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Representação em texto

EuPTCVHe1646-21222014000400009

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN1646-2122
ano2014
Issue0004
Article number00009

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Descolamento séptico de prótese total do punho: Sistematização de uma abordagem terapêutica

INTRODUÇÃO O punho constitui do ponto de vista anatómico e biomecânico uma articulação mais complexa do que a anca ou o joelho. No punho existem duas fileiras de ossos no carpo, cada uma constituída por quatro ossos e a fileira proximal articula com o rádio, havendo múltiplos interfaces, tornando complexa a sua cinemática1, 11.

A rápida e constante evolução tecnológica que se traduz no aparecimento de novos materiais ofereceu ao doente com patologia osteoarticular da mão uma nova esperança na melhoria da sua qualidade de vida, não pelo alívio álgico, como também pela preservação da funcionalidade. A artroplastia de substituição do punho sendo menos comum, é uma opção quando uma artrose dolorosa não responde ao tratamento sintomático e obedece a critérios que não desaconselhem o uso de implantes. Assim, está indicada em pacientes com dor e/ou perda de função devido a: osteoartrose pós-traumática, osteoartrose degenerativa, artrite reumatóide ou SLAC (Scapholunate Advanced Collapse). A sua utilização deve limitar-se às situações em que uma avaliação pré-operatória indica qualidade óssea suficiente para suportar os implantes e em doentes com uma actividade física ligeira1, 8,11 Tradicionalmente, a principal indicação para a realização de uma artroplastia do punho é a artrite reumatóide4,5,6,7,8. Actualmente, a osteoartrose pós- traumática é cada vez mais uma indicação para artroplastia do punho. Apesar de alguma controvérsia pela disponibilidade de alternativas, a sua vantagem na preservação da mobilidade, contribuiu para o alargamento das suas indicações2,3,8.

As contra-indicações absolutas para a artroplastia do punho incluem: infecção ativa, ausência de controlo motor do punho, rotura irreparável dos extensores do punho e perfil psicológico do doente. Como contra-indicações relativas figuram a rotura dos extensores dos dedos, imunossupressão, qualidade do osso, doentes jovens, trabalhadores manuais e uso crónico de auxiliares de marcha para deambulação1,3,11.

Assistimos nos últimos anos, a múltiplos ajustes e alterações no design das próteses do punho num esforço de minimizar as complicações, as taxas de revisões e as conversões para artrodese. Os atuais modelos em titânio permitem menor ressecção óssea, uma melhor osteointegração e com um interface de polietileno altamente reticulado uma maior resistência ao desgaste6,7,8.

As complicações mais significativas em artroplastias incluem: a infecção, podendo ser aguda ou crónica, mas sempre devastadora; o descolamento mecânico; a instabilidade/luxação e lesão tendinosa ou vasculonervosa iatrogénica no ato cirúrgico6,7,8,9,11.

CASO CLÍNICO Os autores relatam um caso clínico de um homem de 58 anos, trabalhador manual, que recorreu ao serviço de urgência em Novembro de 2012 por dor, impotência funcional, edema e exuberantes sinais inflamatórios com trajecto fistuloso drenando líquido purulento na face dorsal do punho direito, que foi prontamente colhido para análise microbiológica e teste de sensibilidade aos antibióticos.

Iniciou cobertura antibiótica empírica com flucloxacilina 1000 mg de 8 em 8 horas, toma endovenosa na primeira semana e depois oral. Importa realçar que o doente foi submetido a artroplastia total do punho em Outubro de 2004 - Universal por artrose rádio-cárpica pós-traumática do punho direito com colapso escafolunar - SLAC Grau III de Watson (Figura_1 e 2) e o processo infeccioso ocorreu 8 anos depois da implantação.

Radiograficamente (Figura_3) verificava-se um descolamento do componente cárpico da prótese total do punho com acentuada osteólise peri-implante e, subsequente, reabsorção da fileira distal do carpo.

Perante a cintigrafia óssea efectuada que permitiu evidenciar zonas de hiperfixação situadas sobretudo ao nível da fileira distal do carpo e extremidade distal do rádio, corroborando a hipótese de descolamento protésico séptico, foi decidido proceder a uma revisão em dois tempos independentes, sendo que no primeiro tempo se procedeu à integral remoção da prótese (Fevereiro /2013) (Figura_4), desbridamento cirúrgico e interposição de espaçador de cimento moldado, impregnado com antibiótico (gentamicina e clindamicina) (Figuras_5 e 6) e imobilização com tala gessada antebraquiopalmar.

O doente foi seguido em consulta externa, mensalmente, e verificou-se através de análises seriadas uma regressão dos parâmetros de infecção com a progressiva normalização da VS e PCR. Na microbiologia foi identificado como agente etiológico um Staphylococcus aureusmeticilino-sensível, sendo sensível à flucloxacilina e gentamicina.

O doente teve uma boa adaptação ao espaçador provisório, tendo permitido um tempo mais prolongado (cerca de 9 meses) com o espaçador em cimento (Figura_6), o que nos ofereceu melhores garantias de debelação da infecção e para a colocação de uma placa de artrodese.

No segundo tempo cirúrgico (Novembro/2013) procedeu-se à remoção do espaçador (Figura_7), novo desbridamento e conversão em artrodese rádio-carpo-metacárpica com placa AO pré-moldada (Figuras_8 e 9) e interposição de enxerto autólogo colhido do ilíaco.

Às 8 semanas de pós-operatório apresentava sinais clínicos e radiológicos de obtenção de consolidação óssea (Figura_10). Com cerca de 4 meses de follow-up verificava-se consolidação óssea em posição funcional, sem dor e sem sinais de infecção.

RESULTADOS E DISCUSSÃO A artroplastia do punho na carpite reumática avançada representa uma real melhoria da qualidade de vida do doente, dado manter ou até melhorar a capacidade de movimento com estabilidade, reduzir a dor e permitir a correcção da deformidade. Outros procedimentos cirúrgicos disponíveis para o tratamento do punho reumatóide como a sinovectomia, fusão intercárpica e artrodese rádio- cárpica ou mantém-se como alternativas válidas11.

Apesar da artroplastia ser uma opção atractiva em termos funcionais, não é isenta de riscos, apresentando maior taxa de complicações a médio e a longo prazo do que a artrodese, impondo uma criteriosa selecção dos doentes. Este procedimento deve ser reservado para doentes com menores necessidades laborais/ funcionais e cognitivamente capazes de compreender os riscos e benefícios da intervenção. Não podemos também ignorar seu oneroso custo, de difícil justificação clínica face aos responsáveis hospitalares e/ou seguradoras. 3,8.

Por outro lado, as artrodeses ao oferecerem estabilidade livre de dor têm sido a opção terapêutica mais utilizada, muito embora privem o doente da mobilidade limitante na execução das actividades de vida diária1,3,7,10. Ainda utilizamos esta opção para pacientes jovens e que utilizem as mãos para atividades de maiores esforços onde devido à sua constante solicitação existe maior risco de descolamento mecânico11.

Relativamente ao caso apresentado observa-se radiograficamente uma importante osteólise periprotésica com reabsorção da fileira distal do carpo e descolamento/afundamento do componente cárpico, impondo-se também por isso o tratamento cirúrgico.

Como anteriormente referido, o plano terapêutico contemplou uma revisão em dois tempos cirúrgicos: - tempo cirúrgico (02-2013) - remoção dos componentes de prótese total do punho e desbridamento cirúrgico alargado, seguida da interposição de espaçador de cimento moldado, impregnado com dois antibióticos - gentamicina e clindamicina. Imobilização provisória com tala gessada antebraquiopalmar, passando depois a ortótese amovível.

 - tempo cirúrgico(11-2013)- após evidência de infecção debelada, efectuou-se uma artrodese rádio-metacárpica com placa e interposição de auto- enxerto colhido do ilíaco homolateral.

Na avaliação clínica verifica-se radiograficamente consolidação e ausência de dor, apenas uma ligeira insuficiência do e extensores dos dedos devido ao encurtamento do punho. Assinala-se uma melhoria no score DASH (actualmente situando-se nos 32 pontos) após a consolidação da artrodese, verificando-se, no entanto, as inerentes limitações que artrodese impõe nas atividades de vida diária. Não se verificou qualquer limitação na prono-supinação. Regista-se também uma melhoria da força manual de preensão de 3 Kgf no pré-operatório para 8 Kgf no pós-operatório. Relativamente ao Índice de Kapandji apresenta no lado operado 8 e 10 no contralateral.

Podemos inferir a partir do caso apresentado, que na falência protésica do punho as opções terapêuticas incluem: uma artroplastia de ressecção  com artrodese ou uma revisão protésica.

Rettig e Beckenbaugh12,13,14 reportaram a experiência no uso de um implante biaxial para substituição da artroplastia complicada de descolamento mecânico.

A maioria dos pacientes ficou satisfeita, em que 8 dos 13 doentes não apresentavam dor ao fim de 31 meses de pós-operatório.

Em 1996, Cobb e Beckenbaugh referem que a revisão de uma artroplastia do punho apresenta alto índice de complicações, sendo o descolamento uma séria complicação12,13,14. Assim, sugeriram o uso de hastes longas e implantes bi- axiais nas revisões. Hubach15 apresentou a sua casuística de 7 próteses de revisão, com dois anos de follow-up, apresentando bons resultados funcionais.

Inúmeras publicações na literatura internacional demonstraram o sucesso das artrodeses na cirurgia de revisão da falência de artroplastia do punho. Beer eTurner17 reportaram 13 casos de artrodeses realizadas após falência de artroplastia, usando enxerto tricortical da crista ilíaca fixado com pino de Steinmann. Enquanto que Beer e Turner17 recomendam uma construção mais rígida com uso de placa para reduzir risco de pseudartrose, Carlson e Simmons18 preferem o uso de aloenxerto crio-preservado de cabeça femoral, fixado com pinos de Steinmann. Acreditam que a artrodese resultados mais consistentes e menos complicações que a revisão de prótese.

Por fim, concentremo-nos no algoritmo proposto (Figura_11), em que perante a suspeita de infecção periprotésica do punho se deverá proceder de forma similar em outras artroplastias. No entanto, deparámo-nos com uma dificuldade adicional que se prende com a reabsorção da fileira distal do carpo com importante defeito ósseo, importante problema na cirurgia de revisão. Em primeiro lugar, após colheita de exsudado para identificação do microorganismo, deverá iniciar- se a profilaxia empírica. Para um efectivo planeamento pré-operatório recomendamos a confirmação das zonas de hiperfixação com cintigrafia óssea. No descolamento séptico, o tratamento cirúrgico será em dois tempos independentes: primeiro a remoção dos componentes protésicos e desbridamento cirúrgico, interposição de espaçador moldado de cimento impregnado em antibiótico, imobilização provisória com gesso. Após constatação de que a infecção foi debelada, poderá avançar-se para o tempo da revisão, conversão em artrodese rádio-carpo-metacárpica com placa moldada e interposição de enxerto, oferecendo maior estabilidade e probabilidade de fusão em nossa opinião.

Figura_11

CONCLUSÃO Embora a artroplastia seja um procedimento bem estabelecido para muitas articulações, a sua aplicação no punho é menos comum, e as indicações permanecem menos bem definidas. O procedimento padrão para a osteoartrose dolorosa do punho permanece a artrodese. No entanto, com os avanços biotecnológicos dos últimos anos, a artroplastia do punho está a ser usada com mais frequência11.

A artrodese do punho poderá sempre ser vista como procedimento de salvação após falência de artroplastia16. Alertamos para a necessidade de uma selecção criteriosa das indicações cirúrgicas para artroplastia do punho.

As infecções periprotésicas são eventos preocupantes não pelo potencial de gravidade, mas também, pelo custo elevado que acarretam aos pacientes e ao sistema de saúde. O diagnóstico precoce, associado a uma pronta actuação, contribui decisivamente para a resolução definitiva do processo16.

O sucesso de uma artroplastia do punho depende de uma selecção adequada do doente, de um cuidadoso planeamento pré-cirúrgico, de uma técnica cirúrgica rigorosa e de um programa de reabilitação pós-operatório individualizado e ajustado, essencial no alívio da dor e na reeducação funcional11. 


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