Tratamento endovascular de aneurismas saculares isolados da aorta abdominal e
da artéria ilíaca: caso clínico
Introdução
Um aneurisma arterial é uma dilatação localizada e permanente, caracterizada
por um aumento de 50% do maior diâmetro do vaso normal em questão1. Para
além do referido, os aneurismas podem ser classiï¬cados de acordo com a sua
conï¬guração em fusiforme (a forma mais comum de apresentação) ou sacular
(mais raros).
Enquanto os aneurismas fusiformes da aorta surgem muitas vezes devido Ã
degeneração da parede arterial secundária a doença aterosclerótica, os
aneurismas saculares têm uma etiologia mais variada, que podem envolver
infeções, degeneração de uma úlcera aterosclerótica penetrante, patologia
traumática ou cirurgia aórtica prévia2,3.
Os aneurismas da aorta abdominal (AAA) são os aneurismas abdominais mais
frequentes. Por sua vez os aneurismas isolados da artéria ilÃaca comum (AIC)
representam apenas menos de 2% de todos os aneurismas intra-abdominais4,5.
Historicamente os aneurismas saculares têm sido percecionados pelos
cirurgiões vasculares como possuidores de um maior risco de rotura que os
aneurismas fusiformes6e normalmente corrigidos independentemente do tamanho
apresentado.
Caso clÃnico
Doente de 72 anos, com antecedentes de hipertensão arterial, cirurgia de
revascularização do miocárdio e sem história familiar conhecida de
aneurismas. Durante a realização de uma TC abdominal de rotina descobrem-se,
em simultâneo, 2 aneurismas saculares isolados (Fig._1), um aneurisma da AIC
esquerda de 3 cm que envolvia a bifurcação ilÃaca e um aneurisma AAA sacular
infrarrenal de 3,8 cm. Clinicamente o doente não apresentou qualquer sinal de
infeção e analiticamente os valores de leucocitose, proteÃna c-reativa e
velocidade de sedimentação apresentavam-se consistentemente negativos,
descartando com grande certeza uma possÃvel etiologia infeciosa para os
aneurismas.
Os aneurismas foram tratados por via endovascular, por punção femoral
direita. Com o auxÃlio de uma bainha 6F (Flexor®Check-Flo®introducer,
Cook®, Bloomington, Indiana, EUA) inserida por cross-over, o aneurisma da AIC
esquerda foi corrigido através de embolização com diversos coilsda artéria
ilÃaca interna (AII) ipsilateral com a subsequente colocação de uma
extensão ilÃaca de endoprótese Endurant II (Medtronic Inc, Minneapolis, EUA)
de 13 à 80 mm. No mesmo procedimento foi também corrigido o AAA sacular
infrarrenal, com a colocaçãodeuma endoprótese tubular Endurant II de 23 Ã
70 mm (fig._2).
O procedimento teve a duração de 130 minutos, tendo o doente tido alta no dia
seguinte à intervenção, sem intercorrências.
Durante o seguimento, o doente apresentou queixas transitórias de
claudicação nadegueira esquerda que surgiram logo após o procedimento, não
incapacitante para cerca de 200-300 metros, porém, sem outras queixas de
isquemia pélvica (disfunção erétil, isquemia mesentérica ou isquemia do
plexo sagrado). A claudicação foi transitória desaparecendo passados
aproximadamente 3 meses após o procedimento.
A angio-TC de controlo (fig._3) revelou integridade e permeabilidade das
endopróteses colocadas, ausência de endoleakse redução do volume dos sacos
aneurismáticos (ï¬gs._4 e 5).
Discussão
Uma vez que o presente caso clÃnico se relaciona com o tratamento endovascular
da doença aneurismática do sector aorto-ilÃaco, os autores debruçam-se
essencialmente na discussão e revisão bibliográï¬ca sobre as
caracterÃsticas anatómicas dos aneurismas referidos e a consequente
morbilidade causada pela abordagem endovascular relacionada, bem como as
possÃveis e mais recentes abordagens no tratamento endovascular dos aneurismas
ilÃacos (AI).
A distribuição anatómica dos artéria ilÃaca tratados passa por ser 70% na
AI comum, 20% na artéria ilÃaca interna e apenas 10% na artéria ilÃaca
externa7.
Os aneurismas bilaterais da AIC estão identiï¬cados em cerca de 50% dos
casos8.
Embora não haja estudos que permitam, tal como no AAA, deï¬nir o limite exato
a partir do qual um AI (fusiforme) deva ser corrigido, a maioria dos autores
defende o seu tratamento quando o maior diâmetro atinge os 3 cm, dado o maior
risco de rotura a partir destas dimensões.
Dado que a taxa de mortalidade operatória para a cirurgia aberta eletiva a AI
isolados permanece alta, podendo mesmo atingir os 10% na literatura recente, o
que é signiï¬cativamente maior que a cirurgia aberta para a correção de
AAA9, tem-se observado na última década um crescente número de doentes
tratados por via endovascular, tendo esta técnica o potencial de reduzir a
morbilidade perioperatória, especialmente em doentes de alto risco10.
Quando estamos perante aneurismas saculares, na literatura podemos encontrar
várias séries que recomendam a sua reparação como única opção
razoável11,12.
Num relatório do conselho conjunto da Sociedade de Cirurgia Vascular e da
Sociedade Internacional de Cirurgia Cardiovascular, a correção aneurismática
foi recomendada a todos os aneurismas saculares da aorta abdominal,
independentemente do tamanho ou da sintomatologia apresentada13.
Existe, porém, na literatura uma escassez de evidência clÃnica que conceda
pior prognóstico aos aneurismas saculares da aorta14.
Apesar da perceção comum da maior perigosidade da história natural dos
aneurismas da aorta saculares, a verdadeira taxa de risco de rotura de
aneurismas saculares é desconhecida14.
Shang et al. referem que, enquanto não for descoberto que os aneurismas
saculares têm uma maior taxa de crescimento que os seus homólogos fusiformes,
um follow-up clÃnico e radiológico é necessário, uma vez que um número
signiï¬cativo vai necessitar de intervenção cirúrgica. Para além do
referido, os autores também aconselham que novos estudos são necessários
para determinar a conduta ideal do tratamento de aneurismas que se apresentam
com esta anatomia14.
No que diz respeito ao tratamento endovascular dos AI isolados, não existe um
critério formal sobre qual será o comprimento do colo ideal para a correção
dos AI, mas vários autores aceitam que esta medida seja idêntica Ã
reparação de aneurismas aórticos por via endovascular, nomeadamente 1,5 cm
de comprimento mÃnimo, a artéria proximal não pode ser aneurismática (< 14
mm), deve estar livre de trombo, quer na artéria ilÃaca proximal quer na
distal. Doentes com colo curto tendem a ter extensão do processo
aneurismático para a bifurcação aórtica, podendo posteriormente necessitar
de uma endoprótese bifurcada10,15.
A presença de um segmento de AIC distal não dilatada permite a preservação
da AII. Mais comumente, o AI termina sobre a bifurcação ilÃaca, ï¬cando a
zona de ancoragem distal à origem da AII, perdendo-se o ï¬uxo anterógrado
para a AI interna10.
A embolização com coilsda artéria ilÃaca interna é frequentemente usada
para a correção de AI que envolvem a sua bifurcação, como o caso
apresentado, de modo a colocar com segurança uma endoprótese para exclusão
dos referidos aneurismas evitando assim o endoleaktipo II. Este procedimento,
porém, não está isento de complicações que estão decorrentes da
diminuição do aporte sanguÃneo para a região pélvica que nas
embolizações unilaterais apresentam taxas de claudicação nadegueira de
cerca de 31-52% e de 17-38% de disfunção erétil16.
Existem já disponÃveis endopróteses bifurcadas para a bifurcação ilÃaca e
diversas técnicas endovasculares com vista a preservar o ï¬uxo sanguÃneo
para a AII (técnica de sandwichem que um stentcoberto que vem da AII corre
lado a lado com outro stentcoberto colocado na AIC, ou uma técnica hÃbrida
com bypassfemoro-femoral e colocação de um stent da AIE para a AII, ocluindo
o ï¬uxo anterógrado na AIC), embora estas técnicas tenham a desvantagem de
prolongar o procedimento e aumentar o custo total do mesmo.
Uma vez que o caso clÃnico se refere a 2 aneurismas saculares isolados e dado
existirem condições anatómicas adequadas para a colocação de uma
endoprótese isolada a nÃvel ilÃaco (obedecendo à s recomendações
anteriormente referidas) para correção do aneurisma da artéria ilÃaca
esquerda e outra a nÃvel da aorta abdominal, decidiu-se pela colocaçãode2
stentscobertos isolados em vez da colocação de uma única endoprótese
bifurcada.
Pretendeu-se assim preservar ao máximo a circulação pélvica, nomeadamente a
manutenção da permeabilidade da artéria sagrada média.
Conclusão
Serve este caso para documentar o tratamento simultâneo de 2 aneurismas
saculares intra-abdominais isolados, com recurso às técnicas endovasculares,
prestigiando esta abordagem como ato de menor invasibilidade e morbi-
mortalidade.
Ressalvamos também que a avaliação do risco de rotura é portanto
fundamental na abordagem da decisão cirúrgica do tipo anatómico de
aneurismas em questão, de modo a diminuir a mortalidade relacionada com os
aneurismas saculares.
Conï¬ito de interesses
Os autores declaram não haver conï¬ito de interesses.
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*Autor_para_correspondência:
Correio eletrónico:Joselopes1983@sapo.pt (J. Almeida-Lopes).
Notas
*
Trabalho apresentado no XIII Congresso de Angiologia e Cirurgia Vascular,
Coimbra 13-15 de Junho de 2013.