Um caso de adenite por BCG
ARTIGOS BREVES
Um caso de adenite por BCG
Adenitis due to BCG vaccine: a case report
Marta Sousa Tavares,* Inês Figueiredo**
*Médica Interna de Medicina Geral e Familiar, UCSP Anadia III
**Médica Assistente de Medicina Geral e Familiar, USF Alpha, Válega
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Introdução
O Plano Nacional de Vacinação recomenda a vacina contra a tuberculose com o
bacilo de Calmette e Guérin (BCG) em todos os recém-nascidos, excepto se
existirem contra-indicações específicas.1
As complicações da BCG são raras (<1:1000 vacinados).2 Uma das complicações
mais comuns da BCG é a adenite (BCGite), definida como o aumento de tamanho de
um gânglio linfático axilar, supraclavicular ou cervical (≥2 cm), ipsilateral
ao local de inoculação da BCG, dentro dos 6 meses após a vacinação BCG.2-5
Os factores de risco para a adenite pós-vacinal dependem da idade de vacinação,
da resposta imunológica, da via de administração, da técnica utilizada, da
estirpe e da dose.1,3-4
Duas formas de apresentação da BCGite podem ser reconhecidas na sua evolução
natural. A BCGite não-supurativa ocorre mais precocemente e normalmente
resolve-se espontaneamente dentro de poucas semanas, sem quaisquer sequelas. Em
alguns casos, o gânglio afectado aumenta progressivamente de tamanho e
desenvolve supuração, edema e eritema da pele subjacente. A BCGite supurativa
pode desenvolver-se após 2-4 meses da vacinação da BCG e persiste por vários
meses.1-2,5
O diagnóstico desta patologia é clínico. Perante uma criança previamente
saudável, filha de mãe seronegativa para o HIV e com boa progressão estato-
ponderal, o achado de adenite loco-regional ipsilateral ao local de inoculação
da BCG, sem outra causa identificável e na ausência de febre e/ou sintomas
constitucionais, é suficiente para o diagnóstico. Os exames complementares de
diagnóstico não estão indicados de forma rotineira.2-4
O tratamento da adenite por BCG ainda se mantém controverso e não é consensual.
Alguns estudos, pelo carácter benigno da evolução da BCGite não-supurativa,
sugerem um tratamento conservador, enquanto na BCGite supurativa aconselham a
aspiração por agulha fina de forma a encurtar o tempo de resolução e prevenir
complicações como a formação de locas. A excisão cirúrgica apenas está indicada
nas situações de abcessos multiloculados.3-6 Outros autores defendem uma
atitude expectante perante uma BCGite supurativa, na ausência de doença
disseminada.2 A terapêutica farmacológica com anti-tuberculostáticos e/ou
antibióticos não está indicada, uma vez que a medicação não altera o curso da
adenite e pode levar a reacções adversas medicamentosas.2-6
Apesar de raras, as complicações da BCGite existem e são um desafio para o
médico de família. O caso que se segue retrata um caso de BCGite no qual o
desafio para o médico de família esteve na dificuldade em tranquilizar a mãe da
criança acerca da benignidade da patologia.
Descrição do caso
Relatamos o caso de uma lactente de termo, caucasiana, nascida de parto
eutócico, com Apgar 9/10. Apresentava um peso à nascença de 2,960 Kg e 48,5 cm
de estatura. Encontra-se inserida numa família nuclear na fase II do ciclo de
Duvall, da classe média alta segundo o índice de Graffar.
Na consulta de vigilância dos 2 meses, ao exame objectivo, a lactente
apresentava-se um pouco irritada e queixosa. Apresentava uma adenite axilar
esquerda com dimensões 4,1 cm x 2,3 cm (figura_1), sendo o restante exame
físico normal. Colocou-se como hipótese de diagnóstico estarmos perante uma
adenite por BCG (BCGite) e referenciou-se ao Serviço de Urgência (SU) para
observação e orientação. No SU confirmou-se o diagnóstico de BCGite supurativa
e foi recomendado tratamento conservador. Foi medicada com paracetamol para
alívio da dor, indicação de reforço da hidratação cutânea e aguardar pela
drenagem espontânea.
Dado a criança se manter queixosa e irritada, a mãe, preocupada e ansiosa com a
situação clínica da filha, recorreu novamente à nossa consulta e questionou se
não haveria algo mais a fazer para além do paracetamol. Foi explicado à mãe que
teria de aguardar pela drenagem espontânea da adenite e que, quando ocorresse,
a dor iria aliviar e o quadro resolver-se-ia naturalmente. Entretanto,
reforçamos a ideia de que deveria manter o paracetamol e hidratar a pele. Dado
a mãe se encontrar bastante ansiosa, foi incentivada a recorrer à consulta
sempre que necessário para observarmos a criança, de forma a garantir que a
adenite estaria a seguir o seu curso natural de resolução ou detectar alguma
complicação com necessidade de referenciação. Como tal, a mãe recorreu ao
Centro de Saúde uma média de 3 vezes por semana, o que a tranquilizava.
Finalmente, após 3 semanas do início do quadro clínico, a adenite drenou
espontaneamente, com alívio sintomático, ficando a mãe mais tranquila (figura
2). A drenagem da adenite durou cerca de 7 semanas.
Actualmente, a menina, com 18 meses de idade, apresenta uma cicatriz quelóide
subaxilar esquerda (figura_3).
Comentário
Dada a raridade destes casos pretendemos alertar os médicos de família para o
carácter benigno da BCGite. Apesar de neste caso a criança apresentar uma
adenite supurativa, para a qual alguns autores aconselham a punção aspirativa
de forma a encurtar o tempo de resolução e prevenir complicações, optou-se por
um tratamento conservador, como é defendido por outros autores e por aguardar
pela drenagem espontânea, tendo tido um bom resultado pois, ao fim de 10
semanas do início do quadro clínico, ocorreu resolução completa sem
complicações. Em alguns casos, em que é realizada a punção aspirativa para
drenagem, é necessária mais do que uma aspiração, o que condiciona um
prolongamento do quadro clínico e aumenta o risco de complicações.4
Dado o tratamento da BCGite ser ainda controverso, pela experiência deste caso
clínico, os autores recomendam que, perante um lactente que apresente BCGite,
quer seja não-supurativa como supurativa, com boa evolução, o tratamento deverá
ser conservador, não havendo necessidade de referenciação. Deve ser explicado
aos pais que apesar do seu aspecto exuberante, com sinais inflamatórios e dor,
está indicado apenas reforço da hidratação cutânea e analgesia para alívio das
dores.