Effusion et tourment le récit des corps
Arlette Farge,Effusion et tourment le récit des corps, Paris, Odile Jacob,
2007, 249 páginas.
Neste livro a historiadora Arlette Farge volta o seu olhar para o petit peuple,
ou seja, o "povinho", composto por marginais de toda a sorte que
perambulavam pela Paris setecentista. No entanto, o que se configura no
referido estudo não é apenas uma história das minorias, mas uma visão sobre o
corpo, procurando compreender a maneira como este se inscreveu (e foi inscrito)
no espaço social.
Pesquisando nos arquivos judiciais do século xviii e tentando apreender nestas
fontes os gestos, as falas, as atitudes, as percepções e as emoções dos corpos
marginalizados, a autora problematiza uma imagem até então desfigurada. A luta
do corpo contra a fome e a sobrevivência, mas também contra o cansaço, a
violência e as injustiças, mostrando os corpos como agentes da história.
A historiadora propõe um estudo a respeito da experiência política dos corpos,
buscando nas suas fontes não apenas os acontecimentos vividos, mas a resposta
dos corpos a tais eventos. Farge procura no século das luzes a vida dos homens
infames, "não tanto por infamado(s), do que por sem fama nem glória"
(Michel Foucault, O que é um autor?, Lisboa, Passagens, 1992, p. 8), numa
análise refinada que institui o corpo como espaço de felicidade ou infortúnio,
lugar sobre o qual agem as exigências sociais e políticas. Nesta perspectiva,
aos olhos das autoridades os corpos dos pobres são percebidos na sua
promiscuidade. As suas manifestações de indignação ou de felicidade traduzem
corporeidade e sensualidade, encaradas de forma negativa pelos de fora. O corpo
do pobre mostra a sua maneira de viver, de agir, de resistir e de lutar,
impondo e manifestando a sua presença ao longo da história.
A historiadora constrói pequenos fragmentos biográficos imbricados nos arquivos
judiciários, resgatando formas simbólicas de sensibilidades pouco perceptíveis
na longa duração. Em seis capítulos a autora problematiza a existência dos
marginalizados no Antigo Regime, restitui-lhes o barulho, a palavra e a voz,
mostrando como se processavam as relações entre si, bem como a sua maneira de
viver e os relacionamentos entre homens, mulheres e crianças.
Como leitora e historiadora, acredito que uma das coisas que mais chamam a
atenção no trabalho de Farge é a maneira como esta apreende, através de fontes
escritas, o mosaico de gestos que seguem a fala, relacionando o oral e o
gestual, ligando práticas discursivas e não discursivas e analisando a fala e
os gestos: "A palavra supõe o gesto, um tom, os movimentos da face, tudo
que insinua mundo das emoções. É a fala das sensações. Crescido, o corpo é
invadido pelo que sai de sua boca. O oral também é um gesto, uma maneira de
erradicar uma semelhança de senso comum, vindo da interioridade do ser. O corpo
se faz o rastro da declaração, transmitindo pelos gestos, a intenção das
palavras, falam: os olhos, as mãos, acompanham os ombros, o tom e a intenção
das palavras" (p. 66).
A autora destitui a normalidade aparente do acto de falar, mostrando que a
palavra dita é envolvida por gestos, expressões e posturas de um corpo que
tenta fazer-se compreender. Trata-se de práticas inscritas nos discursos
enunciados pelos documentos judiciários do Antigo Regime. Sob esta perspectiva,
acredito que Farge analisa as práticas não discursivas inscritas nos discursos
a respeito dos corpos, parecendo tentar apreendê-las na sua subtileza,
imbricadas na inteireza de sentido que dá forma ao discurso das autoridades a
respeito dos marginalizados. Neste sentido, as falas, os sentimentos, as
reacções do corpo, o lugar por ele ocupado, seja por decisão própria ou por
imposição, podem ser percebidos como práticas não discursivas que ajudam a
compor a efusão e o tormento dos corpos desenhados pela escritora ao longo do
seu livro.
Sem direitos políticos reconhecidos pelo rei, muitas vezes vítimas de violência
pelas autoridades, os corpos que perpassam o texto de Arlette Farge enfrentaram
as mazelas e as injustiças sem nenhum intermediário além das suas próprias
peles. O barulho e a desordem aparentes podem ser lidos como a sua única
maneira de inserção, de se fazerem escutar numa sociedade que lhes era hostil.
Farge enuncia não apenas a miséria que inscreve tais corpos na história, mas
também as suas alegrias, esperanças, desejos e amores, compondo um tecido
social vasto. Assim, no meio do burburinho que emana das suas fontes,
reconstitui as solidariedades e as inimizades populares, o convívio com os
vizinhos, apreendendo a fala, seja ela em forma de gritos ou sussurros, como
eventos históricos.
A efervescência dos corpos produziu tipos de relações para as quais as
autoridades não possuíam alfabeto, ou seja, não podiam compreender. Tal
incompreensão resultou numa visão estereotipada na qual muitos gestos são
percebidos como grosserias ou imbecilidades, tirando-lhes a amplitude, a força
e mesmo a subtileza daquilo que enunciam. Sob esta perspectiva, a autora mostra
que as emoções são actos sociais e a intensidade corporal através da qual se
manifestam acabava por desestabilizar o quotidiano e as regras do bem viver de
uma sociedade em mutação. A multidão aglomerada, o nomadismo, os indivíduos
errantes, o modo de lidar com as crianças, eram maneiras de ser que afrontavam
a desejada pelas autoridades.
Assim, a profusão de sentimentos expressos através dos corpos infames inscreve
os marginalizados na história. Afrontando a imagem elegante que envolve o
século das luzes e a sua efervescência cultural, Farge encontrou o murmúrio dos
anónimos. Faz emergir tais existências, criticando a visão estereotipada que
divisa a vida popular apenas nos seus excessos e misérias, incapaz de perceber
que só através do seu fervor foi possível resistir politicamente aos
infortúnios. Foi nos actos sociais carregados de sensibilidades, ou seja,
através das emoções, que os corpos e consciências modificaram a sua relação com
o mundo para que este também se modificasse. Arlette Farge cumpre o seu
propósito, isto é, restitui as sensibilidades dos corpos falantes e pensantes
da Paris do século xviii, mostrando que a liberdade, a igualdade e a
fraternidade talvez não fossem possíveis sem a efervescência dos corpos nas
suas alegrias e tormentos.
Viviane Trindade Borges
Universidade Federal do Rio Grande do Sul