As esferas seculares e religiosas na sociedade portuguesa
As ambivalências na tese da secularização
A questão sobre o papel e a importância da religião numa sociedade moderna é um
assunto público e fez parte, desde sempre, dos debates das ciências sociais.
Porém, nos últimos anos surgiram cada vez mais dificuldades em compreender as
dinâmicas da religião enquanto fenómeno social. Estas dificuldades baseiam-se
principalmente em algumas afirmações contraditórias acerca da religião. Por um
lado, chegam-nos repetidamente notícias sobre um declínio contínuo da prática
religiosa, sobre igrejas vazias e sobre um abandono crescente da fé e das
verdades religiosas. Por outro lado, no espaço público podemos observar com
alguma frequência fenómenos que não parecem estar em consonância com uma
aparente queda da importância da religião. O sucesso dos dias mundiais da
juventude católica, um cardeal português que desperta alguma irritação pública
ao falar abertamente de um monte de sarilhos provocados pelo casamento entre
pessoas de religiões diferentes, o apelo permanente para a importância de um
diálogo inter-religioso, ou o actual conflito em alguns países europeus acerca
da construção de mesquitas, são apenas alguns exemplos de como assuntos
religiosos (ou anti-religiosos) continuam a estar omnipresentes na nossa vida
quotidiana. É esta situação contraditória que dificulta uma explicação
conveniente sobre a situação da religião em sociedades modernas europeias.
Parece que a religião em sociedades modernas oscila incessantemente entre a
ausência e a presença, ou seja entre a invisibilidade e a visibilidade.
Um dos obstáculos principais para compreender cientificamente o fenómeno
religioso consiste sobretudo no uso da(s) tese(s) da secularização, que aparece
actualmente quase como uma palavra-chave para explicar a situação religiosa nas
sociedades europeias. Contudo, a concepção da secularização revelou-se nos
últimos tempos cientificamente pouco satisfatória, em particular, por duas
razões. Em primeiro lugar, não existe nenhum consenso teórico sobre a
interpretação da secularização
1
, que é, muitas vezes, marcada por um certo traço paradoxal. Por um lado, não
há dúvidas sobre a existência dos processos da secularização que transformaram
as sociedades europeias, nas quais se verificou, nos últimos anos, uma queda
evidente da prática religiosa e da influência política ou moral das
instituições religiosas, ou geralmente uma autonomização da sociedade civil
perante as instâncias religiosas institucionalizadas. Por outro lado, existem
vários indícios de que as mesmas instituições religiosas não estão dispostas a
aceitar o papel marginal que lhes foi atribuído pelas teorias da secularização
(Casanova, 1994, p. 5). Em segundo lugar, é possível observar em alguns estudos
sociológicos a tendência para explicar realidades diferentes através de uma só
ideia geral. Mesmo em espaços geográficos relativamente pequenos, como a
Europa, não existe nenhuma situação religiosa homogénea que possa ser descrita
através de um único modelo teórico. Particularidades nacionais, culturais e
históricas impedem explicações que se baseiem simplesmente numa perspectiva
global. Se as diversas condições (culturais, estruturais, institucionais) da
modernização não permitem pensar em apenas uma modernidade, e considerando que
não podemos falar apenas de uma forma de cristianização homogénea, temos de
reconhecer que poderá haver também diversos tipos de secularização. Isto é, a
situação religiosa na Europa não pode ser relatada partindo apenas de um modelo
genérico da secularização (Greeley, 2003, p. 215)
2
. Estas dificuldades teóricas conduzem à necessidade de encontrar explicações
para uma situação religiosa concreta que não se baseiem apenas numa narrativa
geral da secularização. Por outras palavras, temos de concordar com Jürgen
Habermas (2008, p. 36), que exigiu recentemente uma nova maneira de ler a tese
da secularização, ou com Hans Joas (2007, p. 977), que procura um cenário
mais plausível perante a secularização.
Como no resto da Europa, também em Portugal a religião parece ao mesmo tempo
presente e ausente. Embora estudos quantitativos tenham verificado um óbvio
declínio das práticas religiosas e do prestígio social da Igreja católica desde
os anos 60, e sobretudo 70, quero sublinhar neste artigo a hipótese de que a
realidade religiosa continua a ter ao lado de uma realidade secular um
papel significante na construção da contemporaneidade portuguesa. Assim,
procuro identificar histórica e sociologicamente algumas das dinâmicas mais
importantes da religião dentro da sociedade portuguesa. Para o reconhecimento
das mesmas pretendo responder principalmente a duas perguntas complementares:
como é que a religião institucionalizada actuou e actua dentro da sociedade
portuguesa, ou quais são historicamente as suas técnicas de afirmação ou
reconfiguração? E será possível encontrar em Portugal uma realidade religiosa
ligada apenas indirectamente às instituições eclesiásticas? Contudo, a minha
intenção principal não é uma resposta integral a estas perguntas, mas sim uma
tentativa de redesenhar em traços largos as fronteiras e as sobreposições entre
as esferas seculares e as esferas religiosas. Com este objectivo em mente, e
tendo em conta que o censo de 2001 apenas indicou, quando comparado com alguns
outros países europeus, uma percentagem relativamente reduzida de portugueses
que se identificavam como membros de uma religião não católica (2,49%), vou
limitar-me, na minha argumentação, a observar as formas tradicionalmente mais
importantes em Portugal, tais como o catolicismo português e a religiosidade
popular. Isso não significa, no entanto, que a problemática da diversificação
ou pluralização religiosas patente sobretudo nos centros urbanos do país
deva ser menosprezada. Pelo contrário, devíamos sublinhar que existe uma
necessidade urgente de continuar com estudos sociológicos e antropológicos que
se dedicam à proliferação das minorias religiosas e de novas formas de
religiosidade individual em Portugal
3
. Em termos práticos, procuro compreender certas incoerências que se revelaram
em alguns dos inquéritos quantitativos sobre questões religiosas. Estas
discrepâncias consistem, por exemplo, na diferença entre uma taxa relativamente
baixa das práticas religiosas (16,2%, nula; 41,2%, rara; 15,5%, irregular;
27,1%, regular) (Cabral, 2001, p. 24)4 e uma taxa bastante alta daquelas que se
reconhecem como pessoas religiosas (88,0%) e que acreditam em Deus (96,4%)
(Halman, 2001, pp. 81 e 86).
Embora estes estudos quantitativos mostrem claramente tendências gerais, ou
possam ser usados para uma comparação entre países diferentes, os mesmos
continuam relativamente problemáticos no que diz respeito a afirmações
genéricas sobre a significância ou a influência da religião na vida moderna.
Tendo em consideração que a religião não é um fenómeno constante e imutável com
um conteúdo fixo, certas declarações por exemplo, sobre a frequência da missa
referem-se apenas às condições históricas e sociais de um sistema religioso
específico durante um período concreto de tempo. Ou seja, o valor religioso e
social da frequência da missa no início do século xxi não pode ser lido da
mesma maneira que o valor de uma missa no fim do século xviii. É especialmente
esta incongruência histórico-fenomenológica que torna difícil a relação
axiomática entre um declínio da prática religiosa e a secularização de uma
sociedade. Em consequência, é necessário repensar a perspectiva dualista de se
ser ou religioso ou secular, tentando reconhecer a existência simultânea e a
ligação entre as esferas religiosas e secularizadas numa sociedade moderna. Por
outras palavras, a religião não tem de ser procurada além, mas sim dentro da
modernidade. Esta pressuposição será um ponto central da argumentação seguinte.
A moldura metodológica
Na tentativa de estabelecer uma visão mais clara da ligação e da sobreposição
das esferas religiosas e secularizadas em Portugal, proponho, em termos de
metodologia, um estudo que compara sociologicamente diferentes épocas
históricas. Devido sobretudo à limitação do espaço para este estudo, começarei
no século xix, quando surgiram alguns dos primeiros textos pré-sociológicos
sobre a situação religiosa em Portugal. Ou seja, para perceber o dinamismo do
catolicismo português e a sua situação actual farei uma comparação sinóptica
com três épocas anteriores que representam constelações divergentes entre
religião e realidade sociocultural. A primeira abordagem histórica prende-se
com o período do liberalismo. Segue-se o período da I República e, finalmente,
o tempo do Estado Novo. A comparação destes três períodos históricos com a
actualidade permitirá uma visão clara da dinâmica social da religião em
diferentes contextos socioculturais. Tendo em conta que o catolicismo português
se viu confrontado, especialmente nos últimos dois séculos, com enormes
mudanças socioculturais, esta comparação histórica oferece uma excelente
possibilidade de estudo, permitindo saber quais são as técnicas da afirmação e
da reconfiguração de uma religião pública. Supondo que o catolicismo português
continua a ser perfeitamente capaz de interagir com um mundo social em
contínuas transformações, as suas competências ou técnicas de afirmação podem
ser classificadas, por enquanto, através de quatro grupos principais: (a)
intervenção em questões éticas ou sociais; (b) intervenção, correcção ou
crítica de decisões políticas ou económicas; (c) manutenção das crenças e
costumes tradicionais; (d) estabilização das identidades nacionais. Para além
destas competências principais, podem também existir outras menores, tais como
o controlo ou a regulação da pluralidade religiosa ou alguns serviços
indirectos (Davie, 2007). Numa comparação sumária destas competências dentro da
história religiosa de Portugal perceberemos se o actual declínio da influência
moral e política da religião, ou seja a secularização, é um fenómeno
irreversível e típico apenas da segunda metade do século xx.
A segunda parte constitui uma fenomenologia sintética do catolicismo oficial e
da religiosidade popular. Por outras palavras, numa aproximação à situação
religiosa em Portugal, temos de reconhecer que há uma certa religiosidade fora
da regulamentação ou da estruturação da Igreja católica. E, existindo fora das
instituições religiosas oficiais, esta forma de religiosidade esquiva-se a
quase todas as medições quantitativas. Sob a religiosidade popular entendo, por
enquanto, uma certa virtuosidade religiosa que é (ao contrário da superstição
ou da heresia) aceite, tolerada e de vez em quando apropriada pela Igreja
católica. Apenas uma análise da relação entre catolicismo tradicional e
religiosidade popular oferece uma imagem mais completa da situação religiosa em
Portugal.
As afirmações e reconfigurações históricas do catolicismo português (séculos
xix e xx)
Reconhecendo que o espaço geográfico de Portugal foi marcado, pelo menos até ao
século xv, por uma certa pluralidade religiosa (Dix, 2008) e que a
cristianização sistemática começou apenas a partir do fim da Idade Média ou da
Contra-Reforma (Almeida, 1974, p. 19), podíamos afirmar que a suposta idade
dourada do catolicismo português corresponde, grosso modo, às décadas depois
do início da expansão portuguesa até à era pombalina. A Igreja católica
portuguesa controlou a prática religiosa especialmente a partir do Concílio de
Trento (1545-1563) e durante o Antigo Regime, sendo detentora de um vasto poder
económico, de uma autoridade ideológica e de um papel importante na moldagem
das mentalidades e na orientação dos comportamentos e atitudes (Neto, 1993, p.
265). Neste caso, não existe a mínima dúvida de que a Igreja influenciou
profundamente, pelo menos durante mais de trezentos anos, as questões éticas ou
sociais e as decisões políticas ou económicas da sociedade portuguesa. Durante
este período, a Igreja católica conservou as crenças e costumes tradicionais e
estabilizou (ou criou) a identidade nacional. Todavia, a situação mudou
drasticamente com a política antijesuíta do marquês de Pombal e sobretudo com a
emergência do liberalismo. Nessa altura, a religião, bem como a prática
religiosa, começou a ser visivelmente desvalorizada. A partir dos anos 20 do
século xix, muitos protagonistas liberais mostraram abertamente uma postura
anticongregacionista
5
e na sociedade portuguesa surgiram sinais de uma secularização crescente.
Apesar de tudo, a religião oficial da nação portuguesa foi declarada no artigo
17 da constituição de 1822 como catholica apostolica romana. Porém, o
catolicismo perdeu nos anos seguintes cada vez mais a sua vitalidade, embora
ainda suplantasse as tendências laicas que se começavam a evidenciar na
sociedade portuguesa
6
. Mesmo que não se possa falar de uma secularização sistemática conduzida pelos
liberais, temos de reconhecer que este desenvolvimento anticlerical (mas não
propriamente anticatólico) atingiu uma dinâmica própria e que, a acreditarmos
em alguns testemunhos, Portugal revelava já, cinquenta anos mais tarde, o
aspecto de um país bastante secularizado, pelo menos se olharmos para os
sectores urbanos mais intelectualizados. Contudo, mesmo observando a sociedade
em geral e as representações exteriores da religião na segunda metade do século
xix, o catolicismo institucional degenerou socialmente para uma convicção
superficial supostamente incapaz de tocar interiormente uma grande parte da
população. Acerca da religiosidade baseada nos dogmas eclesiásticos, o ensaísta
Ramalho Ortigão escreveu por volta de 1870 o seguinte:
Nunca se foi menos religioso, no sentido dogmático desta palavra, do
que hoje em dia. A descrença austera e consciente nuns, irreflectida,
palavrosa e insolente noutros, invadiu por infiltração todas as
camadas sociais, a ponto de ser provável que numa igreja, como na
Semana Santa, inteiramente cheia de fiéis sinceramente devotos, se
não encontre um só crente perfeitamente convicto. Para a multidão, o
dogma, ou é uma coisa indiferente, ou uma coisa desconhecida, ou uma
coisa refutada [Ortigão, 2007 (1870?), p. 781]
7
.
Na mesma altura, Oliveira Martins escrevia sobre a frágil vitalidade religiosa
dentro da sociedade portuguesa, propondo já muito cedo uma separação rigorosa
entre Estado e Igreja. A argumentação é extremamente interessante, tendo em
conta que Oliveira Martins viu nesta separação uma via para aumentar a
religiosidade geral dos portugueses. Devido a um regulamento sufocante do
Estado, a Igreja não pôde desenvolver todas as suas capacidades. E, como o
catolicismo era considerado a religião oficial do Estado, já ninguém estava
disposto, ou considerava necessário, testemunhar convictamente o seu próprio
credo católico. Ou seja, o amigo oficial da Igreja revelava-se o seu pior
inimigo. Em consequência disso, o catolicismo em Portugal degenerou durante o
século xix para uma conveniência social, mantendo apenas simbolicamente a sua
função como laço social:
A religião, entre nós, é uma conveniência social para os políticos;
uma superstição elegante para as mulheres, um velho hábito banal para
o povo, para o maior número. Um sentimento consciente, imperativo,
fecundo, isso é que ela já não é para ninguém [ ] Oficialmente, nas
estatísticas, há 4 milhões de cristãos em Portugal. Realmente, nos
corações, há 4 milhões de indiferentes [Martins, 1948 (1870), pp. 23-
24]
8
.
E confiando nas observações da princesa italiana Maria Rattazzi, é possível
verificar que mesmo o clero português tinha naquela altura um aspecto bastante
secular, e um interesse relativamente reduzido em assuntos religiosos,
simulando apenas as orações diárias:
Aqui, o clero simula que reza [ ] O clero é uma relíquia, a sua
religião uma forma convencional [ ] O padre português não estabelece
a menor separação com os outros homens, nem nos hábitos externos, nem
nos internos, não curando de parecer uma individualidade de essência
superior [ ] Passeia pelas ruas como um verdadeiro secular; frequenta
os teatros e as sociedades, fuma, conversa e chega mesmo, não raro,
especialmente se reside no campo, a organizar suave e discretamente
uma família de que se constitui chefe [Rattazzi, 1881, pp. 18-19]
9
.
Embora esta descrição possa parecer talvez um pouco desproporcionada, é
possível verificar que as transformações socioeconómicas da segunda metade do
século xix deram à sociedade portuguesa cada vez mais um aspecto secular. A
partir de 1860 começou uma nova onda de expropriações de bens dos conventos,
igrejas, misericórdias ou seminários. Justificavam-se estas expropriações com
os efeitos positivos para o progresso geral da agricultura, a obtenção de
maiores rendimentos e a melhoria do mercado financeiro. Em consequência destas
medidas, o poder económico e a influência social da Igreja ficaram seriamente
enfraquecidos (Neto, 1993, pp. 279-281). Todavia, parece que o liberalismo
reconheceu no catolicismo ainda uma certa função ao nível da manutenção dos
laços interiores da sociedade portuguesa. As expropriações foram pensadas para
consolidar o orçamento nacional, e o anticlericalismo da altura dirigiu-se
especialmente contra um catolicismo ligado às ideias tradicionalistas ou
miguelistas10. De qualquer maneira, em termos de afirmação e reconfiguração,
poder-se-á dizer que nos últimos anos do século xix o catolicismo português foi
enfraquecido numa grande parte das suas competências, pelo menos em termos de
uma afirmação ideológica ou institucional. Não sabemos ainda até que ponto
existia nesta época, na sociedade portuguesa, uma relação verdadeiramente
íntima com o conteúdo do catolicismo, ou se este mais não era do que uma
convenção social relativamente superficial. Certo é que a influência social ou
política do catolicismo tendia para um nível historicamente muito baixo,
conseguindo apenas uma lenta reorganização religiosa a partir da chamada
questão social (Ferreira, 2002, pp. 44-50). Sumariamente, podíamos concluir
que as tendências laicistas ou secularizadoras tiveram já um efeito bastante
visível, sobretudo na população urbana, embora ainda incapazes de atingir a
consciência colectiva, entre outras razões, por causa dos resquícios de
tradições arcaicas ou da religiosidade popular, descritas por Ramalho Ortigão
ou Maria Rattazzi como realidades bastante vivas.
Apenas a partir do Concílio Vaticano I e dos debates seguintes sobre o
ultramontanismo, o anticlericalismo em Portugal ganhou, com os republicanos (e
nomeadamente com Afonso Costa), uma dimensão cada vez mais agressiva. Esta
reacção culminaria entre 1910 e 1913 numa excitação geral de ânimos acerca da
questão religiosa (Valente, 1974, pp. 204-213). Por outro lado, embora tenha
surgido durante os últimos anos do século xix um certo renascimento nos meios
católicos, as instituições religiosas tiveram problemas visíveis para afirmar
as suas competências, gastando todas as suas forças no combate para manter a
própria sobrevivência
11
. Com base nestas condições, não é de estranhar que no início do século xx os
portugueses que mantinham uma prática religiosa não excedessem o limiar dos
10%. Confiando nas declarações que o jornalista e católico militante Gomes dos
Santos expôs no seu opúsculo O Catolicismo em Portugal, existiam em 1906, entre
5 milhões de portugueses, apenas 5000 católicos praticantes, ou seja: Dos
cinco milhões de católicos que se atribuem a Portugal, nem um décimo são
católicos práticos (Santos, 1906, pp. 24-25). A imagem do catolicismo e da sua
influência na sociedade, tal como apresentada neste opúsculo, é catastrófica. A
maior parte destes católicos praticantes era composta por mulheres que viviam,
como era de esperar, no Norte do país. As pessoas que se confessavam não seriam
mais do que 10 000 em todo o país. E, finalmente, foi constatado que mesmo
nesta percentagem dos católicos praticantes quase não existia ninguém que
soubesse com alguma clareza o que o catolicismo significava. Para além disso,
há neste pequeno folheto uma comparação curiosa entre Lisboa e Paris, que
conhecia nesta altura, de acordo com Gomes dos Santos, uma vitalidade religiosa
bastante mais elevada. Enquanto aos domingos as igrejas lisboetas estavam quase
vazias, nas casas de Deus da capital da Revolução Francesa não existia, mesmo
nos dias úteis, quase nenhum lugar livre (Santos, 1906, pp. 24-25). E a
conclusão deste texto não é menos dramática. O catolicismo português no início
do século xx foi totalmente incapaz de estabelecer os fundamentos da sociedade
ou de intervir na vida social. Mais do que isso, o catolicismo tinha de
reconquistar a sociedade através de um desempenho mais activo, ou seja, por via
da fundação de uma sistemática acção católica que pudesse interferir na vida
nacional.
Olhando sumariamente para as tendências do século xix, podemos afirmar que
Portugal viveu nesta altura uma certa secularização, sobretudo da população
urbana, e que a Igreja católica se mostrou cada vez mais incapaz de perseguir a
sua estratégia tradicional, marcada até então quase completamente por uma
relação estreita com o Estado. Já nos primeiros anos do século xx se revelou,
nomeadamente na sociedade urbana, uma insignificância crescente da Igreja
católica em termos éticos, sociais ou políticos. A prática religiosa tendeu
para um nível bastante baixo e o ser católico degenerou claramente, como já
foi referido mais acima, para uma conveniência superficial.
Porém, a separação oficial entre Estado e Igreja em 1911, a que se seguiu uma
agressiva política anti-religiosa por parte dos republicanos, foram os
principais factores que provocaram um resultado inesperado, despertando na
Igreja católica um espírito de combate e mais tarde uma onda de religiosidade
popular. A política anti-religiosa implementou medidas rigorosas, tais como a
proibição do ensino católico, a legalização do divórcio, a abolição dos
feriados religiosos ou a proibição do juramento religioso em tribunal (Catroga,
2006, p. 365). Parece que o influente republicano Afonso Costa terá dito que o
catolicismo, entendido por ele como uma peste medieval, estaria extinto em
Portugal em duas gerações (Valente, 1974, p. 205). Embora não existam provas
palpáveis de que esta profecia tenha sido mesmo de Afonso Costa, poder-se-á
tomar como certo que apenas um rumor desta espécie chegou para alertar a
militância católica. E, de facto, nesta altura foi possível verificar a
validade sociológica da lex tertia de Newton, que diz que cada acção provoca
uma reacção mútua12. A partir da segunda década do século xx, o catolicismo
português tornou-se cada vez mais dinâmico, agora tentando estimular
activamente a profissão de fé dentro da população13. Esta nova militância
católica e a recristianização da sociedade ganharam, a partir da terceira
década do século xx, cada vez mais terreno, particularmente através da fundação
da União Católica, de várias publicações ou da criação de associações
católicas. O lema desta renovação católica foi designado por Instaurare
Lusitanum in Christo e visou restabelecer em nossa pátria a civilização
cristã (Fontes, 2002, p. 143). Contudo, antes desta renovação, com um início
ainda um pouco tímido, houve em Portugal um acontecimento que parece algo
contraditório com a baixa religiosidade institucional diagnosticada nos anos
anteriores. As aparições de Fátima, em 1917, ganharam rapidamente uma
popularidade extrema e confrontaram o catolicismo português com uma certa
ambiguidade. Embora as aparições só tenham sido oficialmente reconhecidas pelo
bispo de Leiria em 1930, existem vários sinais de que a Igreja católica já
percebera perfeitamente, a partir de 1920, o valor simbólico de Fátima em
termos de uma recristianização da sociedade portuguesa (Barreto, 2002, pp. 36-
37). Por outro lado, há vários indícios que permitem admitir que o fenómeno de
Fátima tem a sua origem numa forte erupção da religiosidade popular,
verificável ainda hoje em dia através da ladainha, das novenas e das inúmeras
estampas populares
14
. Tendo em conta que as estruturas clericais em Portugal foram, depois dos anos
do liberalismo e da I República, bastante enfraquecidas e debilitadas, convém
repensar as palavras conhecidas do cardeal Cerejeira segundo as quais foi
Fátima que se impôs à Igreja (Cerejeira, 1943, p. 272). Ao contrário do
pensamento do cardeal, seria hoje em dia mais convincente sublinhar o papel
importante de Fátima na recristianização de Portugal
15
. Combinando as fortes predilecções nacionais por Nossa Senhora, um certo
sentido de predestinação de Portugal e a multiplicação dos altares e das
imagens, o fenómeno de Fátima desenvolveu nos anos seguintes uma matriz
identitária e uma dinâmica própria, transformando o catolicismo popular
português numa espécie de religiosidade nacional, que não pode ser comparada
com outras formas de catolicismo. As aparições de Fátima tiveram, com certeza,
um papel importante na tentativa de recristianizar a população portuguesa,
embora esta recristianização talvez não tenha correspondido sempre à ortodoxia
católica. Para além das convicções teológicas, e a partir de um ponto de vista
historiográfico imparcial, seria necessário confirmar que a Igreja católica
aproveitou o fenómeno de Fátima para a sua própria reconfiguração e afirmação16
e que as aparições de 1917 significam hoje em dia um dos pilares mais
importantes do catolicismo português. Um acontecimento verdadeiramente
importante acerca da reorganização do catolicismo português ocorreu em 1926,
visando sobretudo uma reestruturação interior. Neste mesmo ano realizou-se o
Concílio Plenário Português, que foi marcado pelo programa principal da
reconquista cristã ou restauração católica da sociedade e mostrou os seus
primeiros resultados a partir de 1930. Esta reorganização interior foi ligada a
vários pontos, começando com uma reformulação dos poderes territoriais da
Igreja e acabando com a estimulação da confissão pública dos católicos (Fontes,
2002, pp. 164-177). A reconquista cristã culminou finalmente na fundação da
Acção Católica Portuguesa(ACP) em 1933, que teve o seu apogeu entre 1940 e 1950
e influenciou a vida religiosa pelo menos até aos anos 1960-1970
17
. Marcada por um grande espírito nacionalista, a reconquista cristã da ACP
assumiu duas perspectivas. Em primeiro lugar, procurou-se uma cristianização
geral da sociedade sob o lema levar Jesus às almas e trazer as almas a Jesus.
Em segundo, surgiu um aspecto social que procurou, além do levantamento e da
formação religiosa [ ] também a defesa económica das classes actualmente
oprimidas (Ferreira, 1999, p. 26). Através de uma organização bastante
complexa ligada às profissões (agrário; escolar; independente; operário;
universitário), ao sexo, ao meio social e à idade, a ACP tentou abranger
teoricamente a população inteira. Definida através dos seus estatutos como uma
organização vocacionada para o apostolado dos leigos, a ACP dedicou-se
sobretudo à difusão dos princípios católicos na vida individual, familiar e
social. Partindo assim da base da sociedade, o catolicismo conseguiu interagir
novamente com a dinâmica social, convertendo novamente a sociedade portuguesa.
Ou seja, o Estado Novo pode ser visto como a institucionalização de uma Nação
essencialmente cristã' (Almeida, 2008, p. 23) e a Igreja católica tornou-se,
à semelhança do que se passava em Espanha, ideológica e institucionalmente (ao
lado das forças armadas), um dos principais apoios do Estado Novo. Embora a
separação entre o Estado e a Igreja católica não se tenha alterado com a
Concordata de 1940 (Portugal continuou a ser oficialmente um estado não
confessional), deu-se nos anos seguintes uma simbiose, ou coabitação íntima,
entre os dois18. Este contrato entre o Vaticano e o Estado português significou
um restabelecimento de uma parte importante dos privilégios que a Igreja
antigamente possuíra, reconhecendo, por exemplo, a propriedade dos bens que
anteriormente lhe pertenciam (Torgal, 2004, p. 109). De uma certa maneira,
poder-se-á falar de um negócio bastante rentável para os dois lados. A Igreja
legitimou ideologicamente o Estado, que ofereceu, em contrapartida, vários
privilégios, como a exclusividade no ensino religioso, alguns benefícios
fiscais, ou o monopólio da assistência religiosa nos hospitais, nas prisões,
nas forças armadas, etc. Assim, a Igreja católica conheceu entre 1930 e 1960
uma fase extremamente fértil, e a sua afirmação e reconfiguração, iniciando de
facto uma recristianização dos portugueses
19
, sufocou quase por completo todas as aspirações seculares dentro da sociedade.
Contudo, esta reconfiguração ou afirmação tomaria já nos finais dos anos 1950
um rumo um pouco diferente, quando surgiram alguns sinais que apontavam para
uma certa descristianização da população portuguesa e para a transformação
exterior e interior do catolicismo português
20
. Enquanto a hierarquia eclesiástica continuou relativamente fiel ao regime
salazarista, nasceu uma contestação entre alguns católicos que foi designada
inicialmente pelo cardeal Cerejeira por erro progressista com inspiração
marxista (Barreto, 2002, p. 122). Esta contestação tornou-se nos anos
seguintes uma oposição católica, transformando já o aspecto geral do
catolicismo. Sem querer pormenorizar esta oposição católica
21
, é possível afirmar que a mesma significou um dos primeiros passos para uma
moderna pluralização do catolicismo português. Esta tendência foi acelerada nos
anos 60 pelo II Concílio do Vaticano (1962-1965), que tentou adaptar o
catolicismo às condições do nosso tempo. Contudo, este aggiornamento da
Igreja católica provocou em Portugal um resultado ambíguo. Considerando que a
ditadura salazarista esteve nesta altura numa situação de isolamento por causa
da sua política colonial, seria possível intuir que o Concílio e, nomeadamente,
a constituição pastoral Gaudium et Spese a encíclica Pacem in Terris(1963)
foram encarados pela hierarquia eclesiástica, tradicionalista e fiel ainda ao
regime, com grande desconfiança. Agarrados às antigas colónias, o Estado e a
Igreja em Portugal recusaram-se inicialmente a ler os sinais do tempo. Esta
postura despertou, por um lado, a já latente oposição intracatólica (os
católicos progressistas, que começaram a representar uma verdadeira pluralidade
interior do catolicismo português) e, por outro lado, um enorme afastamento dos
crentes a partir dos anos 60 (IPOPE, 1973; França, 1981).
Em relação à oposição católica contra o Estado Novo, a transição para o sistema
democrático deu-se com uma certa suavidade. Tentando evitar os erros crassos da
I República, os primeiros governos democráticos não tomaram nenhuma posição
anticlerical. No entanto, o catolicismo em Portugal sofreu a partir de 1974 uma
transformação essencial. Para além da crescente pluralidade interior22, houve
uma transformação quase imediata de uma Igreja que apoiou os poderes de um
Estado totalitário para uma Igreja que critica os poderes de um Estado
democrático. Ou seja, enquanto a Igreja patrocinou em grande parte as decisões
políticas, económicas, éticas ou sociais do Estado Novo, a mesma mostrou, sob
condições democráticas, cada vez mais uma posição crítica. Hoje em dia, o
catolicismo reconfigura-se sobretudo através de protestos contra alguns efeitos
éticos, morais ou sociais de uma modernidade secular que são reconhecidos, na
perspectiva de uma mundividência cristã, como negativos. Exemplos relativamente
recentes são, entre outros, a crítica, em 2002, ao novo código do trabalho (com
uma argumentação semelhante à do Partido Comunista ou dos sindicatos)23 ou,
actualmente, o protesto contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo
24
. Ou seja, o catolicismo perdeu apenas gradualmente a sua importância na
sociedade portuguesa, pois permanece, sob uma outra forma social, um factor
significativo na construção de uma sociedade moderna, criticando algumas
decisões éticas, sociais, políticas e económicas. Para além das suas críticas,
o catolicismo português afirma-se através da manutenção das crenças e costumes
tradicionais ou da estabilização da identidade nacional. Uma das referências
principais neste ponto é Fátima, que, não obstante ter sido declarada altar do
mundo, é apresentada como garante do catolicismo popular português. De acordo
com uma perspectiva oficial religiosa, Fátima tem proporcionado aos católicos
portugueses caminhos renovadores na vivência da fé (Azevedo, 2003). De uma
certa maneira, seria possível afirmar que Fátima, tal como o próprio
catolicismo português, mudou simbolicamente as suas funções, afirmando-se e
reconfigurando-se a partir das circunstâncias sociopolíticas. Depois do seu
início como manifestação anti-republicana, o Santuário de Fátima tornou-se uma
espécie de centro espiritual internacional do anticomunismo (Barreto, 2007,
p. 502) e revelou-se assim como um pilar importante da política do Estado Novo
(Manuel, 2001). Hoje em dia, Fátima pode ser compreendida simbolicamente como
um epicentro e pilar do catolicismo popular português, o qual seria, na sua
forma actual, impensável sem a Nossa Senhora de Fátima. Em especial, entre os
meses de Maio e Outubro, Fátima assume o cariz de uma verdadeira religião de
massa.
Resumindo, nos últimos duzentos anos da história do catolicismo português pôde-
se verificar que Portugal viveu fases diferentes, nas quais a sociedade
portuguesa oscilou entre a esfera secular e a esfera católica, sem mostrar
claramente um rumo definitivo. Embora se deixem afirmar, em tempos actuais,
tendências nítidas para uma vida cada vez mais secular, Portugal está marcado
ainda pela sua tradição católica (e anticlerical) e por um certo catolicismo
difuso, que continuam a influenciar os comportamentos e atitudes sociais, ou
seja, num sentido weberiano, a ética económica e a ética política dos
portugueses.
25
De uma certa maneira, poder-se-á concluir que no Portugal moderno, assim como
no resto da Europa do Sul, permanece em alguns casos uma memória colectiva
marcada pelo catolicismo que continua a influenciar as actividades políticas
e os costumes sociais dos indivíduos (Manuel e Mott, 2006, p. 66). Por outro
lado, e este é um fenómeno sociologicamente bastante complexo e interessante,
os contextos sociais não deixam também de influenciar a religiosidade dos
indivíduos (Pais, 2001, p. 231) e a religião institucional. Assim, o
catolicismo foi nos últimos duzentos anos um factor social importante na vida
dos portugueses, conseguindo sempre afirmar-se e reconfigurar-se no espaço
público através de diferentes formas sociais.
Religiosidade institucional versus religiosidade popular: uma tentativa de
fenomenologia
Em 1908, o filósofo espanhol Miguel de Unamuno deixou algumas anotações
interessantes sobre a paisagem religiosa em Portugal. No seu texto Las Animas
del Purgatorio en Portugallemos os parágrafos seguintes:
Es muy frecuente oir a los portugueses que es el suyo un pueblo
irreligioso; que aquí, en Portugal, los problemas de religión no
interesan de veras a nadie. Paréceme que en esto, como en otras
cosas, padecen una ilusión [ ] La religiosidad portuguesa [ ] hay que
ir a buscarla por debajo de las formas regulares y canónicas de la
religión oficial. Por debajo de ella palpita y vive aún cierto
naturalismo que tiene mucho de pagano y no poco de panteísta [ ] Hay
aquí siempre latente una cierta religiosidad pagana [Unamuno, 1985
(1908), p. 144].
Unamuno refere-se aqui, concretamente, à religiosidade popular, e mais de um
século depois desta observação permanecem ainda algumas dificuldades em
descrever este fenómeno, que escapa sistematicamente aos estudos quantitativos.
E, de facto, o sul católico da Europa continua a ser um verdadeiro tesouro para
as manifestações da religiosidade popular (Ebertz e Schultheis, 1986), e a
realidade religiosa destes países católicos não se deixa perceber por completo
sem recorrer a estas expressões. Considerando que a religiosidade popular pode
ser entendida como um inventário das diferenças, que se encontra numa
interdependência complementar ou oposição conflituosa com o monopólio do poder
espiritual da religião católica, temos de identificar estes espaços que
permitem uma certa autonomia espiritual do indivíduo (Esteves, 1986, pp. 65-
66). Isto significa uma separação ou identificação daqueles elementos que não
se deixam, histórica ou socialmente, encaixar no capital religioso ou no
cânon dos bens da salvação (Heilsgüter) da religião oficial. Trata-se de uma
certa virtuosidade religiosa (Virtuosenreligiosität) que historicamente ainda
não foi, ou socialmente não pode ser, monopolizada pelo sistema religioso
oficial (Weber, 2002 [1920], pp. 599-600). Na sua relação com o monopólio
religioso, a religiosidade popular existe constitutivamente sempre numa
correlação entre a absorção/tolerância e a estigmatização, ou entre a
instrumentalização e a ignorância. Empiricamente, podemos verificar a
existência de variadíssimos elementos da religiosidade popular dentro do
catolicismo português que já não podem ser identificados como tais por razões
de uma absorção ou instrumentalização histórica. Por outro lado, existem ainda
outros elementos que estão geralmente ligados a crenças ou cultos locais e que
são tolerados ou ignorados por parte da hierarquia eclesiástica, mantendo assim
uma certa independência. Com base nos estudos das ciências sociais dos últimos
anos acerca desta matéria, especificam-se, no caso de Portugal, algumas formas
de religiosidade popular que se relacionam com o anticlericalismo popular (ou
oposição ao padre), com os santos, com as festas populares e com os cultos a
Nossa Senhora (Esteves, 1986, pp. 68-72).
Em relação ao anticlericalismo popular surgiram a partir de 1970 vários estudos
que sublinham que este não é simplesmente um fenómeno intelectual das elites
urbanas (Cutileiro, 1977). Partindo de um forte sentimento de desconfiança, o
padre local é encarado pela população rural muitas vezes como um representante
de uma hierarquia supra-regional (um forasteiro) que tenta regularizar ou
corrigir teologicamente algumas crenças ou costumes tradicionais. Em
consequência disso, e sem provocar propriamente uma inimizade aberta, o
sacerdote pode torna-se alvo de anedotas, de histórias satíricas e de críticas
26
, mostrando-se, em alguns casos, incapaz de direccionar as convicções da
população local (Riegelhaupt, 1982). Compreendido como uma forma complementar,
pode existir ao lado do padre oficial um bruxo tradicional ou moderno que é
consultado, por exemplo, para fins terapêuticos ou para certos exorcismos (Pina
Cabral, 1989, pp. 211-240).
Um outro elemento importante no âmbito da religiosidade popular é a veneração a
santos, que são, na sua maioria, rurais
27
e que correspondem geralmente à necessidade humana de ter um modelo e uma
afirmação da própria fé. Para além de uma certa especialização em relação a um
domínio concreto (doenças, amor, paz, etc.), a maioria dos santos está ligada a
uma localidade, estabelecendo assim um forte laço social (Esteves, 1986, p.
70). As romarias anuais, especialmente em zonas de emigração, em honra do
nosso santo representam uma profunda expressão da unidade regional e da
ligação à terra de origem (Sanchis, 1983, p. 40). As promessas e os ex-votos
permitem ao crente uma autonomia religiosa que se encontra limitada dentro da
religião institucionalizada.
Na sua ligação com o culto dos santos e com os ciclos da vida humana, as festas
representam um dos aspectos centrais da religiosidade popular (Isambert, 1982).
Embora haja nas festas continuamente um cruzamento entre a regulação
eclesiástica e a virtuosidade religiosa de grupos locais, existem,
empiricamente, possibilidades de identificar fenómenos que se esquivam à
ortodoxia católica. Para além das provocações lúdicas ou sexuais destas festas,
foram fragmentariamente identificados alguns elementos mágicos frequentemente
tirados de cultos antigos (Sanchis, 1983, p. 328). Ou seja, uma festa revela
geralmente alguns elementos que criam um espaço de afrontamento [ ] contra a
Igreja (Esteves, 1986, p. 71). A sua ligação íntima aos ciclos da vida, do ano
ou do agrário permite chamar a estas festividades uma espécie de religiosidade
sazonal (Saisonreligiosität) (Ebertz e Schultheis, 1986, p. 22), e os
participantes tornam-se assim, convivendo também com a parte teologicamente
controlada, religiosos ou cristãos sazonais.
Como já foi sugerido em cima, existe em Portugal uma forte inclinação para os
cultos de Nossa Senhora, entre os quais predomina a devoção a Nossa Senhora da
Conceição e sobretudo a Nossa Senhora de Fátima. O pilar mais importante do
catolicismo português é, de uma certa forma, o culto mariano, que deve ser
visto como um elemento fundamental da religiosidade popular, conservando os
recursos maternais dentro de uma religião dominada por um omnipotente papado
paternal. Tendo em consideração os fortes mecanismos da integração pelo lado do
catolicismo oficial, a identificação fenomenológica dos elementos da
religiosidade popular dentro dos cultos marianos representa um desafio iminente
para a sociologia ou a antropologia da religião.
Embora possa parecer o contrário, a religiosidade popular permanece em
Portugal, ao lado da enorme concorrência por parte da secularização e do
catolicismo, uma realidade social sem a qual a paisagem religiosa do país não
pode ser descrita integralmente. Uma exposição completa das esferas religiosas
em Portugal continua a necessitar da identificação das diferentes formas de
religiosidade popular, dos seus efeitos na sociedade local e no indivíduo e da
sua relação com o catolicismo oficial.
A sociedade portuguesa: secularizada, religiosa e católica
Neste texto tentei descrever esquematicamente as sobreposições entre as esferas
seculares e as esferas religiosas na sociedade portuguesa durante os últimos
duzentos anos, chegando à conclusão de que não existe nenhuma linearidade nos
processos da secularização. Acrescentei uma breve fenomenologia da
religiosidade popular com o objectivo de mostrar a necessidade de considerar
com mais atenção esta esfera religiosa para descrever fielmente a variedade
dentro da paisagem religiosa em Portugal. Em suma, proponho um esquema
multidimensional que permita reconhecer as esferas seculares e as esferas
religiosas em três níveis diferentes, mas interligados: (a) sociedade; (b)
sistema religioso tradicional; (c) indivíduo (Dobbelaere, 2009, pp. 602-610).
Relacionados com a herança anticlerical e outras componentes, tais como a
industrialização ou a democratização, pode-se afirmar que a sociedade
portuguesa apresenta fortes indícios de uma secularização manifesta. Todavia,
dentro desta secularização é possível observar uma estratificação geográfica e
social. Para além da conhecida clivagem entre o norte católico e o sul
anticlerical, existe em Portugal uma nítida diferenciação em termos de
escalões etários, nível de escolaridade, género, capital cultural e
rendimento familiar. Alguns estudos sociológicos mostram claramente que as
camadas sociais menos favorecidas tendem principalmente para um nível mais alto
de religiosidade (Cabral, 2001, pp. 31-42) ou para um catolicismo mais
ritualista, moralista e tradicional (Pais, 2001, pp. 193-196)
28
. Porém, é necessário acrescentar que existe uma espécie de religiosidade que
se revela actualmente na sociedade portuguesa através de alguns ritos de
passagem(casamento, baptizado, etc.) e da participação em romarias ou festas
locais (religiosidade popular). Por outro lado, a secularização em Portugal não
pode ser compreendida historicamente como um processo linear que elimina
automaticamente as esferas religiosas da sociedade, mas sim como uma amplitude
não simétrica, na qual alternam fases periódicas da secularização e da
dessecularização
29
. Confrontado com diferentes condições socioculturais, o catolicismo
tradicional em Portugal teve nos últimos duzentos anos magnitudes e amplitudes
diferentes no que diz respeito à sua intervenção em questões éticas ou sociais,
à sua crítica em relação a decisões políticas ou económicas, à sua manutenção
das crenças e costumes tradicionais ou à sua estabilização das identidades
nacionais. Olhando para a actualidade portuguesa, não há a mínima dúvida de que
o catolicismo tem cada vez mais dificuldades em defender o seu domínio
tradicional na formação directa das mentalidades, sobretudo através da prática
religiosa ou da transmissão geracional de conteúdos religiosos. O catolicismo
português, no entanto, tenta afirmar e reconfigurar a sua influência nas
esferas dos valores políticos, económicos, éticos, estéticos (e ainda outros),
nomeadamente através da sua forte presença nos media, mostrando assim uma
resistência religiosa contra a ideologia da secularização ou modernização
30
. A médio prazo será necessária uma observação mais atenta destes processos de
reconfiguração do catolicismo no espaço público para fornecer declarações sobre
a relação entre o religioso e o secular dentro da sociedade portuguesa. Esta
observação representa um dos grandes desafios para a actual sociologia da
religião (Martin, 2005). Por enquanto pode-se afirmar que a Igreja católica
mantém em Portugal o seu monopólio, conseguindo desenvolver estratégias
relativamente inovadoras para afirmar a sua posição no espaço público e para
influenciar processos de modernização. Por outro lado, o monopólio religioso
não significa automaticamente que a crescente pluralidade religiosa,
particularmente nos centros urbanos de Portugal, não seja capaz de afectar a
tradição católica em Portugal. Como já indicado na introdução, existe ainda uma
certa urgência em continuar a estudar esta forma de reconfiguração da paisagem
religiosa em Portugal.
Um outro momento essencial na descrição das sobreposições entre o secular e o
religioso é a análise das competências de sistemas religiosos em relação a uma
secularização interior (Luckmann, 1967). No que diz respeito a esta
secularização interior, podemos, por enquanto, reconhecer um ponto importante.
Para além da sua típica função espiritual, notamos historicamente no
catolicismo português fases de uma reestruturação organizacional e de uma
atenção reforçada para problemas da vida quotidiana, ou seja para assuntos
seculares. Esta capacidade significou a possibilidade de reconfiguração,
particularmente em épocas que necessitaram de uma adaptação forçada a novas
condições socioculturais. Em termos práticos, somos confrontados com uma
crescente pluralização interior que é promovida actualmente pela própria Igreja
católica (Fontes, 2002, pp. 248 e 327), permitindo assim um balanço entre
inadaptação e adaptação ao mundo moderno. Este balanço é estrategicamente
bastante interessante, tendo em conta o facto óbvio de que nem todos os efeitos
da modernização têm de ser necessariamente positivos.
A moderna extensão das esferas seculares não provoca apenas uma reacção das
esferas religiosas no espaço público, mas também nos espaços individuais. A
reformulação da religião em espaços individuais iniciou-se, sobretudo, com a
queda da tradicional autoridade religiosa e foi designada nos últimos anos,
nomeadamente a partir da tese da privatização da religião (Luckmann, 1967),
através de vários conceitos, como os de religiosidade bricolage ou religião
à la carte. Embora a perda da religião tradicional não signifique
obrigatoriamente um aumento da procura religiosa individual, verificou-se nos
últimos anos um aumento das ofertas religiosas. No caso de Portugal, no
entanto, não existem ainda pesquisas empíricas que permitam conceder
informações fiáveis sobre a maneira como o catolicismo tradicional vai sendo
substituído, pelo menos parcialmente, por uma espiritualidade mais individual.
Porém, não seria muito surpreendente encontrar na sociedade portuguesa
indivíduos que complementam, por exemplo, uma peregrinação anual a Santiago de
Compostela com aulas semanais de yoga.
Sintetizando, devíamos mais uma vez sublinhar que na sociedade portuguesa nunca
houve uma mudança linear do religioso para o secular. Mais correcto seria dizer
que o catolicismo tradicional tenta adaptar-se às condições de uma
secularização crescente. Contudo, esta adaptação não pode ser entendida como um
acordo simples com estas condições, mas sim como um desafio que é acompanhado
por protestos ou correcções. Neste sentido, o catolicismo português da segunda
metade do século xx não é necessariamente uma antinomia ou uma oposição perante
a modernização. Pelo contrário, modernizando-se a si próprio, e assumindo uma
função crítica perante algumas decisões na vida sociocultural ou como agente
regularizador da religiosidade popular, o catolicismo português deve ser
entendido como elemento formador de uma modernidade que é singular e típica
apenas da sociedade portuguesa. Isto é, a modernidade e a secularidade da
sociedade portuguesa seriam hoje em dia algo diferentes sem o catolicismo
tradicional. Ao reconhecer que a religião é uma parte intrínseca da modernidade
(Casanova, 1994, p. 234), torna-se mais fácil explicar algumas das contradições
numéricas acima indicadas. Assim, e sem ser contraditório ou banal, seria
possível afirmar que Portugal é modernamente um país ao mesmo tempo
secularizado, religioso e católico. Neste sentido, e em relação à exigência de
uma nova maneira de ler a tese da secularização de Habermas, seria talvez
útil abandonarmos a ideia de que religião e modernização têm de ser
inevitavelmente antagónicas. A análise do caso português assim o sugere.