Verdes e Vermelhos. Portugal e a Guerra no Ano de Sidónio Pais
Maria Alice Samara, Verdes e Vermelhos. Portugal e a Guerra no Ano de Sidónio
Pais, Editorial Notícias, 2002, 226 páginas.
O movimento operário foi o grande protagonista da historiografia portuguesa da
década de 1970; durante a década seguinte, os historiadores abriram espaço para
outras preocupações. Este livro de Maria Alice Samara, originalmente uma tese
de mestrado orientada por Nuno Severiano Teixeira, recupera agora o interesse
pelo papel das organizações de trabalhadores nos processos políticos do mundo
contemporâneo e, neste caso concreto, no acesso ao poder de Sidónio Pais e nos
problemas de governação com que o presidente se viu confrontado. Como assinala
a própria autora, "O sidonismo e o movimento operário" já tinha
sido objecto de estudo central de um livro de António José Telo, a quem presta
homenagem, e ocupou também as reflexões de Manuel Villaverde Cabral, Fernando
Medeiros ou José Pacheco Pereira, entre outros. Não obstante, e apesar da
proximidade do objecto e da renúncia da autora a tornar explícitas as suas
diferenças para com a historiografia anterior, Verdes e Vermelhos surge-nos
como um livro autónomo que revela uma notável mudança na evolução
historiográfica. Um pouco mais à frente analisaremos as virtudes e fragilidades
deste novo rumo.
O livro divide-se em duas partes. A primeira coloca em cena os protagonistas do
momento político — dirigentes, partidos, militares e organizações operárias — e
traça um panorama dos assuntos que estavam em jogo: a guerra e o
descontentamento militar, o fracasso da União Sagrada, o problema das
subsistências e o confronto entre democráticos e sindicalistas.
A segunda parte centra-se no período sidonista propriamente dito. Em primeiro
lugar, relata o papel do movimento operário no golpe do 5 de Dezembro, as suas
reivindicações, a sua busca de reconhecimento institucional e, durante o ano de
1918, a progressiva ruptura entre a União Operária Nacional e a República Nova,
detendo-se com minúcia na organização da greve geral de Novembro desse ano, o
seu desenvolvimento e consequências. De seguida, debruça-se sobre o próprio
bloco sidonista e examina os eixos da sua política social-assistencial, o seu
medo da desordem pública, as medidas que tomou para manter as rédeas do poder
e, finalmente, o processo de desagregação das suas bases de apoio, que precedeu
o assassinato do presidente.
A autora utiliza, com perícia, fontes jornalísticas, memorialísticas e de
arquivo para construir o seu relato, conseguindo, além disso, uma prosa fluida
e concisa, capaz de nos oferecer, com pouca prolixidade e um punhado de
pinceladas, um quadro expressivo dos diferentes cenários históricos.
Porém, não obstante a elegância implícita a esta forma de escrita, a ausência
de problematização converte o trabalho de Samara numa narração excessivamente
"transparente" dos acontecimentos, o que implica uma tendência para
a naturalização do processo político que estava em curso e, em última
instância, a perda de uma oportunidade para rever a fundo o valor de algumas
teses historiográficas. A autora não torna explícitas hipóteses teóricas
fortes, nem tão-pouco apoia em sistematizações quantitativas as suas afirmações
ou os encontros dos protagonistas aos quais atribui valor. Desta forma, Samara
deixa-nos sem meios para avaliar a incidência relativa daquilo que nos conta (o
livro não inclui quaisquer quadros, gráficos ou séries estatísticas…).
Do mesmo modo, e como já comentámos, a autora renuncia a tomar posição perante
os trabalhos que, de diferentes perspectivas marxistas, já tinham abordado o
período. A única interpretação explicitamente alternativa às propostas por
António Telo ou José Pacheco Pereira é a que faz referência à caracterização da
greve geral de Novembro de 1918. Enquanto para aqueles autores se tratava de
uma greve ofensiva e revolucionária impulsionada pelos sectores anarquistas da
UON, Alice Samara mostra de modo convincente que a maior parte da central
sindical a entendia como uma greve defensiva. Os sectores radicais agiram no
seio dos sindicatos, desdobraram-se no seu esforço activista e divulgaram a sua
propaganda, mas não lideraram a decisão nem a organização da greve.
Os aspectos renovadores deste estudo relativamente à historiografia da década
de 70 manifestam-se na mudança de linguagem, no desaparecimento das classes
como sujeitos históricos e na renúncia a analisar os aspectos estruturais do
capitalismo português como elemento explicativo central do desenvolvimento
político. Contudo, estas mudanças não implicam um verdadeiro salto
interpretativo que nos situe numa nova história. As virtudes narrativas e o
recorte temático dos problemas tornam a obra sugestiva, mas a autora coíbe- -se
no momento de interrogar os acontecimentos sobre as suas condições de
possibilidade e, assim, de iniciar uma reconstrução sistemática das condições
de eficácia das distintas posições políticas que se digladiavam no processo. Em
que consistia o carisma de Sidónio, qual a razão da sua eficácia? Como se
traduziam as acções económicas do movimento operário na arena política? Que
efeitos tinham sobre a situação os actos de violência política? E as greves, os
motins ou as manifestações? Como é possível que para outros historiadores que
se basearam principalmente em fontes memorialísticas, como Jesus Pabón, a greve
geral nem sequer merecesse uma linha de comentários?
No fundo, a autora integra o período que analisa na tese clássica da grande
crise do liberalismo (1890-1926). De maneira estilizada, esta interpretação
defende que, a partir de 1890, o conflito de interesses ideológico e pessoal
entre os diferentes sectores das classes dominantes se agudizou. Todavia,
perante eles ia-se formando um bloco antagonista, o movimento operário, que com
a sua progressiva organização ameaçava o predomínio dessas classes. Assim, as
elites que se digladiavam foram descobrindo que para reproduzirem a sua posição
privilegiada necessitavam de formar um bloco conservador e de pôr de lado as
suas querelas "menores", como as referentes à questão de regime ou
à questão religiosa. Neste contexto, o sidonismo seria uma primeira experiência
de integração de uma plataforma conservadora comum que, no seu fracasso,
ofereceria os ensinamentos de que Salazar se serviu para unificar as diferentes
direitas e, com arte, fechar o ciclo liberal. Esta velha hipótese manter-se-á
seguramente em vigor durante muito tempo, mas para a contrastar não podemos
caracterizar o sidonismo como um mero "sintoma" dessa crise, ainda
que agora "em sua feição republicana e oligárquica" (p. 209).
Reduzir um processo político a um "sintoma" de outra coisa não só
lhe retira peso enquanto objecto de investigação, como converte a política num
epifenómeno. Aquilo que desde a década de 1980 se propõe como uma nova história
política, armada com as ferramentas que as ciências sociais lhe oferecem, ou
com problematizações explícitas — como a de, por exemplo, Filipe Ribeiro
Meneses, que constrói o seu União Sagrada e o Sidonismo (Cosmos, 2000) em torno
dos problemas da mobilização política e da nacionalização das massas —, pode
aspirar a conceder um estatuto mais central à acção política.
A narração não pode deixar de ser uma das ferramentas centrais do historiador,
mas a aproximação à dinâmica das crises e dos conflitos pode ser enriquecida se
combinar as vantagens da análise estratégica com as da análise estrutural. A
análise estratégica, ao referir-se ao que se desenvolve durante o conflito, às
acções, às interpretações da situação, permite utilizar uma concepção
interaccionista do poder e ter em conta o que fazem os actores como componente
fundamental de todo o processo político.
A análise estrutural, por sua vez, há-de permitir identificar, por um lado, os
espaços nos quais tem lugar a actividade dos actores e, por outro, o modo como
estão distribuídos os recursos para a acção: organizações, armas, dinheiro,
carisma, cultura… Do mesmo modo, há que ter sempre em conta que os recursos não
estão incondicionalmente disponíveis, nem têm um valor intrínseco independente
dos processos de interpretação e mobilização que permitem colocá-los em jogo. O
repto está em relatar o processo político integrando os acontecimentos e os
mecanismos explicativos. Também não se pode tentar atribuir um sentido único
aos grandes processos políticos, pois a realidade estrutural complexa das
sociedades contemporâneas, com a sua pluralidade de arenas, faz com que os
grupos sociais e os indivíduos que se somam às mobilizações o façam por motivos
e interesses heterogéneos. Além disso, o sentido das suas acções e o seu
impacte sobre o conjunto do processo escapa à sua vontade. Assim, uma revolução
política pode tornar-se uma situação propícia a uma vaga de greves laborais,
conectando sequências causais independentes umas das outras. Cada entrada de um
novo actor concede ao processo um conjunto de novos significados e,
definitivamente, dota-o de novas trajectórias históricas.
No livro de Maria Alice Samara, como bom livro de história que é, encontramos
muitos elementos para construir uma análise do processo político nesses termos,
bem como interpretações sugestivas que exigem um estudo pormenorizado que
permita pô-las à prova. Verdes e Vermelhos sugere mais do que afirma, mas,
acima de tudo, convida-nos a recuperar o interesse pela análise do lugar do
movimento operário, do "económico" e do "político", do
"existente e do "fantasma soviético", na configuração dos
problemas de governabilidade, ordem pública e legitimação dos sistemas
políticos do século XX.
Diego Palacios Cerezales