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Representação em texto

EuPTCVHe1646-69182015000200008

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN1646-6918
ano2015
Issue0002
Article number00008

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Bezoar: patologia centenária com nova composição

INTRODUÇÃO Os bezoares são descritos desde vários séculos em homens e animais. O nome deriva do latim "bazahr", que significa antídoto, e até ao século XIX era usado como tal.1 O bezoar é uma coleção de material exógeno não digerido que se acumula no tubo digestivo, sendo mais frequentemente encontrado no estômago. A sua formação está associada a fatores como a mastigação deficiente, estados pós gastrectomia, perturbações psiquiátricas e distúrbios da motilidade.1, 2 As fibras vegetais são o material que mais frequentemente constitui o bezoar (fitobezoar). No entanto, bezoares constituídos por derivados do leite (lactobezoares), medicamentos (farmacobezoares), pedras (litobezoares), cabelos (tricobezoares) e metais (metalobezoares) também foram descritos.1 A forma de tratar esta patologia é variável, e muitas vezes influenciada pela sua constituição. A terapêutica enzimática (celulase) é uma opção nos fitobezoares. No entanto, a remoção via endoscópica ou cirúrgica é o tratamento mais utilizado.1, 3 O presente artigo pretende apresentar um caso clínico de bezoar com composição rara.

CASO CLÍNICO Doente do sexo feminino com 43 anos, oligofrénica, sem outros antecedentes conhecidos, é trazida ao serviço de urgência por dor abdominal e vómitos tipo borra de café de início insidioso, com cheiro fétido. A doente apresentava palidez mucocutânea e caquexia marcada. O abdómen encontrava-se difusamente doloroso, timpanizado e os ruídos hidroaéreos de frequência diminuída, embora com intensidade e timbre normais. A sonda nasogástrica mostrava 400 ml de conteúdo negro.

Das análises efetuadas salientamos leucocitose (25x103 µL) com neutrofilia (18x103 µL), hemoglobina de 14,1 g/dL e PCR de 174,7 mg/L. A radiografia simples em decúbito com raios tangenciais e a tomografia computorizada (Figura 1) abdominais mostraram ar e líquido livre na cavidade abdominal.

Perante a evidência de perfuração de víscera oca, procedemos a laparotomia exploradora, onde detetámos uma úlcera gástrica antral perfurada, com cerca de 20 mm de maior diâmetro (Figura_2). Ao explorar o conteúdo gástrico foram retirados conglomerados de material plástico, luvas (inteiras) e folhas de plástico (Figura_2) plasticobezoar. Os bordos da úlcera foram excisados e foi efetuada gastrorrafia.

A histologia mostrou úlcera gástrica crónica perfurada, com fenómenos de serosite.

O pós-operatório da doente evoluiu favoravelmente, com resolução clínica e analítica, tendo tido alta ao 9.º dia.

DISCUSSÃO O tipo de material que constitui os bezoares é muito variado e o caso apresentado é ilustrativo disso. A existência de uma entidade plasticobezoar versuscorpo estranho é discutível. Tradicionalmente, o bezoar é definido como uma coleção de material animal ou vegetal indigerível no trato gastrointestinal. Tendo em linha de conta que para além dos formados por material orgânico (trico e fitobezoares), foram descritos metalo, fármaco e litobezoares1, 2, outras substâncias inorgânicas, como o plástico, podem ser consideradas como componentes de bezoar.

Na literatura estão descritos quatro casos de plasticobezoar, sendo que todos eles têm como fator predisponente a coexistência de alterações psiquiátricas. A doente do presente caso apresenta, associada à oligofrenia, um distúrbio denominado pica, que se manifesta pela ingestão de substâncias não alimentares.1, 3, 4, 5 A localização mais frequente dos bezoares é gástrica, o que também se verificou no presente caso.2 Os bezoares manifestam-se, mais frequentemente, por sintomas obstrutivos, sendo nos casos de plasticobezoar descritos na literatura1, 3, 4, 5, a sintomatologia predominante. O presente caso manifestou-se por perfuração de víscera oca. A irritação crónica da mucosa explica a ulceração e consequente perfuração.1 O tratamento desta entidade é bastante diverso, estando descritas terapêuticas endoscópica1 e cirúrgica por laparotomia e laparoscopia3. Fatores como a localização do bezoar e a clínica do doente determinam qual a melhor abordagem terapêutica. No presente caso, perante a evidência de perfuração de víscera oca, a abordagem preferida foi a laparotómica.

Permitimo-nos comentar que, tratando-se de uma patologia centenária, a sua composição e abordagem terapêutica tem acompanhado a evolução dos tempos.


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