Prevenir nem sempre é o melhor remédio
CLUBE DE LEITURA
Prevenir nem sempre é o melhor remédio
Prevention is not always the best solution
Sara Anjo
Interna de Medicina Geral e Familiar, UCSP Barão do Corvo, ACeS Gaia
Martins C, Azevedo LF, Ribeiro O, Sá L, Santos P, Couto L, et al. A population-
based nationwide cross-sectional study on preventive health services
utilization in Portugal: what services (and frequencies) are deemed necessary
by patients? PLoS One. 2013;8(11):e81256. doi: 10.1371/journal.pone.0081256.
Introdução
A maioria das estratégias para induzir um uso mais racional de serviços de
saúde preventivos são orientadas para a vertente médica da relação médico-
doente. Contudo, o modelo de consulta tem sofrido alterações, apresentando os
doentes, atualmente, um papel mais importante na consulta médica.
O objetivo deste estudo foi avaliar quais os serviços de saúde considerados
necessários e com que frequência, pelos adultos da população portuguesa em
geral.
Métodos
Estudo transversal baseado na população portuguesa. Contou com a participação
de mil adultos portugueses inquiridos por entrevista telefónica assistida por
computador e selecionados por amostragem estratificada por grupos. Foram
avaliadas as proporções e as estimativas de prevalência na população foram
determinadas para cada serviço de saúde, tendo em consideração se os
entrevistados o consideravam necessário e com que frequência.
Resultados
As idades dos entrevistados variaram entre os 18 e os 97 anos e 520 dos 1000
(52%) entrevistados foram mulheres.
Entre os adultos portugueses, 99,2% [intervalo de confiança (IC) 95%: 98,5 a
99,6] consideram que devem realizar análises gerais de rotina ao sangue e à
urina, devendo ser repetidos em média a cada 12 meses (IC 95%: 11,4 a 12,6);
87,4% (IC 95%: 85,3 a 89,3) dos entrevistados referiram ter efetivamente
realizado estes exames.
Dos 15 serviços analisados, 14 foram considerados periodicamente necessários
por mais de 60% dos entrevistados. Entre os entrevistados, 37,7% (IC 95%: 34,5
a 41,1) referiram recorrer aos serviços de saúde por iniciativa própria.
Conclusão
A maioria dos adultos portugueses acredita que deve utilizar um elevado número
de serviços de saúde, numa frequência próxima do anual, sendo que a maioria na
verdade segue essa calendarização. Os nossos resultados indicam uma tendência
para uma utilização excessiva de recursos.
Estratégias adequadas orientadas para o doente, visando o uso de exames médicos
e medidas preventivas com informação adequada e discussão dos riscos e
malefícios, são urgentemente necessárias e cruciais para alcançar um uso mais
racional dos serviços de saúde e prevenir as consequências do uso excessivo de
exames.
COMENTÁRIO
O desejo legítimo de querer preservar a saúde conduziu à ideia de que todas as
doenças são curáveis se detetadas precocemente. Assim, o conceito de medicina
preventiva foi ganhando uma dimensão descontrolada e demasiado ambiciosa.
Este estudo evidencia que a população adulta portuguesa realiza mais exames
complementares de diagnóstico e com maior frequência do que o previsto nas
recomendações nacionais e internacionais, refletindo claramente que a perceção
dos portugueses em relação ao número e periodicidade de exames a realizar é
inadequada. O termo "análises gerais" ou até mesmo "check
up", que tão frequentemente é motivo de consulta por parte dos utentes
nos cuidados de saúde primários, parece estar enraizado na cultura portuguesa.
É fundamental que tanto a classe médica como a população estejam sensibilizados
para os malefícios diretos de alguns exames efetuados (como o uso de radiações
ionizantes), mas principalmente para as potenciais consequências de um
resultado alterado num exame de rotina. A orientação e correta valorização de
uma alteração num exame pedido a um doente assintomático constitui um desafio,
dado implicar, na maioria das vezes, a realização de exames adicionais,
progressivamente mais dispendiosos, alguns dos quais de caráter invasivo com
possíveis complicações associadas. Não raras vezes, todo este processo, que
condiciona adicionalmente elevado stress psicológico ao doente, termina na
conclusão de que se tratou de um falso positivo ou de que a alteração inicial
não carece de uma orientação terapêutica.
Precisamente neste contexto surgiu o conceito de prevenção quaternária, também
designada por prevenção da iatrogenia. Na realidade, com a crescente utilização
na área da saúde de novas tecnologias e a realização de um maior número de
intervenções diagnósticas e terapêuticas, o intervalo de segurança entre os
benefícios e os riscos tem vindo a diminuir, reduzindo a segurança para o
doente.2
É interessante refletir sobre o facto de 37,7% da população inquirida afirmar
que realiza exames médicos por sua iniciativa. Apesar da consulta constituir um
momento de decisão partilhada entre o médico e o doente, todos os exames
complementares de diagnóstico implicam uma prescrição médica, decisão esta que
deverá prevalecer sobre a vontade pouco criteriosa do doente.
Para a complexidade deste tema, contribui adicionalmente o facto da evidência
demonstrar que exames gerais de saúde não reduzem a morbimortalidade global,
cardiovascular ou por neoplasia, apesar do aumento de novos diagnósticos.3
Todos os cuidados médicos, incluindo os preventivos, têm o potencial de
provocar prejuízo ao doente. A intervenção médica excessiva é uma ameaça para o
doente que contacta com o Sistema de Saúde.4
Devemos pois fornecer aos utentes a informação necessária para poderem tomar
decisões autónomas, conhecendo as vantagens e as desvantagens dos métodos de
diagnóstico propostos.