O colostomizado e a tomada de decisão sobre a adesão à irrigação
Introdução
Quando o ato de evacuar, que é voluntário e controlável, após uma cirurgia se
torna incontrolável, ocorre um efeito profundo quer no corpo, quer na
compreensão e integração do fenómeno, fazendo surgir múltiplas dúvidas,
insegurança e reações diversas. As restrições corporais e mudanças de hábitos,
causam problemas de ordem física, emocional e relacional. O conceito de
normalidade, a capacidade de controlo e a liberdade estão em causa. A pessoa
colostomizada depara-se com múltiplos problemas relacionados com a perda da
continência fecal, bem como, com a necessidade de utilizar um dispositivo
coletor de fezes.
A dependência do dispositivo, o medo de poder cheirar mal, a alteração de
alguns hábitos de vida, a alteração da imagem corporal e baixa autoestima,
conferem sentimentos de grande preocupação e podem transformar a existência da
pessoa num processo doloroso. A obtenção da continência é um desejo do
colostomizado e uma preocupação dos profissionais de saúde. Atualmente, a
irrigação e o obturador (tampão) permitem o controlo da eliminação fecal,
originam uma pseudo continência, procedimentos que revelam ser eficazes na
melhoria da qualidade de vida e reinserção social do colostomizado, produzem
comodidade e segurança, diminuem a produção de gases, ruídos e odores (Galán,
1999; Juárez et al., 2004; Santos et al., 2005; Maruyama et al., 2009).
Dedicamos especial atenção à irrigação pela simplicidade da técnica,
acessibilidade, escassez de recursos e o baixo custo económico (Venturini et
al.,1990, citado por Varma, 2009).
Quadro teórico
Ao longo dos anos, tem-se assistido a um interesse crescente no aperfeiçoamento
das técnicas cirúrgicas que possibilitam a preservação do sistema
esfincteriano, evitando desta forma a construção de uma colostomia definitiva,
no entanto, a sua construção como solução indispensável para o tratamento
eficaz continua a ser, ainda, uma solução para um número considerável de
doentes. A cirurgia abdominal da qual resulta a construção de uma colostomia é
uma realidade ainda atual. Revela-se uma experiência traumatizante para o
doente e sua família, tem repercussões na imagem corporal, hábitos de vida,
satisfação das necessidades humanas básicas e processo de socialização (Santos
et al., 2005; Cesaretti et al., 2008; Lobão et al., 2009; Maruyama et al.,
2009; Perston, 2010).
Enfrentar este processo, exige do colostomizado/ família a mobilização de
conhecimentos, capacidades cognitivas, físicas e emocionais que os ajudem a
lidar com a situação e a ultrapassar o trauma vivenciado.
Vários investigadores têm pesquisado e desenvolvido métodos para tornar os
estomas continentes. Entre os métodos utilizados, a bibliografia consultada
salienta: alguns procedimentos cirúrgicos; dispositivos continentes e irrigação
da colostomia. Este conjunto de técnicas caiu em desuso pelos fracos resultados
conseguidos, (Reading, 2006).
Nos anos 50, assiste-se à reintrodução da técnica de irrigação após o
aparecimento de equipamento mais seguro, de fácil utilização, assistindo-se à
substituição da sonda retal por uma extremidade cónica maleável que previne as
complicações anteriormente existentes. Este avanço, associado à melhoria das
condições sanitárias da população, e à crescente formação técnica e científica
dos enfermeiros ingleses, fez com que a irrigação tivesse tido maior crédito e
utilização. Atualmente, esta técnica está amplamente difundida sendo os seus
resultados bastante discutidos e variáveis. Um estudo efetuado por Nicastro
(2003), revelou que a irrigação era efetuada por 95% dos indivíduos com
colostomia esquerda e, destes, 70% conseguiam um controlo fecal de 72 horas.
A irrigação intestinal pode ser uma solução para a pessoa com colostomia
descendente ou sigmoideia e estudos efetuados por diferentes autores revelam
que a possibilidade de viver sem dispositivo, e sem a existência inesperada de
fezes no abdómen, facilitam a readaptação à nova imagem corporal e permitem uma
melhor reinserção social, com uma substancial melhoria na sua qualidade de vida
(Galán, 1999; Juárez et al., 2004; Santos et al., 2005).
A irrigação é um procedimento que permite ao colostomizado conseguir o controlo
da saída das fezes. Consiste na introdução de água potável tépida no cólon
através do estoma, recorrendo a um kit de irrigação próprio. A água introduzida
leva à dilatação do cólon causando movimentos peristálticos que provocam a
emissão de fezes. Este procedimento permite ao colostomizado o controlo parcial
do funcionamento do seu estoma (Santos et al., 2005; Cesaretti et al., 2010).
Não existindo emissão de fezes no intervalo entre as irrigações, este intervalo
poderá ir de 24 a 72h, dependendo do tipo de alimentação, exercício físico e
peristaltismo individual. Neste período de tempo o estoma apenas necessita de
um dispositivo simples que proteja e recolha a secreção mucosa. De acordo com
alguns autores, como vantagens desta técnica surgem: o controlo da eliminação
intestinal; a redução do consumo de dispositivos; a redução de lesões da pele
periestomal; a melhoria na reinserção social; o baixo custo económico; e o
aumento da qualidade de vida do colostomizado. Como principais limitações são
referidas: o tempo que demora a execução da técnica; o trabalho por turnos; e a
necessidade de ter condições sanitárias no domicílio (Santos et al., 2005;
Maruyama et al., 2009).
A prática da irrigação pode constituir um recurso importante pela possibilidade
de adequação da vida do colostomizado às regras e normas estabelecidas pela
sociedade. O controlo do momento da eliminação fecal anula a existência de
fezes no dispositivo, ficando a pessoa menos sujeita aos preconceitos e olhares
da discriminação pela diferença (Karadag et al., 2005).
Cientes de que a prática da técnica de irrigação contribui para a resolução de
uma parte significativa dos problemas da pessoa colostomizada, questionamos por
que razão em Portugal são poucos os colostomizados a praticar irrigação?
Justificação do estudo:
O desejo de possuir dados objetivos relacionados com a irrigação que
possibilitem a orientação do enfermeiro na consulta de estomaterapia.
A não existência de estudos publicados relacionados com a prática da técnica de
irrigação em Portugal, bem como, a ausência de dados científicos que mencionem
fatores que interferem na opção da pessoa colostomizada para praticar ou não a
técnica de irrigação.
Objetivos do estudo
Identificar fatores que influenciam a opção do colostomizado para praticar a
técnica de irrigação; identificar fatores que influenciam a opção do
colostomizado para não praticar a técnica de irrigação; analisar os fatores que
influenciam a opção do colostomizado para praticar a técnica de irrigação;
analisar os fatores que influenciam a opção do colostomizado para não praticar
a técnica de irrigação.
Metodologia
Trata-se de um estudo exploratório descritivo de abordagem quantitativa, tendo
sido utilizada uma amostra de conveniência.
Foi solicitada a autorização para a colheita de dados às diversas
administrações hospitalares da Sub-região de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo,
após aprovação da comissão de ética, obtivemos o parecer positivo com
autorização para a execução do mesmo estudo em 5 instituições.
A população do estudo foi composta por pessoas portadoras de colostomia
descendente ou sigmoide, todas elas com informação sobre a técnica de
irrigação, que recorreram à consulta de estoma terapia de 5 instituições de
aúde pertencentes à Subregião de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo.
Os critérios para a seleção dos indivíduos foram: estar no uso das suas
capacidades mentais; ter colostomia descendente ou sigmoide definitiva; ter
tido informação sobre a técnica de irrigação; aceitar participar no estudo; e
preencher o questionário.
A totalidade dos indivíduos selecionados foi informada sobre os objetivos do
estudo e procedimentos de pesquisa, sendo-lhes dada a garantia do anonimato das
suas informações. Após terem conhecimento do estudo foram convidados a
participar no mesmo de forma voluntária, assinando o termo de consentimento
livre e esclarecido.
Foi efetuado um preteste do questionário com 7 indivíduos que preenchiam os
critérios de inclusão. Após análise dos resultados dos questionários, foram
introduzidas as alterações necessárias nas questões que necessitaram de
reformulação. Estes 7 indivíduos foram eliminados da amostra.
Responderam ao questionário 83 indivíduos, sendo que 3 dos questionários foram
anulados por estarem indevidamente preenchidos. Ficamos, assim, com uma amostra
de 80 inquiridos de ambos os sexos, dos quais 42 praticam irrigação e 38 não
praticam irrigação.
O processo de colheita de dados foi efetuado através do preenchimento de um
questionário, construído na íntegra por uma das autoras, por não existirem
questionários validados para avaliar esta problemática. O questionário foi
composto por perguntas fechadas, compreendendo 10 secções: características
demográficas e clínicas; características económicas e de trabalho; hábitos de
vida; características do dispositivo utilizado; reação à mudança; conhecimento
da técnica de irrigação; ensino sobre a técnica de irrigação; a prática da
técnica de irrigação; exclusão da técnica de irrigação; fatores que influenciam
a tomada de decisão sobre o praticar ou não a irrigação.
As respostas ao questionário são expressas através de uma escala, com três
possibilidades de resposta: negativo, neutro e positivo.
Tendo presente as características da população a quem se destina o estudo,
tentamos colmatar as possíveis dificuldades de compreensão das perguntas e
preenchimento do questionário, permitindo que este fosse preenchido com a ajuda
de familiares e ou amigos.
A análise de dados baseou-se na estatística descritiva e analítica e foram
efetuados os procedimentos através do Stastical Package for Social Sciences
(SPSS 12).
Resultados e Discussão
Caracterização da amostra
Os dados revelaram que a maioria dos inquiridos não exercia profissão (82,50%),
tinha parceiro/pessoa significativa (81,25%) e era autónomo na prestação de
cuidados ao estoma (73,75%).
Os 42 inquiridos que referiram praticar a irrigação, apresentaram uma média de
idade de 61,19 anos e um desvio padrão de 11,82 anos. Quanto à necessidade de
ajuda para cuidar da colostomia, a média foi de 4,69 e o desvio padrão de 0,84.
Relativamente ao sentimento de incómodo ao mexer na colostomia, a média foi de
4,55 e o desvio padrão de 0,83.
Os 38 inquiridos que referiram não praticar irrigação, apresentaram uma média
de idade de 65,84 (anos) e um desvio padrão de 8,17 (anos). A média do nível de
escolaridade foi de 2,16 e o desvio padrão de 0,86. Quanto à necessidade de
ajuda para cuidar da colostomia a média foi de 3,79 e o desvio padrão de 1,42.
Em relação ao sentimento de incómodo ao mexer na colostomia a média foi de 3,71
e o desvio padrão de 1,49.
Após análise dos dados, verificamos que os inquiridos que praticavam irrigação
eram claramente mais novos, apresentavam maior nível de escolaridade, revelaram
menor necessidade de ajuda para cuidar da colostomia e menor incómodo ao mexer
na colostomia do que os inquiridos que referiram não praticar irrigação.
Os inquiridos que praticam a irrigação utilizam preferencialmente dispositivo
fechado, enquanto os inquiridos que não fazem irrigação utilizam
preferencialmente dispositivo aberto (drenável) (χ 2(1)=10,209; p=0,002).
O sentimento de medo de fazer algo que o possa prejudicar ao cuidar da
colostomia, foi comum a ambos os grupos. No entanto, verificou-se uma diferença
estatisticamente significativa (χ 2(1)=5,389;p=0,002) no grupo de inquiridos
face à sua adesão à irrigação e a existência do sentimento de medo de fazer
algo que o possa prejudicar ao cuidar da colostomia. Contudo, os inquiridos que
fazem irrigação referiram que a existência deste sentimento não influenciou a
sua decisão em optar por fazer irrigação, enquanto os inquiridos que não fazem
irrigação, referiram que a existência do sentimento de medo os levou a não
praticar a irrigação, como podemos observar na Tabela 1.
TABELA 1 ' Ao cuidar da sua colostomia sente medo de fazer alguma coisa que o
possa prejudicar
A prática da técnica de irrigação
A maioria dos inquiridos que praticavam irrigação, 45 (84,90%) fez a primeira
irrigação em presença do enfermeiro, como preconizado por Santos et al. (2005).
Os inquiridos que praticavam irrigação referiram fazêlo de 48 em 48 horas ou de
72 em 72 horas, em igual percentagem (40,50%).
De acordo com os resultados obtidos, evidenciou-se, de uma forma muito clara
(91,25%), que o enfermeiro é o profissional que mais informa sobre a técnica de
irrigação. Estes dados estão de acordo com o já referido por Molina García et
al. (1992) que salientava que um dos objetivos da consulta de estomaterapia é a
informação dos métodos de obtenção de continência. Autores como Santos et al.
(2005) acrescentam que a irrigação é um método alternativo para a reabilitação
do colostomizado e, portanto, a opção de utilizar esta técnica deve ser sempre
ponderada. Esta afirmação revela respeito pela opinião e soberania individual e
que se pode identificar no resultado obtido, revelado pelo estudo efetuado
pelos mesmos autores, no qual foi dada oportunidade de praticar irrigação a
96,25% dos inquiridos e apenas 66,25% optou por este método. Verificaram-se
diferenças statisticamente significativas entre o conhecimento de saber que
pode fazer a técnica de irrigação e a opção de fazer ou não irrigação, os
inquiridos que fazem irrigação sabem que a podem fazer, enquanto os inquiridos
que não fazem irrigação referiram não saber que a podiam fazer.
Verificaram-se diferenças estatisticamente significativas entre:
O ter sido ensinado e esclarecido sobre a irrigação e o praticar ou não
irrigação (χ 2(1)=5,744; p=0,044), bem como, a percetibilidade da explicação
tida e a decisão de fazer ou não irrigação.
Os inquiridos que faziam irrigação tinham assistido a sessões de ensino e
esclarecimento sobre a irrigação, enquanto os inquiridos que não faziam
irrigação não tinham sido submetidos a nenhum tipo de ensino sobre este
procedimento.
Os inquiridos que faziam irrigação consideraram que a percetibilidade da
explicação tida influenciou a sua decisão em fazer irrigação. Dados que
corroboram a opinião de Santos et al. (2005) ao referirem a necessidade de
haver um investimento na qualidade da formação e na avaliação da aprendizagem,
sendo conveniente a elaboração de um plano de ensino.
Vantagens da irrigação
A totalidade dos 42 (100%) inquiridos que referiram efetuar a irrigação
demonstrou estar satisfeita com o controlo da eliminação de fezes que obtinha,
97,60% referem ter tido uma redução do consumo dos dispositivos, embora a
frequência de utilização do dispositivo não seja uniforme.
Verificam-se diferenças estatisticamente significativas entre os inquiridos que
praticavam a irrigação e os que não a praticavam, relativamente aos hábitos de
sono, vestuário e atividade sexual. Os inquiridos que referiram praticar a
irrigação revelaram menor alteração dos hábitos de sono e menor alteração na
forma de vestir que os inquiridos que não a praticavam, assim como os
inquiridos que praticavam a irrigação revelaram menores lterações da atividade
sexual que os inquiridos que não praticavam a irrigação. Os dados obtidos
revelam, ainda, como a possibilidade de controlar o momento em que evacua, a
redução do consumo de dispositivos, a menor alteração dos habitos de vida, são
algumas das vantagens da prática da técnica de irrigação referenciadas em toda
a bibliografia consultada, nomeadamente por Nicastro (2003), Santos et al.
(2005) e Maruyama et al. (2009). A totalidade dos inquiridos que praticavam
irrigação, revelou sentirem-se mais limpos e obter com esta prática, pelo
menos, um benefício, mais de 97% manifestou sentimentos de segurança e
conforto, referindo 90,50% sentir-se melhor consigo próprio e considerar que
com a irrigação a sua vida melhorou, o que vem ao encontro da opinião de
diversos autores ao referirem que a irrigação é um método seguro, fácil,
económico e gerador de bons resultados, sendo as suas vantagens reais,
interferindo na melhoria e ajustamento emocional, social e financeiro (Santos
et al., 2005; Maruyama et al., 2009; Perston, 2010).
Exclusão da técnica de irrigação
Verificou-se a existência de três sentimentos fundamentais que contribuem para
a exclusão da prática da irrigação: a comodidade, o medo e a insegurança.
O sentimento de comodidade, referenciado por 15 inquiridos, demonstrou estar
relacionado com: o bom funcionamento da colostomia (5; 33,34%); o facto de o
dispositivo não os incomodar (6; 40,00%); o facto de fazer a vida normalmente
(3; 20,00%); e por insegurança (1; 6,66%).
O sentimento de medo referenciado por 12 inquiridos revelou estar relacionado
com: a possibilidade de poderem surgir complicações (6; 50,00%); o medo de não
ser capaz de fazer bem a irrigação (4; 33,34%); o medo de poder ter dores por
(1; 8,33%); e o medo de ter dificuldade em esclarecer dúvidas (1; 8,33%).
O sentimento de insegurança sentida e referenciada por 7 (46,65%) inquiridos
estava relacionada com: a possibilidade da técnica não resultar (4; 26,67%); a
falta de segurança na técnica (2; 13,32%); a falta de confiança em si próprios,
sendo que, 1 (6,66%) não especificou qualquer relação.
A insegurança, a comodidade e o medo, são os principais motivos identificados
no estudo que levaram os inquiridos a não desejar experimentar a prática da
técnica de irrigação, no entanto, os principais motivos que levaram ao abandono
da prática da técnica de irrigação foram: o tempo que a irrigação demora a
efetuar 50%; a dificuldade na progressão da água 31,25%; a saída de fezes no
intervalo das irrigações 31,25%; a dificuldade na saída da água 18,75%.
Os resultados deste estudo estão de acordo com os encontrados por Santos et al.
(2005) que os referem como limitações e ou dificuldades da técnica de
irrigação.
Fatores que influenciam o inquirido a praticar irrigação
Os 7 fatores mais referenciados como de maior influência nos inquiridos que
praticam irrigação, para optar por esta técnica foram: o medo de poder cheirar
mal 90,5%; a possibilidade de controlar o momento em que evacuavam (85,7%); o
facto de não saber o momento em que evacuavam (73,8%); a explicação que teve
sobre a técnica de irrigação (66,7%); a possibilidade de reduzir o consumo de
dispositivos (61,9%); o bom funcionamento da colostomia (59,5%); desejo de que
os outros não se apercebam da sua situação (colostomizado) (50,0%).
Estes dados revelam sentimentos de inferioridade, rejeição e constrangimento
relacionados com a incontinência e o desejo de controlar esta situação
usufruindo dos benefícios da mesma, tendo uma vida com menos limitações.
Fatores que influenciam o inquirido a não praticar irrigação
Os 7 fatores mais referenciados como de maior influência nos inquiridos que não
praticam irrigação, a optar por não praticar esta técnica foram: o estar
adaptado ao dispositivo que utiliza (71,1%); o bom funcionamento da colostomia
(63,2%); a necessidade de um horário certo para fazer a irrigação (47,4%); o
medo de poder ter alguma complicação (42,1%); a possibilidade de controlar o
momento em que evacuava (42,1%); o medo de poder cheirar mal (39,5%); a
necessidade de ter que aprender a executar a técnica de irrigação (39,5%).
Os fatores referidos como estar adaptado ao dispositivo que utiliza, o bom
funcionamento da colostomia e a possibilidade de controlar o momento em que
evacua, revelam uma certa adaptação do indivíduo à situação de colostomizado
que, a pouco e pouco, o conduziram ao sentimento de harmonia com a situação
existente, não constituindo a incontinência um problema para si.
Os fatores relativos à necessidade de ter que aprender a técnica, ao ter um
horário certo para a sua prática e o medo de poder ter alguma complicação,
revelam sentimentos de obrigatoriedade, imposição, medo e não o do desejo da
aprendizagem. Autores como Harocopos (1989) e Santos et al. (2005) salientam a
necessidade de vontade própria e motivação para a eficácia da prática da
técnica de irrigação.
Fatores que não influenciam a tomada de decisão
Os resultados do estudo revelam a existência de fatores que não interferiram na
tomada de decisão da totalidade dos inquiridos face à prática da técnica de
irrigação. Estes fatores, em mais de 85%, foram, como revela a Tabela 2, a
necessidade de mexer na colostomia; a necessidade de introduzir o cone na
colostomia; o custo do material de irrigação; o facto de trabalhar ou não.
TABELA 2 ' Fatores que não influenciam o colostomizado inquirido na opção de
praticar ou não a técnica de irrigação (N=80) (%)
Dados que nos parecem lógicos e coerentes, uma vez que, a maior parte deles
está relacionada com a prática da técnica de irrigação e, como tal, os
inquiridos que praticam irrigação consideram-nos aderentes e reconhecem as
vantagens deste procedimento, e os que não a praticam não lhes dão relevância.
Conclusão
O estudo revela o papel relevante do enfermeiro estomaterapeuta na prestação de
cuidados de enfermagem com qualidade, assim como na sua contribuição para a
obtenção da melhoria da qualidade de vida do colostomizado.
Os resultados obtidos permitem identificar: características dos inquiridos que
praticam irrigação; vantagens obtidas com a prática da técnica de irrigação;
motivos que levaram os inquiridos a optar por praticar a técnica de irrigação;
motivos que levaram os inquiridos a optar por não praticar a técnica de
irrigação; motivos que não interferem na opção de praticar ou não a irrigação.
Dados que nos permitem afirmar termos alcançado os objetivos a que nos
propusemos.
Com base na discussão dos resultados, ficamos conhecedores de que as razões que
levam o inquirido a optar por praticar irrigação estão relacionadas com a
inadaptação à incontinência fecal, com as indicações e vantagens da técnica de
irrigação, bem como, o desejo de passar despercebido, ter uma vida mais plena e
com menos limitações. As razões que levam o inquirido a optar por não praticar
estão relacionadas com a adaptação/aceitação à situação de ser colostomizado e
aos sentimentos de insegurança, comodidade e medo, aspetos que no nosso
entender poderiam ser atenuados com a existência de meios facilitadores de
esclarecimento de dúvidas, da divulgação da técnica de irrigação e suas
vantagens e da criação de um plano de ensino interativo sobre esta técnica.
Este plano interativo de ensino/aprendizagem deveria possibilitar a
demonstração da técnica e permitir a sua prática pelo colostomizado, como
preconizado por Santos et al. (2005) e Cesaretti et al. (2010), o que pode ser
motivador e ter grande importância, quer na obtenção da confiança, segurança e
autonomia do indivíduo, quer na avaliação da aprendizagem efetuada.
Para os inquiridos que praticaram irrigação, esta técnica teve como vantagens:
controlo do momento da eliminação fecal (100%); proporcionar sentimentos de
limpeza (100%), segurança (97,60%) e conforto (97,60%); redução do consumo de
dispositivos (90,50%); sentir-se melhor consigo próprio (90,50%); benefícios
aos níveis: pessoal (92,9%), social (78,6%), íntimo (76,2%), imagem (73,8%),
familiar (69,0%) e económico (57,1%); contribui para melhorar a vida (88,10%).
As vantagens da irrigação referidas pelos inquiridos, reforçam a motivação para
a continuidade da prática desta técnica e poderiam ser utilizadas em panfletos,
brochuras, com o intuito de informar, sensibilizar, motivar o colostostomizado
a recuperar o controlo da eliminação fecal, a melhorar a sua auto imagem e
qualidade de vida. No entanto, é necessário ter em consideração que a decisão
de aprendizagem da técnica, as motivações e dificuldades que possam surgir são
individuais e, como tal, resolvidas individualmente tendo em consideração os
hábitos de vida, a atividade profissional e o contexto familiar.
Ao procurar identificar as causas que conduzem o inquirido a optar ou não pela
execução da técnica de irrigação, evidenciaram-se também os motivos
referenciados em maior percentagem que levaram os inquiridos ao abandono desta
técnica: o tempo que a irrigação demora a efetuar (50,0%); a dificuldade na
progressão da água (31,25%); a saída de fezes no intervalo das irrigações
(31,25%);
Estes motivos podem, em nosso entender, ser minimizados, não só através de uma
adequada informação e acompanhamento do colostomizado, durante o plano de
ensino da prática da técnica de irrigação, como também da sua experiência, e
ainda com o testemunho de colostomizados que praticam irrigação.
Contributos Futuros
Através da análise dos resultados apercebemo-nos de que a carência de
informação escrita e a dificuldade em esclarecimento de dúvidas são realidades
sentidas pelos inquiridos. Na tentativa de colmatar esta necessidade
consideramos pertinente, pela sua utilidade e exequibilidade financeira, a
criação de folhetos informativos sobre a irrigação, passos da técnica,
vantagens e limitações da irrigação, dificuldades comuns e procedimentos
adequados que possibilitem uma informação mais esclarecedora da técnica.
A criação de um plano interativo de ensino/ aprendizagem, entre enfermeiro/
colostomizado/ família, pode ser motivador e ter grande importância na obtenção
da confiança, segurança e autonomia do indivíduo, como referido por alguns
autores, este plano deve compreender três fases: a apresentação da técnica; a
descrição do plano de ensino/ procedimentos; e a execução da técnica. De modo a
evitar o abandono desta técnica, o que segundo alguns autores tal como Santos
(2005), ocorre em maior frequência nos primeiros meses da sua prática, seria
aconselhável a marcação de uma consulta mensal para um acompanhamento adequado,
esclarecimento de dúvidas, reforço dos aspetos mais importantes, durante os
primeiros três meses.
Com base nos resultados deste estudo, constatamos que são os enfermeiros os
profissionais de saúde que mais informaram os inquiridos sobre a técnica de
irrigação (91,25%), justificando-se que estes profissionais detenham mais
informação, adequada e atualizada, uma vez que, não há estomaterapeutas
suficientes para efetuar educação para a saúde neste âmbito.