associado ao género e de que este se organiza
num binário que opõe o masculino ao feminino. Neste quadro, o homossexual
verdadeiro era sempre efeminado e a lésbica verdadeira era sempre máscula
(Terry, 1990, p. 318). Apesar de a realidade frequentemente não encaixar nas
suas construções teóricas, muitos médicos assumiam que o comportamento sexual
estava ligado à expressão da masculinidade ou da feminilidade e que estas se
traduziam tanto na configuração como nas formas de ter e apresentar o corpo.
Quando, porém, como frequentemente acontecia, os testes antropométricos não
confirmavam a teoria, recorriam à psique como variável explicativa
complementar, e é a este nível que as concepções dominantes acerca do género
surgem mais claramente como explicação para as diferentes formas de erotismo.
A EMERGÊNCIA DA “INVERTIDA”
As obras de Aguiar (1926, 1930 e 1932) e de Moniz (1906) mostram que no início
do século xx, em Portugal, está também em curso aquilo a que Foucault (1994, p.
46) chamou a transformação do homossexual numa espécie. Nelas é possível
encontrar um conjunto de termos aplicáveis especificamente às práticas sexuais
entre mulheres (incluindo expressões como homo-sexualidade, lesbismo,
safismo e tribadismo), bem como às suas intervenientes (lésbicas,
sáficas e tríbades), por vezes utilizados de forma intercambiável, mas não
absolutamente idêntica
4
.
Além dos típicos alvitres de teor dramático sobre o alastramento da luxúria e
da anormalidade sexual na Europa e em Portugal, os médicos defendem a sua
especial prevalência entre certas categorias sociais. Para Aguiar (1926, p.
359), as depravações nas mulheres são frequentes em todas as classes sociais,
mas principalmente entre a nobreza, entre a alta burguezia, nas prostitutas,
nas empregadas do comércio e indústria, nas actrizes, etc., enquanto Moniz
(1906, pp. 159-160) defende que estas se evidenciam no mundo da prostituição,
entre as actrizes e no meio da aristocracia.
O homo-erotismo é associado, portanto, especialmente às mulheres dos estratos
sociais mais altos e às que exercem uma actividade profissional, referências
que recordam imputações comuns quer às mulheres das elites degradadas pelo
vício, quer àquelas cuja esfera de actuação se situa fora do lar. Aguiar
(1926, p. 360) defende mesmo a existência de uma espécie de relação de
patrocínio entre estes dois tipos de mulheres: certas actrizes, modelos
obscuros, determinadas damas de companhia e várias artistas sem categoria
seriam os objectos de predilecção amorosa de algumas solteironas, de grandes
senhoras, de ricas burguesas, de requintadas mundanas e semi-mundanas, a quem
se vendem. Em causa podia estar quer uma troca pecuniária, quer a obtenção de
determinados confortos e bens aos quais as mulheres de origens mais modestas
dificilmente teriam acesso se não por esta via.
A relação entre homossexualidade e prostituição parece ser um tema recorrente.
Um estudo realizado em 1908 por Tovar de Lemos (v.Bastos, 1997, p. 230), que
traduz para o caso português as teses dominantes acerca da prostituição,
menciona como traços distintivos de certas prostitutas a physionomia viril' e
as tatuagens', que, juntamente com as práticas lésbias', eram considerados
degenerativos funcionais. Na verdade, a ligação pode ter sido ilicitamente
estabelecida, ainda que alguns elementos factuais possam ter sustentado tal
confusão. Referindo-se ao caso anglo-saxónico, McIntosh (1997) nota que, em
geral, os principais clientes das prostitutas eram homens, embora as casas de
prostituição pudessem também alojar rapazes, e os poucos casos de prostituição
lésbica parecem ter-se situado fora do contexto da subcultura lésbica. As
prostitutas terão sido, todavia, uma presença importante nos espaços e
subculturas lésbicos da classe trabalhadora que se começavam a formar. A autora
sugere que, sendo a prostituição uma das formas de as mulheres mais pobres
garantirem a sua independência e escaparem à heterossexualidade, terá sido esta
coincidência a levar alguns observadores a associar o homo-erotismo feminino à
prostituição. Moniz (1906, pp. 168-169), aliás, parece intuir tal relação.
Apesar de se referir à existência de lupanares dedicados à prostituição
lésbica, acrescenta que em alguns casos é o fútil motivo de poderem viver
juntas e sem difficuldades que as determina [as lésbicas] a arregimentar-se
entre essas desventuradas [as prostitutas].
Na linha dos grandes sexólogos, os dois médicos defendem a existência de várias
formas de homossexualidade feminina. As principais distinções propostas por
Aguiar (1926) são entre a homossexual activa e passiva, entre as sáficas
e as tríbades e entre a verdadeira e a falsa homossexual. Estas dimensões
apresentam uma certa sobreposição. A primeira estabelece uma linha divisória
entre quem faz e quem deixa fazer. Ao autor como a grande parte dos seus
contemporâneos não ocorre que pudessem estar em causa papéis intercambiáveis,
visto que o modelo de que se serve é o do coito heterossexual convencional,
onde o homem (princípio activo) supostamente faz, isto é, penetra, e a mulher
(princípio passivo) supostamente deixa fazer, isto é, é penetrada.
Existiriam, assim, sáficas activas ou passivas, bem como tríbades activas ou
passivas, de acordo com aquilo que é lido como iniciativa ou receptividade
sexual, respectivamente. A segunda demarcação, que distingue as sáficas das
tríbades, reenvia directamente para a distinção entre homossexualidade falsa
e verdadeira e indirectamente para o binómio passiva/activa. A diferença
entre sáficas e tríbades é que as primeiras são arrastadas ao amor anti-
físico5 pelas dificuldades encontradas nos amores com homens ou levadas pelas
companheiras corrompidas (Aguiar, 1926, p. 365). Em suma, as sáficas são
homossexuais porque foram seduzidas por uma mulher degradada, porque foram
rejeitadas pelos homens, ou porque foram infelizes com eles, explicações que,
curiosamente, continuam a ser predominantes entre os clínicos portugueses
(Moita, 2001)
6
. Como nota Terry (1990, p. 321), o homo-erotismo de muitas mulheres,
especialmente daquelas que os médicos não podiam classificar como masculinas,
era explicado por uma fragilidade da vontade que as tornava presas fáceis da
mulher máscula, ou por um narcisismo e um egocentrismo excessivos que tornava
inebriante qualquer atenção que lhes fosse concedida, independentemente do sexo
da outra parte. Por isso, eram mais frequentemente classificadas como
bissexuais ou, simplesmente, narcisistas, do que como homossexuais. Eram as
falsas homossexuais ou, quando muito, homossexuais cuja homossexualidade era
adquirida e não congénita. Já o caso das tríbades se afigura bem diferente.
Estas, sobretudo as que Aguiar (1926) classifica como activas, eram a
personificação da virago e tinham nascido assim.
A perspectiva de Moniz (1906) destaca-se da de Aguiar justamente pela sua
recusa em aceitar tão claramente as teses da hereditariedade. Assim, não só
defende que o binómio activa/passiva se refere a papéis que podem ser
permutáveis, como também que não existe uma relação directa entre
masculinidade/feminilidade e a homossexualidade, ainda que isso não o impeça de
continuar a defini-la como um sentimento sexual contrario ao caracter do sexo
que o individuo representa (Moniz, 1906, p. 125). Para Moniz eram sobretudo as
influências educativas que determinavam o desenvolvimento da homossexualidade,
perspectiva mais próxima da psicanálise, de que foi o percursor em Portugal.
Independentemente das divergências, ambos os clínicos dedicam algum tempo à
figura da lésbica masculina, o que a anuncia como um topos problemático. O
diagnóstico exaustivo dos seus traços morfológicos e/ou psicológicos é exemplar
da preocupação que rodeia esta figura fantasmagórica e articula-se em torno de
três dimensões essenciais: iniciativa sexual e social, travestismo e presença
de traços morfológicos e psicológicos masculinos (Terry, 1990). Se Moniz
(1906) lhe atribui um destaque particular, Aguiar (1932) dedicará um artigo
completo à exposição exaustiva da história de vida do que chama uma homo-
sexual feminina do tipo tríbade completo.
Na perspectiva de Aguiar (1932), comparativamente à mulher normal, A.
(abreviatura do nome) manifestaria características morfológicas e fisionómicas
distintas. Porém, os parâmetros do padrão de normalidade feminina a estes
níveis não só nunca são elucidados, como o próprio autor vacila na
classificação de A., nomeadamente em termos do que considera serem traços
viris e feminis. Sabe-se que A. tem pescoço curto, grosso, antes másculo
que feminil, porém de convexidade ligeira na face anterior, o que é próprio
do colo feminino, mas com pomo-de-adão palpável e saliente, o que é apanágio
dos indivíduos masculinos; que o seu aspecto físico, vista nua, sem que deixe
dúvidas estar-se em presença de uma pessoa do sexo feminino, impressiona por
certos detalhes de modo a fazer presumir que ela se distancia um pouco do tipo
feminino normal (Aguiar, 1932, pp. 145 e 151)
7
. Em resumo, não parece ser realmente a este nível que A. dá, literalmente,
corpo à invertida pura, mas naquilo em que se afasta, em termos
psicossociológicos, de um certo protótipo de feminilidade, começando pelo seu
travestismo e passando pelas suas ideias, conduta e preferências amorosas e
sexuais.
A. é caracterizada como uma mulher de classe baixa, de origem rural, que cedo
opta por se vestir como um homem, que não gosta dos mesteres femininos e que
recusa tomar homens como parceiros amorosos e sexuais. Estes indícios são
tomados como comprovativo de que se está na presença de uma mulher que o não é,
certeza aparentemente secundada pelo facto de a própria A. declarar que
gostaria de ter nascido homem e de se irritar quando lhe dizem que é mulher
(Aguiar, 1932, p. 146). Parece, no entanto, que A. teria uma outra explicação
pelo menos, uma explicação adicional para se vestir como um homem. Tendo
trabalhado como criada de servir a partir dos 9 anos de idade, terá decidido
vestir-se de homem por não se d[ar] com as perspectivas de vida que lhe são
sempre apresentadas, por a animar a esperança de se poder governar melhor com
o novo traje e pelo desejo de se livrar de várias frases e propostas que
certos indivíduos lhe faziam na rua por que passava e que a irritavam (Aguiar,
1932, pp. 142-146). O desejo de independência e autonomia económica, social e
sexual de A., e de outras mulheres como ela, permite ainda sustentar a
evocação, por parte do médico, de uma característica adicional que não é de
somenos importância: por tudo isto nas [tríbades] activas há grande influência
na propagação das ideias feministas, pois, como prescindem do homem nas
relações sexuais, querem dispensar o seu concurso absolutamente em tudo
(Aguiar, 1926, pp. 363-364).
Apesar de Moniz não ir tão longe o que não significa que a equiparação da
feminilidade à inactividade e à passividade físicas e mentais não esteja
presente na sua obra , tanto ele como Aguiar enquadram-se nas teses dominantes
da sexologia europeia da época. Como nota Faderman (1992, p. 46), os sexólogos
europeus foram os primeiros a associar a inversão sexual ao feminismo ou,
no mínimo, à autonomia e à actividade femininas e, se as teses da
congenitalidade os coibiram de estabelecer o feminismo como causa da inversão,
não os impediam de defender que ele oferecia um terreno propício quer à
actualização de uma propensão inata, quer à inversão por imitação das
mulheres que a não possuíam.
O caso de A. é apenas um exemplo de um fenómeno que parece ter sido
relativamente comum. Durante séculos, várias mulheres terão passado por homens
com o propósito essencial de poderem aceder a meios de sobrevivência que lhes
permitissem livrar-se da situação de dependência que lhes estava reservada
(Faderman, 1992; Newton, 1984; Vicinus, 1996). Independentemente de outros
factores explicativos possíveis nomeadamente o facto de se poderem sentir, em
termos identitários, mais ou menos distantes da feminilidade hegemónica ,
parece ter estado também em causa o acesso a empregos e a níveis de remuneração
reservados aos homens. Sobretudo quando oriundas de meios economicamente
carenciados, passarem por homens era para muitas mulheres uma estratégia de
sobrevivência económica e uma forma de preservarem a autonomia pessoal e
sexual.
Isto sugere que, no passado, o interesse erótico primário de muitas mulheres
travestidas não se focava, necessariamente, noutras mulheres, ainda que a
sugestão de transgressão sexual pudesse estar presente quer nas leituras dos
seus contemporâneos, quer nas suas próprias declarações, quando registadas
(Newton, 1984; Vicinus, 1996). Mas é revelador do modo como eram socialmente
classificadas as mulheres que não se conformavam às expectativas sociais. De
certo modo, as mulheres ditas masculinas, travestidas ou não, têm sido
frequentemente tomadas como o ex-líbris da desobediência feminina e foi,
provavelmente, também por isso que a mítica lésbica máscula (Newton, 1984) se
tornou o estereótipo dominante da lésbica e uma arma de arremesso contra as
veleidades feministas emancipadoras.
Em suma, como defende Vicinus (1996), o desejo homo-erótico exprimiu-se
historicamente de formas muito variáveis. Desde o final do século xvii, pelo
menos, que ele está presente na imagem da mulher travestida, na imagem da
mulher livre, com uma sexualidade variada (a amante ocasional de mulheres), e
na imagem da amiga romântica. Com a afirmação da sexologia, esse desejo será
gradualmente transformado em elemento definidor de um tipo particular de pessoa
a lésbica.
O GÉNERO DAS LÉSBICAS
A produção social da invertida resultou de um jogo de influências complexo e
sobredeterminado. Por um lado, muitas mulheres poderão ter sentido que a sua
auto-imagem e as suas ambições não se coadunavam com o modelo de feminilidade
que lhes era proposto e com as expectativas que sobre elas recaíam; por outro,
a concepção que tinham de si próprias terá sido também afectada pelo modo como
os outros as viam. A invertida parece ter resultado tanto da incorporação dos
modelos de género dominantes como da vontade de aceder ao reconhecimento de uma
identidade pessoal e social específica (Faderman, 1992; Newton, 1984; Vicinus,
1996). Propondo um nome em torno do qual era possível construir uma identidade
alternativa, os médicos sancionavam a sua diferença e ofereciam uma
possibilidade de resistir à obnubilação, ainda que o preço fosse elevado.
Estava, além disso, em causa um modelo explicativo que apresentava a
preferência homo-erótica como um produto da natureza, algo que o indivíduo não
podia combater, mesmo que quisesse (Faderman, 1992; Vicinus, 1996). A invertida
podia ser vista como anormal, mas tratava-se de uma anormalidade
independente da sua vontade e do seu registo moral particular. Também estava em
jogo, portanto, uma aceitação social relativa, pois era muito melhor ser uma
invertida congénita do que alguém que tinha a opção de ser heterossexual e
escolhia a homossexualidade de livre vontade (Faderman, 1992, p. 59).
Todavia, como defende Newton (1984), para as mulheres que chegaram à idade
adulta nas décadas de 20 e 30 do século xx, a masculinização terá tido um
significado bem diferente do que para as mulheres travestidas que as
antecederam. A posição política, feminista, e por vezes radical das mulheres
novas era distinta e a autonomia encarada como um direito. Para estas, o
vestuário masculino pode ter sido usado para simbolizar assertividade e
modernidade, leitura também proposta por Doan (1998). Mas para as mulheres cujo
interesse amoroso primário se dirigia para outras mulheres esse vestuário
constituía também uma extensão da sua agência sexual, atestada pelo discurso
médico da congenitalidade, que retirava validade aos discursos dominantes sobre
a (a)sexualidade feminina (Faderman, 1992; Newton, 1984).
No final da década de 20, a projecção pública de julgamentos como o de
Radclyffe-Hall, em Inglaterra, terá contribuído para transformar a sua maneira
de vestir, pensar e agir em marcas distintivas de uma subcultura lésbica (Doan,
1998) e conduziu à reinterpretação do estatuto das mulheres que anteriormente
se pensava serem simplesmente artísticas ou ultramodernas. O visual
moderno e o visual lésbico convergiram, em especial, pela divulgação através
da imprensa escrita, fazendo da masculinidade feminina um símbolo do
lesbianismo. Uma apresentação masculina tornou-se uma forma de reclamar e
assinalar uma preferência, de a tornar perceptível, nomeadamente para outra(s)
similar(es) (Doan, 1998; Eves, 2004; Newton, 1984). A adopção de uma imagem
masculinizada não implica, pois, obrigatoriamente, o desejo por parte das
mulheres que a adoptaram de serem homens ou de serem confundidas com homens.
Mas elas poderão ter-se servido dos quadros de referência dominantes para criar
um modelo identitário distinto dos modelos sexuais e de género dominantes, o
que se verifica ainda nos nossos dias.
Para os médicos, todavia, é a mulher feminina com preferências homo-eróticas,
cujos traços físicos e psíquicos não se adequam ao protótipo da invertida
pura, que constitui o verdadeiro quebra-cabeças (Terry, 1990; Vicinus, 1996).
A mulher masculina reflectia, de certo modo, uma conformidade ao dimorfismo de
género vigente, permitindo manter um esquema dicotómico face ao qual a sua
situação era dissonante, mas ainda assim classificável. Ela não podia evitar
perseguir outras mulheres porque possuía uma psique masculina, elemento
explicativo central das suas práticas, que estava em sintonia tanto com os seus
modos e aparência corporal como com a crença de que a sexualidade activa era
apanágio dos homens. A mulher feminina que adoptava como amantes outras
mulheres confundia essas fronteiras porque, não deixando de ser
convencionalmente feminina na aparência, tinha práticas consideradas atípicas
para as mulheres. Num modelo em que o homo-erotismo era explicado pela inversão
de género, ela cabia pior numa categoria definida pela masculinidade, sobretudo
quando não se conformava à passividade e receptividade sexuais esperadas. A
dificuldade de os cientistas explicarem e catalogarem esta figura residia
precisamente no facto de não possuírem uma teoria da escolha do objecto sexual
que operasse independentemente do género (Terry, 1990, p. 322).
Aguiar (1926) oferece, a propósito, uma descrição morfológica das sáficas, mas
o safismo parece ser mais difícil de detectar do que o tribadismo, a não ser
por exame clínico dos órgãos genitais e reprodutivos. Porém, como não havia
acordo entre os médicos quanto à validade dos traços distintivos do safismo, a
explicação que restava era, muitas vezes, a de não serem verdadeiras
homossexuais: As sáficas são mais homosexuais por vício e por ocasião, são
antes as pseudo-homosexuais, ao passo que as tríbades são mais homosexuais
por espírito, por congenitalidade, são antes as verdadeiras homosexuais
(Aguiar, 1926, p. 365).
Esta curiosa distinção adapta-se às imagens surgidas em Portugal entre finais
do século xix e início do século xx e identificadas por Abranches (2001), da
sáfica miss, intelectual e feminista, e da garçoa, figura de romances
assentes na exploração de triângulos heterolésbicos
8
. A primeira é o equivalente alegórico da lésbica masculina; a segunda assenta
como uma luva à lésbica feminina. Do ponto de vista simbólico, representam
ambas uma ameaça e uma forma de protecção da mulher decente, permitindo uma
operação de policiamento similar à que distingue este tipo de mulher da mulher
caída, e a salvaguarda da honra nacional na figura da boa mulher portuguesa que
não cede a estrangeirismos perigosos (Pais, 1985). São, em suma, dois espectros
que servem para manter as mulheres no caso, as portuguesas nos seus devidos
lugares.
Porém, são ameaças distintas porque, ao passo que à garçoa sobrará ainda um
resto de pura feminilidade', e esta passa pelo corpo (disponível), a miss
feminista, pelo seu cérebro de homem' só pode ser uma invertida verdadeira'
(Abranches, 2001, p. 299). A falsa invertida da década de 20, evocada pela
figura da garçoa ou da mulher mundana, sofisticada e experimentalista (cf.
Faderman, 1992), é supostamente recuperável para a heterossexualidade.
Enganada ou mal amada, ela aguarda apenas a chegada do salvador que a trará
de volta ao seu devido lugar, sendo menos ameaçadora do ponto de vista social.
Trata-se, aliás, de uma figura que ainda preserva uma aura de fascínio e
sedução, associada ao lesbianchic e passível de apropriação pelo olhar
masculino (Abranches, 2001; Ciasullo, 2001; Mota-Ribeiro, 2005).
A paulatina institucionalização destas figuras enquadra-se no processo de
autonomização da sexualidade como esfera específica de produção de sentido nas
sociedades modernas, que fez do erotismo o locus da identidade (Foucault,
1994). Apesar de a sexualidade não se ter separado inteiramente do género, ela
surge progressivamente como linha de intersecção com contornos nem sempre
claros e, frequentemente, confundindo os observadores quanto aos seus pontos de
ligação.
A lésbica masculina, herdeira da invertida autêntica, tem sido a representação
dominante do lesbianismo, consagrada no arquétipo da butch, figura
particularmente popular durante a década de 50 entre as jovens subculturas
lésbicas da classe operária, que se contrapõe à figura da femme, a mulher
feminina, que nem sempre se encara a si própria como lésbica (Faderman, 1992;
Halberstam, 1998b). A butch tem simbolizado a dissidência sexual das mulheres
que preferem mulheres como parceiras amorosas e sexuais e a recusa de
conformidade aos papéis tradicionalmente reservados à mulher. Parte da sua
centralidade como ícone do lesbianismo decorre, pois, da menor probabilidade de
ser tomada por heterossexual pela sua não conformidade à feminilidade
hegemónica. Inversamente, a mulher feminina tende a surgir como mais
problemática para a subcultura lésbica, encarada como a negação e/ou a
tentativa de negação quer de uma certa predisposição erótica, quer do
supostamente inerente não cabimento da lésbica na categoria convencional da
mulher (Ciasullo, 2001; Eves, 2004).
A produção científica acerca das subculturas e comunidades lésbicas em Portugal
é praticamente inexistente, o que dificulta a comparação com outras realidades.
Em todo o caso, a butch parece equivaler actualmente, entre nós, ao protótipo
da camionista, termo que designa, especificamente, as lésbicas que assumem uma
apresentação masculina, expressa não só no vestuário, mas também na
gestualidade, na postura e nas atitudes (Brandão, 2007)
9
. Curiosamente, não foi possível encontrar uma expressão portuguesa equivalente
para femme, ainda que a sua existência seja, igualmente, reconhecida e lida de
forma idêntica.
Todavia, este panorama não está completo sem se considerar a influência do
feminismo mais radical, que veio a encarar o lesbianismo como a sua
quintessência, e sem se compreender que não existe uma, mas várias subculturas
lésbicas. No quadro de um discurso feminista apostado na desconstrução das
categorias de género, tanto a lésbica masculina como a feminina são altamente
controversas. O modelo de relacionamento homo-erótico associado em especial ao
binário butch/femme foi, no auge das batalhas feministas, alvo de forte ataque,
encarado como uma imitação e reprodução da relação não igualitária que
caracterizava a heterossexualidade hegemónica ou, no mínimo, como uma reedição
das categorias de género que o feminismo pretendia combater (Eves, 2004;
Faderman, 1992; Farquhar, 2000; Halberstam, 1998b; Newton, 1984; McIntosh,
1997; Wilton, 1995; Ponse, 1978).
É provável, como nota Faderman (1992, p. 60), que esse modelo mais não fizesse
do que reflectir o único exemplo visível de relacionamento amoroso para essas
mulheres o casal heterossexual e que, neste sentido, os sexólogos
estivessem, de facto, a descrever o modo como estas se viam e sentiam. Mas esta
é uma forma simplificada de descrever o fenómeno, pois a imagética
heterossexual nem sempre tinha ou tem tradução linear nas condutas e
sentimentos das mulheres em causa (Faderman, 1992; Eves, 2004). Para todos os
efeitos, a relação homo-erótica representava uma transgressão de género e os
papéis masculino e feminino eram frequentemente dissonantes face às
práticas efectivas das parceiras (a femme, por exemplo, podia ser activa
tanto do ponto de vista sexual como social), sendo adoptados por muitas
mulheres menos pelo seu significado intrínseco do que como elementos de um jogo
cujas regras tinham de ser abraçadas se se pretendia jogá-lo (Faderman, 1992).
A acção do feminismo da segunda vaga traduziu-se, de qualquer modo, na pressão
para a adopção de modelos simétricos e de uma imagem politicamente correcta
assente na androginia, uma ideologia assexuada que viria a ser contestada na
década de 80 com o ressurgimento dos modelos da butch e da femme, porém
acompanhados de múltiplos e novos significados (Eves, 2004; Faderman, 1992;
Farquhar, 2000; Halberstam, 1998a e 1998b; Phelan, 1993; Roof, 1998; Stein,
1997; Wilton, 1995). Esta mudança pode ser lida como uma reacção ao
policiamento das formas de relacionamento amoroso e sexual e dos códigos de
apresentação por parte dos sectores mais radicais do feminismo lésbico. Mas
inclui-se também no contexto do surgimento da abordagem queer e da sua visão da
identidade como elemento performativo10. Neste caso, a apropriação daquelas
imagens pode corresponder tanto a uma representação destinada a simbolizar o
direito à expressão individual e individualizadora como à defesa da ideia de
que o género, habitualmente concebido em termos binários, pode assumir formas
que não cabem nem no masculino nem no feminino toutcourt.
No âmbito da teoria queer, o género constitui-se como elemento de
questionamento subversivo e a sua representação também num sentido lúdico
pode reflectir mais a vontade de expor a sua dimensão construída do que a sua
essencialidade (Butler, 1993 e 1999; Halberstam, 1998b; Roof, 1998). Assim,
Halberstam (1998b) demonstra que a masculinidade feminina pode assumir
diferentes formas e que existem vários tipos de butches, os quais podem, por
sua vez, ser entendidos quer em termos realistas, quer enquanto papéis
conscientemente representados
11
. Também Eves (2004) mostra que, entre muitas mulheres lésbicas, aspectos como
a escolha, a agência e a consciência estão presentes na modelação e adopção
simultâneas de repertórios de autenticidade e de repertórios de
representação, leitura que se mostra compatível com os resultados obtidos para
o caso português (Brandão, 2007, pp. 271-451). Especificamente, e ao contrário
do que é a leitura mais comum, a autora sublinha a presença, entre muitas
butches, de repertórios de autenticidade do género portanto, realistas que
contrastam com a defesa, por parte de muitas femmes, de repertórios de
representação portanto, construtivistas. Mas, no caso destas, esta dimensão
subversiva e subversora do género não invalida a presença simultânea de
repertórios de autenticidade no que respeita à identidade lésbica, ao contrário
do que acontece com as butches, entre as quais os repertórios de escolha e
fluidez estão mais presentes.
Os argumentos queer são, em suma, compatíveis com investigações que sugerem que
orientação erótica e género constituem variáveis independentes sem correlação
empírica e mais compatíveis com a aplicação de modelos teóricos ortogonais do
que bipolares (Bem, 1974; Garnets, 2002; Peplau, Spalding e Conlay, 1999;
Storms, 1980)12. Se, para certas mulheres, os modelos da butch ou da femme
podem ser encarados como uma representação de papéis de um jogo (muitas vezes,
pelo seu apelo erótico), para outras, podem ser entendidos como formas de
expressão das suas verdadeiras identidades e para outras ainda podem
representar um desafio aberto às convenções. Assim, os significados atribuídos
pelos observadores não são, necessariamente, os significados reclamados pelas
mulheres que os adoptam. A apropriação subcultural e pessoal de certos
arquétipos apresenta sempre uma certa distância face às atribuições sociais de
que estas mulheres são alvo, não autorizando uma leitura linear do seu sentido
como meros decalques das categorias de género dominantes.
NOTAS CONCLUSIVAS
O homo-erotismo feminino surge, no quadro de uma sociedade heterossexista e
falocêntrica, como particularmente problemático. Face a um modelo de
feminilidade que, praticamente, restringe o exercício da sexualidade feminina à
heterossexualidade e à reprodução, despojando-a de autonomia própria, ele
representa uma dupla transgressão, uma falta de somenos importância (quando
não de existência duvidosa) ou um elemento de titilação masculina. Nuns casos,
é lido como uma violação das fronteiras de género e da contenção sexual, que
definem a feminilidade, podendo por isso representar um desafio à dominação
masculina. Noutros, é visto como destituído de carácter sexual ou como não
sendo relevante deste ponto de vista, sobretudo devido à ausência do falo.
Noutros, ainda, a negação de agência sexual às mulheres redu-lo a uma forma de
satisfação da líbido masculina, não tendo significado para além desta.
Associando-se, ao longo da história, a vários arquétipos, o desejo homo-erótico
feminino acabará por ser aposto à figura da invertida, primeiro, e da lésbica
masculina, depois, à qual vem contrapor-se a da amante de mulheres que mantém
uma aparência feminina convencional. A primeira representa a verdadeira
lésbica; a segunda, a falsa lésbica e/ou aquela que não pretende assumir-se
como tal. Ao passo que a masculinidade da primeira a transforma em objecto de
consumo (sexual) impróprio para os homens e remete para a ideia de uma falha
constitutiva ao nível do género, a segunda tem sido encarada mais como
resultado de um experimentalismo transitório e, em certa medida, boémio, ou de
uma fragilidade que a torna particularmente susceptível de qualquer forma de
sedução. Retomados dos discursos médicos e interligando-se com crenças antigas
que associam homo-erotismo feminino e masculinidade, estes dois protótipos
foram apropriados e divulgados pelas subculturas lésbicas que, entretanto, se
formaram. E, apesar da oposição de certos sectores do feminismo a esta
imagética, continuam presentes hoje em dia, mesmo que nem sempre reflictam uma
incorporação daquelas crenças e tenham passado a ser adoptados como elemento de
paródia ou de contestação social e política.
O homo-erotismo feminino e os seus arquétipos são, em resumo, herdeiros de
tradições diferentes. Os seus significados sociais, políticos e pessoais são
múltiplos, sobrepostos e multideterminados, demonstrando a não linearidade
entre sexualidade, género e identidade contra um imaginário que teima em
apresentá-los de forma unívoca. A categoria social da lésbica, designação que
estabiliza na década de 50 do século xx, é, portanto, resultado de várias
heranças que continuam a coexistir nas formas de relacionamento e de
identificação muito variáveis que as mulheres que se sentem atraídas por
mulheres podem adoptar. Género e sexualidade emergem, pois, como variáveis
independentes, sustentando configurações identitárias distintas e articulações
diversas entre identidade sexual e identidade de género e apontando para a
necessidade de se desenvolverem modelos teórico-metodológicos distintos para se
dar conta de uma realidade que é mais complexa do que as representações comuns
fazem crer.