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Representação em texto

EuPTCVHe2182-51732012000300008

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN2182-5173
ano2012
Issue0003
Article number00008

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Polimialgia reumática: as dores que se multiplicam

DESCRIÇÃO DO CASO Relata-se o caso de uma paciente de 69 anos, raça caucasiana, casada, com hipertensão arterial controlada com captopril e episódios de lombalgia mecânica recorrente (interpretados como síndrome vertebral sem irradiação de etiologia degenerativa e que melhoraram com a prática regular de natação).

Em janeiro de 2011, após contacto telefónico, recorre a consulta não programada com a sua médica de família no Centro de Saúde (CS) por apresentar, havia um mês, dor na anca esquerda de ritmo mecânico e de intensidade progressiva que levou à suspensão da prática de natação. A paciente relacionava, clara e espontaneamente, o início da dor com uma situação de sobrecarga (transporte de um grande volume de compras). Ao exame objetivo apresentava dor à mobilização passiva e ativa da anca esquerda e Laségue negativo bilateralmente. Não foram realizadas manobras mais específicas da articulação coxofemural nem das sacroilíacas. Prescreveu-se ibuprofeno oral (400 mg, até 3 vezes por dia), omeprazol (20 mg por dia enquanto fosse necessário tomar o anti-inflamatório) e requisitou-se radiografia da anca e das articulações sacroilíacas.

No início de fevereiro contactou, por duas vezes, a sua médica de família referindo ligeira melhoria. Tinha consultado um cirurgião vascular (que realizou eco-doppler dos membros inferiores e excluiu patologia do seu foro) e recorrido a um serviço de urgência hospitalar onde foi medicada com diazepam (um comprimido diário de dosagem não especificada) e acemetacina (60 mg duas vezes por dia). Face à persistência do quadro e à normalidade do radiograma à bacia, foi requisitada tomografia computorizada lombar, para excluir agudização da sua patologia prévia a este nível que se pudesse apresentar de forma menos típica (por exemplo, discopatia lombar alta).

Dias depois recorre de novo à consulta não programada, sendo observada em consulta de recurso. Apresentava dor na região interna da coxa esquerda e na coxa direita, agravando-se claramente durante a noite. Referia início de omalgia direita, de ritmo inflamatório, com limitação funcional. Ao exame físico não apresentava limitações na mobilização ativa ou passiva da anca e referia dor ligeira, bilateral, na flexão total; no ombro direito apresentava teste de Jobe positivo e incapacidade de rotação interna e externa. Foi requisitada radiografia ao ombro, tendo-se associado flurbiprofeno, por aplicação local de penso transdérmico (duas vezes por dia), à medicação prévia.

No final de fevereiro recorre novamente à consulta, desta vez programada. Por persistência do quadro, havia consultado na véspera, a nível privado, um ortopedista que solicitou tomografia computorizada das articulações coxofemurais. Fazia-se acompanhar do tomograma computorizado lombar que mostrava ligeiras alterações degenerativas discovertebrais, sem compressão radicular. Ainda não possuía os resultados do radiograma do ombro. Associou-se paracetamol e codeína (500 mg + 30 mg até seis comprimidos por dia) e agendou- se reavaliação para a semana seguinte, para observação dos resultados dos restantes exames.

No início de março, vem a consulta programada de reavaliação, referindo agravamento das queixas álgicas, principalmente à noite, e aparecimento de rigidez matinal com limitação funcional progressiva, sem sintomas sistémicos.

Por intolerância à associação paracetamol e codeína mantinha-se com a acemetacina prescrita. O radiograma do ombro e o tomograma das articulações coxofemurais eram compatíveis com osteoartrose incipiente. Face à emergência de um padrão inflamatório das queixas, foi requisitado estudo analítico. Propôs-se também avaliação por Medicina Física e de Reabilitação para ponderação de tratamento sintomático.

Em meados de março comparece de novo a consulta de recurso para mostrar resultados das análises. Refere que consultou fisiatra (não foi obtida informação clínica por parte do colega, visto que, face à evolução do caso, a paciente interrompeu o tratamento sem que tal informação fosse disponibilizada) e, de novo, um ortopedista a nível privado, que medicou com metilprednisolona, 80 mg intramuscular, e metamizol, mas a paciente optou por não fazer a medicação (por se aperceber que se tratava de um corticoide, temendo, genericamente e por senso comum, esse tipo de fármacos, e por ter sido medicada sem lhe ter sido fornecido um diagnóstico). As análises mostravam algumas alterações pelo que a paciente é aconselhada a consultar a sua médica de família.

Alguns dias depois comparece a consulta não programada com os resultados das análises, constatando-se anemia (10,9 g/dL) normocítica normocrómica, velocidade de sedimentação (VS) aumentada (104 mm/h), anticorpos antinucleares negativos e RA teste e Waaler-Rose negativos, suscitando-se então a hipótese de diagnóstico de polimialgia reumática (PMR). Tratando-se de uma patologia com a qual a médica de família não tinha qualquer experiência e dado o curso arrastado da situação, foi sentida a necessidade de discutir o caso com outro colega. Não dispondo de consulta de Reumatologia no hospital de referência, optou-se por contactar telefonicamente o serviço de Medicina Interna. A colega internista contactada concordou com a hipótese colocada e propôs o início de corticoterapia com prednisolona 60 mg/dia. Sugeriu também a realização de exames complementares (endoscopia digestiva alta e colonoscopia), para exclusão de outros diagnósticos diferenciais (patologia neoplásica), e ainda a referenciação para a consulta hospitalar. Estas sugestões terapêuticas e de referenciação foram aceites pela médica de família, não tendo sido confirmada a sua adequação e tendo sido a referenciação particularmente bem acolhida por parte da paciente que se mostrava insegura pelo desenrolar do quadro.

Cerca de 15 dias depois foi reavaliada no CS, referindo melhoria da sintomatologia e recuperação funcional total. Uma semana após esta reavaliação e dado ainda não lhe ter sido feita a marcação da consulta hospitalar de Medicina Interna, a paciente optou por consultar um Reumatologista a nível privado, para segunda opinião, o qual lhe reduziu a dose diária de prednisolona para 20 mg/dia. Devido à boa recuperação funcional, retomou a prática de natação.

Passado um mês da introdução da corticoterapia, em nova consulta de reavaliação no CS, mantinha-se assintomática. Dos exames efetuados, o estudo analítico apresentava hemoglobina de 13,5 g/dL, VS de 1 mm/h, serologias víricas negativas (citomegalovírus, vírus da imunodeficiência humana e hepatites B e C), endoscopia digestiva alta com gastrite crónica do antro e colonoscopia com doença diverticular do cólon.

Na consulta hospitalar foi feita a redução progressiva e lenta da corticoterapia, para a dose mínima eficaz, estando atualmente estável com a dose de 5 mg/dia, que se prevê manterá até cumprir um período de dois anos.

DISCUSSÃO Desde o início do quadro, antes e após o diagnóstico e mesmo depois da instituição terapêutica, a doente recorreu a múltiplas consultas num período inferior a quatro meses: no CS teve com a sua médica de família dois contactos não presenciais, quatro consultas programadas e duas não programadas, assim como duas consultas de recurso com outros médicos; recorreu uma vez ao serviço de urgência hospitalar e cinco vezes a médicos de várias especialidades no setor privado Cirurgia Vascular, Ortopedia, Fisiatria e Reumatologia). Neste contexto foram-lhe requisitados, como descrito, vários exames auxiliares de diagnóstico e realizados múltiplos tratamentos.

A PMR é uma síndrome com uma incidência nos países mediterrânicos de 12,7/ 100.000 pessoas com 50 ou mais anos.1 A etiologia da doença mantém-se desconhecida, apesar de fatores ambientais e genéticos poderem estar na origem do seu aparecimento.2 Estão descritos casos familiares ocasionais, existindo maior prevalência nos países escandinavos e em locais dos Estados Unidos habitados por escandinavos e menor prevalência nos países asiáticos e na Arábia.2 Existe ainda um padrão cíclico e sazonal de variações na incidência, o que pode sugerir uma etiologia infecciosa ambiental.2 É mais frequente nas mulheres (2:1) e está, em 16 a 21% dos casos, associada à arterite de células gigantes, apesar da causa desta associação ser desconhecida.2,3 A paciente em questão é, pois, uma paciente que se encaixa nos critérios epidemiológicos com PMR.

A PMR afeta tipicamente as cinturas pélvica e escapular, causando dor e rigidez matinal que duram, pelo menos, 30 minutos.4 Os sintomas são habitualmente simétricos e o início é geralmente abrupto, com o desenvolvimento da sintomatologia geralmente em menos de duas semanas. A dor também pode envolver o pescoço, braços, costas e coxas. Podem existir manifestações musculoesqueléticas distais, tais como a síndrome do túnel cárpico e artrite periférica assimétrica.5 O exame físico pode ter achados mínimos e inespecíficos, tais como restrição ativa e passiva dos movimentos das articulações afetadas, sem sinais inflamatórios e com força muscular mantida.

Podem existir sinais e sintomas sistémicos em até 40% dos doentes, como febre, fadiga, depressão, anorexia e perda de peso.2 No caso apresentado, o início abrupto e a simetria das queixas não se verificaram, o que pode ter causado algum atraso diagnóstico e contribuído para que, dada a intensidade das queixas e incapacidade sentida, a paciente tivesse mostrado um padrão de grande consumo de consultas, quer no CS, quer na medicina privada, muito diferente do previamente adotado.

O diagnóstico da PMR é essencialmente clínico e pouco apoiado por exames complementares de diagnóstico. A Sociedade Britânica de Reumatologia e a Associação Britânica de Profissionais de Saúde da Reumatologia publicaram guidelines para o diagnóstico e tratamento da PMR, com nível de evidência científica B e C (quadro_I).5 O diagnóstico de PMR deverá ser de exclusão. O diagnóstico diferencial num idoso com dores musculares, rigidez e VS elevada é amplo e devem ser excluídas diversas patologias (quadro_II).5 Perante um caso de PMR, se surgirem cefaleias de novo, claudicação da mandíbula ou sintomas visuais é importante considerar o diagnóstico de arterite de células gigantes e encaminhar o paciente para o serviço de urgência, devido ao risco de cegueira.

Nestes casos, está então preconizada a terapêutica em altas doses de corticoterapia, cerca de 60 mg/dia.2,6 Os achados laboratoriais na PMR são inespecíficos, com marcadores de inflamação elevados como a VS e a proteína C reactiva (PCR), apesar de 5% dos casos poderem ter a VS normal. A PCR é mais sensível do que a VS, uma vez que é menos afetada por fatores como a idade.7,8 Pode estar presente anemia normocrómica e normocítica e elevação da fosfatase alcalina, com creatinina-quinase normal, o que contrasta com os níveis elevados existentes na polimiosite, hipotireoidismo ou outras doenças musculares.9 O caso presente cumpriu os critérios diagnósticos mais de um mês após as primeiras queixas.

A PMR pode ser tratada nos Cuidados de Saúde Primários (CSP).10 O tratamento é feito com corticosteróides na dose mínima eficaz de modo a obter menos efeitos laterais, geralmente 15 mg/dia de prednisolona, não havendo nenhuma evidência consistente de um tratamento que se adeque a todos os pacientes.5,11,12 É uma causa comum de uso de corticosteróides a longo prazo na comunidade, tendo sido demonstrado numa região em Inglaterra que a PMR é a causa de uso de corticoterapia em 22% das prescrições.13 A metilprednisolona intramuscular pode ser usada em casos de intensidade moderada com um menor risco de efeitos laterais.14 Não existe benefício na associação da corticoterapia com anti- inflamatórios não esteróides.15 Deve-se reavaliar precocemente para avaliar a resposta inicial à corticoterapia. A duração do tratamento varia geralmente entre um e três anos.2 A redução da terapêutica deve ser lenta (<1 mg/mês) para evitar recaídas.12 Neste caso foi instituída uma dose de corticoterapia claramente acima daquela que é consensualmente recomendada. Tal deveu-se ao facto da médica de família não ter experiência na abordagem da patologia nem disponibilidade para uma pesquisa bibliográfica em tempo real, tendo recorrido a aconselhamento informal, por telefone, com uma colega que não observou a paciente. Posteriormente a dose foi reduzida em consulta privada da iniciativa da paciente.

A referenciação para Reumatologia deverá ser feita em quadros clínicos atípicos ou dificuldades no tratamento (nível de recomendação C) (quadro_III).5 Neste caso, a referenciação justificava-se pelo facto do caso não se ter apresentado de forma típica e por a paciente se sentir insegura e ter expressamente solicitado uma segunda opinião.

Este caso clínico pretende alertar para os fatores que podem contribuir para maior dificuldade diagnóstica da PMR e que neste caso foram: Tratar-se de uma patologia pouco frequente em CSP e que pode não ocorrer facilmente ao médico de família como diagnóstico diferencial; Apesar de estar descrito que o início é geralmente abrupto e com sintomas simétricos, a PMR pode surgir, como no caso apresentado, de forma insidiosa e com atingimento algo assimétrico; A existência de patologia osteoarticular degenerativa prévia, frequente na faixa etária em questão, pode atuar como fator de confundimento, ainda mais referindo a paciente um fator precipitante; A não realização de um exame objetivo osteoarticular sistemático em todas as consultas (contribuindo para a multiplicidade de consultas pelo mesmo motivo).

O relato deste caso visa também salientar a importância dos médicos de família terem conhecimentos atualizados sobre PMR. Por um lado, a dose terapêutica prescrita poderia ter sido significativamente mais baixa. Por outro lado, sendo uma patologia suscetível de abordagem exclusiva em CSP, a referenciação aos cuidados hospitalares poderia ter sido evitada se o médico de família estivesse mais confiante no diagnóstico e terapêutica, transmitindo precocemente essa confiança à paciente. Neste caso, a referenciação foi também decidida após ponderação da probabilidade da paciente, por insegurança face ao atraso diagnóstico e à natureza do tratamento proposto, continuar a recorrer a médicos privados de outras especialidades.

Em conclusão, o médico de família, lidando com uma alta prevalência de queixas, quer indiferenciadas, quer de patologia osteoarticular degenerativa, deve valorizar a sintomatologia dolorosa das cinturas pélvica e escapular, com vista ao possível diagnóstico e tratamento da PMR, patologia com risco de incapacidade, sobretudo se existir risco de cegueira, mas com tratamento eficaz disponível e acessível em CSP. Paralelamente ao tratamento da PMR, o MF deve considerar se se trata de doença primária/idiopática ou secundária.


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