A New History of Antropology
Henrika Kuklick(org.),A New History of Antropology, Malden, Oxford, Carlton,
Blackwell Publishing, 2008, 402 páginas.
A história da antropologia é um embaraço. Tais poderiam ser as palavras de
abertura deste livro. A New History of Anthropology revela uma dificuldade
inaudita em gerir e em transmitir o legado da antropologia dos séculos xx e
xix. Sob o pretexto, academicamente correcto, de não favorecer as tradições
norte-americana, britânica, francesa e germânica, em detrimento da produção
antropológica de outros países, é desferida a maior machadada de sempre na
árvore daquelas tradições, sem dúvida as mais prolíficas, relevantes e
influentes na cena internacional. A desvalorização deste facto resulta no
cantonamento da antropologia dos Estados Unidos da América, da Inglaterra, da
França e da Alemanha/Áustria a quatro fugazes capítulos da primeira parte,
intitulada, apesar de tudo, "Major traditions".
Numa altura em que seria de esperar um alargamento do naipe de antropólogos e
etnógrafos abordados, com inovadora referência a obras menos conhecidas e ainda
pouco estudadas pelos historiadores da antropologia, assiste-se, ao invés, a
uma redução drástica da própria linha da frente, ignorando por completo
demasiados nomes capitais. Basta dizer que o livro não tem uma única linha
sobre Lévi-Strauss. O capítulo sobre a antropologia francesa, confiado a
Emmanuelle Sibeud, é por si só elucidativo: não se trata de uma evocação de
ideias antropológicas, tão-pouco de métodos ou de contributos etnográficos, mas
somente de conflitos de poder entre as instituições savantes. Se Mauss,
Durkheim ou Lévy-Bruhl entram nesta história, é apenas pela disputa que
mantiveram com os etnográfos "coloniais" do Institut Ethnographique
International de Paris. Bem interessante seria que Sibeud desse, ao menos, a
conhecer algum trabalho dos muitos administradores coloniais e missionários
caídos no esquecimento. Afinal de contas, a "reabilitação" dessa
gente, feita embora em detrimento dos homens de ciência, é um contributo assaz
positivo do pós-modernismo para a história da antropologia. Veja-se o exemplo
do próprio James Clifford, que trouxe para a arena o missionário Maurice
Leenhardt. Agora, porém, nem uns nem outros. A única entrada de Marcel Mauss na
bibliografia é o seu artigo de 1913, "L'ethnographie en France et à
l'étranger". Como se não bastasse, o capítulo pára abruptamente em 1930,
deixando de fora oito décadas cruciais da produção francesa.
Esta "burocratização" da história da antropologia deve-se, em última
instância, à própria Henrika Kuklick, não apenas enquanto editora, mas por dar
o mote no capítulo de sua autoria, "The British tradition". Só na
aparência tem o mérito de não ficar encerrado no tempo de Evans-Prichard, pois,
se acompanha a antropologia britânica até ao dealbar do século xxi, é apenas
para uma reflexão de duas páginas sobre questões como o financiamento
governamental dos departamentos de antropologia ou as taxas de empregabilidade
dos doutorados. Poderia pensar-se que a segunda parte do livro, intitulando-se
"Early obsessions", colmataria um pouco as insuficiências da primeira
ao identificar temas que apaixonaram os pioneiros. Só de forma muito parcelar o
faz, no entanto, pois há algo de muito errado na selecção feita. Se foi, de
facto, prevalecente depois de Tylor, o dossierda religião primitiva confundia-
se de tal forma com o da cultura greco-latina que não faz sentido tratá-los em
separado numa obra que deixa tanto de fora. De permeio, num gesto extravagante,
Kuklick encaixou a percepção das cores, que foi tudo menos um tema dominante da
antropologia no tempo em que Rivers se lhe dedicou. Poderiam ser evocadas
tantas outras "obsessões" mais importantes, mas é suficiente referir
que o livro ignora por completo as questões de parentesco.
A hegemonia americana acaba por marcar a própria estrutura da obra, dando-se
espaço às quatro subdivisões tradicionais da antropologia norte--americana com
resultados insólitos. Veja-se, a título de exemplo, o capítulo dedicado à
arqueologia na China, da autoria de Hilary Smith, especialista em história da
ciência e da sociedade chinesas. A própria autora o reconhece: "Com
efeito, muitos arqueólogos chineses ficariam perplexos ao encontrar um ensaio
sobre a sua disciplina numa história da Antropologia." Esse capítulo
chinês é o último de uma parte essencial da obra, intitulada "Neglected
pasts", onde justamente surgem antropologias alternativas ao anglo-french
core. O sueco Christer Lindberg ressuscita admiravelmente o seu compatriota
Erland Nordenskiöld e o finlandês Edward Westermarck. Segue-se um capítulo
sobre o apogeu e declínio dos museus etnográficos holandeses e outro sobre os
"etnógrafos" socialistas exilados na Sibéria da Rússia imperial do
final do século xix. Não teria sido preferível fazer uma nova história da
antropologia dedicada de facto, com mais critério e menos arbitrariedade, às
tradições ditas "periféricas"? Como justificar que de fora ficassem,
por exemplo, a antropologia do Brasil ou a da Índia? Em vez disso, temos
direito a uma quarta parte laconicamente intitulada "Biology".
Apesar de ter como título "New directions and perspectives", a quinta
e última parte trata de questões bem antigas. Lyn Schumaker faz uma reflexão
sobre as alterações socioculturais que ao longo do século passado favoreceram
ou desfavoreceram o lugar das mulheres no terreno e na academia. Bem mais útil
é o capítulo "Visual anthropology", de Anna Grimshaw, uma incursão na
fotografia e no filme etnográfico desde o século xix. O capítulo
"Anthropological regionalism", de Rena Lederman, é o momento maior da
obra, pela actualidade da questão das áreas culturais e pela sua importância
passada, não apenas nas correntes difusionistas, mas como enquadramento tácito,
e por vezes tabu, de toda a empresa etnográfica pós-malinowskiana.
Lederman coloca o dedo na ferida ao demonstrar o ascendente de temáticas e
conceitos localizados, utilizando mesmo a expressão "Torre de Babel das
antropologias regionais". A reflexão é trazida ao presente em torno das
problemáticas da globalização, que têm provocado um inesperado revivaldas
questões difusionistas, agora sob o prisma de "conexões contemporâneas
entre gentes, objectos e ideias". No capítulo final, "Applied
anthropology", o especialista em questões de HIV Merrill Singer surpreende
pela sua recapitulação desta vertente da antropologia no universo anglo-
saxónico desde os tempos do colonialismo.
A New History of Anthropology foi hiperbolicamente louvada em recensões
críticas anglo-saxónicas pelas suas "provocative views" e
"surprising synergies", quando, na realidade, é uma obra
desequilibrada na estrutura e muito desigual nos contributos individuais. Não
aprofunda nem actualiza o conhecimento do passado e deixa de fora temas actuais
da maior importância. Poderíamos esperar, por exemplo, um balanço já possível
do debate writing culture; ouuma primeira perspectiva historiográfica do
dossier neo--animista. Parece depreender-se que Kuklick teve a intenção de
chocar pela diferença. Teria relevância se este projecto fosse levado mais
longe, criando, de facto, um percurso alternativo e original. Ora o resultado
obtido é, sobretudo, perigoso pela influência que pode e certamente irá exercer
em novas gerações de antropólogos, que ficarão com uma imagem distorcida e
incompletíssima do passado da disciplina. Apesar de ser apresentada na
contracapa como "um instrumento ideal tanto para o ensino como para a
aprendizagem da História da Antropologia", esta obra é desaconselhada para
tais fins. O seu interesse reside, sobretudo, na ideia dos "neglected
pasts", mas fica muito aquém da ideia. Salva-se o valor isolado de alguns
capítulos.
Frederico Delgado Rosa
Departamento de Antropologia da FCSH da UNL