Abordagens eficazes para a higiene do sono na infância: uma revisão sistemática
CLUBE DE LEITURA
Abordagens eficazes para a higiene do sono na infância: uma revisão sistemática
Effective education for sleep hygiene in children: a systematic review
Maria João Macedo*
*Médica interna de Medicina Geral e Familiar, USF de Ronfe, ACeS Alto Ave
Halal CS, Nunes ML. Education in children’s sleep hygiene: which approaches are
effective? A systematic review. J Pediatr (Rio J). 2014;90(5):449-56.
Introdução
A prevalência dos distúrbios do sono na infância é elevada, afetando cerca de
uma em cada três crianças em idade escolar e podendo acarretar dificuldades de
aprendizagem, alterações do comportamento, aumento da predisposição para lesões
acidentais e para a obesidade. Os Médicos de Família desempenham um papel
crucial na promoção da qualidade do sono nas crianças, necessitando assim de
conhecer e ser capazes de transmitir métodos eficazes para essa promoção.
Objetivo
Proceder à revisão sistemática de medidas de promoção da higiene do sono, sua
efetividade e aplicabilidade na prática clínica para que possam ser usadas no
aconselhamento parental.
Métodos
Foi efetuada, em março e abril de 2014, uma pesquisa de artigos portugueses,
ingleses e espanhóis nas bases de dados PubMed, LILACS e SciELO, utilizando as
palavras-chave sleep hygiene, sleep education e children school-aged.
Excluíram-se artigos de revisão e estudos que incluíssem crianças com mais de
10 anos de idade e/ou populações com comorbilidades (hospitalizações durante o
estudo, doenças respiratórias, neurológicas ou psiquiátricas). Encontraram-se
6.621 artigos e, após aplicação dos critérios de seleção, foram incluídos sete
artigos, sendo quatro destes considerados relevantes. Da leitura das suas
respetivas referências bibliográficas foram incluídos seis outros estudos.
Métodos para a promoção da higiene do sono
Os métodos mais estudados são descritos abaixo. Estes parecem ser mais eficazes
em crianças com dois ou mais anos de idade.
Extinção: Os pais devem deixar a criança na cama à hora pretendida e ignorá-la
até uma determinada hora da manhã, mantendo monitorização da criança. Baseia-se
na eliminação de atos que reforçam alguns comportamentos (como chorar ao
acordar). A maior dificuldade desta estratégia está na falta de perseverança
dos pais e na ansiedade gerada. Alguns autores defendem que esta estratégia
pode ser executada com os pais presentes no quarto, mas sem responderem às
solicitações da criança enquanto ela adormece.
Extinção gradual: Consiste em ignorar as solicitações da criança por períodos,
sendo a duração desses períodos determinada pela idade e temperamento da
criança e pela tolerância dos pais ao seu choro. O reconforto deve durar entre
15 a 60 segundos. Esta técnica pretende promover a capacidade da criança se
acalmar e voltar para o sono sem que haja intervenção parental. Verificou-se um
aumento estatisticamente significativo da duração do sono e uma redução do
número de despertares noturnos utilizando este método.1 Comparando a eficácia
do método da extinção com o da extinção gradual, verificou-se que os pais que
utilizavam o método de extinção tinham mais dificuldades em manter o método
durante a segunda semana de aplicação (p=0,02) mas, findo esse período, a
adesão ao método pelos pais e a qualidade de início e manutenção do sono da
criança é semelhante em ambos os grupos (p<0,01).2
Verificação mínima com extinção sistemática: Método semelhante ao da extinção,
mas em que a criança pode ser verificada a cada 5 a 10 minutos e os pais podem
reconfortar a criança sempre que necessário e por um período breve. Verificou-
se uma redução do número de despertares noturnos de forma estatisticamente
significativa em relação ao controlo.3
Rotinas positivas: Este esquema baseia-se no desenvolvimento de rotinas
agradáveis e relaxantes (e.g., tomar banho, receber uma massagem)
aproximadamente 30 minutos antes de deitar. Outra opção é adiar a hora de
dormir garantindo, assim, que quando a criança for para a cama irá adormecer
rapidamente; quando o hábito de adormecer rapidamente estiver enraizado,
antecipa-se a hora de dormir 15 a 30 minutos a cada dia até que seja atingida a
hora pretendida. Este método pode ser usado conjuntamente com outros métodos.
Induz uma redução do número de despertares noturnos das crianças e uma redução
da prevalência de depressão, fadiga das suas mães de forma estatisticamente
significativa.4 Está associado a uma maior rapidez de consolidação de hábitos
de sono das crianças e uma melhoria da relação emocional dos casais
comparativamente ao da extinção gradual, embora ambos os métodos sejam eficazes
a longo prazo.5
Despertar programado: Consiste em acordar a criança 15 a 30 minutos antes da
hora habitual do despertar noturno e posteriormente reconfortá-la até que volte
a adormecer. O número de despertares forçados deve corresponder ao número de
despertares espontâneos da criança, verificando-se a sua redução gradual
estatisticamente significativa, mas mais lentamente do que com o método da
extinção gradual.6
Modelar do sono: Este método impede que ocorram sestas diurnas que possam
interferir com o sono noturno. Nas crianças com idade em que necessitem de duas
sestas por dia, estas devem ocorrer até 4 horas antes de ir dormir e, nas que
necessitam de uma sesta por dia, até 6 horas antes. Este método mostrou ser
eficaz no aumento do período de sono noturno.1
De forma estatisticamente significativa, independentemente da forma como os
pais recebem as recomendações (forma escrita ou presencialmente por um médico),
os efeitos são semelhantes.7
Discussão
O número de estudos publicados acerca de crianças com distúrbios do sono e sem
comorbilidades é escasso. Alguns estudos observaram que grupos de crianças que
não receberam qualquer intervenção também sofreram melhorias na qualidade do
sono, podendo tal estar relacionado com a maturação neuronal e dos mecanismos
circadianos fisiológicos que, por si só, melhoram a qualidade do sono ao longo
do tempo. É notório que crianças intervencionadas mostram consistentemente
melhorias significativas na qualidade do sono, reforçando a importância
ambiental na maturação do sono.
As intervenções sugeridas são simples e efetivas, representando um conjunto de
medidas educacionais sem custos adicionais para os pais ou para o sistema de
saúde. Estas intervenções podem representar uma diminuição de custos, por
promoverem uma redução do número de consultas de saúde infantil motivadas por
distúrbios do sono.
O papel do Médico de Família inclui conhecer a fisiologia e processo de
maturação do sono da criança, questionar e verificar a sua qualidade de sono de
forma sistemática e fornecer informação que permita a prevenção e o tratamento
de comportamentos patológicos.
COMENTÁRIO
O sono é um estado fisiológico ativo cuja ausência ou alteração produz efeitos
adversos.8 Foram demonstradas relações entre a privação de sono na criança e a
ocorrência de lesões acidentais, alterações do comportamento, aumento do risco
de obesidade, depressão e ideação suicida em adolescentes.9
A definição de distúrbios do sono na criança é difícil pelos diferentes padrões
de sono que ocorrem ao longo do seu desenvolvimento e pela diferente
tolerabilidade dos pais ao padrão de sono dos seus filhos.10 Alguns desses
distúrbios têm origem comportamental, podendo ser prevenidos e tratados através
de medidas de higiene do sono que incluem mudanças ambientais e comportamentais
dos pais e da criança que podem promover um sono de boa qualidade e duração
suficiente.
Face às possíveis graves consequências das alterações do padrão de sono nas
crianças e aos efeitos destas alterações na qualidade de sono e de vida dos
pais, salienta-se a fácil, inócua e económica aplicabilidade das medidas
propostas neste artigo. As várias técnicas sugeridas podem ser aplicadas
isolada ou conjuntamente, consoante as preferências da família e mediante os
resultados obtidos.
Este artigo e esta temática salientam-se pela importância do conhecimento e da
transmissão destas técnicas face ao potencial benefício que uma intervenção
eficaz a este nível trará à criança e aos pais. O Médico de Família deve
incluir o despiste destes distúrbios na anamnese da prática clínica diária, bem
como ser capaz de transmitir conhecimentos sobre estas técnicas para que possam
ser reproduzidas pelos pais.