O Tempo das Ruas na São Paulo de Fins do Império
Fraya Frehse,O Tempo das Ruas na São Paulo de Fins do Império,São Paulo, Edusp,
2005, 272 páginas.
Gonçalo Rocha Gonçalves
The Open University (UK)
Mais do que mera evocação, a interdisciplinaridade deve ser uma prática
tendente a uma melhor compreensão de determinadas realidades sociais. A
socióloga brasileira Fraya Frehse investigadora na área da antropologia
urbana enceta neste livro, com segurança e criatividade, uma incursão pelas
ruas da São Paulo do século xix.
O livro é composto por duas partes. A primeira, de um só capítulo, debruça-se
sobre as várias correntes teóricas e metodológicas que se têm ocupado do
processo de urbanização de São Paulo. A segunda parte, constituída por três
capítulos, começa por nos levar num passeio pelas ruas centrais daquela cidade,
detém-se, depois, nos conflitos do quotidiano que pontuavam as suas ruas e
finaliza com a análise de um produto de uma nova ordem urbana o transeunte.
As ruas da cidade, pelo seu carácter fluido, transitório e fugaz, são sempre de
difícil apreensão para os historiadores. Este trabalho, ao recorrer a
instrumentos analíticos da sociologia e antropologia, mostra como as realidades
quotidianas podem ser eficazmente analisadas no plano histórico. Alguns
exemplos poderiam aqui ser citados, mas talvez seja de destacar um aspecto
especialmente relevante para o leitor: a adopção de um estilo de escrita
etnográfico (no qual as notícias de jornal fazem de diário de campo) que é
fundamental para a construção e apresentação do argumento e de um terreno
sempre movediço.
Ao contrário das cidades europeias e norte-americanas, onde o processo de
urbanização teve a industrialização como principal motor, a dinâmica de
urbanização de São Paulo assentou, durante o século xix, na expansão da cultura
do café e na sua integração no mercado internacional. Pequeno pólo de vida a
sul do Rio de Janeiro até ao século xix, é sobretudo a partir da década de 1870
que São Paulo explode física, social e economicamente. Socialmente, assiste-
se à explosão demográfica resultante, sobretudo, da emigração (que surge a par
do fim da escravatura); à urbanização da classe dominante os fazendeiros que
mudam a sua habitação do interior rural para a cidade; e ao crescimento das
classes médias em consequência directa do aumento do sector dos serviços.
Fisicamente, a par do aumento do espaço construído surgem as infra-estruturas
da modernidade urbana: caminhos-de-ferro, iluminação pública, transportes
públicos, água e esgotos, etc. É nesta cidade, em que os vínculos ao mundo
rural são constantes, que a autora vai analisar a mudança nas práticas
socioculturais que constroem o espaço público urbano.
Na primeira parte de Tempos da Cidade Fraya Frehse debruça-se sobre um conjunto
de obras que, desde 1930, analisam o desenvolvimento de São Paulo. Estas
dividem-se em duas correntes principais. A corrente que advoga que o
desenvolvimento urbano incorporou uma dinâmica de conflito e de interpenetração
entre um passado rural e um presente urbano, veiculada por autores como
Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Florestan Fernandes. Nesta
perspectiva, o confronto entre a mentalidade patriarcal, herança histórica, e
a mentalidade racional, representando uma nova modernidade urbana, estaria em
conflito num espaço privilegiado, a rua, e numa cidade que experimentou um
processo de urbanização muito rápido, São Paulo. Já na segunda visão, expressa
por autores como Richard Morse, defende-se que teria existido, na segunda
metade do século xix, uma ruptura com o passado, na qual ao progresso material
teria correspondido uma completa ruptura na mentalidade, que se teria então
tornado metropolitana. Apesar de mais tarde estes autores terem tentado
matizar esta visão de ruptura, permanecerão como vozes da teoria de uma
transformação radical ocorrida em São Paulo no século xix a tese da segunda
fundação.
Ora, a autora propõe uma terceira corrente capaz de conciliar as duas
anteriores: o enfoque no quotidiano. São Paulo é então um locus onde se conjuga
uma «simultaneidade entre continuidade e ruptura» (p. 82). Se o primeiro
conjunto de autores coloca a ênfase na continuidade e o segundo na ruptura,
propõe-se aqui uma posição que prevê a «coexistência tensa e irremediável de
ambas» (p. 86), observável no quotidiano urbano. Esta coexistência tensa entre
permanência do tradicional e ruptura do moderno emerge como conceito central,
em grande medida devido à escala de análise escolhida por Fraya (p. 88). A
escala que, para a antropologia, é a «mais significativa da vida social» a
escala micro capaz de fazer emergir as permanentes resistências e conflitos
experienciados num espaço público em permanente ebulição. Somos, assim,
confrontados com uma historicidade das ruas e da vida urbana em que passado,
presente e futuro se entrelaçam e em que o quotidiano surge como plano
privilegiado para a apreender.
A segunda parte desta obra inicia-se com um passeio pelas ruas do núcleo
central da cidade. Este passeio é sustentado numa aturada pesquisa de fontes.
As notícias de jornais são uma fonte central não só pelo que os jornalistas
escreveram, mas também, e este pormenor é basilar, pelo que alguns citadinos
decidiram redigir e enviar para os jornais. Outro tipo de fonte que assume uma
relevância especial é a fotografia. Não é incomum um livro de história ter
fotografias; no entanto, estas desempenham quase sempre um mero papel de
ilustração, sendo normalmente apresentadas fora do corpo do texto, num anexo
fotográfico. Neste livro, pelo contrário, a assinalável quantidade de
fotografias está inserida no corpo do texto e funciona como parte integrante do
argumento da autora.
No início do nosso passeio somos confrontados com as imundices que pontuam as
ruas da cidade. É aí que observamos uma crescente intolerância de alguns
citadinos para com esta situação. Reclama-se a mudança e a imposição de normas
higiénicas e morais no espaço público (o fim dos banhos em público, por
exemplo). Avançando pela rua, somos confrontados com a criação, permanência e
circulação de animais. Tal como no caso dos dejectos, assiste-se a uma
crescente intolerância em relação à criação/pastoreio de animais domésticos,
como galinhas ou cabras. Papel diferente é desempenhado pelo cavalo, elemento
central nos transportes urbanos antes dos meios de transporte mecânicos e que
vemos desempenhar um papel fundamental na introdução dos primeiros transportes
públicos. Porém, nem mesmo os cavalos (e quem os conduz) escapam à crítica
pelos constantes acidentes que provocam nas ruas ou pelos conflitos que o seu
uso provoca. Grande parte das queixas tem um destino preciso ' as autoridades
públicas. A autora mostra depois como foi rápida a introdução de novas infra-
estruturas que alteraram o aspecto físico e estabeleceram novas variáveis nas
relações sociais de rua: iluminação a gás (1872), pavimentação (1873),
canalização de água (1879) e esgoto (1883), mictórios e quiosques (1883),
linhas telefónicas (1884). As notícias dos jornais mostram-nos como os
habitantes da cidade mantiveram uma relação paradoxal com estes novos inventos.
Por um lado, aprovam e queixam-se quando eles, por alguma razão, deixam de
funcionar. Por outro, continuam a olhá-los com uma certa desconfiança, mais que
não seja pela alteração de hábitos.
Seguindo o nosso caminho, surgem-nos as sociabilidades de rua. Festas populares
e religiosas ocuparam tradicionalmente a rua; contudo, a forma como o fizeram
estava prestes a sofrer transformações profundas. E, se houve festa que, pela
folia, mas sobretudo pela violência que lhe estava associada, mereceu critica
por parte de uma opinião pública que utilizava os jornais para se expressar,
essa festa foi o Carnaval.
Finalmente, a autora leva-nos a olhar para os comerciantes que deambulavam
pelas ruas. Perante um espaço público urbano cada vez mais formatado a uma
única função a circulação , estes viram-se perseguidos pelas autoridades e
arrastados para espaços secundários ou, na melhor das hipóteses, remetidos para
espaços interiores em lojas ou nos novos mercados municipais.
Terminado o passeio pelas ruas de São Paulo, Fraya Frehse reflecte, nos dois
capítulos seguintes, sobre o que foi visto e apreciado. No primeiro, Querelas
e mazelas de um quotidiano bem pouco quotidiano, aprofunda a análise sobre a
constituição de uma opinião pública que utiliza os jornais como meio de
comunicação e demonstra como esta influiu na formação de novas normas sociais
que deveriam ser respeitadas no espaço público. Aqui importa assinalar como os
conceitos de espaço público e esfera pública se conjugam. Estas novas normas de
ordem higiénica, moral ou de comportamento social mais rotineiro vão enquadrar
a racionalização do quotidiano das ruas, mas vão também gerar novos e
permanentes focos de conflito. A coexistência de opiniões negativas e positivas
sobre actividades sociais antigas e modernas nas ruas de São Paulo emerge como
uma das dinâmicas sociais mais relevantes na sociedade paulistana.
No centro desta tensão surge então a figura do transeunte(capítulo 4). Figura
anónima que, seguindo as premissas da nova ordem urbana, utiliza (ou assim
representa) a rua exclusivamente como espaço de circulação, o transeunte não é,
todavia, um utilizador neutro. É ele que escreve para os jornais reclamando;
que pede a mudança de hábitos; que exige para as ruas a aplicação de um
conjunto de normas de conduta que façam emergir nas novas situações quotidianas
no espaço público urbano (por exemplo, o direito a circular nos transportes
públicos) as hierarquias sociais observáveis noutras esferas (numa sociedade
que ainda não sabia exactamente como lidar com o fim da escravatura). Mas é
também um indivíduo dilacerado entre o antigo e o moderno, porque, apesar de
incorporar as características da modernidade urbana, é ainda ele próprio uma
reminiscência de um passado quotidianamente presente. A rua como espaço de
proximidade física entre toda a heterogénea população urbana é, assim, um palco
onde as tensões entre antigo e moderno adquirem uma relevância particular.
Apesar da existência de alguns pontos que nos merecem crítica, como a
subvalorização do papel do Estado enquanto agente de mudança social, ou, por
exemplo, uma leitura algo anacrónica do lugar dos animais na cidade,
apresentados como uma vinculação ao mundo rural quando já só bem dentro do
século xx é que estes passaram a ser vistos como algo não urbano (ou, se
preferirem, rural), este livro é um importante contributo para o estudo das
relações sociais nos espaços públicos urbanos. Mostra-nos como o processo de
urbanização, elemento central na história das sociedades contemporâneas, foi
muito mais do que um simples crescimento das populações e dos espaços
construídos, tratando-se também de uma transformação tensa e conflituosa nos
modos de vida. Assim, o maior contributo deste livro é a forma como capta, com
uma sensibilidade assinalável, as transformações socioculturais num território
de difícil apreensão histórica.