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Representação em texto

EuPTCVHe1646-21222014000400012

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN1646-2122
ano2014
Issue0004
Article number00012

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Método de Papineau Uma opção válida no tratamento da osteomielite e/ou pseudartrose infetada

INTRODUÇÃO Apesar da existência de modernas técnicas e avanços na terapia antimicrobiana, a osteomielite, em particular a não-união e/ou pseudartrose infectada da tíbia permanece um problema de difícil resolução e um desafio ao ortopedista1.

Após a segunda Guerra Mundial, com o advento dos antibióticos, houve progresso no tratamento de feridas infectadas. As partes moles respondiam bem ao medicamento, porém não ocorria o mesmo com o tecido ósseo infectado.

Na literatura1,2,3,4 encontramos vários protocolos descritos para o tratamento de fracturas expostas das extremidades inferiores que genericamente incluem: desbridamento precoce e agressivo de tecido necrótico, estabilização da fractura (habitualmente com fixador externo), cobertura dos tecidos moles com retalho muscular e uma reconstrução óssea sequencial.

Para a reconstrução dos defeitos ósseos, várias técnicas foram descritas incluindo: enxerto ósseo esponjoso aberto pela técnica de Papineau, transporte ósseo usando Ilizarov e enxerto ósseo vascularizado.

Em 1979, Papineau e seus colaboradores2,3,4, publicou um estudo de seguimento de pacientes com osteomielite crónica. Realizava o desbridamento e limpeza da zona óssea infectada com preservação da cortical posterior num primeiro tempo operatório.

Deixava a ferida aberta de sete a 14 dias, preenchia a cavidade com enxerto esponjoso e realizava a "petalização" cortical num segundo tempo.

Depois da formação de tecido de granulação, promovia a cobertura cutânea em tempo.

Na literatura encontramos algumas descrições de modificações à técnica original, seja a sua simplicação8 em único estádio de tratamento (Protocolo de Cardiff), seja a utilização provisória de cimento descrito por Masquelet6 ou, mais recentemente, o uso de vacuoterapia aplicado por Archdeacon5.

CASO CLÍNICO Os autores relatam um caso clínico de uma mulher de 38 anos, que sofreu uma queda de bicicleta em piso de gravilha, de que resultou fractura complexa e exposta da tíbia e perónio distais - grau IIIA de Gustillo & Anderson, em 30 de Abril de 2013 (Figuras_1A_e_1B). Foi tratada prontamente no serviço de urgência, seguindo o protocolo de fracturas expostas do serviço, que genericamente consiste em: abundante lavagem com soro fisiológico, antibioterapia endovenosa empírica com cefalozina e gentamicina, estabilização da fractura com fixador externo (Figuras_2A_e_2B) e cobertura primária do defeito quando possível. Ao 10º dia de pós-operatório verificou-se intenso cheiro fétido com importante deiscência da ferida operatória, tendo sido colhido exsudado purulento para análise microbiológica e efectuada uma primeira limpeza cirúrgica. O agente etiológico identificado foi Enterococcus cloacae, conhecidamente como um agente altamente destrutivo para os tecidos moles. A antibioterapia foi dirigida, de acordo com teste de sensibilidade, para vancomicina mais gentamicina. Face ao defeito cutâneo resultante da limpeza cirúrgica com cerca de 5 cm por 7 cm com exposição da vertente interna da tíbia foi feito penso com Cronocol (R) numa primeira fase. Após incipiente cobertura do osso com tecido granulação, foi tomada a decisão de uso de vacuoterapia em sistema fechado (em junho de 2013) com expressiva melhoria, controle da infecção e crescimento de tecido de granulação (Figuras_3A_e_3B).

Posteriormente, 4 semanas após remoção de fixador externo e uso de imobilização gessada com sandália de carga, registou-se o ressurgimento de novo trajecto fistuloso, denunciando persistência da osteomielite, o que motivou novo internamento.

O estudo pré-operatório efectuado com tomografia computorizada confirmou a pseudartrose e persistência de osteomielite (Figuras_4A_e_4B) pelo que foi tomada a decisão de aplicar o método de Papineau. Assim, efectuou-se em Agosto de 2013 o tempo da técnica de Papineau, um novo desbridamento cirúrgico (Figura_5), mais radical e tendo em conta a não união óssea e o tamanho do defeito ósseo criado no terço distal da tíbia procedeu-se nova estabilização com fixador externo monoplanar (Figura_6). A cavidade criada foi preenchida com gazes gordas humedecidas, sendo o penso feito com uma periodicidade de 3 dias.

Em outubro de 2013, avançou-se para o tempo, tendo colhido quantidade apreciável de enxerto esponjoso das cristas ilíacas por via posterior para preenchimento do defeito (Figura_7). Em Dezembro de 2013, verificou-se, que apesar da boa evolução da cicatrização por segunda intenção com abundante tecido de granulação, era necessário proceder a colheita de enxerto livre de pele para encerramento final ( tempo). O fixador externo foi removido em março de 2014 na presença de evidência clínico-radiológica de consolidação óssea (Figura_8).

De momento a doente encontra-se autónoma na marcha, apresentando 30º de flexão plantar, 15º de dorsiflexão, sem limitações na inversão e/ou eversão (Figura 9). Resumindo apresenta na escala funcional AOFAS uma pontuação de 77.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Neste artigo revemos a aplicação do método de Papineau2,3,4 em um caso de difícil resolução de osteomielite pós-traumática refractária ao tratamento antibiótico. Na presença de um defeito ósseo considerável após limpeza de todo o tecido infectado e necrótico, foi necessária estabilização com fixador externo, seguida do preenchimento da loca com enxerto autólogo e evolução cicatricial da ferida por segunda intenção, embora com necessidade de finalizar com enxerto de pele. Aos 8 meses de seguimento após finalização do tratamento não existem sinais de recidiva da infecção e a doente retomou a marcha sem qualquer auxiliar, apresentando uma pontuação de 77 de acordo com a escala funcional AOFAS.

Archdeacon & Messerchmitt6 publicaram em 2006 uma modificação da técnica de Papineau acrescentando a vacuoterapia em sistema fechado, em substituição das gazes gordas humedecidas da técnica clássica. Sempre após um adequado desbridamento, é introduzida na cavidade uma esponja do sistema de vácuo por intervalos de 48 a 96 horas até obtenção de um leito de ferida limpo, com tecido de granulação evidente. Mantem-se o princípio da cicatrização por segunda intenção.

Uma técnica alternativa foi descrita por Masquelet7 baseada no conceito de membrana e processada em dois estágios, em que no primeiro se procede igualmente ao desbridamento radical mas se interpõe cimento no defeito criado.

O espaçador de cimento tem assim dois propósitos, um mecânico e outro biológico, confere estabilidade e previne o crescimento de tecido fibroso na cavidade.

Pela reacção de corpo estranho que cria, induz a formação de uma membrana pseudosinovial, ricas em neovasos libertadores de factores de crescimento osteogénicos, que servirá de receptor ao enxerto ósseo num segundo estágio e também prevenirá a sua reabsorção. O espaçador é removido por volta das 6 semanas e se possível após preenchimento da cavidade com enxerto se procede ao encerramento da ferida.

No domínio das complicações1,2,3,5, encontramos a infecção superficial e deiscência nos retalhos, na maioria das vezes em doentes diabéticos ou fumadores4, reconhecidamente dois factores de risco.

CONCLUSÃO A técnica de Papineau permanece uma ferramenta útil no arsenal terapêutico de casos complexos de osteomielite recorrente e falha na cobertura de tecidos moles, seja a cobertura directa sejam retalhos vascularizados.

Na nossa experiência, um extenso desbridamento cirúrgico ósseo constitui o passo mais importante da cirurgia independentemente do tamanho do defeito resultante. A remoção de tecido necrótico, periósteo avascular e tecido cicatricial fibrótico é absolutamente necessário para o sucesso da intervenção.

Um adequado esclarecimento e compreensão do plano terapêutico, na sua globalidade por parte do doente, é um imperativo para o sucesso terapêutico, bem como a existência de um aporte vascular que permita uma adequada resposta ao estímulo osteogénico e cicatricial.


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