Megacólon Tóxico como Manifestação Inaugural de Colite Ulcerosa
Megacólon Tóxico como Manifestação Inaugural de Colite Ulcerosa
Toxic Megacolon as an Inaugural Manifestation of Ulcerative Colitis
Frederico Ferreira, Andreia Albuquerque, Susana Rodrigues, Pedro Pereira,
Fernando Magro, Guilherme Macedo
Serviço de Gastrenterologia - Hospital de São João
Correspondência
INTRODUÇÃO
O megacólon tóxico é caracterizado por dilatação cólica não obstrutiva,
segmentar ou total, associada a toxicidade sistémica. Os critérios diagnósticos
incluem, para além da distensão cólica ( > 6 cm) na radiografia abdominal, pelo
menos 3 de 4 condições: temperatura corporal > 38,5° C, taquicardia > 120 bpm,
leucocitose > 10,500/mm3 e anemia (Hb < 60% do valor normal); deverá ainda
estar presente uma das seguintes condições: alterações mentais, desidratação,
distúrbios electrolíticos ou hipotensão1.
Embora a colite ulcerosa seja uma das causas mais frequentes de megacólon
tóxico, a incidência desta complicação não é bem conhecida, variando entre 1 e
5 %2,3. Nos últimos anos, a sua incidência parece estar a diminuir,
possivelmente devido à detecção mais precoce da exacerbação e/ou à terapêutica
médica mais eficaz3,4. Sendo, no entanto, responsável por 50% das mortes
atribuídas à colite ulcerosa3,5.
CASO CLÍNICO
Doente de 53 anos do sexo feminino, sem antecedentes patológicos relevantes,
apresentando história familiar de doença inflamatória intestinal. Iniciou
quadro clínico de desconforto abdominal e diarreia (> 6 dejecções/dia, por
vezes com sangue); um mês após início da sintomatologia, por agravamento
clínico foi referenciada à consulta de Gastrenterologia, tendo realizado
ileocolonoscopia que revelou íleon sem lesões e ao longo de todo o cólon mucosa
com edema, friabilidade e úlceras profundas pleomórficas (fig. 1 e 2), aspecto
endoscópico compatível com pancolite ulcerosa, pelo que foi proposto
internamento. À admissão encontrava-se febril, com mucosas descoradas,
desidratadas e abdómen doloroso à palpação, sem sinais de irritação peritoneu.
Analiticamente, apresentava anemia (Hb - 10,8g/dl; referência 12 - 16g/dL),
trombocitose (726 x 109/L; referência 180 ' 500 x 109/L), hipoalbuminémia (22,4
g/L; referência 38 ' 51 g/L) hipocaliémia (2,9 mEq/L; referência 3,5 - 5,1 mEq/
L) e PCR de 347 mg/L (referência < 3 mg/L).
Fig. 1 e 2.Ileocolonoscopia mostrando ao longo de todo cólon ulceração profunda
de morfologia pleomórfica.
A radiografia abdominal simples em pé revelou dilatação cólica com calibre
máximo de 87 mm, preenchendo os critérios de megacólon tóxico (três condições
major: febre, leucocitose, anemia; duas condições minor: desidratação e
desequilíbrios electrolíticos). A TC abdomino-pélvico confirmou a distensão
cólica, excluindo-se perfuração sub-clínica ou abcesso intra-abdominal (fig.
3). Iniciou perfusão contínua de prednisolona 1 mg/Kg/dia e antibioterapia de
largo espectro, sendo avaliada diariamente por equipa médico-cirúrgica.
Fig. 3. TC abdomino-pélvico mostrando distensão cólica e hipercaptação difusa
da mucosa.
O exame anatomo-patológico das biópsias cólicas revelou microabcessos
crípticos, desorganização arquitectural e ulceração; a polymerase chain
reaction para citomegalovírus e Mycobacterium tuberculosis e a
imunohistoquimica nas biópsias cólicas foram negativas. O exame parasitológico
e bacteriológico de fezes e a pesquisa da toxina de Clostridium difficille
foram negativas; a prova tuberculinica foi negativa (0 mm) e a radiografia
pulmonar não mostrou alterações.
Com a terapêutica instituída, ao 3º dia de internamento, apresentava-se sem
queixas álgicas, apirética, com 2 dejecções por dia sem sangue, e descida
acentuada dos marcadores inflamatórios (PCR - 110 mg/L). Ao 16º dia de
internamento iniciou inunossupressão com azatioprina, tendo alta ao 19º dia.
Após 6 meses de follow-up mantêm-se em remissão clínica, apresentando
cicatrização completa da mucosa cólica; medicada com azatioprina (2mg/Kg/dia) e
messalazina (3g/dia).
Devido a esta forma de apresentação da colite ulcerosa apresentar elevada
mortalidade e os doentes que respondem à terapêutica médica possuírem elevado
risco de recidiva grave e de colectomia4, sugere-se uma atenta vigilância
clínica e introdução precoce de imunossupressão, tal como sucedeu neste caso.