Funções e condições de trabalho de um enfermeiro no Hospital de S. José (meados
do século XIX)
Introdução
Sendo o Hospital de S. José um hospital real, o mais importante do reino onde
acorriam enfermos de todos os pontos do Reino a procurarem alivio a seus
males, é nele que encontrámos os primeiros modelos de regulamentos
hospitalares do período da monarquia constitucional, entre os quais o
Regulamento das Enfermarias do Hospital Nacional e Real de S. José e seus
anexos a que se refere Salgueiro num artigo a propósito da história do
vestuário do pessoal de Enfermagem (Salgueiro, 2000, pp. 79-87). É este
Regulamento que analisaremos em detalhe.
À sua publicação, em 21 de janeiro de 1851, seguiram-se outros. No seu
conjunto, estabeleciam as regras de governação do hospital relativamente a:
funções dos vários empregados das enfermarias, admissão de doentes, regime de
visitas, serviço e fiscalização da dispensa e da cozinha, funcionamento e
serviço da Botica e, finalmente, funcionamento do Hospital de Alienados de
Rilhafoles, que se tinha constituído em 1842 como uma unidade específica para o
tratamento dos alienados que, até então, eram admitidos no Hospital de S. José,
em casas que, devido à sua estreiteza e insalubridade, as tornavam
absolutamente impróprias para o curativo da alienação mental, servindo antes
de tormento, que de alívio às infelizes vitimas daquela terrível enfermidade
(Silva,1842).
Metodologia
A primeira metade do século XIX é um período da maior importância para
compreender o processo de desenvolvimento dos serviços de saúde pública e
hospitalares em Portugal.
Com o presente trabalho, pretende-se contribuir para o esclarecimento do
estatuto profissional e social do enfermeiro e da sua posição relativamente a
outros grupos de empregados que lhes eram hierarquicamente superiores e
inferiores.
Para tanto, consultámos o Regulamento das Enfermarias do Hospital Nacional e
Real de S. José, e annexos, de 21 de janeiro de 1851, e os orçamentos de
Estado apresentados às Cortes no período entre 1838 e 1851, disponíveis na
Biblioteca Digital do Ministério das Finanças e Administração Pública, e
submetêmo-los a um processo de análise histórica inspirada na arqueologia e
genealogia de M. Foucault.
Resultados
Antes de apresentar as atividades dos enfermeiros e enfermeiras definidas no
Regulamento, faremos a descrição de alguns aspetos que ajudam a compreender o
ambiente físico e económico do hospital e a posição do grupo dos enfermeiros em
relação aos outros empregados.
A estrutura física
Compilando a informação disponível neste Regulamento e no Orçamento atribuído
ao hospital no ano de 1851, é possível fazer uma aproximação à estrutura física
do hospital (figura 1). As enfermarias eram em número de dezoito e designadas
com nomes de santos, a avaliar pela descrição que consta dum modelo de impresso
para registo das sanguessugas distribuídas pelas várias enfermarias. Na 1ª.
Secção, as enfermarias de S. José, S. Sebastião, S. Roque, S. Miguel, S.
Catarina, Nossa Senhora do Carmo e Santa Ana, para além de quartos particulares
para homens e mulheres; na 2ª. Secção, as enfermarias de S. António, S. Pedro,
S. Onofre, S. Amaro, S. Francisco, S. Carlos, S. João Batista, S. Quitéria, S.
Margarida, S. Bárbara, S. Maria Madalena, para além do Banco.
FIGURA 1 ' Hospital Real de S. José, em Lisboa. Gravura de C. Legrand, 1840.
Havia ainda uma botica, a cozinha, despensa, depósito de roupas e utensílios,
arrecadações, uma abegoaria e um terreno contíguo ao hospital.
Os serviços administrativos eram compostos por uma tesouraria, uma casa dos
assentos dos enfermos, uma contadoria, um cartório e um foro com um síndico e
um solicitador.
A igreja tinha um cura, um tesoureiro e 6 capelães, para além de 4 moços da
capela e um porteiro.
O orçamento do hospital e o vencimento dos seus empregados.
No período 1838-1851, a tendência geral das contas foi para o equilíbrio entre
as receitas e despesas, registando-se um défice nos anos 46-47 e um valor
máximo de despesa em 1848, mais 57% da que tinha sido feita em 1837. Todavia, a
partir desse ano, a despesa começou a diminuir atingindo em 1851 um valor
praticamente igual à de seis anos atrás (Gráfico 1).
GRÁFICO 1 - Evolução das receitas e despesas do H. S. José (1838-1851)
As três principais estratégias de contenção de despesas consistiram na
elaboração e cumprimento rigoroso dos orçamentos (os orçamentos eram bastante
descriminados e incluíam mapas comparativos com a série dos cinco anos
antecedentes), numa política de aquisição de bens por arrematação em praça e
numa forte fiscalização sobre a botica e todas as outras repartições.
Em 1841-1842, o número de doentes tinha sido de 1.343 e, para esse ano, tinham-
se previsto 1400 admissões. Na apresentação do Orçamento para 46- 47, a direção
do Hospital receava que faltassem os meios necessários para custear as despesas
com o tratamento dos doentes se a sua afluência continuasse na progressão que
se tinha observado naqueles últimos tempos.
Nos orçamentos da despesa prevista para este período, verifica-se uma certa
estabilidade e manutenção no quadro do pessoal e nos vencimentos anuais, apenas
com pequenos ajustes.
Os vencimentos, à exceção dos médicos, eram compostos pelo ordenado,
comedorias, gratificações e propinas. Por exemplo, no ano 1844-45, o valor do
vencimento anual dum enfermeiro (101$980), compunha-se do ordenado propriamente
dito (57$600), de comedorias (43$800) e propinas ($580), correspondendo,
respetivamente, a 56,5%, 43% e 0,5% daquele vencimento anual.
Os vencimentos mais elevados eram os dos empregados dos serviços
administrativos do hospital. O contador tinha um ordenado de 1.000$000 e o
chefe de repartição 500$000 bem como o tesoureiro; o síndico (bacharel em
Direito) vencia 400$000.
Sem prejuízo duma análise mais detalhada, o vencimento dos empregados das
enfermarias (Quadro 1) sugere a seguinte hierarquia em termos de estatuto
socioprofissional: médicos, cirurgiões, mestres de sangria, irmão maior,
enfermeiros(as) e parteiras, ajudantes, porteiros, moços de enfermaria,
cristaleiros, barbeiros e costureiras. O médico ocupava o topo da pirâmide com
um ordenado de 320$000. Seguiam-se os irmãos maiores que não constituíam
propriamente um grupo técnico. Eram extensões de controlo da direção nas
enfermarias e outros serviços, como, por exemplo, na cozinha. O seu ordenado
era inferior ao dos cirurgiões mas como tinham suplementos constituídos por
comedorias, gratificações e propinas, acabavam por ter um vencimento que lhes
permitia ocupar o segundo lugar na hierarquia de vencimentos, a seguir aos
médicos. O vencimento do cirurgião era pouco mais de 60% do médico.
QUADRO 1 ' Vencimento anual dos empregados das enfermarias nos anos 1844-45 e
1951-52
Os enfermeiros, juntamente com os porteiros das enfermarias, eram os grupos
imediatamente abaixo nesta escala. Em 1851, os enfermeiros tinham um ordenado
que correspondia a cerca de 1/3 do ordenado do médico e o ordenado das
enfermeiras era inferior em 10% ao dos enfermeiros.
O grupo dos porteiros foi sofrendo uma estratificação salarial acabando com
três níveis remuneratórios embora a designação fosse sempre a mesma. No grupo
dos ajudantes, a diferenciação nos vencimentos refletia-se ou refletia a
evolução para uma diferenciação categorial: os de 1ª, 2ª, e 3ª classe.
Considerando o conjunto das três classes, em média, o seu salário era 60% do
enfermeiro.
O(a) cristaleiro(a) e o barbeiro auferiam o mesmo salário que o ajudante de 1ª
classe.
Em 1851-52, as parteiras tinham o mesmo salário dos enfermeiros.
As lavadeiras e costureiras estavam ao nível do salário dos porteiros,
barbeiros, cristaleiros e ajudantes de 1ª classe.
O salário do mestre de sangria (79$800) estava ao nível do ajudante de 3ª
classe e dos porteiros de enfermaria.
O grupo dos moços sempre existiu ao longo deste período e, na escala de
vencimentos, estavam acima dos ajudantes embora desempenhassem trabalhos
menores.
Em termos salariais, desenha-se assim uma relação de dependência hierárquica
dos ajudantes e moços face aos enfermeiros e, destes aos cirurgiões e médicos,
como iremos constatar pelas funções de cada um.
A organização do dia-a-dia e rotinas nas enfermarias
O dia decorria segundo a rotina descrita no Mapa 1, mediante um horário que
mudava com as estações do ano: o horário de verão começava em 1 de abril e o de
inverno a 1 de outubro. Tomando por referência o horário de verão, a azáfama
começava às 4 horas, com a presença dos moços nas enfermarias, a fazer a
limpeza de boiões. Os enfermeiros e ajudantes entravam às 6 horas. Havia 3
momentos de distribuição/administração de remédios e, em igual número eram as
refeições: o almoço às 7.30 horas, o jantar ao meio-dia e a ceia às 19 horas.
MAPA 1 ' Rotina diária nas enfermarias do Hospital de S. José segundo o
Regulamento das Enfermarias de 1851
As funções dos empregados das enfermarias
O hospital era gerido por uma comissão administrativa e tinha um quadro de
pessoal administrativo e de outros serviços de apoio a que já fizemos
referência. O Regulamento estabelecia o serviço dos vários grupos de empregados
cuja composição numérica e percentual está representada no Quadro 2, elaborado
a partir do orçamento do hospital para o ano de 1851- 52. O grupo mais extenso
é o dos ajudantes (47,6%), depois o dos moços (25,4%) e o dos enfermeiros
(11,1%).
QUADRO 2 ' Quadro do pessoal das enfermarias do Hospital de S. José (1851)
Os facultativos e cirurgiões. Os facultativos eram responsáveis pela direção
clínica e higiénica das enfermarias e pela inspeção e fiscalização do serviço
dos enfermeiros, ajudantes e moços. Para além destas funções, deviam fazer a
visita diária aos doentes, supervisar o cumprimento da prescrição de dietas e
medicamentos, requisitar o material necessário aos curativos e demais material
necessário ao bom funcionamento do hospital, exercer ação disciplinar sobre os
demais empregados das enfermarias, distribuir, transferir, dar alta aos doentes
e ordenar a remoção de cadáveres, permitir visitas, inspecionar víveres e
géneros, propor os melhoramentos necessários ao serviço médico e participar em
júris de concursos para os lugares de cirurgiões, entre outras. Para além dos
facultativos, havia os cirurgiões. De entre os facultativos e cirurgiões,
constituía-se uma junta consultiva paritária com 4 membros. Esta reunia-se às
quintas e domingos para examinar os doentes, receitar e indicar os meios
adequados ao seu curativo.
O irmão-maior. Era um elemento chave na estrutura do hospital. Em cada semana
havia um irmão-maior de serviço que era obrigado a permanecer no hospital
durante esse período. Eram pessoas de reconhecida probidade e zelo pelo bom
serviço, com conhecimentos especiais do hospital, devendo saber ler, escrever e
contar corretamente. Em caso de igualdade de circunstâncias, no provimento do
lugar, preferia-se o que fosse casado ao solteiro.
Exerciam funções de superintendência sobre os vários aspetos de gestão do
hospital e dos seus empregados; tinham a prerrogativa de castigar os seus
subordinados e tomar decisões sobre assuntos inesperados e não previstos no
regulamento. Como uma espécie de administradores ou governantes, serviam de
instância mediadora entre a comissão administrativa, os facultativos e os
outros empregados. Nas enfermarias de mulheres, as funções do irmão-maior eram
desempenhadas pela regente.
Os enfermeiros. Para enfermeiro, eram admitidos aqueles que demonstrassem ter
prática do serviço no hospital, soubessem ler, escrever e contar e dessem
provas de probidade e bons costumes.
As funções dos enfermeiros(as) distribuíam-se, fundamentalmente, em duas áreas:
Coordenação e gestão da prestação de cuidados e assistência religiosa:
Distribuição dos remédios (a serem administrados pelos ajudantes) de forma a
evitar equívocos, trocas e desperdícios, assegurando-se que o doente tomava a
quantidade certa do medicamento prescrito. Para tanto, nenhum outro serviço
podia ser executado sem que este estivesse concluído. O enfermeiro não podia
retirar-se da enfermaria sem se certificar que todos os remédios tivessem sido
administrados; supervisão do serviço de camas feito pelos ajudantes; supervisão
dos cuidados de higiene (prestados pelos ajudantes) aos doentes que pelos seus
padecimentos graves, se tornarem immundes, serão lavados com agua morna, como
for mais conveniente, ficando enxutos e bem accommodados, isto com o esmero que
cumpre haver com elles, tanto por obrigação, como pelo desempenho dos deveres
de caridade christã, e aos admitidos a quem se dava banho total ou parcial e
corte de cabelo e barba, sendo necessário; supervisão da execução dos curativos
pelos ajudantes; distribuição do pão aos doentes antes da chegada do tabuleiro
à enfermaria, prova dos alimentos (temperatura e qualidade), e supervisão da
distribuição das refeições (pelos ajudantes) para que a comida não arrefecesse
e o doente tomasse a dieta prescrita (tipo e quantidade); acompanhamento da
visita do facultativo com todos os seus ajudantes para que estes prestassem os
serviços que fossem necessários aos doentes; anotação na sua pauta das
prescrições de remédios e dietas de forma clara para evitar equívocos e
prejuízos ao doente; elaboração do mapa diário com a relação dos medicamentos a
administrar (tipo e hora) para entregar ao ajudante de piquete que faria o
serviço sob a sua supervisão (pontualidade e acerto); na ausência do
facultativo, e em caso de reconhecida urgência e necessidade ou a pedido do
doente, providenciar a administração dos sacramentos; segundo uma escala,
acompanhar o Sagrado Viático e, não podendo por imperativo do serviço, far-se-
ia substituir pelo ajudante mais velho.
Envolvimento na gestão e administração das enfermarias e do hospital:
Mandar fazer a desinfeção do dia e as demais que fossem precisas; depositar na
arrecadação da enfermaria a roupa dos doentes admitidos e, havendo haveres de
valor, fazer a sua entrega na Tesouraria; mandar os moços recolher a roupa e
enxergões sujos, varrer e lavar as partes sujas da enfermaria e limpar
escarradeiras e urinóis; comunicar verbalmente ao facultativo ou ao irmão-maior
qualquer defeito que encontrasse e, havendo reincidências, fazer a participação
por escrito para seguir para a comissão administrativa; elaborar a relação de
doentes transferidos; enviar as papeletas dos doentes com alta e falecidos para
a Casa dos Assentos; fiscalizar o ajudante mais velho na limpeza e prontidão no
envio dos utensílios de transporte de medicamentos para a botica; depois da
ceia, deixar ficar ao ajudante de serviço a roupa para duas camas
sobresselentes e o que demais fosse preciso para situações inesperadas
(receituário, sangrias, ventosas, etc.); assegurar-se que os doentes não se
deitassem calçados, não enxovalhassem as camas, não se deslocassem a outras
enfermarias nem que na sua enfermaria houvesse doentes das outras; assegurar o
silêncio, a moralidade e boa ordem; supervisar a visita de meia hora aos
doentes, autorizada pela Comissão ou facultativo; elaborar as escalas de
piquete dos ajudantes e moços de forma equitativa; responsabilizar-se pela
arrecadação da sua enfermaria, sendo punido em caso de faltas graves;
responsabilizar-se por todos os objetos de inventário; requisitar o material
necessário para o bom funcionamento do serviço; elaborar semestralmente um
relatório para o irmão-maior sobre o serviço prestado pelos ajudantes e moços
da sua enfermaria; ao enfermeiro de ronda competia fazer a vigilância para que
os ajudantes e moços que estivessem de piquete permanecessem acordados,
resolver ocorrências, providenciar silêncio e não consentir que a limpeza da
madrugada fosse feita por baldeação.
Para ajudante - o grupo mais representativo - eram admitidos indivíduos com
idade entre 17 e 30 anos que soubessem ler, escrever e contar e que tivessem
abonação de bons costumes e vida regular.
Os ajudantes trabalhavam em dois piquetes: o primeiro, das 6 ½ - 20 horas e o
segundo, das 20 às 6 ½ horas. O Facultativo podia conceder trocas de piquete
mas não era permitido fazerem dois piquetes seguidos.
Os ajudantes tinham como funções: administrar os remédios; perguntar aos
doentes quais os que queriam receber o Santíssimo Sacramento; fazer as camas;
lavar os doentes acamados; distribuir o almoço, jantar e ceia; assistir à
visita do facultativo para prestar o serviço que fosse necessário aos doentes;
fazer os curativos com a maior caridade e esmero possível, tendo muito cuidado
com o bem-estar dos doentes e a economia de panos e fios; ir com o moço buscar
o pão à despensa e a comida à cozinha assegurando que se cumprissem as
quantidades prescritas; acompanhar os moços que levavam e traziam as vasilhas
dos remédios à botica.
Não se podiam ausentar da enfermaria sem serem substituídos por outro, deviam
manter a enfermaria em sossego e, às Ave-Marias, mandar deitar os doentes que
andassem em pé. Nas enfermarias de mulheres também havia ajudantes, do sexo
feminino.
Quando qualquer enfermeiro ou ajudante se julgasse lesado pelo serviço ou
qualquer outra razão podiam queixar-se diretamente à Administração, com o
devido respeito e não tumultuariamente, caso contrário seriam despedidos.
Para moço, eram admitidos indivíduos com reconhecida robustez, atestado de boa
vida e costumes e recomendados por dois abonadores estabelecidos em Lisboa
que respondessem por qualquer desvio que o afiançado fizesse da fazenda do
Hospital.
Os moços deviam permanecer nas enfermarias e: limpar os boiões; transportar
enxergas, roupas e águas, resultante do asseio das camas e higiene dos doentes;
varrer as enfermarias e lavá-las; amortalhar os cadáveres com decência e
conduzi-los à Casa dos Mortos; trazer a água necessária para as enfermarias;
transportar os tabuleiros da comida; lavar, limpar, levar e trazer a louça da
cozinha, e o mesmo com as vasilhas da botica; dar de beber aos doentes a não
ser que houvesse contraindicação do facultativo; fazer a limpeza geral
(trimestral) e especial (semanal) dos utensílios de estanho das enfermarias, e
a limpeza geral das enfermarias.
Era-lhes proibido trazer comida ou bebidas de fora do hospital, sendo o
suficiente para serem despedidos. Os moços das enfermarias das mulheres,
designavam-se criadas. Todo o moço podia queixar-se diretamente à Administração
desde que o fizesse com o devido respeito; caso contrário, seria imediatamente
despedido.
As parteiras tinham por função prestar às parturientes os serviços e socorros
da sua arte, levar os recém-nascidos à pia batismal e levar à Santa Casa da
Misericórdia os recém-nascidos que não poderem alcançar melhor destino. O
primeiro serviço alternava com os dois últimos e eram desempenhados pelas duas
parteiras, semanalmente. A que assistia aos partos permanecia dia e noite no
hospital.
As parteiras deviam ter habilitação legal e serem abonadas de vida e costumes
regulares.
Discussão
Apesar das dificuldades que assolavam o reino, o Hospital de S. José tinha uma
estrutura bem diferenciada (espaços, serviços e recursos humanos) e um
orçamento consolidado para satisfazer as exigências e necessidade de tratamento
dos doentes, segundo os cânones e o conhecimento disponível na altura.
Para além das enfermarias e do banco, havia um setor administrativo que
assegurava a gestão do hospital e os serviços de apoio indispensáveis à
atividade nas enfermarias: botica, cozinha, igreja, despensa e abegoaria.
Contudo, seriam condições que estavam aquém das preconizadas por Costa Simões
em 1866 para os hospitais da Universidade de Coimbra e que são referidas no
apêndice aos Relatórios das visitas que efetuou em vários hospitais e
universidades da Europa (Simões, 1866).
Em termos orçamentais, constata-se um esforço de contenção que, à exceção dum
curto período de tempo em que o orçamento foi deficitário devido às convulsões
geradas pela Revolta da Maria da Fonte e a Guerra da Patuleia (Bonifácio,
2009), se gastou em função dos recursos financeiros disponíveis. Face ao teor
dos relatórios orçamentais e ao estilo rigoroso em que é elaborado o próprio
regulamento, é razoável supor que este resultado terá sido conseguido mais à
custa duma gestão cuidadosa do que da degradação dos cuidados aos doentes.
O número de empregados foi-se mantendo estável ao longo dos anos. O mesmo não
se poderá dizer do número de doentes que devia ter aumentado progressivamente,
com reflexos na capacidade de resposta do hospital ou na carga de trabalho dos
seus empregados. Não possuindo dados acerca doutras variáveis (v.g., o tempo
médio de internamento), não podemos ir mais longe nesta análise.
A estrutura dos empregados é fortemente diferenciada e hierarquizada e isso
está expresso no Regulamento mas, sobretudo, nas propostas de orçamento que
refletem uma realidade a cumprir e uma diferenciação com base no critério
objetivo do vencimento, para além de outros sinais de caráter mais simbólico
como seriam as insígnias e as braçadeiras que viriam a ser usadas num período
posterior (Salgueiro, 2000, p. 85). Os atores são vários e os seus vencimentos
mantiveram-se estáveis durante este período em estudo.
O processo de laicização do designado irmão maior, dos enfermeiros e dos
ajudantes está patente em várias passagens do regulamento onde não são feitas
referências a religiosos cujas Ordens já tinham sido extintas em maio de 1834,
por Decreto do Ministro Joaquim Augusto de Aguiar (Salgueiro, 2000, p. 80).
Os enfermeiros - um por enfermaria - tinham, sobretudo, funções de supervisão
dos ajudantes e dos moços, e eram uma figura central nas rotinas e na gestão da
enfermaria, sob a supervisão do irmão-maior, para além de desempenharem um
papel próprio na assistência religiosa dos enfermos (administração dos
sacramentos e procissão do Sagrado Viático). Tinham funções importantes para a
qualidade dos cuidados tais como a de verificar a qualidade das refeições dos
doentes.
Com os elementos disponíveis, não é possível definir o regime e o horário de
trabalho dos enfermeiros e dos ajudantes nem tão-pouco o seu número ao longo do
dia. Sabe-se apenas que o enfermeiro estava encarregue de elaborar as escalas
de piquete dos ajudantes, que trabalhavam em dois turnos, o de dia com a
duração de 13,5 horas e o da noite, com 10,5 horas. Havia a figura do
enfermeiro de vela que só viria a ser extinta nos anos oitenta do século
passado. Os ajudantes eram o grupo mais diferenciado, dividindo-se em três
categorias com vencimentos diferentes, não porque tivessem funções diferentes
mas, talvez, por antiguidade de serviço, critério que terá dado, mais tarde,
origem ao regime de diuturnidades que subsistiu até há pouco tempo. Eram os
ajudantes que, por excelência, realizavam os cuidados aos doentes: dar de
comer, lavar, administrar os remédios e assistir na morte, para além doutros
trabalhos menores relacionados com a higiene da enfermaria.
Uma nota final acerca da forma como eram descritos, no Regulamento, alguns
pormenores dos cuidados a prestar pelos ajudantes, que se foram mantendo até
aos nossos dias como aspetos essenciais da prática de cuidados de enfermagem.
Conclusão
Não estando no âmbito deste trabalho fazer a análise da evolução da carreira de
Enfermagem, não podemos deixar, contudo, de fazer algumas referências para
realçar os movimentos de diferenciação/ indiferenciação que se verificaram
depois deste momento marcante e fundador na organização dessa mesma carreira.
É no grupo dos enfermeiros e dos ajudantes que se fundam os desenvolvimentos
verificados já no século XX. Na década de setenta, foi abolido o grupo dos
auxiliares, os herdeiros dos ajudantes que aqui estudámos. Criou-se um único
grupo com uma crescente diferenciação que atingiu o seu máximo na carreira
instituída em 1991, com quatro níveis e seis categorias, as de enfermeiro e
enfermeiro graduado, enfermeiro especialista e chefe, supervisor e assessor
técnico regional e, no topo, assessor técnico de enfermagem (Decreto-Lei nº.
437, 1991). O movimento em sentido contrário está atualmente presente num
figurino em que se contempla apenas o enfermeiro e o enfermeiro principal com
onze e cinco posições remuneratórias, respetivamente, subsistindo, embora, as
categorias de enfermeiro-chefe e enfermeiro supervisor que tinham sido
estabelecidas pela carreira anterior (Decreto-Lei nº. 122, 2010).
Na sequência deste trabalho, seria útil recorrer a outras fontes que
permitissem reconstruir de forma mais detalhada as condições de trabalho dos
enfermeiros neste período, proceder-se a outros estudos para o período
subsequente e fazer um estudo comparativo com o Hospital Nacional da Vila das
Caldas da Rainha, também régio, e com hospitais sob a tutela das Misericórdias.