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Representação em texto

EuPTCVHe1646-21222015000100008

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN1646-2122
ano2015
Issue0001
Article number00008

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Desmóide cortical: Irregularidade cortical distal femoral que mimetiza malignidade

INTRODUÇÃO Nas crianças, a extremidade distal do fémur é sede de patologia benigna e maligna. As lesões benignas são maioritariamente assintomáticas e com limites radiológicos bem definidos, contrastando com as lesões malignas, que geralmente se manifestam com dor à palpação local, por vezes associadas a sinais inflamatórios, e com padrão radiológico destrutivo da cortical, edema tecidual e reacção periostal9. No entanto, existem patologias de carácter benigno que apresentam características clínicas e imagiológicas que podem induzir suspeita de malignidade.

O fémur distal é a localização preferencial do desmóide cortical, lesão fibro- óssea benigna, reactiva e auto-limitada, considerada por muitos autores como uma variante da displasia fibrosa cortical, com características biológicas e clínicas benignas7, mas que podem levantar dúvidas diagnósticas nesta localização. Vários nomes têm sido utilizados para caracterizar esta entidade: irregularidade cortical femoral distal, desmóide periostal ou justacortical ou irregularidade cortical avulsiva7. A sua incidência é maior em crianças fisicamente activas entre os 10-15 anos de idade, sendo de 11,5% do sexo masculino e 3,6% do sexo feminino, com atingimento bilateral em 35% dos casos1,3,4,9. De referir a presença de lesões com maiores dimensões no membro dominante, nunca tendo sido descrita como achado inicial em doentes com fises encerradas6.

Embora o desmóide cortical se encontre mais frequentemente no fémur, também pode ser observado em outras regiões associadas a inserção muscular de grande tracção como o úmero, tíbia, perónio, rádio, metatarsos, metacarpos e falanges distais.

Na maioria dos casos, a lesão é descoberta de forma acidental em doentes assintomáticos, através de uma radiografia realizada por outros motivos4,9.

Porém, em alguns casos, a presença de sintomatologia associada pode levantar dúvidas e exigir o diagnóstico diferencial com patologia oncológica.

Os autores têm como objectivo descrever os aspectos clínicos e radiológicos de 2 casos clínicos de desmóide cortical no fémur distal4.

CASO CLÍNICO 1 Doente do sexo masculino, 10 anos, saudável até à data da observação. Recorreu ao Serviço de Urgência por traumatismo do joelho esquerdo a jogar futebol.

O doente referia dor e desconforto no joelho durante o último mês, no contexto da prática desportiva.

Negava dor nocturna ou alterações sistémicas.

O exame físico não revelou alterações, excepto empastamento na face interna da extremidade distal da coxa esquerda, com dor à palpação.

Radiologicamente apresentava imagens de densidade heterogénea, com contorno espiculado da cortical ao nível do côndilo femoral medial, proximalmente à placa fisária (Figura_1).

O caso foi discutido em reunião multidisciplinar Ortopedia-Radiologia, tendo-se decidido pela realização de investigação diagnóstica complementar com radiografia do joelho contralateral, cintigrafia óssea e ressonância magnética nuclear (RMN) de ambos joelhos.

A radiografia (Figura_2) e a RMN do joelho bilateral (Figura_3) revelaram imagens simétricas ao nível da extremidade femoral distal contralateral.

A Cintigrafia Óssea (Figura_4) não revelou alterações significativas.

Na RMN do joelho esquerdo (Figura_5) verificou-se a presença de edema periosteal e medular póstero-medial da região supracondiliana do fémur, apresentando-se hipodenso em ponderação T1 e hiperdenso em ponderação T2, e, em ambas as ponderações, apresentava um halo negro em redor, correlacionando-se com a inserção femoral musculo-tendinosa do grande adutor. Não se observaram outras lesões de tecidos moles, medula óssea ou do osso cortical.

Após período de 2 semanas de repouso, o doente apresentava-se assintomático e sem qualquer limitação funcional dos joelhos ou na actividade física.

CASO CLÍNICO 2 Doente do sexo feminino; 14 anos.

Recorreu ao Serviço de Urgência por traumatismo do joelho direito a andar de bicicleta. Negava episódios prévios de gonalgia, dor nocturna ou alterações sistémicas.

O exame físico não revelou alterações, excepto edema e escoriações na face ântero-interna do joelho direito, com dor à palpação.

Radiologicamente apresentava imagens de densidade heterogénea, com contorno espiculado da cortical ao nível do côndilo femoral medial, proximalmente à placa fisária (Figura_6).

O caso foi, também, discutido em reunião multidisciplinar Ortopedia-Radiologia, tendo-se optado pela realização de investigação diagnóstica complementar com tomografia axial computorizada (TAC) dos joelhos e RMN do joelho afectado.

A TAC (Figura_7) do joelho bilateral revelou imagens simétricas ao nível da extremidade femoral distal contralateral. Nas imagens de TAC do joelho direito (Figura_8) observou-se um defeito da cortical póstero-medial da região supracondiliana do fémur, correlacionando-se com a inserção musculo-tendinosa do gastrocnemius medial. Na RMN do joelho direito (Figura_9) verificou-se o mesmo defeito associado a edema periosteal e medular, apresentando-se hipodenso em ponderação T1 e hiperdenso em ponderação T2, e, em ambas as ponderações, apresentava um halo negro em redor, correlacionando-se com a inserção musculotendinosa do gastrocnemius medial.

Não se observaram outras lesões de tecidos moles, medula óssea ou do osso cortical.

Após período de repouso, a doente apresentava-se assintomática e sem qualquer limitação funcional dos joelhos ou na actividade física.

DISCUSSÃO O desmóide cortical é uma entidade benigna que, no fémur, apresenta localização e padrão de imagem muito característicos: irregularidade ou defeito intracortical focal, de maior eixo paralelo ao eixo mais longo da diáfise, na face póstero-medial da metáfise distal do fémur, ao nível das zonas de inserção muscular do gastrocnemius medial ou do grande adutor (5"_href="http:// www.rpot.pt/image/?id=2944">Figura_10)1,7. Esta caracterização radiológica é melhor conseguida através de uma incidência oblíqua, obtida por radiografia ântero-posterior (AP) com 20-40º de rotação externa do membro inferior4.

Em relação à fisiopatologia, pensa-se que o desmóide cortical, pelo rápido surgimento, regressão espontânea e atingimento preferencial em adolescentes fisicamente activos do sexo masculino, resulte da combinação entre a tracção exercida pelas inserções musculares do grande adutor/gastrocnemius medial no periósteo/osso cortical e o ratio aumentado de reabsorção/formação óssea durante os períodos de maior crescimento ósseo na extremidade distal do fémur.

Desta forma, uma predisposição para o aparecimento de microavulsões da cortical, que induzem uma resposta vascular fibroblástica com consequente preenchimento do defeito ósseo com tecido fibrótico, o que por sua vez vai estimular a reabsorção óssea através da activação de osteoclastos, gerando um ciclo vicioso (fractura-reabsorção-fractura)1. Assim, do ponto de vista histológico, esta patologia apresenta-se como um defeito cortical superficial preenchido com tecido fibroso associado a espessamento periostal, podendo observar-se fragmentos ósseos em reabsorção no tecido fibrótico1. À medida que o crescimento ósseo cessa, o osso torna-se mais rígido e este ciclo fractura- reabsorção-fractura termina.

O diagnóstico de desmóide cortical é simples em doentes assintomáticos que tenham achados radiológicos típicos. No entanto, em casos de dor articular associada a alterações radiológicas atípicas, como presença de um padrão irregular espiculado com contornos mal definidos, é necessária investigação diagnóstica complementar, para distinção entre patologia benigna ou maligna, com recurso a Cintigrafia Óssea, TAC e RMN de ambos os membros8,9. De salientar que a RMN poderá ter um papel preponderante por não utilizar radiação ionizante.

O diagnóstico diferencial de desmóide cortical inclui osteossarcoma periostal, fibroma não-ossificante e displasia fibrosa cortical2.

O osteossarcoma periostal trata-se de uma lesão progressiva e unilateral que afecta osso cortical e trabecular, assim como o tecido mole envolvente. o fibroma não-ossificante corresponde a uma lesão óssea isolada e de contornos bem definidos, sem envolvimento de tecidos moles envolventes, com tendência a migrar proximalmente com crescimento ósseo. A Displasia Fibrosa Cortical localiza-se perto da extremidades diafisárias e atinge inicialmente a cavidade medular com posterior progressão para a cortical.

A cintigrafia óssea permite a distinção entre patologia maligna e benigna, sendo normal no desmóide cortical. Tanto a TAC como a RMN permitem caracterizar a lesão e demonstrar a relação anatómica entre a lesão e as inserções musculares, condição sine qua non para o diagnóstico de desmóide cortical, verificando-se muitas vezes a presença de lesões com as mesmas características no membro contralateral.

A sinergia entre a clínica e os exames complementares permite realizar o diagnóstico de desmóide cortical, evitando a realização de exames mais invasivos como a biópsia.

CONCLUSÃO O desmóide cortical é observado em crianças e adolescentes na região póstero- medial da metáfise distal do fémur e apresenta uma localização e aparência radiológica características.

É importante o seu reconhecimento como variante da normalidade, evitando a necessidade de realização de procedimentos invasivos como a biópsia. O desmóide cortical não carece de tratamento, podendo estar indicada vigilância clínica e radiológica em consultas de seguimento. O prognóstico é excelente e lesão desaparece com a maturação esquelética.


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