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Representação em texto

EuPTCVHe0873-21592010000500007

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0873-2159
ano2010
Issue0005
Article number00007

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Influência de um programa de iniciação científica de graduação no perfil profissional dos médicos recém-formados

Introdução As disciplinas de iniciação científica são cada vez mais comuns nas escolas médicas de nosso país2 e do estrangeiro. também um crescente interesse no estudo do efeito que estas disciplinas possam vir a ter sobre o desempenho profissional dos jovens médicos3,4,5. A literatura médica tem posto em relevo, especialmente desde os anos noventa3,4,6,7, os aspectos científicos da educação médica. Várias escolas médicas6 de centros nacionais e internacionais mais avançados estabeleceram programas de iniciação científica (PIC) como disciplinas individualizadas dos seus cursos médicos8,9,10.

Este trabalho tem por objectivo o PIC idealizado em 1995 e estabelecido no primeiro semestre de 1996 como parte do novo currículo da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF). Sob este aspecto, a UFF foi uma das pioneiras no Brasil7. O PIC da UFF consiste em sete disciplinas opcionais a serem seguidas sequencialmente desde o segundo até ao oitavo semestre do curso médico.

Na UFF, este programa consiste em conferências, exposições feitas pelos estudantes e aulas ministradas por professores, todas relacionadas com a pesquisa, a ética e a metodologia da pesquisa, a estatística e a epidemiologia.

O programa culmina com o desenvolvimento de uma dissertação de conclusão de curso (DCC), um texto académico é escrito no intervalo entre o nono e o décimo- segundo (e último) semestre do curso médico. A DCC é um pré-requisito obrigatório para a obtenção do grau de médico e permite aos estudantes que iniciaram as suas pesquisas durante as disciplinas do PIC exporem os seus resultados.

É útil descrever o impacto que estes programas possam ter sobre a formação dos futuros médicos. Uma concepção, ainda não comprovada por estudos controlados, afirma que os estudantes de medicina que realizam pesquisas (mesmo em tempo parcial) e que se acostumam a pensar de acordo com o método científico teriam, mais tarde, vantagens no campo profissional, mesmo em actividades médicas sem relação directa com a pesquisa científica. A necessidade de comprovar ou rejeitar esta percepção levou-nos a realizar o presente trabalho. O objectivo foi estudar o impacto que teve o estabelecimento do PIC como uma disciplina do curso médico sobre a situação profissional dos novos médicos graduados na UFF.

Para isso, comparamos os estudantes que frequentaram o PIC com aqueles que não o fizeram.

Métodos Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Medicina da UFF e também pelo Colegiado do Curso de Medicina da UFF, que permitiu o acesso aos registos académicos dos estudantes.

Investigamos inicialmente uma amostra preliminar de 560 estudantes de medicina graduados entre o segundo semestre de 1999 e o segundo semestre de 2002, 80 em cada semestre. Estes recém-formados foram divididos em dois grupos diferentes, um composto por estudantes que participaram nas disciplinas do PIC, o outro por estudantes que não o fizeram. Como em todos os semestres cerca de 40% dos estudantes opta por participar nas disciplinas do PIC, pudemos seleccionar, em todo o período de estudo, apenas 112 estudantes para este grupo. Eles foram então pareados por idade, sexo e coeficiente de rendimento académico (CR) aos estudantes do outro grupo. Ao fazê-lo, a diferença máxima permitida entre os CR dos estudantes compondo cada par foi de 0,1. Com este critério, pudemos obter 30 pares de estudantes e estes 60 indivíduos foram convidados a participar da investigação, inicialmente apenas para responder a um questionário impresso de arrolamento. Quatro estudantes, dois em cada grupo, recusaram-se a preencher o questionário, e foram por esta razão excluídos, tal como os seus pares no outro grupo. Deste modo, obtivemos finalmente 26 pares, correspondendo a 26 médicos em cada grupo. Um termo de consentimento foi assinado por todos os 52 estudantes envolvidos.

Outro questionário, versando aspectos profissionais e socioeconómicos, foi aplicado a cada um destes 52 ex-estudantes. As questões tratavam de dados gerais e buscavam avaliar a renda média familiar antes, durante e depois do curso médico, a situação profissional actual do entrevistado, as suas aprovações em concursos públicos, seus títulos e graus obtidos após a graduação e o nível de escolaridade dos seus pais.

O teste do quiquadrado de Pearson com correcção de Yates para continuidade, o teste exacto de Fisher e o teste de Wilcoxon foram empregues na análise estatística. O softwareempregue foi o S-Plus, versão 6,0.

Resultados Não houve diferenças estatisticamente significativas entre os grupos PIC e não PIC, no que diz respeito ao género, idade, CR e ano de graduação (Quadro I). As diferenças entre os títulos obtidos e nível de escolaridade dos pais foram também inexpressivas (Quadro II). Também irrelevantes foram as diferenças entre o número de artigos apresentados em encontros científicos ou publicados em revistas médicas, entre os graus académicos obtidos após a graduação (Quadro III) e a renda média familiar antes e durante o curso médico (Quadro IV).

Quadro_I ' Comparação entre os grupos PIC e não PIC conformeidade, sexo, coeficiente de rendimento académico (CR) e ano de graduação

Quadro II ' Comparação dos grupos SIP e não SIP conforme nível de escolaridade e graus académicos dos pais

Quadro_III ' Comparação entre os grupos PIC e não PIC conforme a produção científica e aprovações em concursos públicos

Quadro_IV ' Comparação entre os grupos PIC e não PIC conforme a renda familiar média antes, durante e após a realização do curso médico

Entretanto, houve diferenças no número de aprovações em concursos públicos, pois foram significativamente maiores os números do grupo não PIC relativos a esta variável (p = 0,0098). Do mesmo modo, a renda familiar média após a graduação foi significativamente maior no grupo não PIC (p = 0,02), especialmente da camada de renda mais alta, acima de 4500 reais por mês (um dólar americano corresponde a 2,30 reais, a moeda brasileira).

Discussão A concepção comum de que trabalhar com pesquisa traria benefícios intelectuais futuros6,7, mesmo quando o jovem médico não se propõe seguir uma carreira académica, levou muitas escolas médicas11,12 a estabelecer cursos práticos envolvendo o método científico13,14,15,16. Isto faz-se habitualmente pelo estabelecimento de uma disciplina opcional (como ocorreu na FM-UFF)7,8,9 ou compulsória1,2,3. O nosso objectivo foi avaliar a influência deste exercício ou aprendizagem sobre o perfil profissional dos novos médicos, comparando dois grupos que diferiam apenas na sua participação no PIC.

Um dos mais importantes aspectos na selecção dos grupos comparados foi o CR, o número que expressa o desempenho académico do estudante durante o curso médico.

Obviamente, os grupos deveriam ser compostos por estudantes com CR bem similares, com o fim de excluir qualquer influência desta variável nas possíveis diferenças observadas no perfil profissional dos novos médicos, a quem desejávamos estudar tendo em vista apenas a sua participação no PIC. Por esta razão, ambos os grupos tinham desempenho académico muito semelhante (Quadro_I).

Outro aspecto analisado foi a renda familiar média antes, durante e depois da realização do curso médico. As rendas antes e durante o curso médico foram estatisticamente similares e não poderiam ter exercido qualquer influência sobre as diferenças observadas nos perfis profissionais dos futuros médicos.

(Quadro_IV).

A produção científica dos médicos em ambos os grupos foi avaliada mediante o número de artigos apresentados em congressos médicos ou publicado em revistas científicas. Os artigos publicados durante e depois da realização do curso de graduação foram somados e considerados em conjunto. Não houve diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos (Quadro_III).

Diferentemente das sete disciplinas sequenciais do PIC, a elaboração da dissertação de conclusão de curso é obrigatória. Do mesmo modo, todos os estudantes, durante o seu curso médico, têm de participar em encontros anuais onde são apresentados os resultados dos trabalhos realizados em grupo como, p.

ex., os relatórios das suas actividades como instrutores dos estudantes mais jovens (monitoria) ou das suas acções assistenciais na comunidade (extensão). A familiaridade com este tipo de exposição poderia talvez explicar a ausência de diferenças no número de artigos apresentados em encontros e congressos médicos. Quanto aos artigos publicados em revistas médicas, o seu número absoluto é maior no grupo PIC, embora a diferença não seja estatisticamente significativa. Isto é relevante, uma vez que sabemos que os artigos apresentados em encontros médicos têm habitualmente carácter genérico, sendo na sua maior parte relatos de casos em simpósios de actualização. Por outro lado, a preparação de um artigo para publicação em revista médica demanda mais tempo, empenho e conhecimento. Pode-se inferir que os estudantes do grupo PIC têm preferência por este tipo de artigo.

A maior parte dos médicos recém-formados obteve um grau técnico após a graduação, categoria em que incluímos todos os títulos obtidos mediante cursos de especialização ou actualização, treino em regime de residência médica e programas de MBA. Não houve diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos em relação a este aspecto (p = 0,668). Apenas um médico obteve um título académico após a graduação, o de mestrado. Os dados mostram, em ambos os grupos, um evidente interesse por graus técnicos e que, no nosso país, os médicos parecem ter em boa conta a pós-graduação sensu lato. Isto talvez apenas reflicta um dos aspectos da carreira médica, a saber, a necessidade de um constante aperfeiçoamento técnico.

Curiosamente, o grupo não PIC obteve mais aprovações em concursos públicos, e a diferença foi estatisticamente significativa (p=0,0098). Poderíamos supor que os médicos do grupo PIC pretendem ter uma educação médica mais prolongada, dando preferência à pós-graduação sensu strictoe ao treino em regime de residência médica, ao invés de tentar obter imediatamente um posto de trabalho.

De acordo com isto, o grupo não PIC teria, ao contrário, uma concepção mais pragmática das suas carreiras, buscando logo os concursos públicos com a finalidade de assegurar sua boa situação económica e profissional. Esta hipótese parece concordar com os dados acerca da renda familiar média em ambos os grupos. A renda dos médicos não PIC revelou-se significativamente maior do que a de seus pares no grupo PIC (p=0,02), especialmente na camada de renda mais alta (acima de R$ 4500 ao mês).

Poderíamos dizer, em resumo, que frequentar uma ou mais disciplinas do PIC aparentemente resulta em menor renda familiar média e em menor número de aprovações em concursos públicos após a graduação.

Entretanto, isto poderia apenas reflectir uma etapa passageira de um processo mais longo de estruturação profissional, um processo que, na sua totalidade, daria origem a médicos de um perfil profissional inteiramente distinto. iniciamos nova pesquisa com estes mesmos indivíduos, agora que decorreu mais tempo desde as suas graduações. Esperamos que ela possa auxiliar-nos na resposta a estas últimas questões


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