Consumo excessivo de sal na alimentação: um risco para além da hipertensão
arterial?
CLUBE DE LEITURA
Consumo excessivo de sal na alimentação: um risco para além da hipertensão
arterial?
Excessive salt consumption in food: a greater risk than hypertension?
André P. Lourenço*, Inês E. Macedo*
*Médicos Internos de Medicina Geral e Familiar, USF Modivas
Mozaffarian D, Fahimi S, Singh GM, Micha R, Khatibzadeh S, Engell RE, et al.
Global sodium consumption and death from cardiovascular causes. N Engl J Med.
2014;371(7):624-34. doi: 10.1056/NEJMoa1304127.
Introdução
A ingestão aumentada de sódio leva a um aumento da pressão arterial, fator de
risco para patologias do foro cardiovascular. Contudo, os efeitos do consumo de
sódio na mortalidade cardiovascular global estão ainda por esclarecer.
Métodos
Foram recolhidos dados de estudos realizados sobre o consumo de sódio,
determinado a partir da excreção urinária e hábitos alimentares, em indivíduos
de 66 países (representativo de 74,1% da população adulta a nível mundial).
Esses dados foram utilizados para quantificar o consumo global de sódio de
acordo com idade, sexo e país. Posteriormente, os dados relativos ao efeito do
sódio na pressão sanguínea, atendendo à idade, raça e presença ou ausência de
hipertensão arterial, foram calculados numa nova meta-análise de 107
intervenções randomizadas. Já os efeitos da pressão sanguínea na mortalidade
cardiovascular global, de acordo com a idade, foram calculados tendo por base
uma meta-análise de estudos de coorte. Por sua vez, os dados relativos à
mortalidade por causas específicas foram obtidos a partir do Global Burden of
Disease Study 2010. Por fim, utilizando uma avaliação de risco comparativa,
foram estimados os efeitos cardiovasculares do consumo de sódio atual
comparativamente com o valor de consumo de referência de 2,0g de sódio por dia,
de acordo com a idade, sexo e país.
Resultados
Em 2010, o consumo médio estimado de sódio foi de 3,95g por dia com variações
regionais médias compreendidas entre 2,18g e 5,51g por dia. Globalmente, 1.65
milhões das mortes por causa cardiovascular (para um nível de confiança de 95%,
intervalo de 1.10 a 2.22 milhões) foram atribuídas ao consumo de sódio acima do
nível de referência. Destas, 61,9% ocorreram em homens e 38,1% em mulheres.
Este número corresponde a aproximadamente uma em cada dez mortes por causa
cardiovascular (9,5%). Quatro em cada cinco mortes (84,3%) ocorreram em países
de nível socioeconómico baixo ou médio e duas em cada cinco mortes (40,4%)
foram prematuras (antes dos 70 anos). A taxa de morte por causa cardiovascular
associada ao consumo de sódio acima do nível de referência obteve o valor mais
elevado na Geórgia e mais baixo no Quénia.
Conclusão
Neste estudo, 1.65 milhões de mortes de causa cardiovascular, ocorridas em
2010, foram atribuídas ao consumo de sódio acima do nível de referência de 2,0g
por dia.
COMENTÁRIO
A nível mundial, as doenças cérebro-cardiovasculares (DCCV) são consideradas um
problema endémico, não apenas restrito aos países desenvolvidos, e responsáveis
por cerca de um terço das mortes na globalidade. Em Portugal, as DCCV são
atualmente a principal causa de morte, incapacidade, sofrimento e uso de
recursos económicos (30,4% das mortes em Portugal Continental, dados de 2012).1
Sendo doenças com múltiplos fatores de risco associados, é necessária uma
abordagem integrada, consertada e transversal aos cuidados de saúde.1
As várias orientações europeias, americanas e nacionais apontam para uma
estratégia de prevenção primária ao nível do risco cardiovascular.1 Assim, este
estudo inovador permite à comunidade médica uma visão nova e mais abrangente
sobre o risco do consumo excessivo de sal. Este aparece, não só associado ao já
conhecido risco de hipertensão arterial, como na objetivação de mortes de causa
cardiovascular atribuídas a esse mesmo consumo, podendo constituir um novo
ponto para a prevenção primária, educação para a saúde e prevenção da doença.
Em Portugal, de acordo com o estudo PHYSA, o consumo médio estimado de sal é de
10,7g por dia (determinado pela excreção em urina de 24h).2 Este valor equivale
a um total de 4,28g de sódio por dia, o que corresponde aproximadamente ao
dobro do estabelecido pelas recomendações internacionais, nomeadamente da
Sociedade Europeia de Hipertensão, que recomenda restrição salina para 5-6g de
sal por dia (2 a 2,4g de sódio).
Relativamente ao conteúdo de sal na alimentação, sabe-se que 75% do sal
necessário provém dos próprios alimentos e que a adição de sal de mesa às
refeições já confecionadas deverá ser um dos principais pontos de intervenção,
uma vez que o sal de mesa contém 30% de sódio.3 Na educação para a saúde, a
promoção de formas mais saudáveis de confecionar os alimentos deverá ser cada
vez mais uma parte integrante da abordagem ao doente com risco cardiovascular.
Na estratégia para a redução do sal proposta pela Direção-Geral da Saúde, em
2013, definiram-se cinco objetivos estratégicos que passam pela implementação
de um sistema de avaliação da ingestão de sal a nível populacional e
monitorização da sua quantidade nos alimentos; sensibilização dos consumidores
para um consumo reduzido de sal; desenvolvimento de rotulagem capaz de destacar
o conteúdo de sal dos alimentos e identificação de produtos com pouco sal;
envolvimento da indústria tanto na reformulação e oferta de produtos
alimentares com menores conteúdos em sal como na mudança do conhecimento,
atitudes e comportamento dos consumidores.4
Relativamente às dúvidas controversas levantadas por estudos recentes acerca
dos potenciais efeitos adversos e consequências do baixo consumo de sal
(inclusivamente doença cardiovascular e morte), em 2013 foi criado um comité de
peritos com o intuito de avaliar a evidência da relação entre o consumo de
sódio e ganhos em saúde.5 Conclui-se que existe, efetivamente, uma relação
positiva entre a ingestão elevada de sódio e o risco de doenças
cardiovasculares. O mesmo não se pode inferir relativamente à baixa ingestão de
sódio
(< 2,3g por dia), conforme recomendado nas guidelines mais recentes, sendo
necessários mais estudos baseados na evidência focando os potenciais riscos e
benefícios dos regimes alimentares com baixo teor de sódio.6
Os consensos científicos atuais apontam ainda para a corresponsabilização do
utente e valorizam o papel ativo que este deve ter em relação à sua saúde,
nomeadamente no tratamento e gestão da sua doença, considerando-
o imprescindível ao sucesso terapêutico.1
Em suma, o sal em excesso na alimentação é uma realidade identificada à escala
mundial e este estudo vem demonstrar que os seus efeitos poderão ir para além
da mera associação a hipertensão arterial. Sendo o risco cardiovascular um dos
pontos estratégicos de intervenção das políticas de saúde mundiais
(pretendendo-se a redução da mortalidade cardiovascular e dos fatores de risco
com ela relacionados em 25% até 2025),6 a educação para a saúde deverá ter aqui
um dos seus focos de atuação. Defende-se não só a intervenção dos profissionais
de saúde organizados em equipas multidisciplinares com complementaridade de
funções, como também a definição de estratégias de intervenção na comunidade
para a implementação de medidas de prevenção das DCCV.1