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Representação em texto

EuPTCVHe2182-51732014000100007

variedadeEu
ano2014
fonteScielo

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Músculo e pele em equação, relato de caso

Introdução A dermatomiosite é uma miopatia inflamatória com manifestações cutâneas características e uma prevalência de 1-10/1.000.000 adultos.1 Apesar de ser uma doença rara, o seu atempado reconhecimento é fundamental para a exclusão de neoplasia, à qual se associa em alguns casos, assim como para o tratamento precoce, que permite diminuir a morbilidade das complicações sistémicas.1 Este caso ilustra o papel do médico de família na abordagem a patologias que, sendo raras na sua consulta e pela sua apresentação infrequente, devem desencadear uma investigação diagnóstica dirigida. É também papel do médico de família aplicar todos os componentes dos cuidados médicos, para além do diagnóstico e tratamento, sendo um facilitador no processo de adaptação à doença.

Descrição do caso Manuela (nome fictício) é uma utente de cerca de 50 anos de idade, caucasiana, que reside num concelho do litoral norte do país e tem o 12.o ano de escolaridade. É casada e tem dois filhos. A sua família pertence à classe III de Graffar. Trata-se de uma família nuclear na fase VI do ciclo de Duvall.

Manuela é seguida na nossa consulta desde 2003. Como antecedentes pessoais a registar um hipotiroidismo subclínico diagnosticado em 2011, com autoanticorpos positivos. Nessa altura a utente faltou a consulta subsequente pelo que não foi possível prosseguir com o estudo através de exame ecográfico da tiróide ou sequer ponderar a suplementação com levotiroxina. Manuela nega consumos tabágicos ou alcoólicos, assim como o uso de medicação habitual ou outro tipo de suplementos. A sua mãe morreu com 60 anos de idade, na sequência de uma neoplasia cerebral. São desconhecidos outros antecedentes familiares relevantes, designadamente de doença hematológica ou autoimune.

A história da doença atual inicia-se em novembro de 2011, altura em que Manuela recorreu à consulta programada (a pedido da própria) e solicitada com brevidade por um quadro de: astenia marcada com três meses de evolução, que inicialmente relacionou com ansiedade e perturbação do sono motivadas por problemas laborais; rash, com surgimento cerca de um mês, não pruriginoso, de aparecimento progressivo na região da face e pescoço; e fadiga muscular de aparecimento mais recente (duas semanas), que se manifestava por uma dificuldade em realizar atividades da vida diária, como subir escadas, pentear o cabelo ou caminhar, provocando quedas com traumatismo dos membros inferiores.

Ao exame objetivo destacava-se: eritema macular da face associado a edema periorbitário e eritema violáceo macular confluente periorbitário; eritema macular não pruriginoso em forma de V (área correspondente ao decote) na região do pescoço, torácica anterior (Figura_1) e sobre as articulações metacarpofalângicas e interfalângicas proximais (Figura_2). Na avaliação dos grupos musculares verificou-se, quer nos membros superiores, quer nos membros inferiores, força muscular grau 3 (força muscular possível contra gravidade mas não contra a resistência do examinador), algo que foi mais patente nos grupos musculares proximais. Ao sair do consultório era notória a dificuldade em levantar-se da cadeira sem apoio e a marcha, apesar de hesitante, mantinha-se estável. É visível, e também referida por Manuela, a dor muscular quando agarra o puxador da porta.

Neste contexto, o raciocínio clínico colocou em equação pele e músculo. A utente foi aconselhada a evitar a exposição solar, aplicando protetor solar e corticóide tópico. Foram solicitadas análises com caráter urgente no sentido de despistar patologia autoimune. Do estudo analítico solicitado são de ressaltar: elevação da creatinina cinase (2.211 U/L) cerca de 13 vezes superior ao limite do normal para o laboratório, elevação da alanina transaminase e aspartato transaminase (120 e 172 U/L) cerca de 3 e 5 vezes superiores ao limite do normal para o laboratório, respetivamente; destacam-se também a velocidade de sedimentação (49 mm/hora) e os valores da enzima lactato desidrogenase (303 U/ L). Mantém-se o hipotiroidismo subclínico previamente diagnosticado com valores de TSH de 12,34µU/mL e T4 dentro do normal. O estudo autoimune efetuado revela-se apenas positivo para anticorpos antinucleares (título 1:640) e as serologias para sífilis, hepatite C, hepatite B e VIH (vírus da imunodeficiência humana) foram negativas.

Construindo o puzzle dos achados ao exame objetivo, da história clínica e dos resultados do estudo analítico, a principal hipótese diagnóstica colocada foi um quadro de dermatomiosite. Nesta fase é extremamente importante a exclusão de doença maligna como causa secundária. Revendo a vigilância e rastreios efetuados, carcinoma colo retal, carcinoma da mama e carcinoma do colo do útero estavam atualizados.

Para agilizar e otimizar quer o esclarecimento da etiologia deste quadro, quer a posterior orientação terapêutica, a utente foi referenciada a consulta de Medicina Interna com caráter de urgência. Nesta consulta realizou tomografia computorizada cervico-toraco-abdomino-pélvica que não revelou sinais de lesão neoformativa oculta; eletrocardiograma e ecocardiograma que não demonstraram alterações; ecografia tiroideia que mostrou achados sugestivos de quadro de tiroidite; endoscopia digestiva alta que revelou gastrite; biópsia da pele e músculo compatível com dermatomiosite; e eletromiografia sugestiva de miosite inflamatória. Após os resultados dos meios complementares de diagnóstico em consulta de Medicina Interna foi instituída terapêutica com prednisolona na dose de 60 mg por dia e levotiroxina sódica 75 µgr por dia.

A utente retomou o contacto com a sua médica de família cerca de três meses após iniciar acompanhamento em consulta de Medicina Interna, para sucessivas renovações de certificados de incapacidade temporária. Nestas consultas foi notória a evolução do quadro clínico com desaparecimento do rash cutâneo na face, região cervical, torácica, metacarpofalângica e interfalângica, assim como o progressivo ganho de força muscular patente na reavaliação dos grupos musculares onde se verificava, quer nos membros superiores, quer nos membros inferiores, força muscular grau 4 (por comparação a grau 3 verificado na apresentação inicial). Estas melhorias traduziram-se num ganho de autonomia na realização de atividades da vida diária e numa marcha estável e sem hesitação com redução do número de quedas.

Estas consultas, para além da reavaliação da incapacidade para a atividade laboral, transformaram-se numa oportunidade para auxiliar Manuela a lidar com a patologia crónica e rara numa utente previamente saudável. Inicialmente permaneciam algumas dúvidas sobre a prevalência e prognóstico da doença e um certo estigma, várias vezes referido, pela «raridade» da patologia. Estas questões foram trabalhadas fornecendo informação sobre a doença, oferecendo suporte emocional e tentando o reforço do suporte familiar. Numa fase posterior, Manuela demonstrou alguma desmotivação pelas limitações na realização de certas tarefas, pelo que foram discutidos aspetos positivos das «conquistas» até agora realizadas e estimuladas atividades que incentivassem a autovalorização.

Atualmente, decorrido um ano do início do quadro, Manuela está desempregada, solicitou reforma antecipada, mantém bom relacionamento com marido e filhos, reconhece uma progressiva adaptação à doença e, ultrapassando o medo das quedas e da perda de força muscular, inscreveu-se em aulas de hidroginástica. Mantém acompanhamento em consulta de Medicina Interna e está em esquema de sobreposição de corticóide com azatioprina, com o objetivo de posteriormente passar a terapêutica única com azatioprina. Na última avaliação, referiu fotópsias e diminuição da acuidade visual objetivada por exame com tabela de Snellen, olho direito 7/10 e olho esquerdo 6/10, pelo que foi referenciada a consulta de Oftalmologia.

Comentário No caso descrito, Manuela apresentou um quadro clínico que conjugava manifestações constitucionais (astenia), musculares (diminuição da força muscular, nomeadamente nos grupos musculares proximais) e dermatológicas (eritema da face, edema periorbitário e eritema violáceo macular confluente denominado heliotropo , eritema na região cervical e torácica anterior, correspondente à área do decote sinal em V e eritema não descamativo sobre as articulações metacarpofalângicas e interfalângicas sinal de Gottron).

Estas manifestações são caraterísticas de dermatomiosite e, inclusivamente, algumas delas são utilizadas como critérios para o seu diagnóstico. Apesar da evolução descrita, com o rash cutâneo a preceder o envolvimento muscular, não ser típica e estar presente em cerca de 30% das apresentações de dermatomiosite, este não deixa de ser um quadro clínico específico.2 Não será, obviamente, um diagnóstico que o clínico consegue rapidamente integrar, quer pela sua raridade, quer ainda pelos diagnósticos diferenciais que se impõem (Quadro_I). A ilação a retirar nesta fase será a de valorizar os sintomas, os sinais e a gravidade que lhes está associada, nomeadamente o relevante impacto na qualidade e atividades de vida diárias, e prosseguir com o estudo direcionado.

De acordo com os critérios diagnósticos de dermatomiosite,3 antes da referenciação para a consulta de Medicina Interna, Manuela preenchia os critérios diagnósticos de dermatomiosite (Quadro_II), apresentando dois achados do item 1 e quatro dos itens 2 a 9. Quando corretamente aplicados, estes critérios apresentam uma boa acuidade diagnóstica para dermatomiosite (sensibilidade de 94,1 % e especificidade de 90,3%).3

Na fase em que o diagnóstico de dermatomiosite parece ser o mais provável, a ênfase deve ser colocada na exclusão de síndroma paraneoplásica. As manifestações cutâneas ou musculares não diferem entre uma dermatomiosite idiopática e uma dermatomiosite associada a neoplasia maligna. Tem vindo a ser demonstrado nos adultos com dermatomiosite um risco aumentado de neoplasia maligna (pulmonar, gástrica, linfoproliferativa e ovárica).2 Alguns estudos sugerem que este risco seja 6,5 vezes o da população geral.4 Este risco é ainda maior quando o diagnóstico de dermatomiosite é feito em pessoas com mais de 45 anos de idade.

Para além da exclusão de neoplasia maligna, outro ponto a ter em conta diz respeito à exclusão de uma síndroma de overlap com outras doenças do tecido conjuntivo, constituindo no fundo uma doença mista do tecido conjuntivo. Esta é mais frequente nas mulheres que nos homens (9:1) e ocorre em 11 a 40 % dos diagnósticos de dermatomiosite.4,5 A importância não se resume apenas a um preciosismo de classificação, pois tem implicações na abordagem terapêutica: nos doentes com síndroma de overlap a miosite responde melhor ao tratamento com corticoides do que acontece quando a sua etiologia é idiopática.4,5,6 Os meios complementares de diagnóstico, realizados em consulta de Medicina Interna, vieram confirmar a suspeita clínica de dermatomiosite e excluir, para , a associação a neoplasia maligna. É advogada por alguns autores, atendendo à associação de dermatomiosite com carcinoma do ovário, uma avaliação ginecológica cuidada e apertada (incluindo exame ginecológico, ecografia endovaginal e antigénio Ca-125, com periodicidade de 6 a 12 meses) nos 2 anos seguintes ao diagnóstico.7 O início de corticoterapia, assim como a melhoria do quadro clínico com que Manuela se apresentou, corresponderam a um período de interregno no contacto com a sua médica de família. Posteriormente, e à medida que as consultas de Medicina Interna se iam espaçando, regressou ao contacto com a sua médica de família para prorrogação de Certificados de Incapacidade Temporária. Estas consultas, para além da reavaliação da incapacidade para a atividade laboral, constituem valiosas oportunidades para promover e auxiliar no ajuste e adaptação à doença, oferecendo suporte emocional, explorando o impacto da doença na vertente familiar e social, sublinhando a relação médico-doente como também ela terapêutica. São também importantes momentos para a exploração de sintomas ou sinais de atingimento sistémico para os quais o clínico tem de estar alerta (Quadro_III) de forma a saber reconhecer e orientar devidamente.

Não é pretensão deste caso clínico colocar a nota no diagnóstico do que é raro.

«Quando ouvir o som de cascos pense em cavalos, não em zebras» é um artifício de que o médico de família faz uso no seu dia a dia. Pretende-se sim, salientar a valorização de queixas que, pelo seu impacto e apresentação atípica, implicam uma investigação diagnóstica dirigida, ou seja, queixas que nos fazem pensar emzebras ou mesmo noutro equino. Se a área da saúde beneficia em muito da utilização com destreza da navalha de Occam,8 a destrinça do que implica estudo e avaliação adicional é também um elemento importante do raciocínio clínico.

Este caso reforça ainda o papel do médico de família enquanto facilitador do processo de adaptação à doença.


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