Avaliação antropométrica da população escolar do concelho de Boticas
Introdução
A avaliação estatoponderal é uma actividade essencial das consultas de saúde
infanto-juvenil, considerando-se que o crescimento é um importante indicador do
bem-estar de uma criança ou adolescente.1
Dessas actividades de vigilância resulta uma apreciação que importa confrontar
com o conhecimento exacto da realidade.
Recentemente, o combate ao excesso de peso e a obesidade têm sido uma
preocupação crescente de todos os profissionais que trabalham com as crianças e
suas famílias. A obesidade é já considerada a pandemia do século XXI,2 sendo
Portugal um dos países europeus onde este problema é mais evidente.3 De facto,
estima-se que cerca de 30% das crianças portuguesas apresentem peso excessivo
e, destas, 10 a 15% sejam obesas.4-10 A obesidade pediátrica tende a prolongar-
se na idade adulta, sendo unanimemente aceite como factor de risco de múltiplas
perturbações de ordem física, psíquica e social.2,11-12 Depende de factores tão
diversos como a hereditariedade, os estilos de vida ou uma longa lista de
possíveis doenças, exigindo muitas vezes uma abordagem multidisciplinar para a
sua correcção. A importância deste problema, dada a sua magnitude e as suas
consequências, contrasta com a dificuldade, já demonstrada, que os
profissionais de saúde e os pais e educadores sentem no seu reconhecimento e
detecção precoces.13-16
No entanto, estão hoje disponíveis intervenções com efeitos comprovados na
prevenção e no tratamento da obesidade infantil e juvenil.17-23 Sabe-se também
que tais intervenções podem reduzir ou até reverter o impacto deste
problema.11,24-26 Esta possibilidade de actuação torna pertinente o incremento
notável que os estudos nesta área têm verificado. A Plataforma Contra a
Obesidade reconhece “a necessidade de intensificar trabalhos de investigação
científica e aplicada” nesta área e preconiza, entre as suas estratégias de
actuação, a promoção da avaliação das medidas antropométricas, nomeadamente
peso, estatura, índice de massa corporal e perímetro da cintura.27-28 Estas
medidas são de execução rápida, fácil e não dispendiosa e, sendo observadas
metodologias e técnicas correctas e internacionalmente recomendadas, permitem
uma avaliação rigorosa e comparável do estado nutricional.29-30
Por outro lado, o Programa Nacional de Saúde Escolar31 estabelece que os
projectos a desenvolver a nível local no âmbito deste Programa devem ter em
conta as prioridades nacionais para as áreas de promoção de estilos de vida
saudáveis e prevenção de comportamentos nocivos, mas devem também ser dirigidos
para as necessidades de cada comunidade escolar. Assim, a elaboração desses
projectos tem na sua base a identificação e caracterização de tais
necessidades. Nesse sentido, a Equipa de Saúde Escolar do Centro de Saúde de
Boticas colaborou no Plano Anual de Actividades 2012-2013 do Agrupamento de
Escolas Gomes Monteiro no concelho de Boticas para, entre outras actividades,
identificar crianças em situação de doença ou de risco relacionado com o seu
estado nutricional.
Aproveitando a existência desses dados no centro de saúde, um grupo de
profissionais decidiu que seria vantajoso fazer um tratamento dos dados que
permitisse uma compreensão mais abrangente da situação. Com este estudo
pretendeu-se fazer a avaliação antropométrica da população escolar do concelho
de Boticas, tendo como objectivos específicos a determinação da prevalência de
baixo peso, de excesso de peso, de obesidade, de pré-obesidade abdominal e de
obesidade abdominal nos alunos do Agrupamento de Escolas Gomes Monteiro que
frequentaram entre o 1º e o 9º ano de escolaridade durante o ano lectivo de
2012-2013.
Métodos
Procedeu-se a um estudo de tipo observacional, transversal, obedecendo às
seguintes orientações:
População em estudo
A população alvo foi a totalidade da população escolar do Agrupamento de
Escolas Gomes Monteiro. frequentando entre o 1º e o 9º ano de escolaridade,
durante o ano lectivo de 2012-2013. Este Agrupamento é o único no concelho de
Boticas e não havia crianças com residência no concelho frequentando
estabelecimentos de ensino noutros concelhos neste nível de escolaridade. Foi
critério de exclusão a ausência de registo, no Centro de Saúde, das variáveis
em estudo.
Variáveis em estudo
As variáveis em estudo foram:
• Sexo - masculino ou feminino;
• Idade - número de anos concluídos à data das medições;
• Peso - em quilogramas;
• Estatura - em centímetros;
• Índice de massa corporal (IMC) - valor obtido pela divisão do peso, em
quilogramas, pelo quadrado da estatura, em metros;
• Perímetro da cintura - em centímetros.
Métodos de Medição
Os registos foram efectuados no âmbito das actividades de Saúde Escolar do
Centro de Saúde de Boticas, cumprindo as orientações do Guia da Avaliação do
Estado Nutricional Infantil e Juvenil do Ministério da Saúde:29
Peso - As crianças foram pesadas de manhã, com roupa leve (calças/calções ou
saia e camisa ou blusa), sem sapatos, em balança electrónica, sendo considerado
o valor em quilogramas, aproximados à décima.
Estatura - O valor da estatura foi verificado imediatamente a seguir ao peso.
Foi utilizado um estadiómetro montado num ângulo de 90° com o chão (apoiado
contra uma parede). O valor da estatura foi registado em centímetros até à
décima.
Perímetro da cintura - Usando uma fita métrica graduada ao milímetro, de
material flexível mas não extensível. A medição foi obtida em pé, sobre a pele,
no final de uma expiração normal, com a fita métrica na horizontal, ao nível
das cristas ilíacas.
As medições foram realizadas em Maio de 2013 nas instalações escolares, por
enfermeiras e alunas de Enfermagem em estágio no Centro de Saúde. Sempre que
houve motivo para dúvidas procedeu-se à repetição das medições.
Análise estatística
Como medidas estatísticas foram utilizadas as frequências absolutas (n) e
relativas (%) das variáveis estudadas.
O peso, a estatura e o IMC foram avaliados por comparação com as curvas de
crescimento preconizadas pela Direcção Geral da Saúde.1,29 O perímetro da
cintura foi avaliado por comparação com a tabela de Fernandez e col., como
proposto também pela Direcção Geral da Saúde.32
Foi considerada população escolar com baixo peso a que apresentou IMC no
percentil inferior a 5 para a idade e sexo.
Foi considerada população escolar com excesso de peso a que apresentou IMC
entre os percentis 85 e 95 para a idade e sexo.
Foi considerada população escolar com obesidade a que apresentou IMC no
percentil superior a 95 para a idade e sexo.
Ao conjunto de excesso de peso e obesidade foi atribuída a designação de peso
excessivo.
Foi considerada população escolar com aumento de risco de obesidade abdominal a
que apresentou um perímetro da cintura no percentil superior ou igual a 75 e
inferior a 90 para a idade e sexo.
Foi considerada população escolar com obesidade abdominal a que apresentou um
perímetro da cintura no percentil igual ou superior a 90 para a idade e sexo.
No tratamento dos dados recorreu-se à aplicação informática Excel®.
Resultados
No ano lectivo de 2012-2013 frequentaram o Agrupamento de Escolas Gomes
Monteiro, em Boticas, 372 alunos, 187 do sexo masculino e 185 do sexo feminino,
distribuídos por idade e por sexo como se expõe no Quadro_I.
Não foi possível avaliar o peso, a estatura e o perímetro da cintura num aluno
com 11 anos de idade por ser portador de deficiência que implicava a sua
permanência numa cadeira de rodas. Também por deficiência física não foi
possível avaliar o perímetro da cintura numa aluna com 7 anos de idade.
As variáveis peso e estatura apresentaram uma distribuição semelhante.
Verificou-se um pico de maior frequência nos percentis centrais (25<50, 50<75 e
75<90), responsáveis por 64,4% do total em relação ao peso e por 67,1% em
relação à estatura e um segundo pico no percentil > 95 (14,0% em relação ao
peso e 9,4% em relação à estatura). Essa variação era semelhante em ambos os
sexos.
A Figura_1 mostra a distribuição da população escolar segundo as classes do
índice de massa corporal. Dos 371 alunos com avaliação do IMC identificaram-se
8 alunos (2,2%) com baixo peso e 126 alunos (34,0%) com peso excessivo, sendo
que destes 64 eram do sexo masculino e 62 eram do sexo feminino. Revelaram
obesidade 51 alunos, o que correspondeu a 13,7% do total e a 40,5% dos alunos
com peso excessivo.
Verificou-se também que a frequência do peso excessivo variava com a idade
(Figura_2), sendo menor na faixa dos 13 anos (20,5% dos alunos nesse escalão
etário) e maior nos alunos de 15 anos (44,0% dos alunos desse escalão etário).
Dos 370 alunos com avaliação do perímetro da cintura foram identificados 72
(19,5%) com obesidade abdominal e 95 (25,7%) em risco de obesidade abdominal.
Estes valores foram mais acentuados no sexo feminino, com metade das alunas
apresentando obesidade abdominal ou risco de obesidade abdominal (esse número
foi de 40,3% no sexo masculino) e mantiveram-se elevados em todas as idades até
aos 15 anos (Figura_3).
Discussão
A prevalência do peso excessivo está de acordo com os resultados da literatura
científica existente, ou seja, é uma prevalência muito elevada. Desprezando os
dados referentes aos alunos com mais de 15 anos de idade, por serem em número
muito reduzido, pode-se concluir que é um problema transversal a todas as
idades escolares. Já a prevalência da obesidade se revelou bastante superior à
encontrada em outros estudos, embora essa comparação seja dificultada por
diferenças de objectivos e metodologias.
Padez et al,7 observando crianças dos 7 aos 9 anos de idade, encontraram 20,3%
de crianças com excesso de peso e 11,3% de crianças obesas. Para essa faixa
etária, o nosso estudo apresenta, respectivamente, 21,3% e 13,9%.
Albuquerque,4 em crianças com 6 a 12 anos de idade da região Centro,
identificou 22,3% de excesso de peso e 10,7% de obesidade; Venâncio,6 no Lumiar
e em crianças do mesmo grupo etário, identificou 15,7% de excesso de peso e
12,7% de obesidade. Nas idades dos 6 aos 12 anos encontrámos em Boticas 20,5%
de crianças com excesso de peso e 15,1% com obesidade.
A OMS, num relatório de 2014,9 apresenta dados de 2009/2010 referindo que 32,0%
das crianças portuguesas com 11 anos de idade apresentavam excesso de peso ou
obesidade, comparável com os 33,4% no nosso estudo.
A análise para o Global Burden of Disease Study 2013,10 refere, para a
população portuguesa menor de 20 anos, uma prevalência de 28,7% de excesso de
peso e de 8,9% de obesidade no sexo masculino (20,4% e 14,0% no nosso estudo) e
uma prevalência de 27,1% e 10,6% no sexo feminino (20,0% e 13,5% no nosso
estudo).
Também nos parece preocupante a prevalência de medidas anormais do perímetro da
cintura que atingem quase metade da população escolar e são mais evidentes no
sexo feminino. Saliente-se que o estudo de Albuquerque identificou obesidade
abdominal em 7,8% de crianças, contra 19,5% de obesidade abdominal em toda a
população escolar de Boticas e 22,6% entre os 6 e os 12 anos de idade.
O estudo COSI 2010 apresenta dados relativos ao baixo peso em crianças dos 6
aos 8 anos de idade, 0,6% para a região Norte e 0,7% para o total nacional,
enquanto, para essas idades, a prevalência de baixo peso na nossa população foi
de 3,8%.
Os dados deste estudo comprovam que a obesidade infantil representa um problema
de saúde importante no concelho de Boticas. O estudo poderá ser o ponto de
partida para o desenvolvimento de programas de intervenção na obesidade
infantil.