Varicela no pequeno lactente
Introdução
A varicela é uma doença causada pelo vírus Varicela-Zoster (VVZ) da família
herpesvirus.1 Trata-se de uma doença exantemática muito comum na infância.
Acomete normalmente crianças com idades superiores aos seis meses de vida.2-
3 Mais rara será a infeção no lactente antes dos seis meses de idade, sobretudo
pela imunidade conferida pela mãe, frequentemente reforçada pela transferência
passiva de imunoglobulinas através do aleitamento materno e, inclusivamente,
pelo isolamento “natural” a que lactentes com esta idade estão sujeitos no que
a contactos com outras crianças diz respeito.4
Em 2007 foram registados em Portugal, pela rede de Médicos Sentinela, 722 casos
de varicela com taxas de incidência estimadas de 6.241,5 por 100.000 no grupo
etário dos 0-4 anos.3
O diagnóstico é sobretudo efetuado por uma observação clínica num contexto
epidemiológico de doença.1,4 Apesar de habitualmente benigna em idades
pediátricas, quando ocorre até aos três meses de idade, coincidindo com uma
maior imaturidade imunológica, poderá suscitar receios quanto à sua evolução e
dúvidas na sua abordagem.
Descreve-se um caso de varicela num pequeno lactente (dois meses), seguida de
uma breve revisão dos conceitos atuais de abordagem desta patologia nesta faixa
etária.
Descrição do caso
H, dois meses de idade, sexo feminino, raça caucasiana, natural e residente em
Escariz (Arouca), sem antecedentes patológicos de relevo. O parto foi eutócico
às 39 semanas, com APGAR 8/10 e somatometria adequada à idade gestacional.
Mantinha-se sob aleitamento materno exclusivo. Desconhecidas doenças
heredofamiliares (Figura_1) e apresentava calendário de vacinação atualizado.
Recorreu à consulta aberta do centro de saúde por aparecimento de vesículas com
início no dorso com dois dias de evolução e posterior propagação para tronco,
virilhas e região anterior das coxas. Nega febre, anorexia ou alterações
comportamentais. Referido episódio de varicela no irmão de sete anos cerca de
duas semanas antes. A mãe afirmava ter tido a doença na infância.
Ao exame objetivo constatavam-se vesículas distribuídas de forma concêntrica na
região dorsal, algumas crostas na região da nuca com presença de halo
eritematoso sugestivo de varicela (Figura_2). Sem febre, sem sinais de
sobreinfeção, nomeadamente sem crosta melicérica, exsudados ou celulite, com
criança bem disposta e interativa durante a consulta.
Foi evocado o diagnóstico de varicela, pelo que o lactente foi referenciado ao
Serviço de Urgência de Pediatria do Centro Hospitalar Entre Douro e Vouga,
confirmando-se o diagnóstico. Foi efetuado estudo analítico, com hemograma
completo, proteína C reativa e função renal que não evidenciou alterações de
relevo. Foi decidido internamento e fez terapêutica com aciclovir endovenoso
(na dose de 30mg/Kg/dia, divididos em três tomas, durante sete dias). Teve como
única intercorrência uma conjuntivite sem necessidade de antibioterapia tópica.
A criança mantém um desenvolvimento adequado, com seguimento harmonioso da sua
linha de percentis de crescimento. Este evento de vida não gerou um momento de
crise familiar com caráter patológico.
Comentário
A incubação do VVZ pode durar entre 10 a 21 dias, sendo que em média dura 14
dias,1,5-8 o que valida a transmissão através do irmão.
Apesar de se tratar de um contágio intrafamiliar (e, por isso, potencialmente
mais exuberante) apresentava um quadro frustre, com poucas lesões observáveis
ao exame físico e sem grande repercussão sistémica, o que se explica pela
proteção conferida pela mãe, como referido anteriormente.
A abordagem terapêutica desta situação passou pela administração de aciclovir
endovenoso em regime de internamento. Atualmente existem alguns autores que
apontam outras possibilidades de atuação, como por exemplo uma atitude mais
expectante ou tratamento sintomático,9-10 aplicáveis desde o período neonatal
(em recém-nascidos com varicela adquirida na comunidade e mais de 15 dias de
vida).
Assim sendo, considera-se que os recém-nascidos com transmissão horizontal de
varicela poderão não ser tratados com aciclovir desde que não revelem
repercussão sistémica importante ou co-morbilidades10-11 e estando assegurada
uma vigilância adequada em ambulatório.12
Quando se opta pelo tratamento com aciclovir, o mesmo deve ser iniciado nas
primeiras 24 horas de doença para ser obtida a máxima eficácia.7-8,10-11,13
Este fármaco é habitualmente bem tolerado em idade pediátrica quando
administrado por via endovenosa. Não existem muitos dados disponíveis sobre a
sua eficácia quando administrado oralmente até aos três meses de idade, pelo
que esta via de tratamento não é preconizada nestes casos.
Como já discutido anteriormente, deve manter-se o encorajamento do aleitamento
materno pelo seu papel imunomodulador.6,9,14