Migração de Prótese de Rectopexia
Migração de Prótese de Rectopexia
Migration of Rectopexy Prosthesis
Liliana Santos1, Jaime Ramos1, João Coimbra1, David Andrade2, Rui Macedo2
1Serviço de Gastrenterologia, 2Serviço de Cirurgia Geral 5 do Hospital Santo
António dos Capuchos - Centro Hospitalar de Lisboa Central
Correspondência
O prolapso rectal (PR) é uma doença pouco comum em adultos jovens. As
manifestações mais frequentes são o prolapso/protrusão per ânus e a obstipação,
mas pode estar associado a incontinência anal. Podem coexistir colite quística
profunda e síndrome da úlcera solitária do recto (SUSR). A SUSR, a manifestação
mais frequente do PR, apresenta úlceras, eritema ou formações polipóides na
mucosa rectal, classificando-se macroscopicamente em 3 tipos:ulcerativa (55%),
polipóide (24%) e plana (21%)1.
O tratamento consiste numa rectopexia e/ou rectosigmoidectomia, por via
abdominal ou perineal. A escolha da abordagem cirúrgica é ditada pela idade do
doente e pelas doenças coexistentes.
A rectopexia, laparoscópica ou por laparotomia, obtém melhor resposta funcional
e menor taxa de recorrência e é considerada a melhor opção em doentes jovens
sem outras doenças.
A rectopexia por via laparoscópica, com uma taxa de sucesso idêntica à da
laparotomia, tem a vantagem de reduzir a dor e os dias de hospitalização. O
procedimento consiste na fixação do recto ao promontório, efectuada com sutura
simples ou com a colocação de prótese. A prótese é utilizada para induzir uma
maior reacção inflamatória e formação de tecido cicatricial, com vista a uma
maior fixação do recto e redução da recorrência. No entanto, os estudos
realizados revelaram uma maior morbilidade associada a este procedimento,
nomeadamente a infecção da prótese, formação de estenoses, fístulas ou migração
para o recto (7% dos casos), não se tendo constatado diminuição da recorrência.
O tratamento preferencial destas complicações consiste na remoção da prótese,
por laparotomia ou por via anal2,3.
Apresentamos uma doente, sexo feminino, 26 anos de idade, caucasiana, com
quadro com 5 anos de evolução caracterizado por prolapso anal,proctorreia,
incontinência anal, rectorragias e dor no hipogastro. Três anos antes tinha
sido submetida a cirurgia por prolapso rectal por via anal, sem melhoria. Sem
outros dados anamnésicos, nomeadamente actividade sexual.
Ao exame proctológico apresentava proctorreia abundante, fétida e prolapso
rectal. A rectosigmoidoscopia mostrou múltiplas formações polipóides no recto
(Fig. 1 e 2). Asserologias para Clamydiaspp, VIH (1 + 2), Herpes Simplex (1 +
2), VDRL e TPHA foram negativas. O exame parasitológico e bacteriológico das
fezes, do exudado anal e vaginal também se revelaram negativos.
Fig. 1. Exame proctológico que revela a presença de múltiplos nódulos no recto.
1a ' canal anal proximal; 1b' anel anorectal e rectoproximal; 1c ' recto
proximal.
Fig. 2. Prolapso rectal evidenciado durante a realização de
rectosigmoidoscopia, após manobra de Valsalva.
O estudo histológico da biopsia rectal foi compatível com colite infecciosa e
pólipos inflamatórios (Fig. 3).
Fig. 3.Exame histológico (Hematoxilina & Eosina) dos nódulos do recto que
mostra aspectos de colite infecciosa (3a) e pólipo inflamatório (3b).
Fez terapêutica com cefuroxime e metronidazol oral, associado a metronidazol e
budesonido tópicos, tendo-se verificado significativa redução do volume da
proctorreia. Posteriormente, foi submetida a ressecção anterior recto-
sigmoideia, rectopexia com colocação de prótese depolipropileno e
transversostomia provisória, tendo ficado assintomática. Nove meses depois, foi
encerrada acolostomia tendo permanecido sem recidiva das queixas. No entanto, 3
meses depois, inicia queixas de tenesmo e falsas vontades, tendo realizada nova
rectosigmoidoscopia, que mostrou migração parcial da prótese de polipropileno
para o recto (Fig. 4). Foi submetida alaparotomia com remoção da prótese. Dois
anos após a cirurgia, permanece assintomática sem evidência de prolapso
rectoanal.
Fig. 4.Rectosigmoidoscopia realizada três meses após a cirurgia, que mostra
migração para o recto de prótese de polipropileno colocada aquando da
realização de rectopexia.