Fatores determinantes da qualidade de vida numa população de doentes com doença
pulmonar obstrutiva crónica
Introdução
A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) é uma causa importante de
morbilidade crónica e mortalidade prematura, constituindo a 4.a causa de morte
em todo o mundo.1-9 Apresenta-se como a 10.a causa de incapacidade a nível
mundial e a 12.a causa de anos de vida útil perdidos ajustados à idade
(DALYS).1,10-12 Em Portugal, um estudo realizado no âmbito da iniciativa Burden
of Obstructive Lung Disease (BOLD),4-5 na região de Lisboa, determinou uma
prevalência de DPOC de 14,2% em indivíduos com idade igual ou superior a 40
anos.13
Para além da magnitude do problema, sob o ponto de vista clínico, a DPOC
determina sofrimento a vários níveis, quer seja físico, psíquico ou social,
levando assim a uma diminuição da Qualidade de Vida (QdV) destes doentes.2
A QdV é atualmente uma componente essencial dos cuidados de saúde pelo que se
torna importante avaliá-la.3,14 No contexto das doenças pulmonares crónicas, os
dados de QdV têm-se mostrado muito úteis na avaliação do sucesso de
intervenções terapêuticas, sugerindo direções a tomar na prevenção dos danos
causados pela doença.14-17
Uma origem multifatorial está provavelmente na base da diminuição da QdV destes
indivíduos.16-17 A presença de comorbilidades psiquiátricas tem sido
relacionada com o aumento da mortalidade e diminuição do estado funcional
destes indivíduos.3,9,14 Concretamente, a ansiedade e depressão têm sido muito
reportadas como determinantes da QdV.18,21,24,26-27 A dispneia3,19-20,25-26 e a
intolerância ao exercício físico16-17,24-25 apresentam-se como duas das
principais e mais comuns queixas dos doentes com DPOC, pelo que é importante
perceber o seu efeito na QdV. O índice de massa corporal (IMC)16 e a
hipoxémia21,26 são dois determinantes que também mostram relação com a QdV
destes doentes.
Outros fatores, ainda que em menor escala ou com resultados controversos, têm
sido estudados, como: idade, condições sociodemográficas e económicas,
estratégias de coping e número de maços de cigarros fumados ao longo dos
anos.14-15,19,22-24,28
Em Portugal existem poucos estudos sobre DPOC e QdV, sendo importante conhecer
o problema em doentes seguidos nos cuidados de saúde primários.29-30 O
conhecimento dos fatores que mais influenciam e determinam a QdV destes doentes
permite direcionar esforços em opções de tratamento mais eficazes,
racionalizando-se tempo e custos e evitando-se as consequências da morbilidade
desta doença.
Assim, este estudo teve como objetivos analisar a relação entre a QdV e as
seguintes variáveis: género, idade, IMC, estado civil, situação profissional,
volume expiratório forçado no 1.º segundo (FEV1), ansiedade, depressão e
dispneia numa população de indivíduos com DPOC.
Métodos
Foi realizado um estudo observacional descritivo, transversal e analítico nas
Unidades de Saúde Familiar (USF) Gualtar e Manuel Rocha Peixoto, em Braga.
A população estudada foi constituída pelas pessoas inscritas nas USF acima
referidas, com idade igual ou superior a 40 anos, diagnosticados com DPOC ou
bronquite crónica (que estavam classificados no processo clínico pessoal
respetivamente com o código R95 ou R79, segundo a ICPC-2, International
Classification of Primary Care 2nd edition). Foram excluídos os doentes cujo
contacto não foi possível, por ausência de dados administrativos, e os doentes
sem domínio da língua portuguesa, escrita ou falada.
Foram enviados convites de participação no estudo a todos os doentes com DPOC
ou bronquite crónica das duas USF. Posteriormente, os que não manifestaram
oposição ao conteúdo da carta, num prazo de oito dias, foram contactados via
telefone e convidados a comparecer nas respetivas USF para uma entrevista.
Foram feitas até três tentativas de contacto telefónico em diferentes períodos
do dia: manhã, início e final da tarde. A recolha dos dados ocorreu durante o
mês de agosto de 2011 nas USF supracitadas. Os doentes assinaram os
consentimentos informados, assegurando a confidencialidade dos dados.
Cada doente realizou uma espirometria com prova de broncodilatação, com o
espirómetro MIR Spirobank G, a fim de se confirmar o diagnóstico de DPOC e
obter o valor de FEV1.1 Foram ainda excluídos os doentes cujo resultado da
espirometria não confirmou o diagnóstico de DPOC. Foi, assim, constituído o
grupo de doentes incluídos no estudo.
Os restantes dados foram obtidos através do autopreenchimento de um
questionário composto por quatro partes: Secção A – Constituída pelos seguintes
dados sociodemográficos: idade, género, peso e altura (para o cálculo do IMC),
estado civil e situação profissional; e pelo FEV1; Secção B – Composta pela
versão portuguesa da Hospital Anxiety and Depression Scale (HADS), uma escala
de autopreenchimento que foi desenvolvida por Zigmond e Snaith31 e validada em
Portugal por Pais Ribeiro.32 A HADS tem sido largamente usada em diversas
populações, inclusive em doentes com DPOC,21,24,26,33-35 estando o seu uso
recomendado pela Direção-Geral de Saúde (DGS).36 É composta por duas
subescalas: uma mede a ansiedade e a outra a depressão. Cada uma tem 7 itens
que são respondidos numa escala de quatro pontos (0-inexistente, 3-muito
grave), tendo cada subescala uma pontuação máxima de 21 pontos; Secção C –
Composta pela versão portuguesa do COPD-Specific Saint George’s Respiratory
Questionnaire (SGRQ-C), desenvolvido a partir do St. George’s Respiratory
Questionnaire (SGRQ).37-39 O SGRQ é o instrumento gold standard na medição da
QdV em doentes respiratórios crónicos, mas não é específico para a DPOC.14-
21,23-28 O SGRQ-C é uma versão mais curta e cujos valores podem ser facilmente
convertidos em va-lores correspondentes da versão original, permitindo assim a
comparação com estudos que a utilizem. Já validado e traduzido para
português,40 o SGRQ-C foi desenvolvido utilizando apenas dados sobre a DPOC.
É composto por três domínios englobados em duas partes: Parte 1 (questões 1-7),
respeitante à componente dos Sintomas, aborda a frequência dos sintomas
respiratórios; e a Parte 2 (questões 8-14), engloba as componentes Atividade e
Impacto, aborda o estado atual do paciente. O domínio Atividade mede os
distúrbios da atividade física diária, enquanto o domínio Impacto abrange os
distúrbios da função psicossocial. Cada resposta tem uma ponderação que varia
entre 0 e 100. Cada domínio pode ser calculado separadamente, bem como a
pontuação Total. O resultado varia entre 0 e 100%, sendo que quanto maior o
valor, pior a QdV. Foi desenhado para um autopreenchimento supervisionado e a
administração por telefone também se encontra validada;41-42 Secção D –
Composta pela versão portuguesa do Medical Research Council Dyspnea
Questionnaire (MRCDQ) numa escala de 5 graus, sendo os graus 0 e 1 os de menor
sensação de dispneia e o grau 4 o de maior.43 Esta é uma escala que integra a
revisão GOLD 2013 e o seu uso está aconselhado pela DGS,36 sendo largamente
usada em diversos estudos internacionais.20,26,33 No caso de doentes
analfabetos, o formulário foi preenchido pelo investigador.
A análise estatística dos dados foi feita com o programa IBM SPSS Statistics
v.19, recorrendo-se ao Teste-t para amostras independentes e ao Teste do Qui-
quadrado para comparação de médias e proporções e medindo-se a dimensão do
efeito através do cálculo do d de Cohen e odds ratio, respetivamente. Para a
análise bivariada entre as variáveis em estudo e a QdV utilizaram-se o Teste-
t para amostras independentes e a Correlação de Pearson. Posteriormente
submeteram-se as variáveis com diferenças estatisticamente significativas e
significativamente correlacionadas à regressão linear múltipla. O nível de
significância adotado foi de 0,05.44-46
Resultados
Observou-se que 350 doentes estavam codificados com DPOC (R95) ou bronquite
crónica (R79), constituindo a população do estudo. Desses, 55 (15,7%)
preenchiam os critérios de exclusão, 125 (35,4%) recusaram o convite, 54
(15,4%) não atenderam os telefonemas e 15 (4,3%) faltaram ao encontro agendado.
Dos 101 doentes participantes no estudo, 36 foram posteriormente excluídos
devido à não confirmação do diagnóstico de DPOC na espirometria com prova de
broncodilatação. Como resultado, o grupo de doentes incluídos no estudo foi de
65 pessoas (figura_1).
De forma a avaliar a representatividade da amostra em estudo, analisou-se a
relação entre os doentes participantes no estudo e os não participantes, não se
verificando diferenças estatisticamente significativas, relativamente ao género
e à idade (p = 0,053 e p = 0,106). No entanto, analisando a relação entre os
doentes incluídos no estudo e os excluídos e não participantes verificou-se
existir uma diferença estatisticamente significativa para o género (p = 0,020;
d = 1,969) (tabela_I).
A dimensão do efeito foi calculada como forma de complementar e melhorar o
teste estatístico, uma vez que o seu valor é independente da dimensão amostral.
Com base nos critérios de Cohen, verificou-se que, no presente estudo, todos os
resultados estatisticamente significativos foram associados a grandes dimensões
do efeito.
Caracterização sociodemográfica e clínica da amostra
Os doentes incluídos no estudo estão caracterizados na tabela_II, de acordo com
as características sociodemográficas e clínicas. A amostra era constituída por
45 elementos do género masculino (69,2%) e 20 elementos do género feminino
(30,8%), com média de idades de 67 ± 10,2anos e média de IMC de 27 ± 4,5Kg/m2.
80% dos doentes eram casados e 86,2% não trabalhavam.
No que respeita à sensação de dispneia, 33 doentes (50,8%) encontram-se entre
os graus de menor gravidade (graus 0 e 1), enquanto 32 doentes (49,2%) se
encontram nos graus 2 ou superiores. A média de FEV1 obtido foi de 74 ± 21,2%
do previsto. Quanto à depressão e ansiedade, a média das respostas obtidas foi
de 7 ± 4,3 e 8 ± 4,2, respetivamente.
No SGRQ-C, 53 ± 19,9% foi a média obtida no domínio Sintomas, 52 ± 24,1% no
domínio Atividade, 36 ± 24,1% no domínio Impacto e 44 ± 20,9% foi a média do
valor Total.
Identificação dos determinantes da QdV
Na análise da relação bivariada entre as variáveis estudadas e a QdV procedeu-
se ao teste-t para amostras independentes (tabela_III) e a correlações de
Pearson (tabelaVII). Posteriormente, as variáveis mais relacionadas com o
resultado foram incluídas na regressão linear múltipla, identificando-se assim
as que melhor predizem os diferentes domínios da QdV (tabela_VIII).
De acordo com as tabelas_III e VII, verifica-se que, no domínio Sintomas, as
variáveis que se relacionaram de forma significativa foram a dispneia,
depressão e ansiedade, tendo sido estas as variáveis avaliadas na regressão
linear múltipla (tabela_VIII). Na avaliação simultânea das variáveis, a
depressão e a ansiedade perderam a sua influência, ficando apenas a dispneia (p
<0,001; β = 0,317) como significativamente influente neste domínio de QdV,
explicando 32,7% da sua variabilidade.
Quanto aos domínios Atividade, Impacto e valor Total do SGRQ-C foram as
variáveis independentes género, situação profissional, dispneia, depressão e
ansiedade que se relacionaram significativamente, mas de forma isolada, com a
QdV. No entanto, quando se avaliou a influência destes fatores em simultâneo,
verificou-se que, no domínio Atividade, as variáveis situação profissional (p =
0,007; β = 0,263) e dispneia (p <0,001; β = 0,433) foram os melhores
preditores, explicando 53,1% da variabilidade deste domínio.
No domínio Impacto, 53,1% da variabilidade é explicada apenas pela dispneia (p
<0,001; β= 0,443).
A situação profissional (p = 0,021; β = 0,204), a depressão (p = 0,026; β =
0,259) e a dispneia (p <0,001; β = 0,480) mostraram também a sua influência no
valor Total do SGRQ-C, devendo-se a estes fatores 60,7% da sua variabilidade.
Após a conversão dos valores do SGRQ-C para serem comparáveis com os valores do
SGRQ40 verificaram-se os mesmos resultados.
Discussão
Os resultados deste estudo demonstraram que a situação profissional, a
depressão e a dispneia foram os principais fatores determinantes da QdV nesta
população de doentes com DPOC.
Os doentes incluídos no estudo eram maioritariamente do sexo masculino (69,2%)
e a média de idades foi de 67 anos. Estes dados são apoiados pelo relatório do
observatório nacional para as doenças respiratórias, de 2009, que refere que a
prevalência de DPOC em Portugal, apesar de subestimada, é superior nos homens e
em idades mais avançadas.10
As mulheres demonstraram valores mais elevados no SGRQ-C, com uma diferença
estatisticamente significativa relativamente aos homens na maioria dos domínios
e no valor Total, implicando pior QdV. Apesar de a diferença estatística não se
ter verificado no domínio Sintomas, as mulheres tiveram mais cinco pontos do
que os homens, sendo que quatro pontos é o limiar para se considerar esta
diferença clinicamente significativa.41 Este resultado é semelhante ao obtido
por De Torres et al46 num estudo realizado com 53 homens e 53 mulheres, onde se
concluiu que as mulheres obtiveram piores resultados em todos os domínios e no
valor total do SGRQ. No entanto, os estudos de Ketelaars et al15 e de Stahl et
al,28 usando o mesmo questionário, não encontraram diferenças estaticamente
significativas para o género. Um estudo realizado por Ferrer et al,42 no âmbito
do projeto IBERPOC (Epidemiological Study of Chronic Obstructive Pulmonary
Disease in Spain), não demonstrou diferenças estatisticamente significativas no
SGRQ entre homens e mulheres com DPOC, com exceção do domínio Sintomas.
Estes autores avaliaram também as diferenças entre género numa população
saudável e concluíram que as mulheres apresentavam menos sintomas
respiratórios, mas piores índices de atividade, indicando que as diferenças no
valor do SGRQ são parcialmente independentes da doença respiratória. No
presente estudo, apesar de verificada a diferença por género, este perdeu
influência ao ser avaliado simultaneamente com outros fatores. Também Renwick e
Connolly,23 num estudo efetuado com 190 doentes, submeteram o género à
avaliação simultânea com outros preditores, não se verificando a influência
deste sobre a QdV. Face a estes resultados, pensa-se que, na amostra em estudo,
as diferenças observadas podem não ter sido verdadeiramente devidas ao género
mas a outros preditores, como a depressão, identificados na literatura como
mais frequentes no género feminino.27,42
Neste estudo foram ainda avaliados outros dados sociodemográficos, como a
idade, o estado civil e a situação profissional. Destes, apenas a situação
profissional mostrou influenciar os domínios Atividade e valor Total, ainda que
em menor escala quando comparada com a depressão e/ou a dispneia, também
preditores destes domínios. Sendo a média de idades dos doentes incluídos no
estudo de 67 anos, a maioria (86,6%) não trabalhava, encontrando-se
possivelmente reformada.
Ketelaars et al15 estudaram os determinantes da QdV em 126 pacientes dos 40 aos
80 anos com DPOC grave. Concluíram que a idade não se correlacionava com a QdV,
provavelmente porque esses pacientes se ajustariam às perdas psicossociais e,
como eram na maioria idosos, teriam desenvolvido novas atitudes e adequado o
seu estilo de vida às limitações decorrentes da doença, encarando-as como
consequência natural da idade. Este facto é apoiado pelos resultados do
presente estudo, onde também não se obteve qualquer relação entre a idade e a
QdV. Contudo, Stahl et al28 demonstraram, num estudo feito na Suécia com 168
indivíduos com DPOC, que a QdV diminuía com o aumento da idade. Ferrari et
al,47 num estudo com 60 homens e 30 mulheres, procuraram identificar os
principais preditores da QdV de acordo com o género e verificaram que a idade
era determinante em ambos os géneros. Verifica-se, assim, que os dados
sociodemográficos não têm obtido resultados consensuais, sendo necessários
estudos que contemplem a uniformização das metodologias e populações para que
se apure a sua verdadeira influência na QdV.
Quanto ao IMC, neste estudo, não se verificou qualquer relação com a QdV. O
mesmo foi verificado por Tsukino et al,22 quando avaliaram a relação entre o
peso corporal e a QdV (avaliada com o Nottingham Health Profile e Chronic
Respiratory Questionnaire) em 132 doentes. Por outro lado, Dourado et al16
avaliaram 21 doentes com DPOC moderada a grave e verificaram a existência de
correlações negativas entre o IMC e os domínios Impacto e Sintomas e valor
Total do SGRQ.
Os mesmos autores avaliaram também o FEV1 e concluíram que, apesar de
negativamente correlacionado com o domínio Impacto e valor Total do SGRQ, não
se demonstrou determinante para a QdV na avaliação simultânea com outros
fatores. O FEV1 foi usado neste estudo como variável independente contínua e
não demonstrou qualquer efeito estatisticamente significativo na QdV. Este é
também um fator bastante avaliado nos mais diversos estudos, verificando-se
resultados controversos. Okubadejo et al21, num estudo efetuado a 41 indivíduos
com DPOC e utilizando o SGRQ, não encontraram correlação significativa entre o
FEV1 e a QdV. Estes resultados são ainda apoiados pelos estudos de Ketelaars et
al,15 Engström et al24 e Sant’Anna et al.25 Renwick e Connolly avaliaram a
influência do FEV1 na QdV de 190 doentes, usando o SGRQ, e verificaram uma
correlação significativa na análise bivariada mas uma correlação fraca na
regressão linear múltipla.23
No entanto, existem estudos que categorizam o FEV1 comparando a QdV nos
diferentes estadios da DPOC.1 Stahl e os seus colegas verificaram que a
severidade da DPOC (e indiretamente o FEV1) influenciou os valores do SGRQ, com
diferença estatisticamente significativa para o valor Total.28 Num estudo de
coorte espanhol, Ferrer et al demonstraram que os valores do SGRQ aumentavam
com o aumento do estádio da DPOC em doentes com e sem comorbilidades.19 Também
os estudos efetuados por Hajiro e a sua equipa apoiam estes resultados.20,26
Verificamos, então, que na maioria dos estudos em que o FEV1 é utilizado como
variável quantitativa contínua, a relação com a QdV é fraca ou ausente, como
verificado no presente trabalho. No entanto, quando avaliam a gravidade da
doença, e indiretamente o FEV1, este relaciona-se com a QdV. É, assim,
necessário ter cuidado ao tentar predizer a QdV com base nos resultados
espirométricos.
Quanto à sensação de dispneia, avaliada no presente estudo com o MRCDQ,
mostrou-se como o preditor mais forte em todos os domínios do SGRQ-C. Hajiro et
al20 concluíram, num estudo realizado em 1999, que a sensação de dispneia,
avaliada pelo MRCDQ, é uma determinante para a QdV mais importante do que a
gravidade da doença. Os mesmos autores, em 2001, estudaram 218 indivíduos com
DPOC estável e demonstraram a forte influência da dispneia em todos os domínios
do SGRQ.26 Estas conclusões são ainda apoiadas pelo estudo feito por Sant’Anna
et al25 em 69 indivíduos com DPOC, onde se demonstrou a correlação
significativa entre a dispneia e a QdV. Também Ferrari e os seus colaboradores
utilizaram o MRCDQ para avaliarem a dispneia e verificaram a sua forte
influência na QdV em ambos os géneros.47
A dispneia tem vindo, assim, a ser consensualmente confirmada como determinante
da QdV e, sendo também um importante fator de prognóstico, deve ser considerada
na avaliação da QdV destes doentes.
As comorbilidades psiquiátricas têm sido fortemente reportadas como
determinantes da QdV. No presente trabalho, tanto a depressão como a ansiedade
demonstraram forte relação com o SGRQ-C quando avaliadas separadamente. No
entanto, apenas a depressão, na avaliação pela regressão linear múltipla,
manteve a sua influência no valor Total do SGRQ-C, revelando-se, a par da
dispneia e da situação profissional, como uma determinante para a QdV. Este
resultado é apoiado por Engström et al24 que, num estudo efetuado com 68
doentes, confirmou, na análise bivariada, a correlação entre a ansiedade e
depressão e o SGRQ, mas na análise de regressão múltipla apenas a depressão se
mostrou como preditiva da QdV. Ng et al,34 num estudo de coorte com 376
doentes, demonstraram, através da análise multivariada, a forte associação
entre a depressão e o SGRQ, independentemente da severidade da DPOC,
comorbilidades e variáveis socioeconómicas, psicossociais e comportamentais.
Hajiro et al26 avaliaram também a influência dos sintomas psicológicos na QdV,
confirmando a importância da depressão e ansiedade no bem-estar dos doentes.
Num estudo realizado em 2006, Di Marco et al27 documentaram uma correlação
estatisticamente significativa entre a ansiedade e depressão e o SGRQ. Outros
estudos, usando as mesmas escalas de medida, apoiam estes resultados, como é o
caso da investigação realizada por Okubadejo et al.24
Outras variáveis poderiam ter sido testadas, nomeadamente a da classe social ou
o do teste de caminhada de 6 minutos. No entanto, e tendo em conta o número de
doentes que compunham a amostra, procurou-se, por um lado, testar variáveis já
citadas na literatura como potenciais determinantes para a QdV e, por outro,
não incluir variáveis que fossem obtidas de forma invasiva ou agressiva para os
participantes e que limitasse a sua participação ou que não fossem passíveis de
serem medidas devido a fatores externos aos investigadores. A classe social é
exemplo de uma variável que, apesar de ser facilmente obtida, não foi incluída
pois tem vindo a ser negada como determinante da QdV.15,28 Por outro lado,
aconselha-se a inclusão do teste de caminhada de 6 minutos em futuras
investigações, pois tem sido frequentemente apontado como determinante da QdV
em diversos estudos.15-16,24-25
Este estudo apresenta algumas limitações. Apesar da baixa taxa de participação
(28,9%), os 101 doentes não demonstraram diferenças estatisticamente
significativas relativamente à restante população quanto ao género e idade. No
entanto, após a exclusão de 36 pessoas, por não confirmação do diagnóstico de
DPOC, verificou-se diferença estatística no género (tabela_I). Isto pode ser
explicado pela exclusão maioritariamente de mulheres, onde não se confirmou o
diagnóstico, relativamente à população masculina onde a DPOC é mais frequente.
O principal motivo da não participação no estudo foi a recusa direta dos
doentes, facto que pode ser parcialmente explicado devido à necessidade de
deslocação à USF. A impossibilidade de contactar algumas pessoas constituiu o
segundo motivo de não participação no estudo e incluiu os que apresentavam
dados de contacto incompletos, errados ou desatualizados, bem como aqueles que
não responderam às três tentativas de contacto telefónico. A seleção dos
utentes com base nos registos dos médicos assistentes e a utilização de uma
amostra por conveniência constituem também vieses de seleção.
A ausência de validação para a população portuguesa dos questionários SGRQ e
MRCDQ apresenta-se como outra limitação, condicionando a sua aplicação e
inferência dos resultados na população em estudo. No entanto, utilizaram-se
traduções oficiais de ambos para minimizar essa limitação.39,43 Além disso,
tanto o SGRQ como o MRCDQ são recomendados pela DGS na avaliação de sintomas e
QdV em doentes com DPOC.36 No que respeita ao SGRQ, indicado como instrumento
gold standard na medição da QdV em doentes respiratórios crónicos, procurou-se
utilizar um instrumento ainda mais específico, aplicando-se a versão
desenvolvida para indivíduos com DPOC.40-41
A espirometria foi o método usado na confirmação do diagnóstico de DPOC.
Segundo o GOLD, a DPOC é confirmada quando a razão entre o FEV1 e a capacidade
vital forçada é inferior a 0.7 pós-broncodilatação, independentemente da
idade,1 tendo sido este o critério utilizado neste estudo. No entanto, não são
considerados os limites inferiores da normalidade para a idade e que variam
entre adultos jovens e idosos. Num estudo realizado por Güder et al47 concluiu-
se que os critérios GOLD sobre diagnosticam a DPOC na população idosa, enquanto
os limites inferiores da normalidade identificam um menor número de casos.
Estes autores propõem, assim, a incorporação dos limites inferiores da
normalidade para um diagnóstico mais preciso de DPOC.
A não inclusão de comorbilidades, nomeadamente cardiovasculares, diabetes,
osteoporose, anemia ou disfunção músculoesquelética, que afetam principalmente
doentes em estádio avançado e cuja influência na QdV foi já reportada,19 pode
também influenciar os resultados. No entanto, o facto de os doentes terem que
se deslocar às USF para a recolha dos dados acabou por incluir na amostra
aqueles com doença mais estável.
A dimensão amostral desta investigação limitou o número de variáveis a incluir
no modelo de regressão linear múltipla, pelo que, à semelhança de outros
estudos, se optou por utilizar previamente uma análise bivariada.15-16,23 No
entanto, é necessário ter em conta que, por vezes, variáveis com correlação
bivariada não significativa adquirem significância em modelos de regressão
múltipla, sendo que o inverso foi verificado neste estudo (o género e a
ansiedade perderam a significância demonstrada anteriormente). Por outro lado,
as dimensões do efeito calculadas (d de Cohen, correlação e odds ratio)
refletem a magnitude do resultado obtido com o teste estatístico,
independentemente do tamanho da amostra. Estas medidas ajudam, assim, a
determinar se foi encontrado um efeito clinicamente significativo, ajudam a
determinar o tamanho da amostra em estudos futuros e facilitam a comparação
entre investigações científicas.44
Os vieses descritos limitam a extrapolação dos resultados obtidos. Além disso,
o estudo foi realizado numa população de uma zona geográfica específica de
Portugal pelo que não é possível generalizar os resultados à população
portuguesa.
Em conclusão, verificou-se, através dos resultados deste estudo, que a
depressão, a situação profissional e a dispneia explicam cerca de 60% da
variabilidade do valor Total do SGRQ-C. Este estudo demonstrou, assim, que
estas variáveis deverão ser consideradas nas estratégias para melhorar
a QdV nesta população de doentes com DPOC e que existem outras variáveis que
influenciam a QdV, explicando os restantes 40% de variabilidade.
No futuro recomenda-se a realização de estudos que validem os instrumentos de
medida e a realização de investigações com uniformização das populações, de
técnicas de medição e de tratamento de dados para que se possa determinar a
influência de novos fatores, e de outros ainda controversos, no sentido de se
encontrar o melhor modelo a predizer a QdV nos doentes com DPOC.