Causa rara de icterícia obstrutiva
Abstract
Hemobilia is a rare affection, which in less than 10% of the cases is
associated with hepatic or intrabiliary neoplasm.
We present a patient, with alcoholic hepatic cirrhosis that presented with
jaundice and coluria. Endoscopic retrograde cholangiopancreatography [ERCP] was
negative for dilation or endoluminal lesions of the common bile duct; Forgaty
balloon and Dormia basket exploration revealed biliary microlithiasis.
Due to clinical deterioration, with increasing jaundice 24 hours, another ERCP
was performed, that disclosed the presence of a blood clot in the common
biliary duct. The following clinical investigation showed a 6 cm hepatic nodule
that extended to the peri‑hilar biliary tree.
The patient died 33 days after the admission, due to septic shock secondary to
respiratory tract infection.
PALAVRAS-CHAVEHemoptysis; Etiology; Diagnosis; Treatment
Introdução
A hemobilia é uma situação rara. Corresponde à presença de sangue na árvore
biliar como resultado de hemorragia com origem na vesícula, no tracto
bilio‑pancreatico ou no fígado1. Foi descrita pela primeira vez por Francis
Glisson em 1654, no entanto, o termo hemobilia só foi introduzido em 1948, por
Sandblom2.
As manifestações clínicas são a hemorragia digestiva, a dor abdominal e/ou a
icterícia obstrutiva3.
Actualmente, a causa mais frequente de hemobilia nos países ocidentais é o
trauma secundário a procedimentos hepatico‑biliares percutâneos, endoscópicos
ou cirúrgicos. A presença de neoplasias hepato‑biliares como causa independente
de hemobilia é uma situação rara1,3,4.
Caso clínico
Doente do sexo masculino, de 68 anos, com cirrose hepática alcoólica
diagnosticada há 10 anos, seguido em consulta de Gastrenterologia, tendo
realizado em Ecografia abdominal 3 anos antes que não mostrou lesões nodulares
hepáticas e doseamento de AFP que foi normal.
Foi internado por quadro de icterícia e colúria com 1 semana de evolução, sem
dor abdominal.
Dos antecedentes pessoais havia a salientar hipertensão arterial, status‑pos
acidente vascular cerebral isquémico, doença pulmonar obstrutiva crónica
tabágica e litíase vesicular assintomática. Estava medicado com ticlopidina,
enalapril, omeprazol e espironolactona.
À admissão apresentava icterícia da pele e escleróticas e hepatomegalia
estendendo‑se até 4cm abaixo do rebordo costal direito, de consistência firme,
superfície lisa, bordo rombo, dolorosa à palpação. O estudo laboratorial
revelou bilirrubina total 11 mg/dL (fracção directa 9,6 mg/dL), GGT 987 UI/L,
FA 477 UI/L; AST 134 UI/L; ALT 85 UI/L, sem leucocitose ou neutrofilia e PCR
elevada (10 g/dL). A ecografia abdominal revelou fígado heterogéneo e
dismórfico, litíase vesicular e discreta dilatação das vias biliares
intrahepáticas [VBIH].
Tendo em conta a hipótese diagnóstica de litíase vesicular complicada de
coledocolitíase, realizou colangiopancreatografia endoscópica retrógrada
[CPRE], que mostrou litíase da vesícula, não se tendo observado dilatação ou
alterações endoluminais da via biliar principal [VBP] (fig. 1). Foi efectuada
esfincterotomia transpapilar endoscópica [ETE] e extracção de microcálculos
após exploração da VBP com balão de Forgaty e cesto de Dormia.
Figura 1Imagem da colangiografia inicial mostrando colelitíase (sem dilatação
ou alterações endoluminais da via biliar principal).
Cerca de 24 h após este procedimento, observou‑se agravamento clínico e
laboratorial, com aumento acentuado dos valores séricos de bilirrubina, GGT e
fosfatase alcalina. Foi submetido a nova CPRE, que mostrou a presença de um
defeito de repleção intraluminal justa‑hilar, que após exploração com balão, se
constatou tratar de um coágulo intraluminal (fig. 2A). Foram extraídos vários
coágulos volumosos com balão e foi colocada prótese biliar plástica na via
biliar principal (figs. 2B e 2C).
Figura 2Imagens endoscópicas de CPRE que mostram a presença de coágulos
extraídos da via biliar principal (2A e 2B) com balão de Forgaty.
Posteriormente, foi colocada prótese biliar plástica na via biliar principal
(2C).
Não se verificou descida significativa dos valores de hemoglobina ou
repercussão hemodinâmica, registando‑se descida lenta e gradual da
hiperbilirrubinemia para valores próximos ao da admissão.
Na investigação clínica do doente, este veio a realizar ressonância nuclear
magnética [RNM] abdominal e colangio‑RNM, que mostrou dilatação das VBIH e uma
lesão nodular hepática, com 6 cm de diâmetro, subcapsular direita, com extensão
peri‑hilar. O nódulo tinha pseudocápsula que captava contraste e era
heterogéneo, com áreas micronodulares hipercaptantes e extensas áreas
hipodensas que captavam o contraste tardiamente, sugestivas de necrose parcial
(fig. 3A). Observou‑se ainda transformação cavernomatosa da veia porta. A
tomografia computorizada (TC) abdominal confirmou este diagnóstico (fig. 3B)3.
Figura 3Imagens de RNM (3A e 3B ) e TC abdominal (3C e 3D) onde se observa uma
lesão nodular intrahepática, subcapsular direita, com extensão perihilar, com 6
cm. A lesão é heterogénea, com áreas hipercapatantes e hipocaptantes e
apresenta pesudocápsula.
Os valores séricos do CEA e da alfa‑feto proteína [AFP] estavam dentro dos
valores normais e o valor de CA 19,9 revelou‑se muito elevado (5.994 U/mL; N <
37U/mL).
O doente acabou por falecer, ao 33º dia de internamento, por infecção
respiratória nosocomial com choque séptico.
Discussão
A presença de neoplasias intrahepáticas ou do tracto biliar como causa
independente de hemobilia é uma situação rara,correspondendo a < 10% dos
casos1,3,4. Outras causas incluem: traumatismos acidentais ou iatrogénicos,
aneurismas da artéria hepática, coledocolitíase, hipertensão portal,
infestações parasitárias das vias biliares, hemosuccus pancreaticuse neoplasia
da vesícula5.
Nas situações de neoplasia, a presença de sangue nas vias biliares pode ser
consequência do envolvimento directo das vias biliares pelo tumor, da migração
de fragmentos tumorais para a via biliar principal ou de hemorragia
intratumoral3.
No doente apresentado, o quadro clínico inicial caracterizado por icterícia,
colúria e hepatomegália dolorosa, poderia corresponder a hepatite alcoólica. No
entanto, o doente referia abstinência alcoólica nos últimos 10 anos, os exames
laboratoriais não mostraram leucocitose ou neutrofilia e a ecografia abdominal
revelou dilatação das VBIH, factos que não apoiam este diagnóstico.
Assim, as hipóteses diagnósticas colocadas foram as de coledocolitíase e de
carcinoma hepatocelular, tendo em conta os antecedentes de litíase vesicular e
de cirrose hepática.
A Ecografia abdominal realizada na admissão revelou dilatação das VBIH e
confirmou a presença de litíase biliar, não tendo mostrado lesões nódulares
intrahepáticas, pelo que se considerou como mais provável a hipótese de
coledocolítiase.
O exame seguinte realizado foi a CPRE dada a elevada probabilidade de
necessidade de terapêutica endoscópica. No entanto, a colangiografia
endoscópica não confirmou esta hipótese diagnóstica, tendo‑se extraído apenas
microcálculos.
Pelo agravamento da icterícia precocemente após o procedimento, e considerando
a probabilidade de complicações e/ou retenção de cálculos biliares, realizou
nova CPRE que identificou hemobilia.
Posteriormente, para esclarecimento do quadro, realiza TC e a RM abdominal com
administração de contraste endovenoso, que mostraram o nódulo hepático. Estes
exames têm elevada sensibilidade para a detecção de nódulos hepáticos em
doentes com cirrose hepática e foram importantes para o estabelecimento do
diagnóstico.
A Ecografia abdominal não mostrou nódulos intrahepáticos. Este facto corrobora
os dados actuais que demonstram que a ecografia convencional, apesar de ter
elevada sensibilidade para o diagnóstico de nódulos hepáticos, nos doentes com
cirrose hepática, a sua sensibilidade é menor (entre os 68% e os 87%), uma vez
que as lesões tumorais podem ser confundidas com nódulos regenerativos. Outros
factores que também se relacionam com a sensibilidade da ecografia são o perfil
ecográfico do doente e a prática do executante6.
Os factores que contribuíram para o aparecimento de hemobilia, foram a presença
de um nódulo intrahepático com envolvimento da via biliar, associado à
realização de um procedimento invasivo na via biliar, que terá traumatizado a
lesão tumoral com consequente hemorragia e formação de coágulos que obstruíram
a via biliar.
A única manifestação de hemobilia foi o agravamento do quadro de icterícia
obstrutiva. De facto, apenas 22% dos doentes, apresenta a tríade sintomática
descrita por Quinke: hemorragia digestiva, dor abdominal e icterícia
obstrutiva7.
O tratamento da hemobilia depende da causa subjacente. No doente apresentado,
foi efectuada precocemente CPRE, o que permitiu a extracção dos coágulos e a
colocação de prótese biliar, com consequente descompressão biliar, redução da
icterícia e controle da hemorragia.
Neste doente, não foi efectuada caracterização histológica da lesão. A primeira
hipótese diagnóstica a colocar é de carcinoma hepatocelular, tendo em conta os
antecedentes de cirrose hepática. No entanto, os valores de AFP eram normais e
havia uma elevação marcada do CA 19,9, pelo que as hipóteses de
colangiocarcinoma intrahepático e de hepatocolangiocarcinoma, deverão também
ser consideradas, uma vez que a sua incidência está aumentada nos doentes com
cirrose hepática8,9.
Não foi possível o tratamento dirigido da lesão tumoral hepática, dada a
instabilidade clínica, a idade do doente, a sua performance status, o tamanho
da lesão e a presença de trombose da veia porta4.
Comentários
A hemobilia clinicamente significativa é uma complicação rara da CPRE,
correspondendo a uma pequena minoria dos casos de hemorragia pos‑CPRE.
O agravamento ou aparecimento «de novo» de icterícia, particularmente se
associado a descida dos valores de hemoglobina, hipotensão e/ou hemorragia
digestiva, é sugestivo da ocorrência de hemobilia. A CPRE é o método de eleição
para o seu diagnóstico e tratamento, permitindo a extracção de coágulos, a
descompressão biliar e a hemostase.