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Representação em texto

EuPTCVHe0872-81782012000300008

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-8178
ano2012
Issue0003
Article number00008

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Tuberculose primária do esófago

Introdução A Tuberculose esofágica é uma doença pouco frequente, mesmo nos países com alta incidência de tuberculose1. A Tuberculose primária do esófago, sem envolvimento de outros órgãos, é ainda mais rara. Geralmente é secundária à infeção pulmonar, ganglionar, mediastínica, da faringe ou laringe2.

Tendo em conta que os principais sintomas são disfagia, odinofagia e emagrecimento, o tumor esofágico faz diagnóstico diferencial com tuberculose esofágica.

Os autores apresentam o caso clínico de uma doente com tuberculose primária do esófago.

Caso clínico Doente do sexo feminino, 38 anos de idade, raça caucasiana, sem antecedentes pessoais e familiares relevantes.

Referenciada à consulta de Gastrenterologia, em janeiro de 2009, por um quadro clínico de odinofagia e dor retroesternal com 2 semanas de evolução, associado a emagrecimento (> 10% peso corporal) em 2 meses. Ao exame objetivo destacava- se IMC < 18,5. O estudo analítico com hemograma, coagulação e bioquímica geral não mostrou alterações de relevo. Foi submetida a endoscopia digestiva alta que revelou aos 28 cm da arcada dentária, uma lesão ulcerada com cerca de 4 cm de diâmetro, com bordos irregulares e fundo cinzento, sugestiva de neoplasia esofágica (fig. 1). Fizeram-se múltiplas biopsias, no entanto, o exame histológico sugeriu um granuloma mal formado com células gigantes do tipo de Langhans, sem presença de células neoplásicas (fig. 2). Da investigação complementar posterior destaca-se radiografia de tórax sem alterações, pesquisa de anticorpos anti- vírus de imunodeficiência humana 1 e 2 negativos, teste de Mantoux inconclusivo, estudo radiológico do esófago com pequena área focal de retificação e rigidez parietal, no segmento médio na vertente posterolateral esquerda (fig. 3) e TC toraco-abdominal com espessamento parietal do esofágo a nível do terço médio (fig. 4). Realizou-se segunda endoscopia digestiva com o objetivo de obter mais material para exame histológico e micobacteriológico. O exame histológico excluiu novamente neoplasia. Tendo em conta a forte suspeita de tuberculose esofágica, realizou-se o teste de IGRA (interferon gamma release assay - QuantiFERON®-TB Gold) que foi positivo.

Figura 1Endoscopia digestiva alta: aos 28 cm da arcada dentária, lesão ulcerada com cerca de 4 cm de diâmetro, com bordos irregulares e fundo cinzento, sugestiva de neoplasia esofágica.

Figura 2Anatomia patológica: granuloma mal formado com células gigantes do tipo de Langhans, sem presença de células neoplásicas.

Figura 3Estudo radiológico do esófago: pequena área focal de retificação e rigidez parietal, no segmento médio na vertente postero-lateral esquerda do esófago.

Figura 4TC TA: espessamento parietal do esófago a nível do seu terço médio.

Com base nos resultados endoscópicos, radiológicos, histológicos e o teste de IGRA positivo, a doente iniciou terapêutica com isoniazida, rifampicina, pirazinamida e etambutol. Duas semanas após o início do tratamento, identificou-se Mycobacterium tuberculosis (M. tuberculosis) no exame cultural da biopsia esofágica. A doente ficou assintomática ao fim de 4 semanas de tratamento. Repetiu-se endoscopia digestiva que revelou pequena lesão ulcerada em fase de cicatrização (fig. 5). À data, a doente completou 1 ano de tratamento e mantém-se assintomática.

Figura 5Endoscopia digestiva alta: aos 28 cm da arcada dentária, pequena lesão ulcerada em fase de cicatrização.

Discussão A tuberculose esofágica é responsável por 1 a 3% da tuberculose gastrintestinal, sendo o órgão menos atingido de todo o aparelho digestivo. A tuberculose primária do esófago, como o nosso caso clínico, é ainda mais rara.

Este facto deve-se sobretudo aos mecanismos de defesa do esófago, nomeadamente a sua estrutura tubular, o epitélio estratificado escamoso, a camada protetora de saliva e a rápida progressão das substâncias ingeridas, o que impede o crescimento de agentes patogénicos neste orgão3.

É mais frequente nos doentes imunodeprimidos, atingindo raramente os indivíduos imunocompetentes.

Os sintomas mais frequentes são odinofagia, dor retroesternal e emagrecimento4.

Pode também manifestar-se, embora de forma menos frequente, como disfagia e hematemeses. Tendo em conta a clínica mais prevalente, o diagnóstico diferencial faz-se com neoplasia esofágica.

A tuberculose esofágica tipicamente apresenta-se como uma lesão ulcerada solitária, de bordos irregulares, escavada, no terço médio do esófago. O diagnóstico é feito através da identificação do M. tuberculosisou de um granuloma caseoso clássico5.

O tratamento é semelhante à tuberculose pulmonar, sendo o uso de tuberculostáticos eficaz na maioria dos casos, tal como ocorreu nesta paciente.

A cirurgia é indicada apenas nos casos com perfuração e abcessos6.

A tuberculose esofágica apresenta uma mortalidade de 0,15%7, sendo que o atraso no diagnóstico e início da terapêutica dita um mau prognóstico8.

É ainda importante salientar que o teste de IGRA revelou ser uma ferramenta muito útil no diagnóstico rápido do caso clínico descrito. Trata-se de um teste mais específico que o teste de Mantoux e que pode ser útil nos casos de tuberculose latente ou ativa sem confirmação bacteriológica. Baseia-se na produção de interferão-gama em resposta a 2 proteínas antigénicas (ESAT-6 e CFP10) produzidas pelo M. tuberculosisque não se encontram na vacina BCG nem na maioria das micobactérias não tuberculosas.


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