As vivências da mulher infértil
Introdução
A infertilidade tem sido considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS),
como um importante problema de saúde pública. Segundo Delgado (2007), um casal
é considerado infértil quando não ocorre uma gravidez após um ano de relações
sexuais regulares não protegidas. O impacto para o casal e para a sociedade é
significativo e varia muito entre as diferentes populações, de acordo com a sua
prevalência e com a importância que esta adquire para a comunidade (Simões,
2010). Embora na maioria dos casos apenas um dos membros do casal seja alvo do
diagnóstico de infertilidade, esta deve ser conceptualizada como um problema do
casal (Gameiro et al., 2008).
Atualmente, o termo infértil é aplicado ao casal e não a um único indivíduo,
pois culturalmente a fertilidade é apenas reconhecida como parte integrante de
um relacionamento heterossexual. As causas de infertilidade são variadas e
podem, ou não, estar associadas a anomalias do sistema reprodutor masculino ou
feminino.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, a infertilidade é um fenómeno que afeta
cerca de 12% dos casais de todo o Mundo, com prevalência geral de 5% na
população em idade reprodutiva (Lanius et al., 2008).
Desde sempre que as mulheres são educadas na expectativa de um dia terem um
filho. Muitas mulheres referem que não ter filhos é como morrer aos poucos. A
infertilidade, de acordo com Delgado (2007), tem vindo a ser descrita como uma
crise importante que comporta uma dimensão física, psíquica, emocional e
sociocultural. Segundo Moreira et al. (2006), muitas serão as repercussões que
a problemática da infertilidade trará à mulher sendo fundamental o estudo das
mesmas, na tentativa de ir ao encontro das suas necessidades.
Enquadramento/Fundamentação Teórica
Ao longo da história da Humanidade e das civilizações, sempre foram surgindo
referências ao tema da infertilidade. A Mulher era o símbolo da fertilidade e,
assim, era sobre ela que caíam todas as repercussões sociológicas e atitudes
médicas sempre que não lhe era possível conceber. A título de exemplo, na Roma
Bizantina e, apesar das iniciativas de Soranas, um dos mais famosos
ginecologistas da época, a terapêutica da infertilidade era, para muitas
mulheres patrícias, a do flagelo no ventre com chicotes de pele de cabra no
templo de Juno ou nas Festas de Março (Carvalho et al., 2010, p. 3). Já na
civilização Egípcia, a mulher ocupava um lugar de destaque e era merecedora de
respeito. O seu estatuto equivalia ao do homem. Aqui, a infertilidade
constituía um problema preocupante também observado noutras sociedades e não
era encarada como castigo divino. Embora reconhecendo a existência de causas
masculinas, a Medicina do tempo dos faraós dava tal relevância à infecundidade
da mulher, que era legítimo o recurso terapêutico às concubinas (Carvalho
et al., 2010, p. 3).
Só a partir da Renascença é que os conceitos sobre procriação conheceram algum
desenvolvimento de relevo. Vesale, Leonardo da Vinci, Bartolomeu d'Eustachio
entre outros, "descobriram" a anatomia por observação e dissecação
cuidadosas do corpo humano, que escrupulosamente reproduziram em gravuras.
Desvendaram os mistérios anatómicos do corpo feminino e Bartholomeu d'Eustachio
recomendava (1602): após a relação sexual, os maridos devem colocar os dedos
no interior da vagina da mulher para facilitar a concepção. Poder-se-á dizer
que é o verdadeiro Pai da inseminação artificial! (Carvalho et al., 2010, p.
4).
Já no século XIX, em que o contexto cultural convertia a maternidade numa
atividade nobre e a única possibilidade da realização feminina reconhecida pela
sociedade, viver situações de infertilidade tornava-se já diferente. No
entanto, foi no cenário Pós-Moderno, séculos XX e XXI, que os movimentos
feministas levaram a sociedade a libertar-se da ideia de que a maternidade era
uma obrigação surgindo, assim, um novo modelo de feminilidade que oferece à
Mulher mais do que somente o papel de Mãe. A Maternidade tornou-se, assim, uma
escolha e não uma obrigação (Miranda, 2005).
Todas estas referências à história da infertilidade nas diferentes épocas e
civilizações, contrastando-a com o nosso tempo não são fortuitas. Apesar de
continuarmos a evoluir tecnologicamente na área da Medicina da reprodução, a
atitude da sociedade relativamente à infertilidade está diretamente relacionada
com o grau de liberdade e estatuto das mulheres nas diferentes comunidades.
Atualmente, a infertilidade é já vista como uma doença conjugal do homem e da
mulher (Carvalho et al., 2010, p. 4).
Se anteriormente a etiologia da infertilidade era considerada como sendo de
responsabilidade feminina, atualmente é encarada de outra forma, uma vez que o
fator masculino é tão frequente quanto o feminino (na ordem dos 40%). No
entanto, apesar de todas as investigações realizadas até ao momento continua a
existir 10% de casos de infertilidade inexplicada (Remoaldo et al., 2002).
A infertilidade, segundo Spotorno citada por Marçal (2009), é encarada como uma
experiência médica, psicológica e social que exige redefinição, pelo casal, das
suas identidades como indivíduos e parceiros. Contudo, o desejo de ser mãe pode
ser deparado com a incapacidade biológica de o ser. Assim, a infertilidade é,
para muitas mulheres, causadora de sofrimento psíquico, visto que a reprodução
humana condiz com a perpetuação do Ser (Lanius et al., 2008, citada por Marçal,
2009). Também Gouveia (2010) refere que os casais que pretendem ter filhos e se
deparam com o fenómeno da infertilidade, veem-se a par com um problema não só
de ordem biológica mas também de ordem sociológica.
Delgado (2007) citando Pinto diz que são muitos os fatores que podem
influenciar o desejo de ter filhos. A nível sociobiológico, cada indivíduo tem
o instinto para a procriação no sentido de perpetuar a sua representação
genética. Segundo uma perspetiva económica, a motivação para ter filhos decorre
de uma necessidade económica no sentido de aumentar a mão-de-obra e o
rendimento familiar. A psicologia propõe que a motivação para ter filhos advém
da autorrecriação, filiação e renovação da vida, excitação e imprevisto,
criatividade e responsabilidade e a possibilidade de influenciar o
desenvolvimento de outro ser humano. Ao nível social, ser pai e ser mãe é visto
como um papel central da vida; as mulheres são educadas tradicionalmente a
assumir a maternidade como o centro da sua existência, assim como a capacidade
para ser pai atua como uma confirmação social da virilidade masculina.
Maia (2000) citando Meyers, refere que as crianças fornecem significado
existencial, identidade e estatuto aos pais, fazendo com que eles se sintam
parte da tradição e participantes na continuidade de uma família e da raça
humana. Os mesmos autores consideram que quando um ou ambos os cônjuges colocam
para trás outras atividades e interesses, dedicando-se exclusivamente à
tentativa de conceção, este assunto acaba por se tornar o motivo pelo qual
regem toda a sua vida não havendo espaço para mais nada, inclusive para o
cônjuge. Assim, podem surgir tensões entre os cônjuges, ou por outro lado, pode
também funcionar como meio para uma maior união.
Para Remoaldo (2008), a mulher é apontada como única culpada quando o fenómeno
da infertilidade chega a uma família ou até apenas quando após algum tempo de
casamento o casal ainda não tem filhos. Segundo o estudo realizado pelo mesmo
autor, a mulher chega mesmo a ser alvo de comentários discriminatórios por
parte dos familiares, principalmente familiares do cônjuge. A par da pressão
familiar está a pressão social. Segundo Remoaldo (2008), este tipo de pressão
provoca na mulher um grande sofrimento emocional, levando-a mesmo a fingir que
não pretende ter filhos no momento. Este sofrimento surge, segundo o mesmo
autor, muitas vezes associado a sentimentos de exclusão, por exemplo aquando de
uma conversa entre mães que partilham experiências dos seus filhos.
A infertilidade foi reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como um
problema de saúde pública. No entanto, a investigação sobre a sua prevalência
é diminuta e influenciada pela metodologia de avaliação, pelo critério
utilizado para elaborar o diagnóstico, pelas diferentes definições e
terminologias utilizadas por diversos autores (Carvalho et al., 2010, p. 4).
Moreira et al. (2006) revelam que se estima que cerca de 10 a 15% dos casais
apresentam problemas para conceber. Em Portugal, só no ano de 2010 foi
publicado a primeira investigação caracterizadora da infertilidade, intitulado
Estudo Afrodite: Caracterização da Infertilidade em Portugal. Este estudo
concluiu que em Portugal a prevalência da infertilidade ao longo da vida situa-
se entre os 9%-10% estimando-se que entre 266 088 e 292 996 mulheres (casais)
tenham infertilidade (Carvalho et al., 2010).
Moreira et al. (2006) publicaram um estudo intitulado Estresse e ansiedade em
mulheres inférteis, com o objetivo de avaliar a frequência de stress e níveis
de ansiedade em mulheres inférteis, de forma a obter subsídios para obter uma
orientação psicológica específica. Realizaram uma investigação transversal que
envolveu 152 mulheres inférteis, com uma média de idades de 30 anos, e 150
mulheres saudáveis, com uma média de idades de 25 anos. Concluíram que as
mulheres inférteis estão mais vulneráveis ao estresse, no entanto, são capazes
de responder aos eventos estressores de forma adaptativa, sem comprometimentos
mais sérios nas áreas física e psicológica (Moreira et al., 2006, p. 358).
Também Lanius et al. (2008) desenvolveram um estudo intitulado Reprodução
Artificial: Os Impasses do Desejo, com o objetivo de estudar os efeitos que a
Infertilidade tem no psiquismo e na condição subjetiva dos sujeitos de desejo.
Utilizando a metodologia qualitativa psicanalítica, realizou entrevistas
semiestruturadas a quatro mulheres que procuraram numa clínica de fertilidade a
tentativa de engravidar, com idades entre os 30 e os 40 anos e estavam a
realizar um tratamento completo pela primeira vez. Neste estudo Lanius et al.
(2008) concluiram que a Mulher sente o desejo de ter um filho como algo inato,
intrínseco e que precisa de concretizar para se sentir uma mulher completa.
Quando por processos naturais não o consegue fazer, procura as novas
tecnologias e avanços científicos para concretizar o seu grande desejo.
Concluiu, também, que a sociedade é a grande pressão para que a mulher conceba,
apresentando esta ao longo de todo estes processos diversos sentimentos e
emoções que são impossíveis de separar dos processos físicos porque passa. A
infertilidade é, assim, um conjunto de alterações físicas, psicológicas,
familiares e sociais que devem ser vistas como um todo a ser cuidado.
Questões de Investigação/Hipóteses
Tendo como questão de investigação "Quais são as vivências da mulher
infértil que deseja ter filhos", este trabalho tem como principais
objetivos conhecer as vivências da mulher infértil que deseja ter filhos e as
vivências da mulher infértil face ao impacto do insucesso dos tratamentos de
infertilidade.
Metodologia
Neste estudo recorremos à metodologia qualitativa de enfoque fenomenológico,
tendo por base Colaizzi de acordo com Carpenter et al. (2009) para a análise
interpretativa da problemática. A fenomenologia tem como enfoque central a
compreensão dos fenómenos, dirigindo-se para as vivências quotidianas. Trata-se
de procurar no Homem outra perspetiva - a partir do seu estar-no-mundo, das
suas vivências e dos seus sentimentos.
De acordo com Fortin citado por Loureiro (2010), o objetivo das investigações
qualitativas é descobrir e explorar os aspetos da ação do ponto de vista dos
participantes, interpretando o fenómeno no seu meio natural, neste caso o
estudo das vivências da mulher infértil. Assim, os investigadores focaram a sua
atenção no fenómeno, tentaram apropriar-se dele e compreendê-lo aproximando-se
das Mulheres, que o explicaram pelas suas palavras o mais fielmente possível.
Neste estudo, optámos por utilizar a entrevista semiestruturada para colher a
informação da participante. O modo de orientar e interpretar os processos do
método fenomenológico pode encontrar-se descrito por vários autores. Neste
estudo, para a análise interpretativa da entrevista, decidimos recorrer a
Colaizzi que de acordo com Carpenter et al. (2009) apresentam a interpretação
fenomenológica descrita em nove etapas distintas.
Ao longo da investigação foram tomados em consideração todos os princípios
éticos inerentes à realização deste estudo, tal como a salvaguarda da
identidade das participantes. Considerando a metodologia já selecionada, numa
primeira etapa foram feitos contactos, tal como uma visita guiada ao centro de
estudos de fertilidade, Ferticentro, na tentativa de chegar mais perto das
mulheres com diagnóstico de infertilidade e a este fenómeno. Posteriormente
procedeu-se ao desenvolvimento de um guião de entrevista coerente com os
objetivos de estudo, tendo sempre em conta os critérios de inclusão e de
exclusão, as vivências mais próximas do investigador com o fenómeno e ainda a
visita à clínica como método utilizado para apropriação do fenómeno. Foi também
elaborado o consentimento informado escrito para salvaguarda de questões
éticas.
Numa terceira fase, foi realizada e aplicada uma entrevista pré-teste cujo
intuito era perceber se o guião da entrevista obedecia aos parâmetros
necessários, o qual se verificou, tendo sido a mesma entrevista analisada, e
fazendo parte desta investigação. As entrevistas foram gravadas num gravador de
disco rígido tipo MP3, tendo ficado sob posse dos entrevistadores.
Durante o processo de transcrição da entrevista foram registadas todas as
informações disponibilizadas pelos entrevistados. O investigador teve o cuidado
de o seu senso estético não interferir na transcrição da informação, deixando
de lado as suas preferências, memórias, imaginações e valores, conforme o
método de Husserl (Gomes, 1997). Na fase final procedeu-se à análise
fenomenológica da transcrição das entrevistas de forma a compreender a
"intencionalidade do outro".
Este estudo teve como participantes quatro mulheres a quem foi diagnosticada
infertilidade, com idades entre os 25 e 35 anos, que desejavam ter filhos, que
estavam a ser sujeitas a tratamentos de fertilização e já tinham realizado pelo
menos um tratamento sem sucesso.
Resultados
Da análise das entrevistas, relativamente às Vivências da Mulher Infértil que
deseja ter filhos emergiram várias categorias: significado de ser mãe, o desejo
de ter um filho, significado da infertilidade, consequências da infertilidade,
dificuldades sentidas e redes de apoio.
Assim, o significado de ser mãe para estas mulheres aparece em muito ligado à
noção de totalidade, em que a não-realização de um sonho põe em causa a
identidade totalitária enquanto mulher e esposa. Muitas vezes imaginaram ser
mães, desde que em crianças brincaram com as bonecas ou desde que começaram a
observar no mundo à sua volta a relação próxima entre "ser mulher"
e "ser mãe". Historicamente, a maternidade é construída como o
ideal maior da mulher, único caminho para alcançar a plenitude. Para muitas
mulheres o seu principal objetivo, o seu projeto de vida, é a sua realização
enquanto mulheres, o atingir o auge de toda a sua vida: ( ) Desde pequena que
é isso que anseio, portanto para mim ser mãe é o meu projeto de vida. ( ) Eu
gostaria muito de ser mãe, de desenvolver esse papel na minha vida ( )
(Joana); Muito! Desde criança que é um sonho Um objetivo de vida Ser mãe!
(Maria); Acho que é o sonho de todas as mulheres e sem dúvida que faz parte!
(Ana).
Tendo a infertilidade todas estas implicações, muitas das vezes a mulher
"agarra-se" à espiritualidade dando-lhe um significado especial e
deveras importante: ( )mãe tem alguma coisa de sagrado', e eu identifiquei-me
muito com essa frase, para mim, ser mãe é alguma coisa de transcendente, é algo
sagrado, ( ). (Joana).
Por sua vez, encontramos pela análise das narrativas do estudo a unidade de
significação que categorizámos como realização, que abraça todos os outros
significados de ser mãe. As participantes da investigação, enquanto mulheres e
esposas, têm o desejo de ter um filho e referem-se a este projeto de vida como
um sonho:( ) ser mãe representa tudo, portanto desejar ter um filho é um
projeto de vida, um sonho, é por alguém no mundo e estar ao lado. ( ) (Joana).
Neste seu sonho, as mulheres incluem a vontade de cuidar do outro, de se dar a
alguém e de dar o seu amor.
As mulheres veem nos filhos a sua continuidade, a sua perpetuação na Terra, um
legado que deixam mesmo após a sua morte: ( ) É dar continuação à nossa vida.
(Maria). Quando todo o seu objetivo de vida cai por terra, esta sua missão,
como a apelidam, é posta em causa: Acho que foi sempre uma missão que eu quis
ter: Ser Mãe! (Maria).
Desde muito cedo que as mulheres sentem o desejo, enquanto mulheres e esposas,
de serem mães sendo o fenómeno da infertilidade um golpe muito duro na sua
vida.
Quando nos debruçamos sobre o significado da infertilidade, enquanto Mulheres,
é-lhes difícil encarar que não podem ter filhos, que dificilmente conseguirão
gerar um fruto do seu casamento, do seu amor pelos seus companheiros. Após o
choque que sentem pela notícia de que são inférteis começam a aceitar
(aceitação) a sua situação e procuram estratégias para ultrapassar esta
barreira: Depois quando fomos para o público, é assim, há tantos casais, neste
momento, iguais a nós, que é uma coisa normalíssima. (Maria).
À medida que vão tentando lidar com o seu problema de infertilidade, a notícia
vai-se espalhando pela família, no círculo de amigos, no trabalho o que vem
causar uma certa pressão e constrangimento em falar sobre este assunto em
público.
À medida que vão realizando exames e tratamentos sem sucesso começam a sentir o
peso da palavra infertilidade, aparece o cansaço e o desgaste físico,
psicológico, conjugal e económico: É um estado complicado dado a tudo aquilo
porque tem que se passar, psicologicamente é difícil não é nada fácil ( )
(Filipa).
Entre tantas tentativas de conseguirem gerar um filho, esperanças criadas e
destruídas, expectativas sempre destronadas, estas mulheres demonstram
frustração: ( )a palavra é mesmo inútil, nem para isso tu prestas (o olhar
evita o nosso) É um pouco complicado tem dias que é bastante difícil
digerir. (Ana).
Entretanto, com a acumulação do cansaço, das tentativas atrás de tentativas
falhadas, da esperança que ainda mantêm e da falta de apoios surge a revolta.
Mais tarde, acabam por se conformar (conformismo) com a sua situação, o sonho
de serem mães continua presente mas começam a procurar outras soluções ou
acomodam-se ao facto de não poderem ter filhos: Se somos felizes sem filhos,
foi porque Deus nos quis assim. Se quiser havemos de os ter. (Maria).
Quando nos deparamos com as consequências que a infertilidade traz para a vida
destas mulheres, surgem-nos os problemas conjugais. A Mulher refere que a nível
conjugal a parte mais afetada acaba por ser a psicológica: ( ) isto dá cabo de
uma pessoa psicologicamente. ( ) É muito difícil, porque ambos nos sentimos
incapazes, e sentimos que prejudicamos o outro. Não desejo a ninguém passar por
isto, é muito, muito duro. ( ) (Joana).
Além de todos os problemas que enfrentam e todas as barreiras que têm que
ultrapassar, por norma, os casais mantém-se unidos, lutam juntos pela
concretização do seu sonho e, assim, companheiros (companheirismo) para bem e
para o mal, na saúde e na doença.
As dificuldades sentidas, durante todo o processo da sua infertilidade, parecem
ser bastante determinantes na procura de apoio, pois por um lado são
dispendiosas e por outro são demoradas, além de causarem constrangimentos
psicológicos. Uma das dificuldades encontradas deve-se a todo o processo e
procedimentos clínicos que os tratamentos exigem. Outra das dificuldades que
estas mulheres sentem, se não mesmo a maior, é a questão económica versus o
compasso de espera.
Na análise das Vivências da Mulher Infértil face ao Impacto do Insucesso dos
Tratamentos de Infertilidade, temos implicações a nível físico, familiar,
psicológico, laboral e social e surgem-nos pela nossa análise os sentimentos,
tais como a tristeza profunda: ( ) choro, e choro, e choro, dias e dias, é
horrível ( ) É horrível! ( ) é como se morresse mais uma parte de mim, é algo
que vai embora, é uma parte de mim que vai embora, é o meu sonho que desvanece,
é horrível. (Maria) e impotência para lidar e ultrapassar esta situação: ( )
neste último estive um mês deitada na cama, sem me levantar, lavavam-me, davam-
me lá o comer, tudinho, e ao fim de um mês perdi sangue e foi tudo ao ar ( ) É
um sentimento de impotência tão grande, tão grande, que nos sentimos um lixo.
(Ana).
Discussão
Relativamente ao objetivo Vivências da Mulher Infértil que deseja ter filhos e
quanto ao seu significado, ser mãe é para muitas mulheres o seu principal
objetivo, o seu Projeto de Vida, a sua realização enquanto mulheres, e o
atingir do auge de toda a sua vida. Delgado (2007) citando Pinto diz que são
muitos os fatores que podem influenciar o desejo de ter filhos. Também, ao
olharmos a história, observaremos que o lugar e a valorização da maternidade no
âmbito sociocultural se modificam e variam em função das diferentes épocas e
contextos respondendo a interesses económicos, demográficos, políticos, etc.
Mas existem outras motivações. A nível social, ser pai e ser mãe é visto como
um objetivo de vida. Maia (2000) refere que as motivações para a maternidade
são variadas e diferem conforme a história familiar, sexo, fatores de
personalidade, estatuto socioeconómico, religiosidade, contexto cultural e
estádio de desenvolvimento do ciclo de vida, embora se centrem no papel
parental como edificante de uma vida com significado e sentido. Alguns estudos
documentaram os efeitos da infertilidade no bem-estar psicológico dos casais,
tendo como consequências sentimentos de angústia, incapacidade, ansiedade,
depressão, falta de confiança, estresse e crise na relação conjugal (Filetto,
2009).
O desejo de conceber um filho e constituir uma família, quando um casal assim o
deseja, é considerado perante a sociedade como parte da vida adulta de homens e
mulheres. Segundo Gouveia (2010), a sociedade incute nos casais a necessidade
de ter filhos chegando mesmo a existir pressão social e cultural neste sentido.
Num estudo, Lanius et al. (2008) concluiram que a Mulher sente o desejo de ter
um filho como algo inato, intrínseco e que precisa de concretizar para se
sentir uma mulher completa. Quando por processos naturais não o consegue fazer,
procura através das novas tecnologias e avanços científicos concretizar o seu
grande desejo: é inócua a afirmativa da necessidade de ter um filho que busca
legitimar um avanço científico ou mesmo justificar a ideia de que uma mulher
que solicita um filho ao seu médico deve tê-lo sem qualquer interrogação acerca
da sua demanda (Lanius et al., 2008, p. 142).
Quando nos debruçamos sobre o significado da infertilidade e lhes é questionado
o que significa para elas serem inférteis, encaram-na como uma mutilação
feminina, em que estas se sentem desprovidas dos seus "utensílios"
para gerarem um filho. Vários autores referem que a infertilidade para as
mulheres afeta a sua imagem corporal e sentem-se defeituosas, o que as leva a
sentirem raiva por não serem capazes de controlar os seus corpos e as suas
vidas. Sentem-se privadas de algo que todas as mulheres têm por garantido e não
compreendem porque é que foi a elas que lhes tiraram a oportunidade de serem
mães, de concretizarem o sonho da sua vida (Remoaldo, 2008; Delgado, 2007). Ao
abordarmos as consequências que a infertilidade acarreta para a Mulher, esta
refere que a nível conjugal a parte mais afetada acaba por ser a psicológica
pois há um desgaste na procura por resoluções para a situação da infertilidade,
as contínuas idas a consultas, a realização de exames e o impacto que provoca
em cada um dos membros do casal e na sua vida conjunta. Meyers citado por Maia
(2000) diz que a atividade sexual torna-se para a mulher uma tarefa e o prazer
e espontaneidade desvanecem-se. Sentimentos de raiva e culpa e o receio de ser
apontada como a culpada podem afetar o interesse e o desejo sexual.
As dificuldades sentidas durante todo o processo da sua infertilidade são na
relação conjugal, na medida em que se torna numa ligação diferente entre o
casal. Maia (2000) citando Davisson, refere ainda que a introdução de novos
tratamentos de fertilização aumentou muito o tipo de problemas emocionais e
morais do casal e da mulher infértil. Rodrigues citado por Delgado (2007)
enuncia que a atividade sexual do casal transforma-se muitas vezes no desejo de
fazer um filho e não de fazer amor, assistindo-se frequentemente ao total
desinvestimento por parte de um ou ambos na qualidade afetiva e sexual da
relação.
Quanto às redes de apoio encontramos como suporte destas mulheres o apoio
institucional que se dirige para a prestação dos tratamentos de fertilidade.
Na análise das Vivências da Mulher Infértil face ao Impacto do Insucesso dos
Tratamentos de Infertilidade, surgem-nos pela nossa análise sentimentos como
tristeza profunda. Schmidt (2010) diz que o insucesso dos tratamentos está
associado com o aumento dos níveis de ansiedade e depressão durante o período
de tratamento e após o término do mesmo. Alguns casais inférteis experienciam,
após o insucesso dos tratamentos, uma aproximação e fortalecimento da relação.
A vivência de todos estes sentimentos facilmente nos leva a perceber que esta
problemática faz com que a mulher se depare com implicações em todas as
dimensões da sua vida. Cwikel et al. (2004) referem que os aspetos
psicossociais da infertilidade não têm sido devidamente considerados, e que
permanece uma necessidade de compreender este momento particular da vida a fim
de providenciar todo o apoio necessário e estratégias terapêuticas adequadas ao
próprio casal.
Tendo em conta o acima descrito, concordamos que o nosso estudo é pertinente
pois são poucos os estudos sobre esta temática, direcionados para as vivências
da mulher infértil que deseja ter filhos, e assim este trabalho permite
conhecer as vivências da mulher infértil que deseja ter filhos e compreender o
âmbito em que é necessário atuar de forma a colmatar as necessidades que estas
mulheres apresentam e desse modo ajudá-las a ultrapassar os processos de
transição associados a esta problemática. Zagonel (1999) citando Meleis, define
a transição como uma mudança significativa na vida, através da alteração de
processos, papéis ou estados, como resultado de estímulos e de novos
conhecimentos, o que poderá ter como consequência a mudança de comportamentos e
uma outra definição de si no contexto social. Considerando estes aspetos, o
cuidado de enfermagem surge voltado para uma maior sensibilização,
consciencialização e humanização, identificando no cliente fatores que indiquem
a transição, com a finalidade de facilitar estes eventos para que esta seja
mais saudável, emergindo, assim, o cuidado transicional. O cuidado transicional
de enfermagem conduz à busca de um modelo mais humanista, de totalidade do ser,
de integralidade, de interdisciplinaridade, e por isso mesmo a pessoa deve ser
sempre vista de forma holística. Para prestar cuidados transicionais ao
cliente, o enfermeiro tem de compreender esta transição do ponto de vista de
quem a experiencia e ter em conta os vários fatores que medeiam os processos de
mudança, e foi isto que procuramos fazer nesta investigação.
Este estudo apresenta algumas limitações, nomeadamente: o facto de ser um
estudo transversal, enquanto o ideal neste tipo de estudos seria um estudo
longitudinal pois permite que os indivíduos sejam sujeitos a mais do que uma
recolha de dados e durante um maior período de tempo, sendo possível analisar
diversos momentos da vida das mulheres e assim obter mais informação; o facto
de ser utilizada uma entrevista semiestruturada ao invés da entrevista aberta,
por inexperiência dos investigadores, e por fim o facto de apesar de em
fenomenologia se prever o contrário, a revisão sistemática da literatura ter
sido realizada previamente e simultaneamente com a realização de entrevistas
por motivos temporais e de necessidade do términus da investigação.
Conclusão
Nos nossos dias, a infertilidade é um importante problema de saúde pública, com
impacto significativo não só para o casal, mas também para a sociedade. Quando
questionadas acerca do significado de ser mãe, as mulheres percecionam-no como
o "todo" que as completa enquanto mulheres, alcançando algo de
sagrado, concretizando o seu projeto de vida e atingindo a sua realização
pessoal.
Deparadas com a infertilidade, definem-na como uma mutilação, não só de si
enquanto mulheres mas da sua felicidade, como um terramoto que estremece as
suas vidas e abala os alicerces dos seus sonhos e esperanças.
Sentimentos como a tristeza profunda por não alcançarem o seu sonho, a
impotência por se sentirem incapazes de conceber e a revolta com a sua condição
levam-nas ao desespero, pondo em causa a sua existência e o sentido da sua
vida.
As entrevistas realizadas e a interpretação das mesmas permitiram-nos encontrar
diversas unidades de significação no âmbito dos objetivos de conhecer as
vivências da mulher infértil que deseja ter filhos e as vivências da mulher
infértil face ao impacto do insucesso dos tratamentos de infertilidade.
Assim, após a realização do presente estudo, e tendo em conta a apropriação do
fenómeno que o mesmo nos permitiu, achamos pertinente a realização de mais
estudos acerca desta problemática. Sugerimos então a realização de estudos que
se foquem na conjugalidade e nas consequências da infertilidade na mesma. Por
outro lado, sugerimos ainda a aplicação da questão de investigação a que nos
propusemos ao homem, pois estamos convictos que as suas vivências serão de
certeza diferentes das da mulher e igualmente pertinentes de estudo.
Este estudo vem trazer para as ciências da saúde novos conhecimentos, o
levantar da ponta do véu sobre um tema pouco abordado até aos dias de hoje
permitindo, assim, obter um conhecimento mais profundo e tentando sensibilizar
os profissionais de saúde para esta problemática. Enquanto profissionais de
saúde que olham para os seus utentes como seres bio-psico-sociais e culturais
permitir-nos-á redimensionar as nossas práticas de assistência a estas
mulheres, estimulando-nos a procurar novas e melhores estratégias para
ultrapassar este seu problema, a não deixá-las sozinhas, proporcionando-lhes
assistência pública e procurar intervenção por parte dos cuidados de saúde
primários e das unidades de cuidados na comunidade, nomeadamente através dos
enfermeiros especialistas em saúde materna.