Terrenos metropolitanos. Ensaios sobre produção etnográfica
Antónia Pedroso de Lima e Ramon Sarró(orgs.), Terrenos metropolitanos. Ensaios
sobre produção etnográfica, Lisboa, ICS, 2006, 192 páginas.
Há muito que os antropólogos, para não dizer os cientistas sociais em geral, se
questionam sobre as implicações da definição do locus nas suas investigações
para uma apreensão dos seus objectos. Não seria essa, nem tão-pouco a discussão
sobre a antropologia das/nas grandes cidades, a especificidade ou a
originalidade de Terrenos metropolitanos. Ensaios sobre a produção etnográfica.
O que confere coerência e singularidade à obra, na sucessão dos seus diferentes
artigos, é a forma como articula a reflexão sobre a posição do investigador
quanto à construção ou delimitação dos terrenos na maioria dos casos,
multissituados com uma postura crítica acerca das dimensões éticas, políticas
e metodológicas implicadas no fazer etnográfico, tanto do ponto de vista do
contacto com os sujeitos pesquisados como da sua expressão no resultado final
do trabalho.
Colectânea de textos originalmente apresentados no seminário internacional
Terrenos metropolitanos: desafios metodológicos, organizado pelo Instituto de
Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e pelo Centro de Estudos de
Antropologia Social do ISCTE em 26 e 27 de Junho de 2003, o livro reúne um
conjunto de ensaios que procuram analisar criticamente a centralidade do
trabalho de campo em antropologia e as múltiplas dimensões problemáticas que
o atravessam a partir de investigações concretas em diferentes etapas de
desenvolvimento.
O título da obra, ao mesmo tempo, revela e esconde o seu conteúdo. Começando
pelas reflexões finais de João de Pina Cabral, metropolitano remete, como
afirma o autor, para uma forma de diversidade cultural relacionada com o
encontro das diferenças num ambiente de pluralidade, modernidade e
colonialidade (p. 180). Já não é mais por meio da viagem a lugares distantes
que se dá o encontro das diferenças, mas pela interacção próxima e pela
constante travessia de fronteiras entre mundos diversos. Assim, o
metropolitano do título refere-se menos aos grandes aglomerados urbanos
(embora não os exclua) e mais aos deslocamentos por diferentes centros e entre
centros e margens, colocando em jogo o binómio metrópole-colónia num mundo que
é, entre variadas caracterizações possíveis, pós-colonial.
Outras considerações relevantes de Pina Cabral prendem-se a mais uma das
temáticas centrais que atravessam os ensaios do livro: a retomada e
reelaboração dos princípios clássicos da etnografia (sobretudo malinowskianos)
quanto à busca de uma perspectiva holista. É imperativo considerar, como faz o
autor, tendo em vista a especificidade dos terrenos contemporâneos, que esta
perspectiva só pode ser alcançada por meio de uma disposição crítica constante
e da diversificação de fontes.
Na mesma linha de reflexão, o texto introdutório à colectânea, escrito pelos
organizadores, Ramon Sarró e Antónia Pedroso de Lima, traz uma série de
considerações sobre a noção de terreno. Central para a própria definição do
trabalho de campo, esta não se limita à identificação ou delimitação dos
lugares de investigação, mas implica a própria construção do objecto.
Deslocamentos subjectivos e objectivos contribuem para delimitar o terreno e
configurar a experiência pessoal do trabalho de campo, um dos eixos centrais
de organização do livro.
Aliás, discutir a experiência e os métodos associados à investigação de terreno
não é novidade, como referem os próprios autores, aludindo ao grande número de
publicações sobre o tema, embora esse número não seja tão expressivo no que
toca à produção no âmbito de instituições portuguesas, quando comparada com a
internacional. Entretanto, chamam a atenção para a tomada de consciência em
relação ao facto de que o terreno não é totalmente definível, e ainda o é
mais dificilmente nos contextos metropolitanos contemporâneos. Uma constatação
importante dos organizadores é a de que, ao fim e ao cabo, os trabalhos
apresentados não se diferenciam tanto, do ponto de vista metodológico, daqueles
realizados em contextos mais clássicos (em geral, exóticos e distantes). O
maior desafio estaria na construção do estranhamento diante da realidade
próxima. Outro desafio seria o de pensar os limites do terreno entre o
encerramento e o fluxo.
Embora os binómios encerramento/fluxo e distância/proximidade perpassem
diversos textos da colectânea, são mais especialmente retomados no capítulo 2,
Passageiros de Schengen: a dialéctica entre o fluxo e encerramento no trabalho
de campo. Ali José Mapril reflecte sobre a construção das fronteiras e dos
limites do conhecimento e da representação antropológicos, bem como sobre os
desafios aí implicados, a partir da sua investigação de terreno sobre a nova
imigração em Lisboa, centrando-se, sobretudo, em imigrantes do Bangladesh.
Exploram-se as redes e a circulação desses imigrantes entre o país de origem,
Portugal e o Reino Unido. Ao seguir a mobilidade dos migrantes, o investigador
analisa como o terreno se dissolve ou se redefine em função dos
constrangimentos e das aberturas que os fluxos impõem à observação.
Situações de imigração e terrenos multissituados são mesmo uma constante de
todos os ensaios do livro. No capítulo 6, Da utopia da migração à nostalgia
dos migrantes: percursos migratórios entre Bubaque (Guiné-Bissau) e Lisboa,
Lorenzo Ibrahim Bordonaro e Chiara Gemma Pusssetti reflectem sobre a
marginalidade dos migrantes. Para os guineenses de Bubaque em Lisboa, a
marginalidade desdobra-se em desilusão e doença, tendo em vista o confronto
entre, por um lado, o imaginário do centro, quando visto a partir da periferia,
e, por outro, a experiência quotidiana de preconceito e discriminação no país
receptor. O sentido antropológico da nostalgia e do sofrimento desvenda-se nos
quadros de um transnacionalismo incompleto.
Pertencer ou não pertencer são questões centrais no debate proposto por Nina
Clara Tiesler no capítulo 7, Back to the roots? A busca da experiência
subjectiva na selva das políticas da identidade. Ao abordar a sua investigação
de terreno sobre os muçulmanos residentes em Portugal, traz à baila as
contradições entre os direitos de cidadania e as políticas de identidade
europeias, que definem o islão como o outro' (p. 156). Procura não só
abordar criticamente o potencial analítico dos conceitos identitários aí
mobilizados, confrontando-os com a teoria crítica e com a diversidade concreta
de islâmicos na Europa, como também responder à questão do porquê do
fortalecimento de subjectividades colectivas marcadas no contexto de migração.
A sua preocupação política de fundo tem como horizonte a integração e a
emancipação. Como resultado da sua análise, propõe, alternativamente, a adopção
do conceito de home como categoria mais operativa para analisar as situações de
déplacement.
Transparece ao longo desse artigo uma fixação excessiva da crítica nas
dimensões de contraste, em que os discursos de afirmação identitária assumem um
carácter mais monolítico e rígido, o que pode ser muito mais matizado quando se
analisam outros contextos de expressão dos sujeitos. Essas questões encontram-
se melhor balizadas, por exemplo, no capítulo 1, em que Mette Louise Berg
procura enfrentar o desafio de encontrar e definir o terreno': reflexões em
torno de uma investigação entre a diáspora cubana em Madrid. A diversidade dos
imigrantes cubanos e o carácter politizado da pesquisa ffizeram com que a
própria identidade da investigadora estivesse constantemente em questionamento,
criando empatias e distanciamentos, o que acabou por definir o seu terreno
como um conjunto de encontros e desencontros. Nesse jogo de espelhos
enriquece-se a discussão conceptual sobre o terreno. Historicamente situado e
atravessado por um conjunto de forças sociais e políticas, define-se pelas
questões de investigação e é muito mais problematizado do que a mera definição
de lugares de observação.
Presentes em diversos artigos, as questões relacionadas com a ética no trabalho
de campo e o relato etnográfico são o ponto central dos capítulos 4 e 5. Em A
face do outro ou face ao outro: ética e representação etnográfica, Elsa
Lechner apresenta a sua investigação de terreno com emigrantes transmontanos em
França, destacando a sua relação privilegiada com um dos seus informantes. Essa
interlocução, situada no conjunto das categorias nativas, classificadoras dos
emigrados, e de outras narrativas biográficas, permite refazer o caminho que
conduz à construção, no texto etnográfico, da face do outro.
Partindo de um ponto diverso o carácter enganador de certos relatos
relativistas , Ubaldo Matínez Veiga retoma a discussão ética ao focar o
compromisso do antropólogo com a realidade dos factos, a partir da observação
dos violentos conflitos entre imigrantes marroquinos e a população local na
Andaluzia pelo ano 2000. Em Etnografia e pequenas verdades de facto: notas
desde El Ejido, o autor reflecte sobre os limites da concepção da cultura como
texto e da crítica aos textos etnográficos pautada pela atenção aos mecanismos
discursivos de construção da autoridade científica, nos quadros da antropologia
dita pós-moderna. Esta crítica não basta para livrar a antropologia da
tentação da ficção e para garantir que o relato dê conta, para além do ponto
de vista do nativo, da discriminação concreta de que alguns são vítimas.
Num sentido diverso, é a partir de ficções narrativas rituais hindus que
Susana Pereira Bastos nos mostra como se podem configurar diversos terrenos a
partir de abordagens variadas da mesma população ou contexto empírico. O
artigo, Absorver e ser absorvido: diálogo etnográfico e feitiço falado,
demonstra as aberturas às quais o retorno ao mesmo contexto de investigação
pode conduzir. Da iniciação da investigadora por meio das narrativas à
descoberta da sua ligação com o poder e influência da feitiçaria na
estruturação das relações familiares e interpessoais, revelam-se os percursos
que levam à reelaboração do terreno.
Em suma, ao dialogar com as teorias antropológicas clássicas e com questões
epistemológicas, éticas e políticas de fundo, Terrenos Metropolitanos
constitui-se num belo panorama do exercício etnográfico contemporâneo.
Luciana F. M. Mendonça
CES, Universidade de Coimbra