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Representação em texto

EuPTCVHe1646-21222013000300019

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN1646-2122
ano2013
Issue0003
Article number00019

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Tratamento da osteonecrose da cabeça femoral na adolescência pela técnica de "trapdoor"

INTRODUÇÃO O fenómeno de osteonecrose da cabeça femoral define-se como a interrupção do suprimento sanguíneo ao osso[1,2,3]. Outros termos foram utilizados no passado com intuito de caracterizar a mesma entidade, nomeadamente necrose avascular ou necrose asséptica[3]. Este último, pouco utilizado na atualidade, servia para diferenciar a osteonecrose de etiologia não séptica da infeciosa[3].

Ocorre preferencialmente em pacientes entre a terceira e quinta década de vida e nesta faixa etária é responsável por incapacidade motora, o que traduz menor qualidade de vida e produtividade laboral[2,3]. Ou seja, trata-se de uma entidade relativamente rara na infância tardia e na adolescência1, cursando frequentemente com lesão articulargrave e consequente evolução para artrose precoce e incapacitante da anca. Não evidência relativamente a um predomínio de género[1].

A fisiopatologia da osteonecrose ainda não foi completamente elucidada.

Enquanto em alguns casos uma causa direta, como é o exemplo do trauma, na sua grande maioria a fisiopatologia é desconhecida[4]. Vários investigadores têm postulado inúmeras teorias, que vão desde alterações vasculares a modificações da fisiologia das células ósseas[3,8-11]. Adicionalmente diversas comorbilidades têm sido correlacionadas com esta entidade[3,8-10,12-15]. Assim, muitos autores defendem que a osteonecrose da cabeça femoral é uma doença multifatorial, que em alguns casos está associada, quer a uma predisposição genética, quer à exposição a determinados fatores de risco[3].

Na infância tardia e na adolescência pode ser agrupada em 2 grandes tipos: traumáticas e não traumáticas[1,3,4].

A primeira, resulta de uma agressão direta à vascularização da cabeça femoral e pode ser consequência de uma fratura do colo do fémur, luxação traumática da anca ou aumento da pressão intracapsular[1,3]. A osteonecrose da cabeça femoral é a complicação mais importante no contexto de uma fratura do colo do fémur e a sua prevalência é dependente do tipo de fratura, tempo decorrido até à sua redução e qualidade da mesma. Apresenta uma prevalência de cerca de 40%, contudo este valor aumenta exponencialmente nas fraturas com desvio associado [16]. Se tivermos apenas em consideração o tipo fracturário (classificação de Delbet), a incidência desta complicação será de: tipo IA - 50%, IB - 80-100%, II - 33% (50% se desvio), III - 27% e IV - 14%[16]. No contexto de uma luxação traumática a osteonecrose ocorre em cerca de 10% dos casos[16]. O tempo decorrido até a sua redução parece influenciar a sua prevalência, sendo importante uma redução num período inferior a 12-24 horas[3,16]. O aumento da pressão intracapsular, quer no contexto de uma hemartrose ou após um procedimento de infiltração articular poderá aumentar o risco de osteonecrose da cabeça femoral[1,3].

O segundo tipo é subdividido em causas de origem: idiopática, doenças sistémicas e iatrogénica[1,3,4]. As idiopáticas resultam de fatores ainda desconhecidos, apesar de vários trabalhos centrarem as suas atenções no mecanismo fisiopatológico, nomeadamente a fragilidade da microcirculação da cabeça femoral e dos danos provocados pela sua oclusão (coagulação intravascular e/ou trombose da microcirculação) e subsequente isquémia[4].

Neste sub-tipo está englobada a doença de Legg-Calvé-Perthes de aparecimento tardio[1,2]. As doenças sistémicas englobam as hemoglobinopatias (drepanocitose, talassémia), doenças inflamatórias intestinais, doença de Gaucher, neoplasias malignas e SIDA[1-5]. As causas iatrogénicas podem ser várias, das quais as mais importantes são a corticoterapia[4], complicação do tratamento da epifisiolise[1] e sequela de rádio ou quimioterapia[1].

A história clínica do doente é fundamental, sobretudo nos casos não traumáticos [3]. O diagnóstico precoce permite um tratamento atempado que poderá na maioria das vezes conduzir a um melhor prognóstico[1-3]. Sobretudo nas situações pós- colapso, a duração da sintomatologia poderá ser indicativa da qualidade da cartilagem acetabular, o que poderá influenciar a estratégia terapêutica, nomeadamente procedimentos conservadores da articulação[5]. A avaliação das mobilidades articulares também indicam a extensão da lesão articular[5].

Apesar das radiografias serem o primeiro exame a ser realizado, as alterações da cabeça femoral são apenas visíveis meses após o início da doença [3]. A ressonância magnética é considerado o exame de eleição para a confirmação diagnóstica, apresentando uma sensibilidade e especificidade de 99%, mesmo nos estadios iniciais da doença[3].

Os parâmetros a ter em conta para definição da estratégia a adotar são: situação pré ou pós-colapso, extensão da área de necrose, quantificar a depressão, sendo que valores superiores a 2 mm estão associados a pior prognóstico e a coexistência de lesão da cartilagem acetabular[4].

Não existe na literatura uma classificação universalmente aceite para determinar a localização e a extensão da área de necrose e o eventual envolvimento acetabular[3,5]. As classificações mais utilizadas são a de "Ficat and Arlet" em conjunto com o cálculo do ângulo de necrose de Kerboull, com o intuito de facultar orientações para o tratamento e prognóstico [2-6]. A primeira encontra-se dividida em quatro grandes tipos (Quadro_I) e a segunda resulta da soma do ângulo de necrose na incidência antero-posterior e de da bacia; valores superiores a 200º apresentam piores resultados com alguns procedimentos conservadores da anca[5].

O seu tratamento, sobretudo na infância tardia e durante a adolescência, permanece um desafio ao Ortopedista[2]. A osteonecrose nesta faixa etária comporta-se de forma similar à dos adultos e raramente responde favoravelmente às técnicas cirúrgicas utilizadas na infância[1]. Existem duas opções terapêuticas, a conservadora implica tratamento médico e está especialmente indicada em pequenas lesões pré-colapso assintomáticas, geralmente diagnosticadas na anca contralateral[4]. A outra opção é cirúrgica e engloba vários métodos, desde o "core decompression" de forma isolada ou com utilização de enxerto ósseo vascularizado ou não, osteotomias femoral e/ou acetabular, "ressurfacing", artroplastia ou a combinação de métodos [1-6]. Contudo, dada a faixa etária em estudo, muitas vezes o tratamento passa por procedimentos cirúrgicos conservadores[1-5].

Existem várias técnicas de enxerto não vascularizado, desde o "core tract", que não é muito utilizado, a janela no colo do fémur ou "light bulb procedure" e o "trapdoor".

A técnica de "trapdoor" foi descrita pela primeira vez em 1965 por Merle d'Aubigné et al[5]. Não existe consenso na sua indicação, devido à dificuldade em restabelecer a esfericidade da cabeça femoral, particularmente nas situações pós colapso[5]. Existem autores que advogam a sua utilização em situações pré e pós-colapso, contudo limitam a depressões inferiores a 2 mm[3].

Atualmente é reservada sobretudo para situações limite, nomeadamente as pós- colapso, com o propósito de aumentar a sobrevida articular e assim adiar a artroplastia total da anca[1-5].

CASO CLÍNICO São apresentados dois casos, um de causa traumática e outro idiopática, que foram operados pela técnica de "trapdoor".

A técnica sumariamente consiste na realização de uma janela com cerca de 2cm2 sobre o segmento necrosado, remoção da área de necrose até identificação de osso viável e preenchimento com enxerto corticoesponjoso da crista íliaca (Figura_1).

O primeiro caso é de um paciente, sexo masculino, raça caucasiana, que aos 12 anos apresentou uma fratura basi-cervical à direita, Delbet tipo III, após queda de escorrega (Figura_2). Três horas após o osteossíntese com 2 parafusos canulados (Figura_3). Aos 6 meses pós-operatório apresentava evolução clínica e imagiológica satisfatória (Figura_4). Posteriormente iniciou quadro de queixas álgicas com localização inguinal e agravamento progressivo, de características mecânicas, apresentando claudicação da marcha. Aos 18 meses pós-cirurgia apresentava uma osteonecrose da cabeça femoral confirmada por radiografia (Figura_5) e ressonância magnética (Figura_6) - Ficat estadio IV com um ângulo de necrose de Kerboull de 205,31º (Figura_5). Aos 24 meses foi realizado a técnica de "trapdoor" complementada com uma osteotomia de Salter (Figura e Figura_7). Aos 22 anos de idade foi submetido a artroplastia total da anca (Figura_8). Apresenta um HHS ("Harris Hip Score") de 92 e um HOOS ("Hip disability and Osteoarthritis Outcome Score") de 87,2 e correção da dismetria.

Figura_6

Figura_8

O segundo caso trata-se de uma paciente, sexo feminino, raça caucasiana, sem fatores de risco conhecidos que aos 11 anos inicia quadro de claudicação da marcha, dor de agravamento progressivo à esquerda, localização inguinal e características mecânicas. Às 14 semanas após o início da sintomatologia apresentava osteonecrose da cabeça femoral estadio III de Ficat e um ângulo de Kerboull de 228,21º (Figura_9). Foi submetida a técnica de "trapdoor" complementada com uma osteotomia de Salter (Figura_10 e Figura_11). Após 4 anos apresenta um HHS de 79 e HOOS de 80,6 (Figura_12).

DISCUSSÃO A osteonecrose da cabeça femoral na infância tardia ou adolescência é especialmente difícil de abordar, não existindo consenso no seu tratamento [1,2,5].

Normalmente no momento do diagnóstico a destruição da cabeça femoral é acentuada, não havendo um tratamento ideal[1,2,5]. Os vários métodos de tratamento descritos para o estadio III e para a fase inicial do estadio IV de Ficat, refletem o tamanho do problema e a incerteza da sua resolução[2]. Casos equivalentes na idade adulta teriam como procedimento de escolha a artroplastia total da anca[1-7], sendo o tratamento que apresenta maior probabilidade de diminuir de forma significativa a dor numa fase precoce e de garantir um ótimo prognóstico funcional[3]. Apesar dos excelentes resultados deste procedimento na idade adulta, a sua utilização na faixa etária em estudo levaria a múltiplas e complexas cirurgias de revisão ao longo da vida do paciente, devendo-se por isso protelar, dentro do razoável, a sua utilização[1]. Embora existam alguns defensores[1] da artrodese, esta caiu em desuso ao longo dos anos, devido às implicações na qualidade de vida do paciente[2-7].

A escolha do tratamento da osteonecrose da cabeça femoral na infância tardia ou adolescência deverá ter como objetivo a prevenção ou atraso da deformidade que poderá levar a coxartrose[1-7].

A utilização isolada de procedimentos de hipercobertura ou de colocação de enxerto ósseo nesta faixa etária apresentaram maus resultados[1-5]. E isto acontece porque apesar da primeira ser necessária, para garantir o "molde" de esfericidade da cabeça femoral, os pacientes não apresentam o mesmo potencial de remodelação observada em idades mais jovens, necessitando de um estimulo adicional[1]. Por estes motivos, vários autores defendem a utilização do conjunta do "trapdoor" e técnicas de hipercobertura com o intuito de promover a vascularização, diminuindo o tempo de remodelação, evitando o colapso ou o seu agravamento e assim promovendo uma maior sobrevida articular[1,2]. A literatura apresenta resultados encorajadores com a utilização destas técnicas[1-7], nomeadamente no estadio III e na fase inicial do estadio IV de Ficat[1,2,5].

A utilização de enxerto ósseo vascularizado poderá estar indicado nas situações pré-colapso, devido aos bons resultados apresentados[2-6]. Contudo, a complexidade da técnica, o aumento significativo do tempo operatório e a morbilidade da zona dadora inviabilizam muitas vezes o procedimento[2-6].

Conclui-se que a osteonecrose da cabeça femoral permanece como uma entidade de difícil tratamento, por apresentar uma etiologia não totalmente compreendida e pode afetar pacientes em idades muito jovens[3]. O diagnóstico e a intervenção prévia à fase de colapso é a chave para a obtenção de bons resultados na cirurgia conservadora da anca[4]. A escolha do procedimento deverá recair na técnica cirúrgica mais apropriada e menos agressiva para a lesão subjacente, de forma a evitar a iatrogenia e não comprometer procedimentos futuros[4].


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