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Representação em texto

EuPTCVHe1646-21222015000100011

variedadeEu
ano2015
fonteScielo

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Pseudaneurisma da artéria tibial anterior: Complicações na artroscopia anterior do tornozelo

INTRODUÇÃO A artroscopia anterior do tornozelo (iniciada em 1930)1 é um procedimento considerado seguro e reprodutível para diagnóstico e tratamento de múltiplas afecções articulares.

As indicações major do procedimento são o tratamento do síndrome de impingement anterior, instabilidades e lesões osteocondrais (causas de bloqueio articular) mas também no diagnóstico de dor, edema, rigidez ou hemartrose inexplicadas2.

A artroscopia do tornozelo acarreta um baixo risco de complicações vasculares quando comparada com a do joelho3 sendo as principais complicações de origem neurológica (cerca de 50%)4,5.

Os pseudaneurimas são complicações raras da artroscopia do tornozelo6 mas podem conduzir a importante morbilidade com complicações severas se negligenciados.

Existem 6 casos descritos na literatura de pseudaneurisma da artéria tibial anterior pós artroscopia do tornozelo3,7,8,9,10.

CASO CLÍNICO Mulher caucasiana de 52 anos, sem antecedentes de relevo e com quadro de dor anterior do tornozelo direito e episódios de bloqueio oito meses após entorse.

O exame físico revelava edema difuso da articulação, tensão sobre a interlinha anterolateralmente e no ligamento talofibular anterior. A mobilidade activa estava limitada por dor a dorsiflexão e 20º de flexão plantar.

As radiografias demonstravam osteófitos face anterior epífise distal tíbia e esclerose cúpula astragalina (Figura_1).

Após falência do tratamento conservador com analgesia e fisioterapia foi proposta artroscopia para sinovectomia e exostosectomia.

Foi realizada a técnica pelos portais standard (anteromedial e anterolateral), sem intercorrências.

Dez dias após a cirurgia foram removidos os pontos de sutura e iniciou reabilitação. Manteve-se em carga parcial durante 4 semanas.

Na consulta das 5 semanas a doente apresentou um quadro de edema, disestesias e dor tornozelo direito condicionando a marcha. Foi instruída nos cuidados - carga conforme tolerável - e orientada para fisioterapia.

Na consulta seguinte apresentava menor edema e uma massa pulsátil na face anterior do tornozelo. O diagnóstico diferencial no momento seria derrame articular, artrite tornozelo, sinovite adesiva ou pseudaneurisma.

Foi pedido uma ecografia com Doppler para esclarecimento diagnóstico, vindo a confirmar-se um pseudaneurisma da artéria tibial anterior ao nível da articulação com 2cm maior eixo (Figura_2).

Referenciada a Cirurgia Vascular tendo sido operada aos 2 meses pós artroscopia: Operação de O'Farrel (excisão do saco aneurismático da artéria tibial anterior direita e anastomose topo-a-topo) (Figuras_3_a_6).

Prosseguiu com um programa de reabilitação pós cirúrgica apresentando boa evolução clínica em follow up aos 6 meses (marcha autónoma sem restrição nas AVDs, sem queixas, KOFOED ankle score 81; controlo com ecodoppler normal - "permeabilidade da artéria tibial anterior, sem recidiva de falso aneurisma").

DISCUSSÃO Os pseudaneurismas são uma complicação iatrogénica pouco frequente da cirurgia artroscópica do tornozelo sendo a sua incidência de 0,008%11.

O pseudaneurisma, também conhecido como "falso aneurisma", é consequência do traumatismo das três camadas histológicas arteriais condicionando hemorragia e a formação de uma cápsula fibrosa com uma neo- circulação externamente ao lúmen lesado.

Esta estrutura fibrosa ao não apresentar a arquitectura típica do vaso expande- se até ficar confinada nos limites das estruturas adjacentes e tem maior potencial de rotura do que os verdadeiros aneurismas.

Parece evidente que a hemorragia e a remodelação do hematoma estarão na origem do falso aneurisma.

O mecanismo etiológico e os factores de risco não são claros podendo surgir a lesão na execução dos portais (considerando as variações anatómicas da artéria 3 nomeadamente o desvio lateral (5,5%) ou medial (3,5%)12, durante a instrumentação cirúrgica (distensão capsular insuficiente, instrumentação agressiva, sinovectomia alargada ou exérese de osteófitos ou corpos livres) ou associado a condições médicas como coagulopatias7,8.

O período pós-operatório para desenvolvimento do pseudaneurisma é variável existindo descrições da apresentação desde uma semana3,8 até dois meses10,11.

A lesão vascular passa frequentemente despercebida no peri-operatório podendo a sua apresentação estar diferida meses ou anos num quadro injustificável caracterizado por dor e/ou edema e uma massa pulsátil.

As potenciais complicações dos pseudaneurismas da artéria tibial anterior são a hemartrose do tornozelo13, síndrome compartimental14 e rotura vascular (a mais severa e que poderá conduzir a instabilidade hemodinâmica) Nesse contexto, um diagnóstico precoce e tratamento específico são fundamentais.

Estão descritos vários métodos de tratamento desde o conservador - terapia compressiva ecoguiada três horas/dia com intervalo de três a quatro dias entre tratamentos (4 sessões por Jang et al 2008)- ao cirúrgico - excisão falso aneurisma com anastomose topo-a-topo (O'Farrel 1997), excisão e bypass com enxerto venoso (Mariani et al 2001), laqueação do falso aneurisma (Darwish et al 2004) e resseção com interposição veia safena (Kotwal et al 2007).

A prevenção de complicações passará pré-operatoriamente por uma identificação percutânea da anatomia (principalmente do nervo peroneal superficial), mapeamento vascular com EcoDoppler e uma cuidadosa dissecção e desbridamento dos tecidos durante a cirurgia.

Na presença de osteófitos, alguns autores defendem o procedimento aberto em detrimento da artroscopia para diminuição do risco de lesão vascular.

CONCLUSÕES Os pseudaneurismas resultantes de dano vascular são uma complicação rara da artroscopia do tornozelo.

A dificuldade do diagnóstico inicial deve-se à evolução insidiosa do quadro importando manter um elevado grau de suspeita clínica dado que o tratamento imediato é fundamental na evolução evitando potenciais sequelas importantes.

O tratamento é função do local da lesão e das dimensões do pseudaneurisma sendo o tratamento preferencial cirúrgico.


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