A Sociologia e o Debate Público: Estudos sobre a Relação entre Conhecer e Agir,
«Biblioteca das Ciências Sociais»
Augusto Santos Silva, A Sociologia e o Debate Público — Estudos sobre a Relação
entre Conhecer e Agir, "Biblioteca das Ciências Sociais", col.
"Sociologia, Epistemologia ", Porto, Edições Afrontamento, 2006.
O livro que aqui se recenseia é o mais recente trabalho de um dos mais
destacados sociólogos portugueses que nos últimos anos tem centrado a sua
actividade profissional no campo político (enquanto dirigente partidário,
deputado e membro do governo) sem, no entanto, ter deixado de exercer algumas
intervenções pontuais no campo académico, especialmente em conferências,
congressos e outras iniciativas características da actividade deste. É o
produto de parte desta actividade que Santos Silva nos apresenta nesta obra,
nomeadamente um conjunto de intervenções efectuadas em encontros de carácter
científico de âmbitos diversos, embora sempre na órbita das ciências sociais e
da sociologia em particular.
O primeiro capítulo procura responder à interrogação "podemos dispensar
os intelectuais?" (p. 13). Com este objectivo, percorre o trajecto de
mudança da condição intelectual desde a sua expressão clássica, encarnada por
Zola no caso Dreyfus (p. 15), até às transformações ocorridas no século XX,
pelo desenvolvimento das indústrias culturais, pela generalização da
comunicação e da cultura de massas e, finalmente, pela progressiva perda de
autonomia do campo cultural e da sua crescente subordinação às leis do mercado.
Contudo, diz-nos Santos Silva, os intelectuais foram também eles responsáveis
pelo seu próprio declínio; "ao pisarem os próprios princípios de
autonomia do campo que lhes permitiam legitimar a sua acção" (p. 19),
tornaram-se funcionários, engajaram- -se politicamente, projectando uma
inevitável visão maniqueísta da sociedade circundante. A própria emergência e
consequente especialização e profissionalização do conjunto de disciplinas
incluídas nas ciências sociais em muito contribuíram para a erosão progressiva
da capacidade heurística do ensaio intelectual. No entanto, resta ainda um
lugar para o intelectual nas sociedades contemporâneas, no exercício da
"comunicação e da ‘tradução’ entre diferentes quadros culturais e
simbólicos e a actividade de interpretação dos ‘textos’, palavras, sons,
movimentos e imagens que informam a nossa contemporaneidade" (p. 26), a
partir de "lugares de confluência: entre o conhecimento científico, a
criação literária e artística e o debate das ideias" (p. 29).
O segundo capítulo versa sobre o contributo específico da sociologia para a
sociedade: uma cultura científica enquanto forma de identificar, enunciar,
analisar e resolver problemas (p. 32); um conjunto estruturado de saberes e
competências profissionais, fórmula de acção, definição de objectivos e
realização de escolhas (pp. 33-34); um potencial crítico, questionador de
evidências e problematizador do real. Da identificação dos contributos, Santos
Silva passa ao recenseamento das condições de desenvolvimento dos mesmos (p.
35), o primado da investigação fundamental, a abertura às restantes ciências
sociais, o pluralismo teórico, a consciência dos limites do saber disciplinar,
a investigação empírica e crítica epistemológica. Esta reflexão desagua
subsequentemente na abordagem do modo desejável de articulação entre
conhecimento sociológico e intervenção pública, nomeadamente em aspectos como a
política científica e educativa e o relacionamento com entidades contratantes.
A apreciação deste conjunto de problemas conduz o autor à enunciação de um
vislumbrado paradoxo na sociologia portuguesa: entre, por um lado, os
benefícios da pluralidade paradigmática e da prática de investigação empírica e
o seu reduzido aproveitamento na praxis social (p. 43) e, por outro, a
oscilação entre a vinculação da investigação à análise de práticas
propiciadoras da mudança e emancipação, por oposição ao conformismo e
convencionalismo tido aquando da investigação por encomenda institucional (p.
43).desagua subsequentemente na abordagem do modo desejável de articulação
entre conhecimento sociológico e intervenção pública, nomeadamente em aspectos
como a política científica e educativa e o relacionamento com entidades
contratantes. A apreciação deste conjunto de problemas conduz o autor à
enunciação de um vislumbrado paradoxo na sociologia portuguesa: entre, por um
lado, os benefícios da pluralidade paradigmática e da prática de investigação
empírica e o seu reduzido aproveitamento na praxis social (p. 43) e, por outro,
a oscilação entre a vinculação da investigação à análise de práticas
propiciadoras da mudança e emancipação, por oposição ao conformismo e
convencionalismo tido aquando da investigação por encomenda institucional (p.
43).
O terceiro capítulo aborda a articulação entre ciência e democracia. No
entendimento de Augusto Santos Silva, a influência que as ciências sociais
podem deter no espaço público donde emerge a agenda social e política depende
fundamentalmente do cumprimento de um conjunto de condições teóricas e
institucionais e de relacionamento com o campo social. Há, contudo, alguns
aspectos essenciais a preencher com o objectivo de melhorar a utilidade e a
influência social por parte das ciências sociais: o aumento do investimento
(interacção, socialização e intermediação) por parte dos cientistas sociais na
relação com os seus públicos (especialistas e não especialistas, efectivos ou
potenciais consumidores, utilizadores e parceiros da pesquisa científica) (p.
58); a transformação da relação dos cientistas sociais com o campo político-
mediático, conferindo- lhes mais visibilidade e protagonismo na comunicação da
ciência e na transmissão da cultura científica enquanto modo de ser e fazer
ciência (p. 60), em substituição da intermediação entre ciência e público
habitualmente efectuada pelos jornalistas/ divulgadores da ciência.
O quarto capítulo discute o variável impacto da educação no esbatimento das
desigualdades sociais no âmbito dos países semiperiféricos e periféricos do
espaço lusófono. Ao simplismo da associação imediata entre incremento da
educação e aumento do desenvolvimento económico e equidade social é contraposta
a noção, sociologicamente consolidada, do sistema educativo enquanto reprodutor
e legitimador das desigualdades sociais (p. 67). A relação entre educação e
democracia é, no entanto, bem mais complexa do que a linearidade proposta por
cada um destes caminhos. Santos Silva propõe- nos então quatro temas
fundamentais para uma agenda educativa (pp. 68-74): a democratização do
processo educativo, o papel do Estado e do mercado nesta dinâmica, o benefício
da sua estruturação em rede e, finalmente, o estímulo da produtividade e
competitividade através do enraizamento da cultura científica no quotidiano dos
cidadãos. O capítulo é rematado com a proposta de três tópicos para uma agenda
cultural (pp. 77-80): a análise das configurações e intercomunicação das
culturas nacionais no espaço dos países de expressão portuguesa e contextos
limítrofes, a definição de um discurso cultural sobre a política da lusofonia
e, por último, a articulação destes dois temas no âmbito dos movimentos sociais
e das políticas públicas, sublinhando a importância da redução das
desigualdades pela afirmação da identidade e da diferença. A democratização
educativa em Portugal constitui o tema do quinto capítulo desta obra. Nele são
enunciados os números que atestam o crescimento generalizado do acesso ao
sistema educativo português, bem como o debate acerca do sucesso do mesmo,
versando temas como as competências e saberes, a avaliação, os curricula e a
diferenciação pedagógica. Neste capítulo, Santos Silva traça o roteiro dos
desenvolvimentos políticos e doutrinários que orientaram o debate em torno do
sucesso educativo em Portugal ao longo dos consecutivos governos democráticos
(pp. 87-99), sublinhando a necessidade de mais investigação empírica por parte
da sociologia em torno do debate entre, por um lado, a escola massificada,
democrática e inclusiva e, por outro, o necessário esforço, exigência e mérito
nos processos de aprendizagem e avaliação (p. 100). O sexto capítulo procura
abordar as dinâmicas sócio-políticas do desenvolvimento local, não se limitando
à sua mera compreensão a partir do contributo das ciências sociais, mas
procedendo também à sua suscitação e condução (p. 103). A partir do muito
diverso capital de experiência acumulado a partir de processos de
desenvolvimento comunitário a partir da sociedade civil, o autor identifica e
descreve uma tipologia de actores intervenientes em articulação processual
complexa (pp. 107-111). Associando aos actores em presença o trio conceptual
formado por "local", "comunidade " e
"identidade", é possível entender melhor "a pluralidade de
actores, a diversidade das suas orientações de acção e a complexidade dos seus
jogos estratégicos" (p. 119). O sétimo e último capítulo retrata a
mudança social operada em Portugal desde a década de 60 e a forma como foi
apreendida, estudada e comentada pela sociologia portuguesa (nomeadamente pelos
seus centros de investigação e investigadores mais produtivos). Nas palavras de
Santos Silva, a mudança foi tardia relativamente aos restantes países europeus,
mas "rápida, intensa e alargada " (p. 128). Portugal mudou muito
substancialmente do ponto de vista demográfico, produtivo, na composição da sua
estrutura social e nos estilos de vida. No entanto, as condições, o ritmo e os
resultados desta mudança conduziram a situação social portuguesa a uma condição
de singularidade, detectável em diversos níveis: no modelo de criação e
funcionamento do Estado-providência, no posicionamento face aos movimentos
migratórios, entre sociedade de emigração e de acolhimento, na organização
familiar e no papel das mulheres na sociedade (pp. 133-136). A investigação
sociológica tem correspondido aos desafios analíticos postos pela sociedade
portuguesa, "destacando a intensidade da transformação e a singularidade
da sociedade assim transformada " (p. 141), prática possibilitada pela
própria singularidade da sociologia portuguesa, "muito treinada na
abertura interdisciplinar e interparadigmática, muito reflexiva e sem medo de
inovar" (p. 141). Esta obra de Santos Silva é, também ela, singular.
Trata-se de um conjunto de ensaios breves e de densidade analítica variável
acerca da, por vezes, tensa e problemática "relação entre conhecer e
agir" própria da sociologia e dos sociólogos nas sociedades
contemporâneas. É, no entanto, um trabalho de natureza parcelar, distinto do
trabalho sociológico habitual, portador de um conjunto alargado de reflexões e
recomendações efectuadas por um actualmente esporádico mas reputado praticante
da sociologia portuguesa.
Nuno de Almeida Alves