Rastreio da Hipertensão Primária em Crianças e Adolescentes: Recomendações da
United States Preventive Services Task Force
CLUBE DE LEITURA
Rastreio da Hipertensão Primária em Crianças e Adolescentes: Recomendações da
United States Preventive Services Task Force
Screening for Primary Hypertension in Children and Adolescents: Recommendations
of the United States Preventive Services Task Force
Raquel Meireles
Interna de 2º Ano de MGF, CS de Bragança I - Sé
Moyer VA, U.S. Preventive Services Task Force. Screening for primary
hypertension in children and adolescents: U.S. Preventive services task force
recommendation statement. Ann Intern Med 2013 Nov 5; 159 (9): 613-9.
Este artigo visa atualizar a recomendação de 2003 da United States Preventive
Services Task Force (USPSTF) acerca do rastreio da Hipertensão Arterial (HTA)
em crianças e adolescentes.
Estima-se atualmente que a prevalência da HTA em crianças e adolescentes nos
Estados Unidos se situe entre 1 e 5%. Esta percentagem tem vindo a aumentar ao
longo das últimas décadas, provavelmente associada ao aumento da prevalência do
excesso de peso e da obesidade infantil, uma vez que um elevado índice de massa
corporal (IMC) é o maior fator de risco para a HTA nesta faixa etária. No
entanto, existem outros fatores de risco, como baixo peso à nascença, sexo
masculino, etnia e história familiar de HTA.
O facto de, segundo a USPSTF, o aumento da prevalência da HTA nas crianças e
adolescentes se dever ao aumento da obesidade infantil sugere que a
identificação e o tratamento da HTA irão constituir um problema significativo
de saúde. O objectivo de identificar e tratar crianças e adolescentes com HTA
primária pode, no entanto, ser também abordado num quadro mais abrangente de
redução do risco cardiovascular global do adulto, que inclui outros factores de
risco cardiovascular, como o IMC, o perfil lipídico e a glicemia.
Uma das razões advogadas para efetuar este rastreio nas crianças e adolescentes
prende-se com o fato de a identificação precoce da HTA primária nessas idades
permitir adotar medidas para o seu controlo, reduzindo o risco de eventos
cardiovasculares e morte na idade adulta. Por outro lado, o rastreio visa
também identificar os casos de hipertensão secundária, uma entidade rara que
pode ser subjacente a várias causas, nomeadamente doença do parênquima renal ou
doença renovascular. Todavia, é pouco provável que a HTA seja, nestas
situações, a única manifestação clínica presente, e o tratamento neste caso
visa essencialmente tratar a causa subjacente.
Neste artigo, a USPSTF efectuou uma revisão de todas as recomendações
existentes desde 2003 relativas ao rastreio e tratamento da HTA em crianças e
adolescentes.
Assim, no que diz respeito ao diagnóstico da HTA através da utilização do
esfigmomanómetro, a USPSTF não encontrou qualquer evidência relativamente à
precisão deste método.
A USPSTF também não encontrou evidência direta de que o rastreio da HTA em
crianças e adolescentes identifique aqueles que têm risco elevado de vir a
sofrer de doença cardiovascular ou HTA na idade adulta.
Relativamente ao tratamento da HTA em crianças e adolescentes, não foi
encontrada evidência suficiente para determinar se este tratamento resulta numa
diminuição sustentada da pressão arterial (PA) na infância, uma vez que os
estudos efectuados nesta área são de curta duração.
Quanto aos benefícios para a saúde, a USPSTF não encontrou evidência que
suporte a associação entre o tratamento da HTA nas crianças e adolescentes e
quaisquer benefícios para a saúde. No entanto, a USPSTF também não encontrou
evidência adequada que permita avaliar os potenciais malefícios do rastreio da
HTA nas crianças e adolescentes, ou do seu tratamento farmacológico e não
farmacológico. Ainda assim, o tratamento farmacológico não é considerado como
primeira linha, sendo o mais apropriado a modificação dos estilos de vida,
nomeadamente perda de peso, atividade física e diminuição da ingestão de sódio.
Desta forma, a USPSTF conclui que a evidência para o rastreio da HTA em
crianças e adolescentes é insuficiente para recomendar a favor ou contra o
rastreio, uma vez que não é possível determinar o balanço entre os benefícios e
os danos. Esta recomendação aplica-se apenas às crianças e adolescentes que não
apresentem sintomas de hipertensão arterial.
COMENTÁRIO
A USPSTF fez uma revisão dos estudos publicados desde 2003 para a avaliação da
PA nas crianças e adolescentes e concluiu que não existe evidência que suporte
a sua medição em crianças e adolescentes assintomáticos. Para além disso, não
encontrou evidência da eficácia do tratamento nestas situações, declarando não
conseguir determinar adequadamente a relação entre as vantagens e as
desvantagens deste rastreio. Esta recomendação contradiz o recomendado pelo
National High Blood Pressure Education Program (NHBPEP) de 2004: medir a PA em
crianças a partir dos 3 anos de idade pelo menos uma vez em cada consulta de
saúde infantil ou juvenil.1
A publicação deste artigo conduziu a diversos comentários por parte de algumas
entidades, como é o caso da American Society of Pediatric Nephrology (ASPN).
Esta associação acredita que esta recomendação poderá desencorajar os médicos
de família a avaliar rotineiramente a PA em crianças e jovens, conduzindo a uma
redução da deteção de HTA em crianças e jovens.2 No seu parecer, a ASPN
exemplifica que, apesar do NHBPEP recomendar até ao momento a medição da PA em
crianças e jovens desde os 3 aos 17 anos de idade pelo menos uma vez em cada
consulta, os dados demonstram que, em média, os profissionais de saúde apenas
medem a pressão arterial duas em cada três consultas de vigilância e uma em
cada três consultas por doença.2
A medição da PA em crianças e jovens desde os 3 aos 17 anos de idade é também a
recomendação ainda em vigor por várias outras associações e organismos, às
quais a própria USPSTF faz referência, nomeadamente a American Academy of
Pediatrics e a National Heart, Lung, and Blood Institute's Expert Panel on
Integrated Guidelines for Cardiovascular Health and Risk Reduction in Children
and Adolescent.
A nível europeu destacam-se as recomendações da European Society of
Hypertension e da European Society of Cardiology, que sugerem a medição regular
da PA em crianças e adolescentes.3
Concretizando em Portugal, o que está preconizado no Programa Nacional de Saúde
Infantil e Juvenil (PNSIJ) de 2013 é a avaliação da PA nas consultas de
vigilância de saúde em todas as crianças a partir dos 3 anos de idade.4
Contudo, a medição deve iniciar-se antes dessa idade se estiverem presentes
fatores de risco, nomeadamente história familiar de doença renal congénita,
patologia neonatal, cardiopatia congénita, nefropatia, uropatia, doença
sistémica associada a HTA e medicamentos que possam estar relacionados com a
elevação da PA. O PNSIJ enfatiza ainda a importância da aplicação de medidas
preventivas indispensáveis, assim como o diagnóstico e a terapêutica precoce da
HTA, tendo em vista a diminuição dos riscos, nomeadamente os cardiovasculares.4
Ora, se considerarmos que esta revisão da USPSTF não conseguiu determinar as
vantagens em efetuar o rastreio da HTA primária em crianças e adolescentes, o
médico de família pode ver-se confrontado com o dilema de cumprir ou não o
recomendado pela Direção-Geral da Saúde (DGS) no PNSIJ. Se intuitivamente
parece benéfico realizar o rastreio, por outro lado somos confrontados com a
incerteza da utilidade do diagnóstico de HTA, podendo incorrer em risco de
iatrogenia. Assim verifica-se que esta recomendação da DGS acerca da medição da
PA nas crianças e adolescentes não está de acordo com a melhor evidência
disponível no momento, baseando-se em opiniões de peritos.
Importará portanto realizar mais estudos com vista a melhor compreender a
importância de efetuar ou não um rastreio em idades tão jovens, de forma a
minimizar os falsos diagnósticos e suas repercussões na saúde dos indivíduos e
no custo social envolvido.