A terra dos heróis: espaço urbano e vida comercial em Manjacaze (Moçambique)
Introdução
A reflexão sobre o espaço tem sido realizada por várias disciplinas, com
destaque para a geografia, a sociologia, a antropologia e a história. Este
campo constitui uma expressão forte da crescente porosidade disciplinar,
directamente relacionada com a cada vez mais frequente organização do trabalho
científico, tendo por base temas ou áreas geográficas, como justamente foi
assinalado por Wallerstein et al. (1996, pp. 102-103). É de salientar também
que na antropologia, na sociologia e na história os procedimentos
interpretativos, as problemáticas teóricas, os paradigmas e as modalidades de
construção do objecto são, basicamente, comuns e transversais, apesar de cada
uma privilegiar, em regra, diferentes formas de investigação empírica: as
fontes documentais para a história, o inquérito por questionário para a
sociologia e a observação participante para a antropologia (Olivier de Sardan,
1995, p. 71). A compreensão do modo como o espaço é apropriado e usado implica
a mobilização de diversas ciências sociais. Silva (2006), entre outros, dá
especial destaque à relação entre a geografia e a sociologia, sem obnubilar,
entre outras, a antropologia e a história:
Conceitos territoriais tais como casa, aldeia ou cidade, região ou país são
simultaneamente geográficos e sociológicos [ ] Com as perspectivas geográfica e
sociológica entrecruzam-se também outras, tais como a antropológica, a
histórica e mesmo a psicológica e arquitectural. A casa, por exemplo, é também
o lugar arquitectónico da personalidade íntima, o que implica ter presente a
dimensão sociopsicológica [Silva, 2006, p. 186].
A partir dos dados recolhidos para uma tese de doutoramento de um dos autores
(Ribeiro, 2004) sobre modernização e mudança social em Moçambique, pretende-se
reflectir sobre as dinâmicas sociais relacionadas com a vida comercial na vila
de Manjacaze (v. mapa n.º 1). Localizada na província de Gaza, é um lugar
expressivo na ocupação portuguesa do interior moçambicano a partir do final do
século xix. Nele, o colonialismo estabeleceu e consolidou um espaço urbano,
simultaneamente centro de poder político e económico e instrumento de afirmação
simbólica da superioridade do colonizador, marcado pela presença de
indivíduos de origem indiana, que aí se fixaram para comerciar. Mas não só.
Manjacaze é também um lugar primordial para a construção da nação moçambicana,
e daí poder ser considerado a terra dos heróis. Em Manjacaze ocorreu a
derradeira batalha entre o exército colonial português e as forças do império
de Gaza; aí nasceu Eduardo Mondlane, fundador e primeiro presidente da Frente
de Libertação de Moçambique (Frelimo) (Ribeiro, 2005). Tal concorre para a
produção de uma condição híbrida, marcada por caldeamentos, encontros e
conflitos entre pessoas e grupos com origens étnicas, sociais e geográficas
muito diversas, os quais, como veremos, ainda hoje continuam a fazer-se sentir.
[1]
Localização de Manjacaze
[Mapa n.º 1]
Após a discussão sobre a noção conceptual do espaço, far-se-á uma análise da
fundação e expansão colonial de Manjacaze e a descrição etnográfica sobre a sua
evolução pós-colonial. Como se disse, o enfoque recairá sobre a vida comercial
deste espaço urbano, em concreto sobre as suas origens, o trajecto histórico,
os actores e grupos sociais e ainda as suas estratégias e práticas. Procurar-
se-á mostrar que as rupturas e uma certa continuidade fazem a história deste
lugar, constituindo um par inseparável. Se, por um lado, em determinados
aspectos encontramos uma relativa estabilidade (v. g., nos usos do espaço,
ainda que com alterações simbólicas relevantes), por outro lado, as rupturas
são igualmente evidentes nos campos político e social. Enfim, o modo como o
espaço é apropriado, utilizado e valorizado é indissociável das dinâmicas
económicas, das lutas sociais e da intervenção deliberada do poder estatal.
O espaço: usos e dinâmicas
A vida social desenrola-se em lugares concretos, em relação com os objectos e
todos os demais elementos que compõem o espaço físico. Segundo Bourdieu (1999,
p. 160) o lugar pode ser definido absolutamente como o ponto do espaço físico
onde um agente ou uma coisa se encontra situado, tem lugar, existe. Os lugares
são espaços onde as relações sociais se produzem, organizam e se transformam no
curso do tempo; são espaços afeiçoados pelos actores e grupos sociais que
neles residem e trabalham (Portela, 2001). Giddens (1984, p. 118), por seu
turno, propõe o conceito de locale, que caracteriza o uso do espaço para
definir settingsde interacção essenciais à especificação da sua
contextualidade.[2] Pode aplicar-se a um quarto de uma casa, a um cruzamento de
ruas, a uma fábrica, a cidades, a territórios dos Estados-nações. A vantagem
deste conceito face ao do lugar é, no entender de Giddens, a de permitir
examinar as relações sociais através do espaço e do tempo. Isto é, este
conceito articula o lugar, dimensão basicamente geográfica, com as dimensões
social e temporal, permitindo conceptualizar quadros sistémicos de interacção
e relações sociais em que se incluem as suas dimensões físicas assentes na
coordenação espácio-temporal de actividades (Sobral, 1999, p. 46). Em suma, as
actividades humanas são sempre situadas, quer dizer, estão social e fisicamente
ancoradas aos lugares onde se vive e aos que se visitam. Os ruídos da cidade,
os sons do campo, os objectos e as pessoas que nos rodeiam ou que nos podem
contactar fisicamente acentuam a relação humana com o lugar.
São inúmeros os debates sobre esta temática. Procurando elaborar uma visão
sintética sobre eles, Silva (2006, pp. 191-192) refere que, enquanto os
teóricos da escola de Chicago, como Park (1987), Wirth (1987 [1938]) e Burgess
(1967 [1925]), argumentam que o espaço é uma variável independente, já os
marxistas, com destaque para Lefebvre (1968), Castells (1975 e 1982) e Harvey
(1992), consideram-no inseparável das dinâmicas sociais, económicas e
políticas. Nesta óptica, os usos e as mudanças que se verificam no espaço devem
ser compreendidos em função da própria sociedade nela implementada, das suas
rupturas e vicissitudes históricas. Por seu lado, os teóricos de filiação
weberiana, como Ledrut (1968) e Freund (1975), sublinham a importância do
factor político, designadamente da acção deliberada do Estado e seus agentes na
configuração do espaço. Escrutinando estas posições em confronto, Silva (2006,
pp. 194-195) argumenta que o facto de se sustentar que o espaço tem uma
relativa autonomia e produz efeitos próprios não significa que não seja
socialmente condicionado. O espaço, para ser explicativo, tem de ser articulado
com outros factores de carácter social, político e cultural. Trata-se, pois,
de subscrever uma posição analítica sobre o espaço que o entende como um
produto da acção social:
O espaço em si pode ser primordialmente dado, mas a organização e o
sentido do espaço são produto da translação, da transformação e da
experiência sociais. O espaço socialmente produzido é uma estrutura
criada, comparável a outras construções sociais resultantes da
transformação de determinadas condições inerentes ao estar vivo,
exactamente da mesma maneira que a história humana representa uma
transformação social do tempo [Soja, 1993, pp. 101-102].
A forma como o espaço é usado, ou, mais concretamente, os processos de
intervenção humana no território, são inseparáveis das dinâmicas sociais e
políticas ocorridas ao longo do tempo histórico e da própria acção dos actores.
No campo da antropologia social, os trabalhos de Long (1989, 1992 e 2001), de
Arce e Long (1999), de Ong (1999) e de Olivier de Sardan (1995 e 2001) revelam
o papel decisivo da acção individual dos actores sociais na estruturação dos
quadros político-sociais, ainda que tal não permita subalternizar a força das
estruturas sistémicas que os condicionam. Os actores sociais possuem uma margem
relativa de agência, variável em função dos contextos histórico-espaciais e
sempre sujeita aos constrangimentos impostos pelas estruturas onde a acção se
inscreve, como justamente assinala Bourdieu (1997, 2000a e 2000b). Ou seja, as
estruturas espaciais existentes influenciam a vida social nas suas dimensões
mais diversas, incluindo o modo como os actores intervêm nelas. Na perspectiva
de Bourdieu (1997, p. 31), a noção de espaço contém, por si própria, o
princípio de uma apreensão relacionaldo mundo social. O espaço social, melhor
dito, os espaços sociais são campos de força e de luta que se impõem aos
actores sociais neles envolvidos, são
estruturas de diferenças que só podemos compreender deveras na
condição de construirmos o princípio gerador que funda essas
diferenças no plano da objectividade. Princípio que não é senão a
estrutura da distribuição das formas de poder ou das espécies de
capital que são eficientes no universo social considerado e que
variam, portanto, segundo os lugares e os momentos [Bourdieu, 1997,
p. 32].
Os actores sociais percebem que o espaço em que se movem não é homogéneo. É no
espaço que se inscrevem as condições materiais de existência (Hall, 1986), é
nele que se constroem e se exprimem as distinções que, segundo o sentido dado
por Bourdieu (1979), marcam muitos outros aspectos da vida social, como o local
e tipo de habitação, as actividades e os lugares de lazer. A organização das
aldeias, das vilas e das cidades não é fruto do acaso, mas produto da história,
quer dizer, da acção dos actores sociais, das instituições e do Estado. Estamos
perante realidades dinâmicas que não se apresentam jamais em estado puro,
como assinala Baptista (2006, p. 55), na esteira de Remy e Voyé (1974). A cada
espaço dado, entendido como as formas já existentes (habitações, ruas, etc.),
a acção social vai acrescentando e modificando as estruturas físicas, por
outras palavras, vai elaborando a todo o instante o seu espaço produzido,
através das intervenções e interpretações definidas pelas dinâmicas sociais,
pelas tensões, pelos sonhos e pelas expectativas dos actores sociais
(Bromberger e Ravis-Giordani, 1976). Assim, conhecer todos os elementos e
aspectos que compõem o espaço, como as habitações, os lugares públicos, as ruas
e caminhos e a própria toponímia, como fez Martinelli (1982), é fundamental,
pois todos os grupos humanos inscrevem e produzem a sua existência no espaço,
ainda que, parafraseando Marx, não sob as condições e os modos por eles
escolhidos.
É precisamente esta pluralidade de aspectos, hibridismos, relações e conflitos
relacionados com o espaço que a observação etnográfica em Manjacaze revela.
Procurando seguir a discussão teórica acima enunciada, a análise sobre este
espaço concreto começará pela história do lugar para mergulhar seguidamente na
discussão sobre a vida comercial urbana.
Manjacaze, a Terra dos Heróis
A história de Manjacaze está estreitamente ligada ao processo de penetração do
colonialismo português em Moçambique. Última capital de Ngungunhane[3], foi
saqueada pelo exército português em Novembro de 1895. Apesar da destruição
provocada, a zona continuou a manter atracção suficiente para nela se
estabelecer um aglomerado populacional moderno, assente no pequeno comércio
colonial dos cantineiros indianos e, mais tarde, portugueses. A palavra
Mandlakazi é de origem zulu, tendo sido traduzida por Liengme descendente do
missionário médico suíço que viveu em Gaza de 1892 a 1895 por grande forçaou
cidade forte e bela (Liesegang, 1986, p. 32). Tal termo teria como função
designar a aldeia real. No entender de Vilhena (1996, p. 105), onde quer que
Gungunhana se fixasse, sempre a sua povoação se chamaria Manjacaze. Outros
dão-lhe uma interpretação diferente, considerando que resulta da palavra Va
lhakazi a quem golpearam com as lanças e mataram(Tempo, n.º 600, de 11-4-
1982, suplemento). Este significado parece ter-se perdido, substituído por um
outro que acentua a sua condição de terra de lutas e de heróis, de mortes e
sangue vertido. Assim, temos mãos de sangue mandla ya gázi , expressão do
forte derramamento de sangue que se verificou aquando da instalação de
Ngungunhane nestes territórios do sul de Gaza, cuja versão corrente é comer
sangue, isto nas vozes de informantes locais. Segundo um deles, à sombra da
árvore onde, diz a tradição, dava as ordens aos seus guerreiros, Ngungunhane,
confrontado com as enormes baixas causadas pelos muchopes, interrogou-se:[4]
porquê este sofrimento, porque é que estou a comer sangue? No dizer de um
outro informante, muito idoso, conhecedor da história pelas narrativas do seu
pai, um dos primeiros intérpretes dos portugueses, os muchopes estavam a
chegar-lhe bem. Subsistem algumas dúvidas em relação ao local efectivo da
capital do império de Gaza. De acordo com os elementos reunidos por Liengme
(Vilhena, 1996; Liesegang, 1986), quando Ngungunhane veio do Norte e se
instalou por volta de 1889, fê-lo efectivamente junto à lagoa Sulé, numa zona
localizada a sudoeste desta, onde permaneceu até 1891. Posteriormente mudaria
para um local mais próximo da actual Manjacaze, onde terá ficado pouco tempo.
Acabaria por se afastar da lagoa, fixando-se na planície de Manguanhane, alguns
quilómetros a norte da actual vila, hoje parte do distrito do Chibuto. Segundo
diversas estimativas, a povoação possuía entre 600 e 1600 palhotas, sendo para
a época de grande dimensão, embora muito inferior a Lourenço Marques ou
Inhambane (Liesegang, 1986, pp. 33-34). Teria sido este o aglomerado
populacional atacado e queimado pelas tropas portuguesas em 1895 (Liesegang,
1986, pp. 9-10).
A Manjacaze moderna é obra do esforço colonial na sua tentativa de ocupação do
interior moçambicano. Se é inquestionável o interesse do Estado colonial em
apoderar-se do vasto território do sul de Moçambique, disseminando para isso
estruturas político-administrativas em novos centros urbanos com destaque
para os lugares ligados à luta contra a ocupação colonial , a escolha deste
espaço estará também relacionada com a posição geográfica e a abundância de
recursos populacionais e naturais. Note-se que, aquando da definição do traçado
da linha do caminho-de-ferro do Xai-Xai (capital provincial) para o interior da
província de Gaza, João Bello comandante de esquadrilha em Gaza, mais tarde
ministro das Colónias escreveu que, em virtude de a reforma administrativa
ter extinguido o distrito de Gaza, o traçado inicialmente pensado deixava de
fazer sentido, desvalorizando assim a importância do Chibuto, lugar vizinho
localizado a menos de meia centena de quilómetros de distância. Na sequência
das viagens empreendidas pelo extinto distrito, Bello chegou à conclusão de que
a circunscrição dos muchopes era a melhor, com uma população trabalhadora, pelo
que propunha que a linha se dirigisse para Manjacaze. Discutindo o apego ao
trabalho por parte das populações nativas, Bello et al. (1911, p. 7)
escreveram:
Nesta parte do país, que é a região dos M'chopes, notámos que os
indígenas se dedicavam com o maior interesse à agricultura, e
conseguintemente estavam as suas culturas em melhores condições do
que outras culturas indígenas que anteriormente havíamos visto [...]
a gente dos M'chopes se mostra em geral ansiosa por obter melhores
variedades de sementes para as suas culturas e mostra bem assim o
desejo de experimentar novos processos de cultivação.
Estava, pois, plenamente justificada a passagem do caminho-de-ferro por
Manjacaze: um lugar e uma população com características adequadas às
necessidades do projecto colonial. Na perspectiva de Bello:
O terreno é todo repartido entre machambas de mandioca e milho,
alternadas com extensos tractos de mattas. Por toda a parte abundam
cursos d'água, as lagoas e os pantanos. Nas grandes planícies,
frescas e húmidas, vestidas d'uma relva verde e macia, pastam
rebanhos de carneiros, cabras e bois; nas machambas, as mulheres com
pequenitos às costas, cavam a terra [...] Estava, pois, a meu ver,
indicado qual o ramal do caminho de ferro de penetração Inhambane-
Inharrime-Lourenço Marques, que primeiro se construísse em Gaza
deveria ter por objectivo ligar a Circumscripção dos M'chopes ao
Chai-Chai, como terminus da navegação, que frequenta o porto de
Inhampura [Lima, 1971, pp. 27-28].
O objectivo principal era ligar Lourenço Marques a Inhambane, passando pelo
distrito de Manjacaze. Finalmente, em 1909 deu-se início à obra de construção
do caminho-de-ferro, em via estreita de 0,75m, numa extensão de quase 52 km
entre Xai-Xai e Manjacaze, entrando em funcionamento no ano seguinte. Em 1915
iniciou-se a construção do ramal para Chicomo. Além do grande propósito da
ligação das duas grandes cidades do sul de Moçambique, a linha propiciaria uma
outra finalidade, como refere Bello (Lima, 1971, p. 29): assegurar o escoamento
fácil dos produtos agrícolas da região, então considerada de grande produção.
Esta função seria desempenhada, com inegável sucesso, durante quase todo o
século xx. Juntamente com a implementação do aparelho político-administrativo,
a linha permitiu consolidar a presença portuguesa nesta parte de Moçambique,
bem como projectar a força do poder colonial sobre as populações locais. Em
suma, foi a articulação de diversos recursos e singularidades, nomeadamente de
carácter político-simbólico e económico, que acabaria por dar a Manjacaze a sua
configuração moderna.
Na estruturação político-administrativa actual, o centro urbano, os bairros
adjacentes e as suas áreas limítrofes constituem o município de Manjacaze,
estabelecido pela lei n.º 2/97, de 18 de Fevereiro, vulgarmente designada por
lei das autarquias. A sua instituição é directamente decorrente das profundas
alterações políticas verificadas em Moçambique com o ajustamento estrutural
imposto, em boa medida, pelas instituições do Consenso de Washington. Em 1996
foram constitucionalmente (artigo 190º) estabelecidos dois tipos de autarquias
locais: município, para as cidades e vilas; povoação (sede do posto
administrativo), para os pequenos aglomerados, directamente dependentes do
primeiro. Com base naquilo que se designou por gradualismo (Hanlon, 1998),
foram definidos como municípios somente as 23 cidades e 10 das 68 vilas do
país. Manjacaze foi uma delas. O município é composto pela assembleia municipal
e pelo conselho municipal. A primeira tem poderes deliberativos e de
fiscalização, o segundo é o órgão executivo.
No distrito habitam 161 147 pessoas, das quais somente 14,5% vivem na vila de
Manjacaze (II Recenseamento geral da população e habitação 1997 Resultados
definitivos, 1999). Trata-se de um dos distritos com maior peso demográfico em
Gaza, a província a que pertence administrativamente. Os dados estatísticos
mais recentes para Manjacaze e Gaza apontam para o perfil demográfico dominante
nos países periféricos, em particular na África subsariana, marcado por
reduzida esperança de vida, predomínio da população jovem e elevadas taxas de
fecundidade e mortalidade. A população distribui-se por 38 495 agregados
familiares, dos quais cerca de 40% são alargados. A evolução demográfica
reflecte os efeitos da guerra no distrito de Manjacaze e, em especial, o terror
exercido pela Renamo sobre a população civil (v. gráfico n.º 1).
Evolução demográfica no distrito de Manjacaze
[gráfico n.º 1]
A partir do recenseamento de 1950, constata-se que o crescimento populacional
foi contínuo até 1980. Com mais de 180 000 habitantes nesse ano, ao longo da
década a população iria diminuir para quase metade. Como aconteceu em muitos
outros distritos rurais, a população procurou refúgio seguro nas grandes
cidades, sobretudo na capital, abandonando as suas casas e machambas. Com a
paz, estabelecida em 1992, a população começa a regressar às suas terras, dando
origem a uma recuperação demográfica que, porém, ainda não permitiu que se
atingissem os valores populacionais de 1980.
Espaço urbano e vida comercial em Manjacaze
Manjacaze organiza-se em torno do seu centro político e administrativo, sito em
redor da avenida principal, e das suas duas zonas comerciais (v. figura n.º 1 e
anexo_n.º_1). O eixo principal do centro urbano é definido por uma grande
avenida. No topo sudeste encontramos o edifício da administração distrital. O
outro topo é rematado pela Praça dos Heróis. Neste espaço destaca-se a pira da
união nacional monumento evocativo da luta pela independência , onde se
realizam algumas das manifestações mais solenes promovidas pelo Estado. No seu
interior temos o jardim dos Heróis Moçambicanos. A faixa central da avenida é
ladeada, em ambos os lados, por edifícios em alvenaria que formam o melhor
conjunto arquitectónico da vila. No lado leste, a maioria dos edifícios tem
funções político-administrativas. Já do lado oposto predomina o uso
habitacional. Com a excepção de quatro edifícios, as construções remontam todas
ao tempo colonial. Os seus usos denunciam o modo como o espaço é socialmente
apropriado e usado ao longo da história. Apesar das grandes mudanças
institucionais relacionadas com a substituição do aparelho político-
administrativo colonial pelo Estado moçambicano, há uma certa continuidade na
ocupação dos espaços construídos, com 22 edifícios (cerca de dois terços do
total) a manterem a função habitacional no período pós-independência.
Representação esquemática do centro administrativo de Manjacaze[5]
[figura n.º 1]
Desde o período colonial que este espaço central constitui a zona nobre de
Manjacaze, nele se situando os principais órgãos de soberania do Estado
moçambicano e as residências de função da elite político-administrativa local.
Na cabeceira superior da avenida situa-se o edifício da administração, cujas
traseiras dão para a praça acima referida. Junto a este temos o canhoeiro onde,
segundo a memória colectiva, Ngungunhane se reunia para conversar com o seu
povo e dar as ordens aos seus chefes militares[6]. Eis como Eduardo e Janet
Mondlane viram o local quando visitaram Manjacaze em 1961:
A administração estava situada num local maravilhoso com vista para um grande
lago. À frente, os portugueses tinham construído um bonito parque com
estatuetas no interior de um pequeno lago, como acontece em muitas outras
pequenas cidades. Mas o que era extraordinário aqui é que perto da porta de
entrada havia uma grande árvore, o Eduardo reconheceu-a como uma Ndsondso, com
uma pequena placa dizendo que ali era o lugar onde Ngungunyana se costumava
sentar com os seus conselheiros quando tinha de tomar decisões [Manghezi, 2001,
p. 203].
É em volta deste núcleo urbano o chamado bairro do Cimento que se organizam
os restantes bairros residenciais de Manjacaze: Liberdade, Eduardo Mondlane,
Josina Machel, Alto e Macave[7]. São compostos, na sua esmagadora maioria, por
habitações em caniço e telhado de chapa, muitas delas com chão de cimento e
energia eléctrica (INE, 1999). As casas de alvenaria vão já ponteando a
paisagem urbana com alguma regularidade. Para além das famílias de
comerciantes, possuem habitações deste tipo os assalariados mais bem
remunerados: trabalhadores de algumas empresas de grande dimensão com
instalações no Xai-Xai e a operar no distrito[8], profissionais técnicos,
membros dos corpos intermédios da administração pública e outros que, não o
sendo, têm acesso a ganhos provenientes da prestações de pequenos favores.
Quanto às zonas comerciais, a formada pelo mercado Xikanhanine está localizada
no cruzamento da avenida principal acima referida com as estradas para o Xai-
Xai e para Macuácua. Esta enorme área de comércio e serviços ditos informais
foi criada em 1992[9], contando com quase 400 barracas [10], na sua maioria
exploradas por mulheres (v. fotografia n.º 1)[11]. Inicialmente organizado em
torno do mercado central[12], velha construção colonial destinada a abastecer a
vila de produtos frutícolas, hortícolas e de outros bens alimentares, situado
no extremo da zona do comércio formal, a exiguidade do espaço não permitiu
acolher todos os que desejavam tentar a sua sorte no comércio, pelo que daria
origem ao Xikanhanine. Como acontece nas demais cidades e vilas de Moçambique,
os mercados informais de Manjacaze são consequência directa das mudanças
económicas verificadas a partir de meados dos anos 80 do século xx[13].
Considerado inicialmente um sector marginal, o crescimento e enraizamento deste
tipo de actividade tornou-o central na economia. A liquidação de empresas e o
desemprego em massa empurraram muitos indivíduos para os pequenos negócios
informais. Apesar das dificuldades da sua medição, devido às actividades muito
fluidas e heterogéneas nele compreendidas produção artesanal, vendas
ambulantes, comércio em barracas e outras construções precárias , o comércio
informal tornou-se o principal empregador no sector terciário da economia,
como é hoje notório em Manjacaze. Em termos sociais, funciona como um
amortecedor, absorvendo parte significativa da força de trabalho excedentária
que, sem esta alternativa, poderia constituir-se num perigoso factor de
desestabilização e agitação, perturbando fortemente a já baixa legitimidade do
Estado. Por outras palavras:
Placa de boas-vindas na entrada principal do mercado Xikanhanine
[fotografia n.º 1]
O sector informal acaba, assim, por espelhar a crise geral que afecta o país,
representando por um lado a fraqueza do Estado na produção de respostas para os
problemas económicos e sociais e, ao mesmo tempo, as formas alternativas (e
seus constrangimentos) que visam compensar quer os impactos económicos, quer os
impactos sociais produzidos pela crise, através das redes de solidariedade [T.
C. e Silva, 2002, p. 86].
A outra zona comercial fica na parte baixa da cidade, onde se situam as lojas
do chamado comércio formal, quase todas de famílias muçulmanas de origem
indiana, há várias gerações implantadas na vila. Nas traseiras das lojas ou,
mais raramente, por cima, quando o edifício é nobre, situam-se as residências
dos comerciantes. Este pólo comercial é também zona habitacional privilegiada,
nela residindo, entre outros, os velhos comerciantes e suas famílias. Trata-
se de um pequeno quarteirão constituído por duas longas artérias paralelas,
cortadas por quatro ruas perpendiculares (v. fotografia n.º 2). A última, que
leva à estação do caminho-de-ferro, é a linha terminal do comércio no lado
sudoeste. Quase no entroncamento desta artéria com a rua principal localiza-se
a estação de camionagem dos Transportes Oliveiras, presente em Manjacaze desde
o tempo colonial, com carreiras regulares para as principais cidades do sul e
centro de Moçambique[14]. Ao longo das ruas da vila, traçadas na época colonial
a régua e esquadro, os estabelecimentos vão hoje alternando de diversos
modos: a maioria está em acentuada decadência e todos acusam os efeitos
exercidos pelo processo histórico e pelas trajectórias de vida dos seus
proprietários.
Manjacaze: rua principal do comércio formal
[fotografia n.º 2]
Tendo sido quase todos construídos no período colonial, os edifícios comerciais
causaram, na época, a mais viva impressão na população indígena. Eduardo
Mondlane oferece-nos uma descrição encantada desse encontro, recordando o seu
tempo de meninice:
Pela primeira vez, vejo casas com esquinas, tão diferentes das
nossas cabanas circulares. Admiro estas construções de alvenaria,
cobertas de chapa ondulada. Há tantas que formam uma rua orientada de
leste para oeste. Entre duas filas de lojas passa uma estrada que vem
de muito longe e vai para muito longe. Fazendo companhia à estrada,
uns postes carregam fios a que chamam linha telefónica. De tempos a
tempos, um fio separa-se para entrar dentro de uma casa de alvenaria.
Algumas construções são feitas inteiramente de chapa, paredes e
tecto. Estas são pintadas de amarelo, enquanto os edifícios de pedra
ostentam uma brancura de cal [Khambane e Clerc, 1990, p. 43][15].
As famílias de origem indiana e religião muçulmana ainda detêm o grosso dos
estabelecimentos comerciais. A sua presença é bem antiga, anterior ao avanço da
colonização portuguesa e à presença de comerciantes europeus por estas
paragens, permanecendo bem viva na memória de muitos dos descendentes. Honwana
(1989, p. 39) refere que os mercadores indianos do sul de Gaza já frequentavam
a zona de Manjacaze em finais do século xix, aonde se deslocavam para comerciar
com Ngungunhane e a sua corte. Por outro lado, alguns membros das famílias com
presença mais antiga colocam a chegada dos seus pioneiros por volta do final da
primeira década do século xx. Segundo o relato de um destes informantes
indianos mais velhos:
O meu avô chega a Lourenço Marques, vindo de barco de Damão, por
causas das condições de vida, aí por volta de 1907. Como isto tudo
era território português, havia a necessidade de explorar isto.
Sabendo das potencialidades comerciais desta zona, já do tempo de
Vasco da Gama, e sabendo das particularidades dos indianos no ramo
dos negócios, havia todo o interesse em não serem só os portugueses a
fazerem negócio. E como o próprio indiano tem uma característica
natural de interacção com os africanos... Este meu avô, em Lourenço
Marques, junta-se com uma senhora mista a quem faz um filho e uma
filha. Ele misto, indiano, maometano. [Poucos anos depois] ele emigra
para Gaza [Manjacaze], conhece a minha avó, Maria Antónia de Deus,
uma negra de Inhambane. Com esta minha avó faz uma série de filhos.
A maioria das famílias de origem indiana que se instalou na primeira metade do
século xx permanece em Manjacaze. Com a excepção dos de origem hindu, atingidos
pelas retaliações levadas a cabo pelas autoridades coloniais na sequência da
anexação de Goa, Damão e Diu, os restantes comerciantes indianos atravessaram
todo o período colonial sem problemas de maior, não obstante a presença
crescente e muito influente dos colonos portugueses, com destaque para Joaquim
José da Cruz, Manuel Rodrigues Neto e Manuel da Silva Santos. Com a
independência, os comerciantes brancos de Manjacaze regressaram a Portugal,
onde tinham as suas raízes e vínculos familiares. Por falta de alternativa,
ficaram os indianos, não obstante as suas manifestas reservas em relação ao
programa político da Frelimo. Conquanto a maioria do património imobiliário dos
comerciantes portugueses, por via do abandono, tenha caído nas mãos do Estado
moçambicano, alguns indianos aproveitaram oportunidades, entretanto surgidas,
de exploração desses negócios. Mais tarde, aquando das privatizações, assumiram
a posse jurídica da propriedade. Foi precisamente o caso de um dos nossos
informantes:
Ele [o antigo colono] trespassou aquilo para mim, e depois o governo
nacionalizou aquilo. Ao princípio o administrador que estava lá
queria aquilo para dar a uns familiares seus. Mas não conseguiu
tirar. Eu peguei nos documentos, fui mostrar, viram que eu tinha
razão. Depois, com a alienação, eu fiquei com aquilo.
Ao mesmo tempo que diversas famílias indianas aproveitam para consolidar os
seus negócios, adquirindo ao Estado a propriedade das cantinas abandonadas
pelos antigos colonos portugueses, transformadas pelo poder revolucionário em
lojas do povo, alguns africanos negros vão tornar-se negociantes e,
posteriormente, proprietários dos seus espaços comerciais, com a alienação do
património imobiliário nacionalizado pelo Estado. A distribuição da propriedade
é muito diferente daquela que existia aquando da independência. Os comerciantes
brancos praticamente desapareceram, enquanto os indianos souberam perdurar,
sobrevivendo ao processo político pós-independência e aceitando, não sem alguma
acrimónia, a presença forte dos africanos. Como mostra a figura n.º 2, mais de
três quartos dos estabelecimentos mudaram de dono, com a propriedade a passar
das mãos de colonos brancos para indianos e, em menor grau, para africanos.
Mudança da propriedade comercial após a independência
[figura n.º 2]
De referir ainda que os três estabelecimentos que não existiam no período
colonial são propriedade de dois africanos negros e de um indiano. A situação
descrita revela uma das mais importantes alterações sociais na Manjacaze pós-
colonial: a saída dos colonos brancos dá origem a uma pequena burguesia negra.
Repetindo, de certo modo, a situação vivida no período colonial com os
portugueses, os moçambicanos contam com o apoio do Estado, no qual ocupam agora
a grande maioria dos lugares político-administrativos. A sua força reside não
apenas no número, mas também (e sobretudo) no sucesso comercial de alguns e,
obviamente, na valia proporcionada pelos seus avantajados recursos políticos.
Note-se ainda que esta classe social, beneficiária directa das mudanças
políticas e das vantagens do que se pode designar por blackempowerment, é
composta por empresários com ligações à Frelimo, muitos com experiência no
exercício de cargos públicos, outros ainda com responsabilidades na vida
político-partidária.
Conclusões
Os usos do espaço em Manjacaze são indissociáveis das dinâmicas políticas e
sociais que se desenvolvem ao longo do tempo. As estruturas que definem a
matriz urbana e, em particular, o modo como elas se distribuem nela dependem
largamente da acção política do Estado e das estratégias colocadas em prática
pelos actores sociais. A Manjacaze moderna é consequência, em boa medida, de um
acto de vontade do poder colonial, como aconteceu com muitos outros lugares
gerados a partir da ocupação portuguesa. Neste caso concreto, é de relevar a
sua força simbólica, palco da derradeira batalha que opôs o império de Gaza ao
exército português. Símbolo da oposição ao colonialismo, a sua ocupação por
parte do Estado colonial, através da implementação de um centro urbano moderno,
dotado de estruturas político-administrativas e comerciais, era fundamental
para a afirmação do novo poder estatal. Se este factor foi certamente decisivo,
o sucesso urbano deste espaço é inseparável da abundância de recursos
populacionais e agrícolas. Por último, mas não menos significativo, temos a
posição geográfica deste lugar no interior sul de Moçambique, que acabaria por
justificar, entre outros aspectos, a passagem da linha de caminho-de-ferro da
capital moçambicana em direcção ao centro do território. Espaço dominado pela
construção de edifícios modernos destinados a utilização comercial e que foram
eloquentemente descritos por Eduardo Mondlane, Manjacaze é um arquétipo
vigoroso, qualquer que seja o ponto de observação do modo como a modernização
se constrói em Moçambique.
O factor político foi também importante enquanto mecanismo de apoio a
determinados grupos em detrimento de outros. Através da mobilização de
diferentes recursos, nomeadamente relacionais, os actores sociais tentam
explorar em seu proveito as oportunidades existentes. Estas variam com o tempo
histórico, como ficou especialmente evidente em relação à evolução dos tipos e
propriedade dos negócios de comércio em Manjacaze. No caso dos mercados
informais, que deram origem a dois novos espaços urbanos vincados por usos
sociais específicos, eles são consequência directa das alterações políticas e
económicas produzidas pela implantação do neoliberalismo em Moçambique. Nele
trabalham e procuram sobreviver mulheres e homens negros, animados pela crença,
profundamente individualista, da responsabilidade própria nos seus destinos de
vida e na concomitante expectativa de enriquecimento económico e ascensão
social, de certa forma comprovada pelos raros exemplos que conhecem,
transformados pelos discursos dominantes em paradigmas do trabalho esforçado,
ao alcance de qualquer um que possua iniciativa e força de vontade, ou seja,
que possua o tão proclamado empreendedorismo. Quanto ao mercado formal, os
comerciantes negros detêm já uma projecção económica e política que lhes
garante uma posição quase hegemónica. Tal exprime uma mudança socialmente
relevante que implicou a transferência de património imobiliário (incluindo
lojas e residências) entre pessoas sem ligações de parentesco.
A estas rupturas contrapõem-se algumas continuidades, mormente no uso dos
espaços. Apesar das mudanças políticas e sociais ocorridas e que não deixaram
de se repercutir nos edifícios e noutras estruturas urbanas que organizam o
espaço urbano, o modo como são usados não se alterou de modo significativo. Na
velha zona de comércio formal os edifícios continuam a ser utilizados como
espaços comerciais, permanecendo os comerciantes e suas famílias agarrados,
como sempre, às suas lojas, confundindo-se estas com as suas residências. O
mesmo pode ser dito para os edifícios públicos, ainda que tal deva ser
articulado com outros aspectos que acentuam a ruptura no quadro da aparente
continuidade. Apesar de manterem as mesmas funções, o contexto político é
radicalmente diferente e os protagonistas são também outros. À frente das
instituições estatais que funcionam nos edifícios referidos estão hoje os
representantes do Estado moçambicano, e já não os agentes do poder colonial
português, facto que implica a produção de olhares bem diferentes sobre estes
edifícios: em lugar de símbolos da ocupação colonial, constituem símbolos do
Estado saído da luta armada contra a presença portuguesa. Tal convoca a nossa
atenção para o papel do poder político-estatal na estruturação dos espaços
urbanos e nas mudanças sociais e simbólicas. Se este foi decisivo para tornar
possível, pós-independência, novos olhares vinculados a narrativas e símbolos
distintos do passado colonial, o poder político-estatal jogou também uma acção
fundamental, como vimos, na formação de uma pequena burguesia negra em
Manjacaze. Aqui há que considerar também, com a prudência que a perspectiva
teórica assumida exige, a acção dos actores sociais. Procurando a todo o tempo
tirar partido da margem de manobra proporcionada pelo campo político-
institucional e suas orientações, mormente em termos económicos, é manifesto
que alguns africanos negros souberam utilizar em seu proveito as oportunidades
abertas pelas transformações verificadas no país. Por sua vez, os comerciantes
de origem indiana souberam perdurar na actividade comercial, superando com
razoável perícia os escolhos colocados pelo trajecto histórico do país, em
especial durante o período revolucionário.
Em suma, este espaço urbano mostra que a mudança social, mormente a que se
relaciona directamente com a vida comercial, objecto central do texto, é feita
de rupturas e de continuidades. Lugar híbrido, tingido por lutas encarniçadas e
pelo cruzamento de povos e culturas muito diferentes, a acção do Estado assume
um papel decisivo na configuração das estruturas, incluindo as que se
relacionam com a organização dos espaços urbanos. Ela faz-se num quadro
político-social complexo no qual se opõem diferentes grupos sociais e étnicos,
em que sobressai a relativa, mas apesar de tudo importante, margem de manobra
dos actores sociais e institucionais para agirem sobre as estruturas,
transformando-as de acordo com os seus interesses e projectos. Ou seja,
Manjacaze revela que o modo como o espaço é apropriado, utilizado e
transformado depende das dinâmicas sociais, económicas e políticas, como
defendem os teóricos marxistas, assumindo o factor político, conforme sustentam
os teóricos weberianos, um papel assinalável, ainda que em grau variável, cuja
intensidade e influência dependem do contexto histórico.