A identidade na Velhice
Susana Matos ViegaseCatarina Antunes Gomes, A identidade na Velhice, Porto,
Editora Âmbar, 2007, 138 páginas.
Liliana Sousa
Universidade de Aveiro
No livro A Identidade na Velhice as autoras utilizam narrativas de vida
enquadradas nos seus contextos sociais e culturais para reflectirem sobre a
identidade na velhice. A identidade é aqui apresentada como um processo
intersubjectivo e relacional e o envelhecimento como um estado liminar (entre
encruzilhadas).
A construção e reconstrução da identidade são processos que nos acompanham ao
longo da vida. Neste livro, os dilemas, conflitos, contradições e conquistas de
identidade na velhice são relatados de forma tão simples como complexa,
ganhando vida em histórias de pessoas que convivem com a sua velhice. Estas
histórias de vida são sistematicamente pontuadas e analisadas por referências
teóricas que integram algumas perspectivas que nos temos habituado a ver/usar
separadas: as tradicionais abordagens psicológicas, biológicas e sociais
conjugam-se e interligam-se pela vida de algumas personagens e pela análise de
Susana Viegas e Catarina Gomes.
O livro estrutura-se em seis partes. Na introdução, o leitor fica esclarecido
quanto ao ponto de partida das autoras, e ficamos, principalmente, a saber que
aqui a «identidade descreve o modo como nos vemos através dos outros e como
imaginamos ser por eles vistos, numa espécie de jogos de espelhos» (p. ii).
O primeiro capítulo remete para As imagens conflituais da velhice e
confronta-nos com alguns antagonismos entre a velhice e o envelhecimento
através de conceitos comuns na literatura actual: ageism e envelhecimento
activo.
O segundo capítulo, Identidades espelhadas, apresenta-nos a aldeia de
Almalaguês e alguns dos seus habitantes mais velhos, mostrando-nos como «a
passagem dos indivíduos pelo curso da vida é concebido pelo fluir de
reinterpretações de si próprio, a partir de imagens cruzadas, daquilo que se
foi no passado, projectado no presente, e do que se é no presente, em confronto
com aqueles com quem se partilha uma experiência social e histórica» (p. 69).
O terceiro capítulo, Não deixar de trabalhar, mantém-nos naquela aldeia,
mostrando-nos como nas pessoas de idade o significado de trabalhar parece ser
reavaliado: «se não exibirem o seu trabalho podem ser identificados,
irremediavelmente, com o estigma da velhice» (p. 79).
No quarto capítulo, Envelhecimento activo e a modalidade heróica do
envelhecimento: ressonâncias e dissonâncias», somos colocados perante outra
realidade: a da existência de uma universidade da terceira idade. Também neste
contexto se evidencia a necessidade de as pessoas idosas reafirmarem a sua
pertença ao mundo social pela actividade e pela acção.
O livro termina com os Comentários conclusivos, em que se salienta «a velhice
como enigma a desvelar na experiência, uma experiência fortemente marcada por
contradições ou mesmo por dilemas» (p. 128).
A leitura desta obra é extremamente rica, desde logo por nos fazer embrenhar
naquilo que as pessoas idosas estarão a sentir, a pensar e a viver: por vezes,
esta experiência parece contraditória e complexa, mas apenas porque nos obriga
a aproximar da vivência das personagens (o Dr. Castro, a Sr.ª Aurora ) que dão
vida aos conceitos. Para além deste sentir o que as pessoas idosas sentem, o
livro torna-se pertinente na contextualização, esclarecimento e discussão de
diversos conceitos associados à velhice, como ageism, envelhecimento activo,
idade, destino, despessoalização, dependência e autonomia, estigma, herança,
trabalho e reforma, maturidade, sabedoria, experiência, destino Trata-se de
termos, conceitos e noções de uso corrente em diversos contextos (mais formais
ou informais, mais ou menos académicos), muitas vezes sem reflexão ou crítica
sobre o seu significado e implicações. Aqui todos estes conceitos ganham vida e
permitem-nos questionar quando e como podemos usá-los.
Nesta obra enfatiza-se a ideia de que ainda não existem modelos de identidade
para a velhice. Por isso eles são procurados na juventude ou em sermos mais
novos do que alguém: no «espelho dos processos de constituição da identidade na
velhice, perguntamo-nos quem há mais velho do que nós com o objectivo de que a
nossa própria imagem possa ser salva nessa comparação» (p. 59). As pessoas
idosas precisam de modelos de identidade que lhes permitam ser quem são e não
lhes exijam ser quem não são. Além disso, é relevante sublinhar que os modelos
de identidade que se criem agora vão influenciar as próximas gerações de
idosos. Talvez este seja um dos principais contributos para reflexão resultante
da leitura deste livro.
Uma frase da Sr.ª Aurora (p. 61) parece-me traduzir bem aquele que é um dos
maiores desafios que todos encaramos na construção da identidade na velhice:
«todas caminhamos para a velhice, mas há pessoas que pensam que não chegam lá»!