Fernando Pessoa e a invasão da Abissínia pela Itália fascista
Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários
desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos
que somos todos nós neste mundo, senão abexins? [Fernando Pessoa,
Outubro de 1935].
A pouco mais de um mês da sua morte, ocorrida a 30 de Novembro de 1935,
Fernando Pessoa escreveu dois textos sobre a invasão da Abissínia (Etiópia)
pela Itália fascista, destinados à imprensa lisboeta, mas que não puderam ser
publicados. Pode neles constatar-se o mesmo ânimo crítico com que o escritor
vinha produzindo, desde Fevereiro desse ano, uma série de escritos em prosa e
em verso contra Salazar e o Estado Novo. Nessa torrente de escrita política de
1935, em que se define claramente o perfil de um opositor não só do
salazarismo, como também do fascismo, incluem-se, entre outros: o artigo
Associações secretas[1], em defesa da Maçonaria, a que se podem juntar
numerosos fragmentos deixados inéditos pelo autor, relacionados com a polémica
que o seu artigo desencadeou na imprensa[2]; uma dúzia de poemas satíricos
contra Salazar e o Estado Novo[3]; diversos textos e poemas anticatólicos,
visando a crescente influência da Igreja na política portuguesa; um longo
artigo crítico sobre Salazar, em francês; uma carta ao presidente da República,
Óscar Carmona, de protesto contra o governo; uma crítica contundente a um
discurso de tom totalitário do ministro da Justiça Manuel Rodrigues[4]. Estes
escritos, bem como os artigos sobre a invasão da Abissínia e ainda outros
textos produzidos ao longo do ano de 1935 mostram o crescente empenhamento
político de Pessoa, na fase final da sua vida, em defesa da liberdade e da
dignidade do homem, que ele julga então ameaçadas tanto em Portugal como no
mundo.
Embora nunca tivesse consagrado ao tema do fascismo, como doutrina ou regime
político, uma análise mais elaborada, Pessoa deixou entre os escritos
impublicados da famosa arca numerosos fragmentos e trechos alusivos a Mussolini
e ao fascismo, que olhava com desdém e sarcasmo[5], embora a personalidade do
Duce, pelo seu carisma (ou magnetismo, como então se dizia), lhe tivesse
merecido uma referência vaga e indirectamente elogiosa, ainda que num contexto
de rejeição das ideologias fascistas e nazis[6]. O nacionalismo liberal do
conservador de estilo inglês Fernando Pessoa não se confundia com o
nacionalismo animal ou nacionalismo mórbido do fascismo italiano assim o
definiu em duas notas que deixou inéditas[7]. Desde logo, o desprezo do
fascismo pelas liberdades individuais e a condição de submissão do indivíduo ao
Estado totalitário nunca permitiriam a identificação de Pessoa com o regime de
Mussolini, tal como não permitiriam a sua identificação com o comunismo. O
escritor sustentava, aliás, que havia uma identidade fundamental entre os
regimes fascista e comunista, em virtude do anti-liberalismo comum[8]. Num
texto dos anos 20, Pessoa considera o fascismo e o comunismo como forças
dissolventes da civilização europeia[9]. Num texto inédito de 1933-1935, Pessoa
acrescenta aos dois o nazismo: Sovietes, comunismo, fascismo, nacional-
socialismo tudo isso é o mesmo facto, o predomínio da espécie, isto é, dos
baixos instintos, que são de todos, contra a inteligência, que é do indivíduo
só.[10] Os textos que em 1935 escreveu sobre a guerra ítalo-abissínia, de que
adiante se tratará, exprimem a oposição do escritor não só à agressão
imperialista da Itália contra a Etiópia, como também ao próprio regime
fascista, em que Pessoa via a origem da política agressiva italiana. Não se
pretende aqui decidir se estas inequívocas posições do escritor permitem ou não
rotular Fernando Pessoa de antifascista, questão que já ocupou vários
autores, mas viciada à partida por uma definição peculiar de antifascismo. As
conotações específicas que essa expressão possa ter não invalidam o facto da
oposição essencial de Pessoa ao fascismo, ainda que de um ponto de vista
conservador liberal. O antifascismo, nacional e internacionalmente, nunca foi
propriedade de nenhuma corrente política.
Na primeira secção deste artigo faz-se uma resenha dos acontecimentos,
salientando a importância de que se revestiu a guerra ítalo-abissínia, como
antecedente da Segunda Guerra Mundial. Na secção seguinte, passa-se em revista
as reacções públicas de diversos sectores portugueses à invasão da Etiópia,
desde aqueles que a condenaram frontalmente até aos que a apoiaram com
entusiasmo, passando pela atitude lacónica e ambígua do governo de Salazar,
dividido entre a simpatia pelo regime de Mussolini e o cuidado inspirado pela
integridade do império português. A terceira secção expõe a posição de Fernando
Pessoa. Em apêndice, reproduzem-se os seus escritos sobre o tema, parcialmente
inéditos.
A invasão da Etiópia pela Itália fascista
A crise ítalo-abissínia teve o seu início em Dezembro de 1934, com o incidente
de Ual-Ual, localidade fronteiriça etíope que forças italianas vindas da
Somália haviam previamente ocupado. A crise culminaria, a 3 de Outubro de 1935,
na invasão do Império Etíope (ou Abissínia) pela Itália fascista, objectivo há
muito anunciado por Mussolini. A guerra prolongou-se por sete meses até à
conquista de Adis Abeba, em Maio de 1936. Ignorando os seus compromissos
internacionais, Mussolini justificou a invasão invocando razões contraditórias:
por um lado, o direito de a Itália defender as fronteiras das suas colónias dos
alegados ataques da vizinha Abissínia (a realidade era a inversa) e, por outro,
o direito abstracto de alargar o império italiano, argumentando com o excedente
demográfico do seu país e as necessidades de expansão económica. A Abissínia
era então, com a Libéria, um dos dois únicos países africanos livres do domínio
colonial. Esquecendo o apoio que a Itália dera em 1923 à entrada da Etiópia na
Sociedade das Nações (SDN, sediada em Genebra) e o tratado de amizade celebrado
entre os dois países em 1928, Mussolini proclamava agora a urgência de pôr fim
à escravatura e de levar a civilização àquelas paragens bárbaras, no quadro
da missão italiana em África. Os bombardeamentos aéreos contra a população
etíope e a utilização de armamento químico suscitaram uma onda de condenação da
Itália na imprensa europeia.
O conflito ítalo-abissínio é considerado um dos acontecimentos precursores da
Segunda Guerra Mundial. Antes mesmo da guerra civil espanhola (1936-1939), foi
esse conflito que primeiro fez falar da iminência de uma nova guerra na Europa
pós-1918. A aventura abissínia, que serviu primeiramente objectivos internos do
regime fascista (Smith, 1997, p. 385), suscitou um conflito internacional
protagonizado também pela Grã-Bretanha, potência tutelar da SDN. Esta liga,
criada em 1920 na sequência do Tratado de Versalhes, viu-se incapaz de resolver
o conflito e de impedir a guerra entre a Itália e a Etiópia, dois países
membros da organização. A tentativa de arbitragem do incidente fronteiriço no
quadro da SDN, as propostas franco-britânicas de conciliação, a concentração de
forças navais inglesas no Mediterrâneo, a ameaça de sanções económicas da SDN
contra a Itália, tudo foi ineficaz para evitar a agressão italiana ou para
repor a paz.
Este insucesso representou uma viragem nas relações internacionais, deitando
por terra as esperanças postas nos mecanismos de segurança colectiva criados no
fim da Grande Guerra e lançando definitivamente o descrédito sobre a SDN. Os
Estados Unidos nunca tinham aderido à organização e o Japão e a Alemanha
hitleriana tinham-na abandonado em Fevereiro e Outubro de 1933,
respectivamente. A oposição das potências democráticas europeias à aventura
imperial de Mussolini contribuiu para afastar a Itália da frente que a Grã-
Bretanha pretendia liderar para fazer face ao rearmamento alemão e à política
revanchista de Hitler. A França, governada então pelo futuro colaboracionista
Laval, estava mais disposta a fazer cedências à Itália do que a cooperar
militarmente com a Grã-Bretanha. Hitler, por seu turno, perante a ausência de
uma firme reacção concertada dos governos aliados à invasão da Etiópia, ganhou
coragem para o episódio da remilitarização da Renânia, em 7 de Março de 1936,
quando ainda decorria a guerra da Abissínia. Por seu turno, a ocupação militar
da Renânia teve o condão de dissuadir a Grã-Bretanha de propor novas sanções
contra a Itália, abandonando assim a Etiópia à sua sorte.
A reacção inglesa à invasão foi, pois, frouxa e inconsequente Mussolini
chamou-lhe bluff e tinha boas razões para o pensar (Smith, 1997, p. 386) ,
como se a Grã-Bretanha se não importasse tanto com o destino dos etíopes e
desejasse principalmente evitar fornecer à Itália fascista um pretexto para
cortar com as potências aliadas e cair nos braços de Hitler. Divergências entre
os conservadores britânicos e o receio de precipitar de imediato uma guerra
europeia foram factores que desencorajaram o uso da força naval pela Grã-
Bretanha. A secreta esperança de ver a Itália embrenhada numa guerra longa e
difícil em África também pode ter influenciado a atitude britânica. Esta mesma
ideia perpassou pela mente do então ministro dos Negócios Estrangeiros
português, Armindo Monteiro (Oliveira, 2000, pp. 131-147). Mas a frouxidão, a
prudência e o hipotético maquiavelismo britânicos não conseguiram evitar a
aproximação da Itália à Alemanha de Hitler, que, contrariamente às potências
democráticas, não se opôs à invasão da Etiópia e rejeitou as sanções económicas
da SDN contra a Itália. A aproximação assim gerada entre a Itália e a Alemanha
reforçar-se-ia, pouco depois, com a intervenção de ambas na guerra civil
espanhola ao lado de Franco, culminando, em Outubro de 1936, na assinatura de
um tratado de amizade entre os dois países. A partir de Novembro desse ano,
Mussolini começaria a falar no eixo Roma-Berlim, abrindo caminho para o
reconhecimento italiano do Anschluss (1938), para o Pacto de Aço (1939) e
para o Tratado Tripartido (1940), que ligaram definitivamente a Itália fascista
aos destinos da Alemanha nazi.
Reacções portuguesas à invasão
Em Portugal, perante a anunciada e, depois, efectiva invasão da Abissínia, é
possível destacar três tipos de reacções, com mais ou menos eco na imprensa.
Diga-se que a censura salazarista, quer por razões de afinidade política dos
dois regimes, quer também devido a frequentes reclamações e pressões do chefe
da legação italiana em Lisboa (Oliveira, 2000, 142), estava pouco disposta a
deixar passar na imprensa ataques ao regime e à pessoa de Mussolini[11].
A condenação da invasão parece ter sido o sentimento mais comum da opinião
pública portuguesa, tanto à esquerda como à direita, ainda que com
justificações diversas ou só parcialmente coincidentes. Essa condenação teve,
porém, um eco algo apagado na imprensa, pelos motivos indicados. Foram seus
arautos, entre outros, Julião Quintinha, no semanário O Diabo[12], e Tomás
Ribeiro Colaço, no semanário Fradique[13], o que revela que o governo, apesar
de tudo, tolerou alguma expressão pública do sentir anti-italiano. Uma polémica
jornalística teve mesmo lugar facto já então muito raro sob Salazar ,
iniciada por Tomás Ribeiro Colaço, no Fradique, com o artigo A guerra dos
conservadores, em que visava a estupidez dos chamados conservadores
portugueses que apoiavam a guerra conquistadora de Mussolini. Colaço era ele
próprio um nacionalista conservador, mas com ligações a Rolão Preto, o que não
parece ajudar a explicar a inusitada tolerância da censura perante uma polémica
pública sobre temas políticos, expressa em termos muito vivos. Colaço comparava
os conservadores portugueses apoiantes da invasão italiana da Abissínia com
aqueles mesmos conservadores lusos que, durante a Grande Guerra, se haviam
mostrado germanófilos e destacava um deles, Alfredo Pimenta. Para este,
segundo Colaço, o único aspecto relevante do conflito da Abissínia residia no
facto de Mussolini ser um ditador e um monárquico (qualidades louváveis para
Pimenta) que defrontava um preto com uma coroa (o imperador etíope Hailé
Selassié) e se opunha às ambições da democracia inglesa (detestáveis para
Pimenta). Ora, segundo pensava Colaço, por mais extraordinário Homem (sic)
que fosse o ditador italiano, diante da invasão italiana da Abissínia a alma
portuguesa só podia vibrar de uma forma:contra Mussolini. Os interesses
portugueses em África assim o ditariam, dada a ameaça que os argumentos de
força do imperialismo mussoliniano podiam representar para as colónias
portuguesas. Mas a essa razão portuguesa Colaço acrescentava outras,
estabelecendo mesmo um confronto entre o fascismo italiano e o conservadorismo
britânico, favorável a este último. A posição da nossa alma tem de ser ao lado
da Inglaterra, concluía Colaço, precisando assim o seu partido e desfazendo
qualquer eventual suspeita de que se opusesse, por princípio, a todos os
imperialismos ou assumisse a defesa do direito etíope à independência.
O jornal católico e monárquico A Voz, pela pena do seu director Fernando de
Sousa, assumiu as dores de Pimenta e dos conservadores estúpidos ofendidos
por Colaço, numa nota de primeira página em que o distinguiu com o epíteto de
trolaró, sinónimo de pateta.[14] A réplica de Colaço ainda pôde ser publicada,
insistindo na acusação de estupidez[15], mas a polémica não continuou,
aparentemente devido à censura. O semanário Fradique (em que Fernando Pessoa
chegara a colaborar) também não durou muito mais, extinguindo-se em Dezembro.
O apoio declarado a Itália, bastante mais raro na imprensa portuguesa do que a
sua condenação, ficou sobretudo representado pelo próprio Alfredo Pimenta em
artigo publicado um mês antes da invasão no diário A Voz jornal apoiante de
Salazar e simpatizante das ambições imperiais italianas. Pimenta, publicista
monárquico, apoiante de Salazar e conhecido entusiasta do fascismo italiano,
proclamava aí, nas vésperas da guerra que se esperava: Todos os nossos votos
vão para a vitória rápida e decisiva da Itália. Porque a vitória da Itália é a
vitória de Mussolini [...] Se houver guerra, que a Itália vença
triunfalmente, imperialmente, e que ocupe, com energia e decisão, o que precisa
para a expansão e valorização do seu povo renovado pelo milagre mussoliniano.
[16] Os direitos da Etiópia não mereciam qualquer consideração a Pimenta: A
Etiópia, na Sociedade das Nações, a falar em pé de igualdade com a Itália é
de a gente rebentar a rir. Pimenta exigia também um maior rigor da censura
portuguesa contra a imprensa, alegadamente maçónica, que apoiava o Negus etíope
e atacava Mussolini porque, explicava ele, não podia morder em Salazar. Sobre
Alfredo Pimenta, conviria aqui acrescentar que Fernando Pessoa nutria por ele
uma profunda antipatia. As razões do desprezo de Pessoa por Pimenta eram várias
e antigas, mas em 1934-1935 novos motivos se lhes tinham juntado: a plausível
intervenção de Pimenta junto do júri do prémio de poesia do Secretariado da
Propaganda Nacional para que a obra A Romariafosse preferida à Mensagem[17] e,
na sequência do artigo de Pessoa em defesa da Maçonaria, um artigo de Pimenta
em A Voz em que atacava o escrito de Pessoa e fazia insinuações malévolas a seu
respeito.[18] Pimenta é alvo de vários ataques violentos em escritos de Pessoa
de 1935 deixados inéditos (Barreto, 2009, pp. 253-255 e 277-279).
Em atenção, provavelmente, à atitude apaziguadora, se bem que ambígua, com que
o papa Pio XI prevenira, em 26 de Agosto de 1935, contra uma guerra injusta,
o católico director de A Voz, Fernando de Sousa, coibiu-se de adoptar uma
posição editorial de apoio declarado à invasão, preferindo manifestar o seu
apoio de modo menos explícito. Numa série de artigos de tom racista,
intitulados Quadros vivos da Abissínia, Fernando de Sousa descreveu o país
africano membro da Sociedade das Nações como barbárie mascarada de
civilização e acervo de povos bárbaros dominados e explorados por verdadeiros
sobas, sob a suserania nominal de um tiranete guindado à categoria de
imperador.[19] Enquanto cem mil soldados italianos se iam concentrando nas
fronteiras da Etiópia com a Eritreia e a Somália, o director de A Voz tentava
provar a incapacidade do país africano para se governar segundo os padrões do
mundo civilizado. Na sua opinião, teria sido um erro e até um acto
juridicamente nulo a admissão do Império Etíope na SDN[20]. Esta organização,
por sua vez, estaria dominada pela Maçonaria Universal, que, através dela,
planearia reinar sobre o mundo.[21] Também no plano religioso procurou
Fernando de Sousa encontrar motivos, já depois de iniciada a invasão, para
diminuir a Abissínia, contestando a sua qualidade de país cristão e rotulando
de heréticos os cristãos coptas etíopes.[22] O cristianismo etíope seria, além
de herético, grosseiro e supersticioso, ainda assim professado apenas por uma
minoria da população, diante de uma maioria de maometanos, pagãos, feiticistas
e judeus.[23] Numerosas caricaturas tiradas da imprensa fascista italiana
foram reproduzidas na primeira página de A Voz, tentando mostrar uma Abissínia
miserável, caótica, esclavagista e belicista. Em todo o caso, Fernando de Sousa
também cedeu a tribuna do jornal a Alfredo Pimenta, que a aproveitou, como
vimos, para dar largas ao seu entusiástico apoio a Mussolini e à invasão da
Etiópia.
Distinta tanto da condenação inequívoca como do apoio declarado à invasão, a
posição do governo português foi lacónica, ambígua e constrangida. Nem Salazar
nem os membros do seu governo se pronunciaram publicamente a favor ou contra a
invasão, tentando criar, apesar do alinhamento português pela posição inglesa
em Genebra, uma aparência de alheamento e neutralidade. Evitando fazer
quaisquer declarações públicas sobre a crise ítalo-abissínia e, em particular,
sobre a guerra, o governo remetia a posição de Portugal para a sua qualidade de
membro do Conselho da SDN. A orientação geral em matéria de política externa e
colonial fora oportunamente definida por Salazar numa nota oficiosa publicada
na imprensa a 20 de Setembro, quando já se esperava a todo o momento o início
da invasão. As bases dessa orientação eram o não envolvimento de Portugal nas
contendas e desordens europeias (embora se estivesse perante a iminente
agressão de um país europeu a um país africano), a continuada adesão de
Portugal ao espírito da Sociedade das Nações (desde que esta não interferisse
nos assuntos coloniais portugueses), a reiterada confiança na aliança inglesa
e, por fim, a expressão de boa fé nas declarações com que Mussolini
recentemente desmentira qualquer pretensão italiana em relação às colónias
portuguesas.[24]Desta orientação genérica, porém, nada se podia inferir
inequivocamente acerca do sentimento do governo português sobre a invasão da
Abissínia. Assim, a condenação da invasão por Portugal, se de condenação se
pode falar, ficou meramente implícita na actuação do representante português em
Genebra, apresentada pelo ministro Armindo Monteiro como decorrendo das
obrigações jurídicas de Portugal no quadro da SDN e, assim, diluída na acção
colectiva dos países membros da organização. Com essa actuação, o governo
português procurava sobretudo garantir, apoiado na aliança inglesa e no
mecanismo colectivo da SDN (liderada, de facto, pela Grã-Bretanha), a
integridade e a segurança das colónias portuguesas contra futuras tentativas de
conquista. Era esta uma ameaça hipotética, mas não totalmente fantasista, dados
os insistentes rumores que circulavam, em 1935, sobre a exigência italiana e
alemã de revisão do mapa de África, rumores de que a imprensa portuguesa se
fazia eco.
Em Genebra, após o início da invasão, o ministro Armindo Monteiro vira ser-lhe
confiada, por influência britânica, a presidência de um subcomité, o chamado
comité dos Seis, encarregado de examinar a agressão italiana à luz da Carta
da SDN e de elaborar o respectivo relatório. Mais tarde, também o delegado
português na SDN, Augusto de Vasconcelos, assumiria a presidência do comité
incumbido de formalizar as sanções económicas contra a Itália (Oliveira, 2000,
p. 140). Estas circunstâncias, algo imprevistas, eram lisonjeiras para a imagem
da diplomacia e do governo portugueses, mas criavam uma espécie de protagonismo
formal de Portugal na condenação da Itália fascista que o governo de Salazar
estaria longe de desejar. Em Lisboa, para atenuar essa impressão, o órgão
oficioso do regime, o Diário da Manhã, insistia em que a posição de Portugal
não era a dos antifascistas contra o fascismo, mas sim a da SDN, contra os
países membros que faltassem ao cumprimento das suas obrigações.[25]
Simultaneamente, Armindo Monteiro, numa das suas raras declarações à imprensa
sobre a invasão, tentava assegurar que a posição jurídica de Portugal,
decorrente dos seus compromissos internacionais, não afectava a simpatia do
seu governo para com a Itália de Mussolini. O ministro confessava a pena
infinita e a mágoa que lhe causava o cumprimento das obrigações decorrentes
da Carta da SDN, especialmente no capítulo das sanções económicas contra a
Itália.[26] Era uma posição que, segundo Monteiro explicou num despacho de
Novembro de 1935 para o embaixador português em Roma, acarretava sacrifícios,
de ordem até sentimental[27], atendendo às afinidades existentes entre os
dois regimes autoritários. Com efeito, a condenação da Itália num fórum
internacional comportava um risco de contágio político para o governo de
Salazar, que Armindo Monteiro exprimiu com alguma clareza no mesmo despacho: O
amesquinhamento do regime mussoliniano pode atingir os mais governos de tipo
autoritário e conservador da Europa.[28] Na conjuntura de 1936, após a
remilitarização da Renânia por Hitler, o ministro português passaria a advogar
junto do ministro dos Estrangeiros da Grã-Bretanha, Anthony Eden, a desistência
pura e simples das sanções contra a Itália (Oliveira, 2000, pp. 145-146).
A tomada de posição de Fernando Pessoa
É neste cenário que Fernando Pessoa desde Fevereiro de 1935 em ruptura
pública com o Estado Novo decide escrever, em Outubro, a pouco mais de um mês
da sua morte, dois artigos destinados à imprensa lisboeta, tomando claramente
posição contra a invasão da Abissínia. Esses escritos, que não chegaram a ser
publicados, foram conservados no seu espólio e são aqui reproduzidos em
apêndice.
Um deles, intitulado Profecia italiana, um curto artigo de duas páginas
dactilografadas, deixou-o o autor em versão final, assinado e pronto a publicar
[29] (v. apêndice_1). A razão da sua não publicação pelo Diário de Lisboasó
pode ter sido a intervenção da censura[30], da qual Pessoa se queixou nesse ano
repetidamente. Desde que, em 4 de Fevereiro desse ano, publicara no Diário de
Lisboa o artigo Associações secretas, tomando posição contra o projecto de
lei que visava extinguir a Maçonaria, Fernando Pessoa tornara-se persona non
grata para o regime, que até havia pouco o cortejara e que, em Dezembro de
1934, lhe concedera mesmo um prémio literário pela Mensagem. Por instrução
transmitida aos serviços de censura, segundo o próprio Pessoa apurou em 1935,
quaisquer referências favoráveis ao seu nome, mesmo puramente literárias,
deveriam ser omitidas na imprensa, como consequência da sua intervenção a favor
da Maçonaria.[31] Tinham também aumentado desde o início da invasão da
Abissínia, como já foi referido, as pressões diplomáticas italianas sobre as
autoridades portuguesas contra alusões desfavoráveis à Itália ou ao regime de
Mussolini.
O outro artigo de Pessoa, mais extenso, mas que visivelmente não foi concluído,
é composto por um texto dactilografado de três páginas, sem título, inacabado
(apêndice_2), ao qual se anexam aqui seis fragmentos manuscritos de
apontamentos ou rascunho, material genético para o artigo (apêndice_3). O
título projectado deste artigo era, segundo se pode deduzir, O caso é muito
simples. Com efeito, num projecto editorial desta mesma altura, certamente dos
últimos que Pessoa elaborou, figura um artigo com esse título, destinado ao
jornal R[epública] ou ao D[iário] de L[isboa][32]. Ora a frase do título
projectado aparece no primeiro parágrafo do original dactilografado,
circunstância que, juntamente com a coincidência temporal, estabelece a
correspondência entre os dois.
Em Profecia italiana, Fernando Pessoa quase se limita a citar e comentar umas
considerações muito críticas sobre o nacionalismo, o militarismo e o
imperialismo italianos, respigadas de um número antigo do jornal socialista
Avanti, de Turim, datado de Janeiro de 1913, ou seja, vinte e dois anos antes.
Num artigo desse jornal, cuja autoria só no final é revelada por Pessoa,
troçava-se da conquista da Líbia pela Itália, em 1911-1912, reles guerra de
conquista que o governo italiano celebrava então como se fosse um triunfo
romano. Depois de desvendar a autoria de Benito Mussolini (que, em 1913, era o
director do Avanti), Pessoa observa ironicamente que tais considerações se
haviam revelado proféticas, em vista do que em Outubro de 1935 estava a
acontecer com a Itália uma alusão à guerra de conquista da Abissínia,
ordenada pelo mesmo Mussolini. E a rematar, este desabafo de Pessoa sobre o
ditador italiano: Não ter ele fixado residência em profeta!
A fonte que Pessoa utilizou na feitura de Profecia italiana encontra-se no
seu espólio. As considerações de Mussolini no Avantide 1913 tinham sido
recentemente citadas em jornais ingleses, nomeadamente no Daily Express, de 19
de Outubro de 1935. Um recorte deste jornal tinha chegado às mãos de Pessoa,
proveniente de um luso-britânico, Amsinck Allen[33], que o enviara para a
redacção do Diário de Lisboa juntamente com uma carta datada de Lisboa de 23 de
Outubro. A carta, juntamente com o recorte, encontra-se no espólio de Pessoa,
[34] o que permite conjecturar que o artigo Profecia italiana foi escrito a
convite do jornal nos dias que se seguiram à recepção da carta de Amsinck
Allen, na última semana de Outubro.
Com o artigo O caso é muito simples (de que é apenas possível dizer que foi
escrito depois de 7 de Outubro[35], podendo, pois, ser anterior à Profecia
Italiana), Pessoa pretendia tomar resolutamente posição contra a invasão da
Abissínia, denunciando-a como uma agressão injustificável à luz da moral e do
direito. O artigo propunha-se abordar três pontos principais: a agressão da
Itália, a reacção da Sociedade das Nações e, em particular, da Inglaterra e,
por fim, a atitude que Portugal deveria tomar. Apenas o primeiro ponto ficou
aparentemente concluído.
Começa Pessoa por se interrogar a que luz haveria de se considerar os problemas
postos pela invasão da Etiópia. Até que ponto se deveria ter em conta os
factores demográficos e os interesses expansionistas da Itália? Seria
aceitável, nos tempos modernos, a conquista de uma nação por outra? Poderiam os
critérios políticos nacionais ou internacionais ter primazia sobre os
critérios da moral e do direito? Pessoa sustenta que não:
Os progressos da nossa civilização, por estorvados que tenham sido e
constantemente o estejam sendo, levaram-nos todavia a não aceitar por
bons, na ordem nacional ou na internacional, critérios que
antigamente seriam, quando não aceitáveis, pelo menos admissíveis. Se
na ordem prática muitas vezes se faz o que se não admitiria em
teoria, continua a estar de pé a teoria, ainda que violada ou
postergada [...] Resulta que não temos que considerar os interesses
de Itália, ou de qualquer outra nação, senão à luz de saber se eles
estão ou não de acordo com a moral e com o direito, e isso vem a dar
em se estão de acordo com os superiores interesses da humanidade.
Ninguém, segundo Pessoa, poderia ter dúvidas de que se tratava de uma agressão
de um país forte a um país fraco e, como tal, de um acto condenável por todos
os sistemas morais humanamente aceitáveis. A própria Sociedade das Nações
confirmara já o que desde o princípio todos vimos, isto é, que a Itália fora
a agressora. Poderia a Itália invocar algum argumento para justificar tal acto?
pergunta Pessoa. Os motivos avançados pela Itália são de seguida por ele
analisados. O argumento de que a Itália, porque sobre-populada, teria direito a
expandir-se é refutado por Pessoa com a afirmação de que os outros países,
selvagens ou não, não têm culpa da sobrepopulação da Itália. E acrescenta:
[...] há que notar que a sobrepopulação é um indício de baixo nível
civilizacional, pois que os povos altamente civilizados tendem para a
baixa da natalidade [...] O que um país sobrepopulado tem que fazer,
na ordem moral, isto é, para resolver adentro da moral esse problema,
é tratar de baixar a sua natalidade. A Itália está mais precisada de
que lhe preguem doutrinas neo-malthusianas do que lhe preguem
fascismo.
Outra justificação italiana para a agressão era, diz Pessoa, o alegado direito
de, como país civilizado, a Itália tomar conta de um país como a Etiópia, que
é selvagem ou semi-selvagem. Pondo em causa o próprio conceito de civilização
e a legitimidade de qualquer nação dever civilizar outra, Pessoa aborda, por
fim, a questão da escravatura alegadamente praticada na Etiópia para confrontar
essa acusação italiana com a situação da liberdade e dignidade humanas na
própria Itália fascista:
[...] a escravatura é imoral, para nós hoje, porque considera o homem
como uma coisa, porque considera a alma humana como subordinável a
uma potência material o dinheiro com que compre esse corpo , ou
seja, em ultima análise, porque despreza a dignidade e a liberdade
humanas. Ora a Itália fascista considera o homem como uma coisa, pois
o considera subordinado ao Estado, a Itália fascista despreza todas
as liberdades individuais.
Neste ponto se interrompe o artigo, que ficou inacabado. Nas notas e fragmentos
de rascunho que Pessoa escreveu para este artigo (apêndice_3) há mais algumas
observações que se podem reter aqui. Num trecho, discutindo aparentemente a
posição defendida pela imprensa governamental portuguesa, segundo a qual, com o
seu voto em Genebra, Portugal não condenara o fascismo, mas sim a infracção
italiana à Carta da SDN, Pessoa declara:
Se com isto se pretende dizer que não há relação entre o imperialismo
agressivo dos italianos e o fascismo, a resposta é que isso é falso,
e, o que é mais, que é estupidamente falso.[36]
A ligação entre o imperialismo e o fascismo italianos é abordada noutro trecho
onde afirma: É a fatalidade de todos os povos imperialistas que, ao fazer os
outros escravos, a si mesmo se fazem escravos.[37] Num outro fragmento,
rebatendo o argumento de que também a Inglaterra oprimira a Irlanda no passado,
Pessoa afirma:
O problema ítalo-abexim é o que está diante de nós: é esse que temos
que examinar [...] Nem o ter a Inglaterra procedido mal com a Irlanda
no passado serve de justificação à Itália para que proceda mal no
presente [...] Quando se dá uma série de crimes, torna-se, a certa
altura, necessário pôr-lhes cobro[38].
Noutro fragmento, reforçando esta mesma ideia, Pessoa escreve que a hora da
opressão, moralmente, passou[39].
Pessoa não chegou a abordar, como projectara, a questão da posição que Portugal
deveria adoptar em face da guerra ítalo-abissínia. Nos apontamentos
respeitantes a este artigo que foi possível localizar no espólio também não há
nenhuma observação sobre os interesses portugueses em África ou, em particular,
sobre a ameaça que para Portugal poderiam significar a política imperialista da
Itália e os crescentes rumores sobre reivindicações coloniais da Alemanha
hitleriana. Ora, foi precisamente esse o tema principal do debate que se
verificou na imprensa portuguesa em relação com a invasão da Etiópia, como no
caso da polémica de Tomás Ribeiro Colaço com Alfredo Pimenta e Fernando de
Sousa. A própria posição do governo português pode primeiramente explicar-se
pela preocupação com a integridade das colónias portuguesas, uma vez que não
faz sentido ver na actuação do governo de Salazar uma atitude de puro
seguidismo em relação à Grã-Bretanha ou, ainda menos, à SDN. Fosse qual fosse a
razão de não ter escrito sobre esse aspecto português da questão, é de
sublinhar que Pessoa defendia, como se pode ler na primeira parte do seu
artigo, que a questão ítalo-abissínia, no seu conjunto, tinha de ser
considerada à luz da moral e do direito, num plano extranacional, e não
segundo os critérios nacionais deste ou daquele país. Dando, assim, prioridade
ao tratamento do tema à luz de princípios gerais e universais, é natural que
Pessoa concedesse menor relevo aos aspectos relacionados com os interesses
portugueses.
Conclusão
As posições de Fernando Pessoa sobre a invasão da Etiópia pela Itália fascista,
que a censura impediu de tornar públicas, confirmam o crescente empenhamento
político do escritor, na fase final da sua vida, numa luta individual contra as
ameaças à liberdade que, por meados dos anos 30, se faziam sentir cada vez mais
em Portugal, como parte e reflexo de uma vaga que percorria toda a Europa.
Analisando com a sua habitual independência um conflito internacional de magna
importância em que Portugal assumiu um protagonismo inesperado, no quadro da
Sociedade das Nações , os escritos de Pessoa aqui em exame revelam aspectos
pouco conhecidos, ou até agora deixados na penumbra, do seu pensamento
político. Sobre este, desde a década de 50 que se vem esboçando um debate,
tornado mais vivo e documentado a partir de 1974, com a gradual revelação de
centenas de páginas de escritos inéditos[40]. O intelectual e artista em cujo
ideário vários autores se empenharam, nas últimas décadas, em destacar
afinidades com as correntes autoritárias (apontando na sua obra o elitismo
antiplebeu e anti-democrático, a recuperação modernista de temas tradicionais
do nacionalismo e o incensamento de soluções políticas messiânicas e
ditatoriais[41]), aparece nos textos apresentados a defender posições e
princípios de sentido claramente oposto às ideologias dos regimes autoritários
então triunfantes: a defesa da liberdade e do indivíduo perante o Estado; o
primado do direito e da moral sobre os interesses nacionais nas relações
internacionais; a condenação da força como fundamento do direito[42]; a
condenação do expansionismo territorial e das suas clássicas justificações; o
questionamento do direito de civilizar povos bárbaros e do próprio conceito
vigente de civilização; a ideia de uma conexão essencial entre fascismo,
imperialismo agressivo e opressão política nos próprios países imperialistas; a
defesa dos mecanismos de prevenção e solução dos conflitos internacionais no
quadro da SDN.
Não se pode também deixar de relacionar a posição condenatória de Pessoa sobre
a aventura africana da Itália fascista com a posição expressa pelo escritor
sobre o império colonial português em 1926, nas suas respostas a um inquérito
de Augusto da Costa[43], republicadas em 1934 no livro deste último, Portugal
Vasto Império (Costa, 1934,29-36). Respondendo à pergunta se Portugal,
amputado das suas colónias, perderia ou não toda a razão de ser como povo
independente no concerto europeu, Pessoa começava por declarar: Para o
destino que presumo que será o de Portugal, as colónias não são precisas. Num
rascunho ou primeira versão das respostas, um manuscrito inédito existente no
espólio do escritor, datável, pois, com segurança, de 1926, Pessoa é ainda mais
categórico: A manutenção ou perda das nossas colónias em nada pode afectar o
nosso destino de grande potência espiritual, se tivermos que tê-lo, ou que
poder tê-lo. O inverso daquelas palavras do Evangelho é verdadeiro tambem:
podemos bem perder o mundo, desde que ganhemos a alma[44].
Os escritos de Pessoa sobre a questão da Etiópia esclarecem e completam, pela
sua perspectiva e fundamentos mais vastos, as posições tomadas por Pessoa ao
longo de 1935, quer em escritos públicos, quer em escritos deixados inéditos,
sobre a situação política portuguesa. Completam e, de certo modo, esclarecem
também a posição expressa por Pessoa, já em 1926, sobre o próprio império
colonial português.