Gilberto Freyre. Social Theory in the Tropics
Peter BurkeeMaria Lúcia G. Pallares-Burke, Gilberto Freyre. Social Theory in
the Tropics, Oxford, Peter Lang, Ltd., 2008, 261 páginas.
Concebido sob os auspícios das celebrações do "ano nacional de Gilberto de
Mello Freyre", o livro, escrito a quatro mãos, principia com uma frase
sintomática do autor brasileiro: "O passado nunca foi; o passado
continua". Raramente a escolha de uma epígrafe é tão reveladora da
intenção de Peter
Burke e Maria Lúcia Pallares-Burke que, para tornarem "Gilberto nosso
contemporâneo", procuram esconjurar os traumas do passado, actualizando as
teorias de Gilberto Freyre para o século xxi.
Apesar de estarmos perante um livro de síntese, voltado sobretudo para o
público estrangeiro que desconhece Gilberto Freyre, a exposição evita leituras
simplistas e lineares da sua obra. Os autores fazem, aliás, questão de
enfatizar o feixe de contradições do seu percurso intelectual e político,
analisando-o numa pluralidade de contextos. Desta opção resulta uma visão mais
equilibrada de Gilberto Freyre, o que contribui para clarificar algumas
questões referentes ao seu trajecto.
O livro está dividido em sete capítulos, que contemplam núcleos temáticos e não
cronológicos da obra de Freyre. Esta semibiografia, inserida na colecção
"the past in the present" (que visa estimular a divulgação de autores
e ideias relevantes para os problemas actuais), apresenta Gilberto Freyre
enquanto precursor da "teoria social nos trópicos" e encorajador da
harmonia e fraternidade entre "raças" e culturas. Creio, no entanto,
que esta apreciação é discutível, sobretudo na forma como os autores a
realizam: "Freyre's ideas are of particular relevance today for both
political and academic reasons. His suggestion that Brazilians should accept
themselves as a mixture of ethnic groups and cultures [...] remains a topical
issue in Brazil, but globalization has made it relevant to many other parts of
the world as well" (p. 18). Ao combinar valorização científica com
relevância política, os autores implodem as distinções conceptuais, correndo o
risco de simplificar o seu argumento. Aliás, sob o ponto vista político, creio
que a actualidade de Freyre deveria ser equacionada à luz de uma forma
particular de dissolver os conflitos que privilegia as justaposições harmónicas
aos conflitos abertos. Esta forma de solucionar as disputas define-se,
precisamente, pela conquista do terreno "neutro", o que contribui
para naturalizar as formas orgânicas de complementaridade social em nome do
consenso.
A opção pela indistinção conceptual assinala uma mudança no pensamento dos
autores, designadamente de Peter Burke, que anteriormente apenas se referia às
"afinidades electivas" entre a história social de Gilberto Freyre e a
história nova realizada pelos Annales, sem extrapolar essas considerações para
o campo da política. À semelhança, aliás, do que aconteceu com pensadores
contemporâneos de Gilberto Freyre como Fernand Braudel, Lucien Febvre ou
Roland Barthes que identificaram atempadamente as valências do seu pluralismo
metodológico, bem como a sua irresistibilidade literária, quase proustiana,
apesar de o seu estilo coloquial e impreciso ter sido incompreendido pela
ortodoxia académica da época.
Neste livro, os autores despolitizam, porventura, algumas concepções
freyrianas, sobretudo quando enfatizam a sua importância para o presente:
"one of the central arguments of this book is that histories and
historical writing [...] need to be redrawn in order to take account of the
pioneering work of this gifted sociologist-historian from the periphery"
(p. 17). Este pioneirismo tende a elidir que na origem da observação nostálgica
do mundo dos senhores de engenho estava uma reacção de Freyre à chegada da
modernidade ao Brasil. A própria noção de "equilíbrio de
antagonismos", mais do que uma opção teórica, deve ser examinada à luz de
uma interpretação do Brasil pelo lado do afecto, que tem consequências
normativas, pois assegura o equilíbrio de um país. Creio, por isso, que é
necessário contestar a naturalização do pioneirismo de Gilberto Freyre de modo
a evitar que o seu regresso apareça metamorfoseado numa figura da moderação.
Nesse sentido, parece-me adequado questionar algumas noções dos Burkes,
principalmente aquelas que tendem a encerrar o seu estudo num sistema de
valorização do autor. Opção particularmente evidente nos dois primeiros
capítulos, "The importance of being Gilberto" e "Portrait of the
artist as a young man", que, apesar da elegânciawildeanaejoyceanados
títulos, são indicativos de uma estratégia académica que encontra no autor a
resolução para os enigmas do tempo.
Refira-se, porém, que a importância do autor não é sinónimo da sua hagiografia,
pois os autores não se coíbem de referir as contradições do percurso de Freyre,
nomeadamente o seu desvio racista na década de 1920, quando o tema ainda tinha
algum peso científico. Nessa altura, Freyre testemunhou o reforço das ideias
racistas nas campanhas que restringiam a imigração nos EUA, tendo,
inclusivamente, afiançado que a sua não aplicação ao Brasil prejudicaria o
país. Segundo os autores, o jovem Freyre teria sido vítima do espírito do
tempo: "It was therefore understandable that Freyre would take these
racist opinions as if they were proved scientific facts and that, following the
majority of people around him, his prejudices would grow stronger" (p.
38).
De regresso ao Brasil, Gilberto Freyre reencontrou nas tradições da sua região
um argumento para colmatar o complexo de inferioridade, realizando em Casa
Grande & Senzala uma evocação poética e sensual do seu passado que
possibilitou a invenção do Brasil. Os autores dedicam um capítulo inteiro à sua
obra-prima, Master and Slaves, documentando de forma clara vários detalhes do
livro, que vão desde a história de infância até às questões de género, raça,
cultura, hibridismo, etc.
As contribuições do seu primeiro livro foram inúmeras e a sua repercussão
pública transformou Gilberto Freyre num "intelectual público". Esse é
o tema do quarto capítulo, no qual os autores estudam as conturbadas ligações
entre o intelectual e a política. Se, na década de 1930, Gilberto Freyre foi
tomado por "agitador" e "bolchevique" por advogar, entre
outras coisas, um inquérito às condições de trabalho dos usineiros nordestinos,
na década de 1950 o escritor brasileiro tornou-se cúmplice do regime
salazarista ao aceitar viajar por "tantos portugais", elaborando uma
teoria sobre o modo português de colonizar. Posteriormente, radicalizou a sua
posição política e apoiou a ditadura militar brasileira, extremando, assim, o
seu brasileirismo, que, segundo os autores, "had got out of hand at this
time, and that his concern with foreign ideas and intrusions, which according
to him might `debrazilianize' the country, had made of him an aggressive
nationalist" (p. 123).
Estes exemplos demonstram que o livro dos Burkes, contrariamente aos estudos
apologéticos ou aos libelos acusatórios, é um divisor de águas nos estudos
freyrianos. Todavia, ficamos com a sensação de que os autores tentam preservar
o melhor de Gilberto Freyre, especialmente quando consideram
"compreensíveis" as suas simpatias pelo racismo científico,
associando essa filiação ao espírito do tempo. O mesmo se passa quando referem
a aparente excepcionalidade do seu "nacionalismo agressivo", emitindo
juízos de valor sobre formas de nacionalismo, como se estas fossem naturalmente
boas ou más, e não formas permeadas por determinações ideológicas que
cristalizam diferenças e rivalidades nacionais.
No quinto e sexto capítulos, "Empire and republic" e "The social
theorist", os autores destacam o papel do sociólogo brasileiro na
introdução de abordagens que favoreceram o pluralismo metodológico; o estudo
das práticas da vida quotidiana, incluindo o vestuário, a culinária, o corpo e
outros detalhes aparentemente triviais da vida quotidiana; o estudo das
questões identitárias e culturais. Na análise da sua "teoria social",
os autores refutam a ideia de "luso-tropicalismo", por esta estar
demasiado ligada ao colonialismo português; no entanto, reaproveitam a ideia de
"democracia racial", esvaziando a sua controvérsia. Embora os autores
discutam as formas de recepção da "democracia racial", a sua polémica
tende a ser dissipada na medida em que esta aparece como um sinónimo de
consenso e paz social. A ideia passa a assumir um carácter de horizonte
inultrapassável para a convivência fraternal e harmónica entre
"raças" e culturas no século xxi: "in an age of racist revival
and racist violence, it is clear that the world still has something to learn
from Gilberto Freyre's `mixophilia' and his encouragement of harmony and
fraternity" (p. 214).
É, pois, no espírito do wishful thinking que os autores encerram o livro com um
capítulo intitulado "Gilberto our contemporary". A contemporaneidade
de Freyre, para além de académica, seria também política, pois as suas normas
anti-racistas ajudariam a prevenir as contendas, evitando, assim, a irrupção de
conflitos raciais. Contudo, os autores parecem esquecer que essas normas,
indissociáveis do projecto freyriano de imaginação do Brasil, não impediram que
a obliteração das diferenças, por via da miscigenação e consequente
patrimonialização da mulata, apagasse as desigualdades. Nesse sentido, a
"democracia racial" encobriu, mas não resolveu, os problemas do
Brasil.
Apesar de o livro encerrar com o seu capítulo menos conseguido,
sobrevalorizando o nacionalismo que Gilberto Freyre criou e o seu pioneirismo
científico, os autores conseguem reinventar estudos freyrianos, acrescentando
dados indispensáveis a futuras análises. A recensão concisa do trajecto de
Freyre culmina numa proposta de regresso à sua obra, agora sob o signo da
subalternidade contra-hegemónica dos trópicos. Não deixa, contudo, de ser
irónico que, após a sua celebração popular, o autor avesso e incompreendido
pelas academias oficiais regresse precisamente por essa via. Mas não será a
institucionalização académica de Gilberto Freyre a condecoração que faltava ao
homem que tropicalizou o Brasil?
Marcos Cardão
CEHCP/ISCTE