Fitiríase palpebral
Criança do sexo feminino, com 3 anos, sem antecedentes patológicos de relevo,
pertencente a uma família nuclear, na fase III do ciclo de Duvall e da classe
III de Graffar. O agregado é constituído por 4 elementos e apresenta um padrão
adequado de procura de cuidados de saúde, comparecendo regularmente às
consultas agendadas. A criança fica durante o dia num infantário. Apresentou-se
na consulta com queixas de prurido e descamação palpebral («remelas»)
persistentes desde há seis meses, inicialmente no olho direito e um mês depois
bilateralmente. Ao exame a olho nu apresentava ligeiro edema e rubor palpebral
e algumas crostas nas pestanas junto aos bordos palpebrais. Foi tratada
inicialmente na nossa consulta para uma blefarite com oxitetraciclina tópica,
sem sucesso. Posteriormente, numa consulta de Pediatria da irmã, foi-lhe
diagnosticada fitiríase palpebral, causada pelo insecto Phthirus pubis. Foi
tratada com mousse à base de óleo de coco e anis (que actua como agente físico)
em duas aplicações únicas separadas por 10 dias. Não voltou a apresentar sinais
ou sintomas após o tratamento.
Nenhum dos progenitores apresentava qualquer tipo de sinais ou sintomas de
infestação pelo insecto. A suspeita da origem da transmissão do Phthirus pubis
recaiu sobre a educadora, que apresentava sinais semelhantes de fítiríase
palpebral e que foi tratada com sucesso pelo seu médico assistente.
O Phthirus pubis, também conhecido como piolho púbico ou «chato», é um insecto
hematófago e hospedeiro específico do ser humano.1 É transmitido geralmente
através de contacto sexual, embora ocasionalmente também por roupas de uso
pessoal, lençóis de cama e mesmo toalhas. Habita preferencialmente a região
púbica, contudo pode aparecer em todo o corpo humano.2
As crianças podem ser atingidas por esta patologia, apesar de tal ser
geralmente descrito como raro e não tendo sido encontrados dados sobre a
prevalência e incidência da infestação neste grupo etário. Em crianças as
pestanas são o local mais comummente afectado, devido não só às condições de
humidade e temperatura, como também à ausência da maior parte dos pêlos
terminais na pré-puberdade.3 Muitas vezes o contágio é feito por contacto com
familiares ou cuidadores, sendo necessário despistar a possibilidade de abuso
sexual.4
Os sintomas associados à fitiríase palpebral vão desde o prurido palpebral à
blefarite com conjuntivite associada, podendo ocasionalmente haver
linfadenopatias e infecção secundária.5 Podem existir ainda manchas azuis,
designadas máculas cerúleas, devido à mordedura do Phthirus pubis nas margens
da pálpebra.6
O diagnóstico é feito com base na história clínica e com a confirmação através
da observação dos parasitas utilizando uma lupa ou microscópio (Figura_1 e 2).5
O tratamento pode ser difícil, prolongado e controverso, havendo diferentes
terapêuticas defendidas, que vão desde a extracção mecânica à aplicação de
meios físicos ou químicos.7 Alguns trabalhos referem a extracção mecânica
directa como tratamento mais eficaz e com menor risco, o que se mostra difícil
em crianças não colaborantes.8 Como agente físico pode ser utilizada, por
exemplo, a vaselina em pomada, que age como agente sufocante e ajuda na
extracção dos parasitas.7 Existem vários agentes químicos pediculicidas, como
por exemplo a permetrina ou a fluoresceína, contudo, a sua toxicidade limita o
uso nesta localização. Para além disso, muitos dos químicos existentes não
podem ser usados em crianças.9,10 Existem ainda outros tratamentos como
crioterapia e fototerapia com árgon laser mas que são difíceis de aplicar nesta
faixa etária.10 Devem ser tratados todos os grupos afectados. As roupas e
objectos pessoais devem ser lavados a 50oC durante 30 minutos.11 Em alternativa
podem-se fechar os objectos e roupas pessoais num saco de plástico durante 2
semanas.11
Com a apresentação deste caso pretende-se sublinhar a sua dificuldade
diagnóstica, por a fitiríase palpebral ser uma patologia rara em crianças e de
difícil diagnóstico a olho nu. Alerta, assim, para a necessidade de, no exame
físico subsequente a queixas e/ou sinais persistentes das pálpebras e pestanas,
ser utilizada uma lupa (caso não esteja disponível uma lâmpada de fenda). De
realçar, também, a importância de conhecer, quer localizações possíveis do
parasita no corpo humano e formas de contágio, quer o contexto e os contactos
da criança, de forma a compreender a origem da infestação, a detectar eventuais
problemas associados (como as situações de abuso) e a agir de acordo com cada
situação. Ilustra também a terapêutica mais adequada (agentes físicos) na idade
em questão (3 anos), visto a extracção mecânica ser difícil, por não
colaboração, e o uso de químicos pediculicidas ser contra-indicado pela sua
toxicidade. O médico de família pode desempenhar um papel fundamental, tanto na
avaliação diagnóstica, abordagem terapêutica inicial, referenciação aos
cuidados de saúde secundários para optimização terapêutica, quando necessário,
bem como avaliação dos contactos, incluindo a suspeição ou não de abusos, e
interrupção do circuito de infestação.
Foram realizadas duas intervenções no infantário a partir do Centro de Saúde no
sentido de informar sobre a problemática em questão e despistar outras fontes
de contágio de forma a quebrar o ciclo de infestação. Foi também confirmada a
suspeita da infestação da educadora e do seu tratamento adequado.