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Representação em texto

EuPTCVHe1646-21222014000300008

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN1646-2122
ano2014
Issue0003
Article number00008

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Luxação traumática da anca na criança: Entidade rara a recordar

INTRODUÇÃO A luxação traumática da anca (LTA) na criança representa uma lesão rara e constitui uma emergência ortopédica.1,2 Representa cerca de 5% de todas as lesões traumáticas desta articulação, é mais frequente no sexo masculino, raramente é bilateral e ocorre mais frequentemente no sentido posterior (87%).3,4 Nesta faixa etária pode resultar de trauma de baixa energia devido à plasticidade acetabular e à frouxidão ligamentar, próprias da idade.1 O tratamento consiste na redução incruenta, sob anestesia, que deve ser realizada o mais rápido possível, idealmente nas primeiras 6 horas após o traumatismo, a fim de minimizar complicações, nomeadamente a necrose avascular da cabeça do fémur, cujo risco aumenta com o tempo decorrido até à redução.5,6 Após este procedimento, o tratamento permanece controverso, nomeadamente quanto ao tempo de tração e imobilização.1,2,5 Alguns autores defendem 4-6 semanas em tração ou em gesso pélvipodálico.7 Outros defendem 10- 14 dias de repouso no leito sem posterior apoio durante 4-6 semanas.8 As complicações precoces mais frequentes são fraturas (≤40%) com lesão neurológica ou vascular (≤25%) associada. Complicações tardias incluem reluxação, condrólise (6%), necrose avascular (10%) e a artrite degenerativa, secundárias ao atraso na redução, para além da retenção de fragmentos livres no acetábulo (≤25%).5,6,9-14 Os fatores relacionados com pior prognóstico incluem a persistência da luxação por mais de seis horas, maturidade esquelética avançada, lesão articular grave e a presença de múltiplos traumas associados.1 Pretende-se com este caso relembrar uma entidade rara, apesar de tudo possível com um traumatismo de baixa energia, ao contrário do que é hábito no adulto, e assim rever as condutas mais adequadas ao tratamento.

CASO CLÍNICO Os autores apresentam o caso clínico de uma criança do sexo feminino, de 6 anos de idade, que recorreu ao serviço de urgência por queixas de dor da anca e incapacidade de marcha, após queda da própria altura. Ao exame objetivo apresentava deformidade da coxa esquerda em hiperadução e rotação medial, limitação dos movimentos da articulação da anca ipsilateral com dor evidente à manipulação, sem outros sinais ou sintomas de relevo. Ao exame neurológico a sensibilidade estava conservada não tendo sido possível avaliar as capacidades motoras pela deformidade. Os pulsos distais eram palpáveis, amplos e simétricos. A radiografia (Rx) da anca (figura_1) evidenciou luxação posterior da anca. Foi submetida à redução incruenta imediata, sob anestesia geral, cerca de 6 horas após o evento. No pós-operatório permaneceu uma semana com o membro em tração, ao fim da qual foi realizado um gesso pelvipodálico. O Rx e a ressonância magnética (RMN) efetuada após a redução corroboraram a adequada congruência articular, traduzindo o último algum edema dos músculos contíguos, compatível com contusões musculares sem roturas, mantendo-se o labrum acetabular e a cápsula posterior íntegros (figura_2 e 3). No seguimento da evolução o gesso pélvipodálico foi retirado às 4 semanas, pós redução. Aos 3 meses de evolução a paciente era autónoma na marcha, sem défices ou outras lesões associadas. Um ano após mantém-se assintomática e sem complicações tardias. As radiografias de controlo efetuadas durante o seguimento, não apresentaram alterações. 

DISCUSSÃO A literatura corrobora a raridade das LTA, bem como a falta de consenso quanto ao tratamento, dada a sua baixa incidência.1-8 Alguns autores relatam que para crianças mais pequenas (5-10 anos) não são necessário traumatismos de alta energia para a ocorrência da luxação da anca, tendo a exemplo disso a queda da própria altura, no caso da nossa paciente. No entanto, em crianças mais velhas/adolescentes é necessário um impacto importante (queda de grande altura, acidentes de viação) para a ocorrência do evento.8 Alguns estudos revelam uma distribuição da incidência relativamente uniforme em todas as idades, enquanto outros, uma incidência maior entre os 5 e os 10 anos, concordante com o caso descrito.3 O género, neste caso, é contrário à tendência do sexo masculino.3,9 A luxação posterior ocorrida na nossa paciente é descrita também na literatura como a mais frequente, tanto nas crianças como nos adultos. A ocorrência de luxações anteriores ronda os 5 a 10 %.5,9 Foi cumprido o intervalo de tempo recomendado até redução incruenta (cerca de 6 horas) o que constituiu fator de bom prognóstico, consubstanciando a evolução favorável descrita.

Constituindo uma emergência ortopédica existe con-senso quanto à necessidade de redução imediata, preferencialmente fechada e sob anestesia geral ou com relaxantes, utilizando as mesmas manobras de redução dos adultos (Stimson, Allis e Bigelow).15 Se a anestesia geral não for viável admite-se a redução sobre sedação intravenosa. A tração deve ser aplicada de forma constante de maneira a evitar espasmos musculares, retrações elásticas ou até mesmo fraturas do colo femoral.16 Após redução, deve-se avaliar a congruência articular, comparando o espaço articular, a lateralização da cabeça e a quebra na linha de Shenton com o lado contralateral. A tomografia computadorizada (TC) e a RMN permitem a deteção de fragmentos ou tecido interposto que uma vez confirmados implicam uma segunda tentativa de redução ou redução aberta por abordagem posterior. As indicações para redução aberta são o fracasso na redução fechada, lesão do nervo ciático, com indicação de exploração e fra-tura acetabular do colo ou da cabeça femoral que exijam tratamento cirúrgico.15 O tratamento posterior permanece controverso, independentemente das lesões ocorridas, nomeadamente quanto ao tempo de tração e imobilização.1,2,5 Alguns autores defendem 4 a 6 semanas em tração ou com gesso pélvipodálico.7,15 enquanto outros defendem 10-14 dias de repouso no leito sem posterior apoio durante 4-6 semanas.8 Blaster et al.17 propõem repouso até melhoria da dor, seguido de retorno à marcha. Canale18 e Hebert et al.19 utilizam tra-ção cutânea durante uma semana, seguido de ausência de apoio por 4 a 6 semanas. A ausência de complicações, tanto precoces como tardias, na nossa doente demonstrou ser suficiente uma semana com o membro em tração e imobilização com gesso pelvipodálico durante 4 semanas. Esta atitude terapêutica traduz uma decisão ponderada entre as diversas abordagens supracitadas na literatura, tendo-se revelado eficaz.

CONCLUSÃO O enfâse do caso prende-se com a sua raridade e necessidade de intervenção emergente. À exceção do género o caso retratado segue a tendência da literatura. Existe pouca concordância nas atitudes terapêuticas pós-redução incruenta mas, de uma maneira geral, a evolução é favorável, sendo o tempo até à redução incruenta o fator chave e determinante do prognóstico. 


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