Os Relógos de Einstein e os Mapas de Poincaré: Impérios do Tempo
Peter Galison,Os Relógos de Einstein e os Mapas de Poincaré. Impérios do Tempo,
Lisboa, Gradiva, 2005.
Mais um livro sobre Einstein? O mito parece não se esgotar e continua a
alimentar uma indústria de divulgação científica que sobrevive à custa de
génios e teorias revolucionárias. O título invoca também o nome de Poincaré,
ícone menor da popularização da ciência, mas com lugar garantido no panteão
desde que foi redescoberto como um dos pais fundadores da teoria do caos. Em
ambos os casos, a literatura é unânime sobre as profundas implicações
filosóficas das suas investigações e trata de envolver os dois cientistas em
considerações metafísicas sobre a experiência temporal. Recria-se até à
exaustão o relato da vitória sobre o absolutismo da mecânica newtoniana,
destronada pelo paradigma da teoria da relatividade e pela multiplicidade de
referentes temporais. Einstein e Poincaré parecem flutuar por cima das
mesquinhezas dos demais humanos, indiferentes a entraves sociais e materiais,
ocupando-se apenas de abstractos problemas de física teórica. Por meio de uma
misteriosa alquimia estabelecem-se relações directas entre as incertezas e
instabilidades do século XX e as mentes sobredotadas daqueles seres únicos.
Roland Barthes, num gesto inspirado, reduziu, nas suas Mythologies, Einstein ao
seu cérebro, órgão cuidadosamente dissecado e religiosamente guardado segundo
as normas do mais beato relicário.
A alternativa ao cérebro auto-suficiente tem sido a de mais contexto. As
teorias vêm acompanhadas de uns quantos factos sobre a sociedade, política ou
cultura da época, produzindo uma elegante moldura que deixa intocável o núcleo
duro da ciência. A participação de Einstein no movimento pacifista, a sua
relação atribulada com Mileva Mariæ ou os seus problemas com o FBI do tenebroso
J. Edgar Hoover são temas que produziram sucessos editoriais. Basta que a
familiar imagem do sábio louco apareça na capa para que as tiragens se
multipliquem. Segundo um inquérito da Time feito em 2000, Einstein foi eleito o
homem do século, quando cinquenta anos antes os leitores tinham escolhido F. D.
Roosevelt. Não é preciso ser historiador profissional para citar o new deal ou
a participação dos Estados Unidos na segunda guerra mundial como marcos do
século XX; mas como justificar a relevância de Einstein sem cair nos lugares-
comuns da divulgação científica?
Peter Galison sugere caminhos bem diferentes. Se os iconoclastas já tinham
enfrentado cientistas tão famosos como Newton, Lavoisier ou Pasteur, a figura
de Einstein parecia resistir como último bastião da separação entre ciência e
sociedade. Mas Galison não se assustou com a aura da personagem e decidiu
abordá-la com os instrumentos que têm vindo a ser aperfeiçoados pelos estudos
de ciência desde os anos 80. Em particular, preocupou-se com as práticas
laboratoriais de Einstein, entrando no gabinete de patentes de Berna, onde o
jovem Einstein decidia a sorte de múltiplas inovações tecnológicas. Pela sua
mesa de trabalho passavam dezenas de propostas de dispositivos eléctricos para
a coordenação em simultâneo de diferentes relógios, um tema fundamental para
Berna no princípio do século e do qual dependia o bom funcionamento das redes
suíças de caminho de ferro, telégrafo e relógios públicos.
Na maior parte das hagiografias do físico alemão o seu posto de inspector de
patentes aparece como um mero ganha-pão que o génio incompreendido tinha de
suportar para se poder dedicar ao que realmente importava: os elevados assuntos
da física teórica. O lendário artigo de 1905, onde pela primeira vez apresentou
a sua teoria da relatividade restrita, demonstrava a superior capacidade de
abstracção do asceta, capaz de ignorar o monótono trabalho do gabinete de
registo de patentes. Uma espécie de Bernardo Soares cientista que, enquanto
cumpre com brio as suas obrigações de ajudante de guarda-livros na Rua dos
Douradores, sonha com Samarcanda ou os mares do Sul. Mas Galison não é adepto
da solução dos heterónimos e, em vez de desdobrar Einstein em múltiplas
personagens, prefere vincar as profundas conexões entre relatividade e
tecnologia. As famosas experiências mentais de Einstein são reduzidas pelo
historiador a assuntos materiais. No esquema com que se inicia o citado artigo,
um observador equipado com um relógio é colocado no centro do sistema de
coordenadas para determinar a simultaneidade de acontecimentos: sempre que
sinais electromagnéticos de pontos distantes chegam à mesma hora local ao
observador, os acontecimentos são simultâneos. Mas este observador desencarnado
que, munido apenas de um relógio, varreu o conceito de tempo absoluto da
mecânica clássica não é, segundo Galison, uma mera abstracção do cérebro de
Einstein. O esquema refere-se directamente ao muito material do sistema de
coordenação da hora europeia, feito de cabos eléctricos, geradores e relógios;
o relógio do observador não é mais do que o relógio-mãe com os seus dependentes
locais secundários e terciários.
Einstein, ao ligar a noção de tempo a tecnologias concretas, trazia para o
coração da física a sua experiência de funcionário de patentes, definindo a
simultaneidade em função de relógios e da transmissão de sinais
electromagnéticos. O tempo universal que flui uniformemente do venerável Newton
foi substituído pelos tempos de relógios interligados. A simultaneidade produz-
se, necessita de máquinas e transmissões, não é um conceito que flutue na
esfera imaterial das ideias platónicas.
Galison segue a pista do Einstein tecnocientífico até às suas últimas
consequências, dando a conhecer o fascínio deste pelas máquinas. Além da
abundante correspondência com as suas amizades sobre bombas de vácuo ou
voltímetros, também o pai e o tio de Einstein viviam dos aparelhos
electromecânicos. Mais reveladoras ainda são as tentativas de produção de novas
patentes pelo próprio Einstein, um autêntico "mãozinhas" que
cuidava de todos os detalhes da sua pequena máquina projectada para medir
diferenças de tensão mínimas. Mas talvez a imagem do "mãozinhas "
seja excessiva, pois o que Galison descreve é uma relação entre tecnologia e
teoria que não se limita aos velhos clichés da ciência aplicada ou da teoria
que nasce da tecnologia: "As reflexões físico-filosóficas não foram a
causa da coordenação do tempo de comboios e telégrafos... Nem as vastas redes
de relógios coordenados electricamente foram a causa de que filósofos e
cientistas adoptassem uma nova convenção de simultaneidade" (p. 39)
1
. A imagem proposta é antes a de flutuações constantes entre o concreto e o
abstracto, a de mudanças incessantes de escala entre o pequeno gabinete de
patentes e as expansivas redes de caminho de ferro e telégrafo, a de transições
rápidas entre fios de cobre e metafísica.
Os adeptos dos estudos de ciência gostam de insistir na ideia de que tal forma
de olhar para a prática científica não desvaloriza a ciência. Mais do que
desmistificar grandes nomes ou mostrar o carácter convencional do conhecimento,
o interesse é perceber a relevância da ciência na fábrica social. O olhar para
o laboratório, para as práticas materiais do cientista, além de revelar a
multiplicidade de actores e objectos envolvidos na produção de factos, permite
sobretudo dar conta da co-produção de conhecimento e sociedade. Como diria
Bruno Latour, numa das suas mais famosas blagues, "dai-me um laboratório
e moverei o mundo". E poucos têm sido os historiadores da ciência que o
têm feito tão bem quanto Galison. Se neste livro o mundo do princípio do século
XX é movido pelos tiquetaques dos relógios coordenados de Einstein, em obras
anteriores a guerra fria teve de passar pelos instrumentos dos laboratórios da
big science norte-americana.
A grande diferença é que Image and Logic2, o seu livro sobre a cultura material
da física de altas energias, era um pesado volume de mais de 900 páginas de
leitura nem sempre fácil, ao passo que Relógios de Einstein tem umas dimensões
bem mais razoáveis (menos de 400 páginas, notas incluídas) e não requer tanto
esforço por parte do leitor para seguir o argumento. Só assim se explica que o
livro se encontre nas livrarias entre os volumes normalmente aprazíveis da
divulgação científica e não junto de mais enfadonhas e eruditas companhias. O
caso da edição portuguesa é particularmente revelador, pois apareceu na
colecção "Ciência Aberta" da Gradiva, a mais popular e meritória
colecção de divulgação científica do país. Aliás, não deixa de ser irónico que
aquela que é a tribuna privilegiada dos "sokalianos "3 portugueses,
onde já se publicaram violentas acusações contra os estudos de ciência4
praticados por antropólogos, sociólogos e historiadores, decida agora editar um
livro, que, provavelmente se transformará em referência obrigatória destes
"irresponsáveis " cientistas sociais.
Mas a verdade é que Peter Galison parece ser um autor consensual, pois as
guerras da ciência também não conheceram novos episódios nos EUA depois do seu
Einstein revisitado. Certamente o PhD de Galison em Física contribuiu para
acalmar os ânimos e as difíceis 900 páginas do livro anterior também ajudaram5.
Afinal, o autor é Mallinckrodt, professor do Departamento de História da
Ciência da Universidade de Harvard, onde está reunida a nata da disciplina. Mas
nada disso esconde o facto de Galison olhar para físicos de altas energias, ou
para o próprio Einstein, através de conceitos provocadores como o de cultura
material, desenvolvidos para descrever culturas indígenas, objectos clássicos
da antropologia tradicional. Se o tom de Galison nunca é tão agressivo como,
por exemplo, o de Bruno Latour, ódio de estimação dos sokalianos, nem por isso
as suas propostas são menos inovadoras ou arriscadas.
Como se não bastasse ter feito do gabinete de patentes de Berna um lugar
fundamental para quem quer falar de Einstein, ao tratar Poincaré, outro monstro
sagrado da física teórica, Galison obriga-nos agora a passar pelo aparentemente
enfadonho e burocrático Bureau des Longitudes. É que, se Poincaré é muitas
vezes citado como tendo proposto uma versão da teoria da relatividade restrita
anterior a Einstein, a sua ligação com o mundo material não era menor do que a
deste. Em 1898, o cientista francês publicou "La mesure du temps"
na Revue de métaphysique et morale, onde punha em causa as teorias do famoso
filósofo Henri Bergson que tomava o tempo como um assunto da intuição humana.
Para Poincaré, tal como para Einstein poucos anos mais tarde, o tempo e a
simultaneidade eram, pelo contrário, convenções para as quais havia que acordar
procedimentos. A simultaneidade só se podia definir por meio de leitura de
relógios coordenados por sinais electromagnéticos.
A coincidência de temas entre Einstein e Poincaré não espanta ao ter em conta a
importância que a simultaneidade assumiu no último terço do século XIX. As
frequentes colisões de comboios eram invariavelmente atribuídas à
multiplicidade de horas locais, que dificultavam a integração da rede
ferroviária, razão pela qual a unificação do tempo nos diferentes países seguiu
o caminho de ferro. Os problemas relativos à determinação da longitude não eram
menores, pois o método tradicional de transportar um relógio com a hora de
origem, fazer uma medição astronómica (por exemplo, do momento em que a Lua
atinge o seu ponto mais alto) e comparar a diferença horária a que o mesmo
fenómeno ocorria no observatório metropolitano (uma diferença de seis horas
corresponderia a 90 graus de longitude) produzia grandes erros de determinação
de posição, incompatíveis com a expansão colonial. Só a emissão de sinais
telegráficos através de cabos transoceânicos libertaria os mapas da dependência
de relógios demasiado sensíveis aos movimentos de um barco, de uma mula, ou à
humidade e à temperatura. Bastava que o tiquetaque do relógio do observatório
fosse enviado por telégrafo para que os cartógrafos pudessem determinar com
grande exactidão a sua posição relativamente àquele. O império expandia-se à
mesma velocidade que se estendia a rede de cabos transoceânicos, ou, dito de
outra forma, a expansão imperial seguia a produção de simultaneidade.
Mas que tem tudo isto a ver com o sublime Poincaré, responsável por substituir
a priori kantianos por convenções? Peter Galison, talvez de forma ainda mais
convincente do que para o caso de Einstein, volta a ligar, por meio de
Poincaré, o alto com o baixo, a física teórica com a tecnologia, o laboratório
com o globo. Desde o seu cargo de director do Bureau des longitudes de Paris,
Poincaré participava activamente no grande projecto francês de redesenhar o
mapa imperial por transmissão eléctrica do tempo. Na altura em que escreveu o
citado artigo sobre a medida do tempo havia já quatro anos que os problemas da
simultaneidade e longitude faziam parte do seu quotidiano. As celebradas
considerações sobre a necessidade de que a sincronização de relógios devia
tomar em linha de conta o tempo de transmissão não soariam como palavras
revolucionárias para cartógrafos que ao sincronizarem os seus relógios na
Indochina, nos Andes ou no Senegal com o relógio-mãe de Paris incluíam de forma
sistemática factores de correcção para o tempo de transmissão eléctrica ao
longo de fios de cobre. Mas, se os funcionários do Bureau des longitudes
procediam às correcções sem necessitarem da teoria da relatividade, Poincaré
foi capaz de perceber o alcance filosófico de um procedimento que redefinia os
conceitos de tempo e de simultaneidade. O engenheiro francês, seguindo a melhor
tradição da École Polytechnique, onde teoria e tecnologia sempre andaram de
braço dado, estava no ponto de intersecção certo para fazer com que uma regra
prática para a produção de simultaneidade funcionasse também na Revue de
métaphysique et morale.
A obsessão de Galison é patente ao longo de todo o livro. Os caminhos da
filosofia mais abstracta ou da matemática mais sofisticada cruzam- -se
constantemente com políticas imperiais, com relógios de estações suíças ou com
cabos submarinos. É um autêntico trabalho de relojoeiro onde por vezes, poucas,
o mecanismo parece falhar, como na difícil relação entre o trabalho de Poincaré
nas minas de carvão e os seus inovadores métodos matemáticos baseados na
intuição. Mas tais reparos são assuntos menores quando se trata de, finalmente,
perceber por que é que os esotéricos Einstein e Poincaré são fundamentais para
um mundo baseado na unificação de diferentes sistemas e na produção de
simultaneidade. Galison tem o dom de transformar símbolos etéreos em
componentes essenciais do mundo material. É isso que faz com a Torre Eiffel,
que de monumento de pura celebração tecnológica, sem função prática aparente,
passa a emissora de rádio da hora de Paris, produtora de simultaneidade e
unificadora da hora europeia sem necessidade da rede imperial de cabos
submarinos britânica.
Já em 1894, o jovem anarquista Martial Bourdin tinha tentado colocar uma bomba
no Observatório de Greenwich, sede do primeiro meridiano, um acto interpretado
por Joseph Conrad no seu romance O Agente Secreto como um ataque ao coração do
império britânico. O terrorista parecia ter percebido bem que a sobrevivência
do império dependia directamente da principal fábrica de simultaneidade
mundial. Hoje os terroristas continuam a explorar a união entre sociedade e
tecnociência, ameaçando as infra-estruturas que mantêm vivas as nossas cidades,
como centrais de energia, sistemas de distribuição de água ou aeroportos. No
dia seguinte aos criminosos atentados de 11-3-2004 em Madrid e de 7-7-2005 em
Londres os cidadãos tiveram de voltar a embarcar nas carruagens que os
transportaram para o local de trabalho. Não há sociedade de um lado e
tecnociência do outro. Uma e outra são indistinguíveis.
1 A citação segue a edição norte-americana, e não a portuguesa. Espero que o
facto não cause aborrecimentos de maior. Referência da edição original: Peter
Galison, Einstein's Clocks, Poincaré's Maps. Empires of Time,Nova Iorque,
Norton, 2003.
2 Para os que se queiram aventurar, o livro é muito remunerador: Peter Galison,
Image & Logic, A Material Culture of Microphysics, University of Chicago
Press, 1997.
3 Refiro-me ao caso Sokal e à sua denúncia dos pós-modernos estudos de ciência
que lançariam a suspeita sobre a actividade científica. Segundo Sokal, as más
influências de sociólogos, filósofos, antropólogos e historiadores nos
campusnorte-americanos não só põem em causa o próprio financiamento da
actividade científica, como lançam os jovens numa cultura de relativismo e
irresponsabilidade. O livro de Sokal foi publicado na referida colecção,
«Ciência Aberta»: Alan Sokal e Jean Bricmont, Imposturas Intelectuais, Lisboa,
Gradiva, 1999.
4 Refiro-me, em particular, a António Manuel Baptista, O Discurso Pós-Moderno
contra a Ciência: Obscurantismo e Irresponsabilidade, Lisboa, Gradiva, 2002, e
a Gerald Holton, A Cultura Científica e os seus Inimigos. O Legado de Einstein,
Lisboa: Gradiva, 1998. Sobre as guerras da ciência portuguesas, v. também a
versão do outro lado da barricada: Boaventura de Sousa Santos (org.),
Conhecimento prudente para uma Vida Decente,Porto, Afrontamento, 2003.
5 Outros autores com credenciais semelhantes não tiveram tanta sorte. Norton
Wise, autor de uma biografia monumental de William Thompson (Lord Kelvin) e
detentor também de um PhD em física, viu-se incluído pelos sokalianos entre os
suspeitos praticantes dos estudos de ciência de inspiração latouriana.
Tiago Saraiva