TERAPÊUTICA MÉDICA
INTRODUÇÃO
A terapêutica médica da doença de Crohn (DC) é influenciada por diversas condicionantes entre as quais a elevada heterogeneidade no que respeita à localização dos
segmentos envolvidos, comportamento predominante e
gravidade. Por outro lado não existe uma classificação
simples ou escala de severidade facilmente transponível
para a prática clínica.
Assim, em relação a cada paciente que vai iniciar tratamento, devem ser previamente avaliados diversos
parâmetros, nomeadamente os segmentos intestinais
envolvidos, as complicações que tenham surgido tais
como estenoses, fístulas ou massas inflamatórias, as
sequelas metabólicas e as eventuais manifestações extra
intestinais. Além disso devem ser levadas em consideração as respostas a tratamentos anteriormente instituídos e deve procurar-se que as decisões sejam discutidas
numa perspectiva médico-cirúrgica e com o máximo
envolvimento possível do paciente.
A terapêutica da DC deve ainda ser discutida tendo em
atenção que tão importante como controlar uma crise é
manter o paciente em remissão e que a avaliação dos
diferentes tratamentos deve ter como parâmetro preferencial o resultado a longo prazo.
SALICILATOS
O uso dos salicilatos na doença de Crohn é actualmente
um tema controverso, acerca do qual se encontram com
facilidade posições divergentes (1,2), havendo um contraste entre o amplo uso clínico destes medicamentos e
os resultados dos ensaios que deveriam suportar a sua
utilização. Estas dúvidas existem quer no tratamento das
agudizações quer na terapêutica de manutenção.
O uso dos salicilatos no tratamento da doença de Crohn
foi inicialmente avaliado durante os ensaios cooperativos americano e europeu, nos quais se verificou que a
salazopirina era eficaz no tratamento de pacientes com
doença no cólon, mas não nos que tinham doença a nível
do intestino delgado (3, 4).
Com o aparecimento das formulações nas quais a
molécula de 5-ASA surgia isolada do componente sulfamídico surgiu a ideia de que estes compostos poderiam associar a uma menor taxa de feitos secundários uma
possível eficácia nas localizações ileais, já que a sua
actuação passava a ser independente da actividade bacteriana a qual era necessária para a libertação do 5-ASA
na salazopirina. Esta possibilidade foi inicialmente
apoiada por resultados promissores nos ensaios efectuados (5,6) e estes resultados associados ao excelente perfil de segurança destes fármacos levaram à sua difusão
generalizada como terapêutica de primeira linha na
doença de Crohn.
Mais recentemente esta visão tem sido questionada,
nomeadamente por existirem dois estudos posteriores
negativos e porque a meta-análise que os reúne ao estudo inicial apresentar uma diferença no CDAI de muito
reduzido significado clínico (7). Realmente neste estudo
congregando dados de 615 doentes encontramos uma
diferença na diminuição do CDAI de apenas 18 pontos
entre o grupo tratado com 5-ASA e o placebo.
Por outro lado e quando se analisam os resultados de
séries populacionais verifica-se que existe uma importante percentagem de doentes que não necessita de terapêuticas mais agressivas, nomeadamente corticosteróides ou imunossupressores (8), o que talvez
explique a contradição que parece continuar a verificarse entre a prática clínica e a evidência disponível.
A eficácia dos salicilatos na prevenção das recidivas
após tratamento médico foi intensamente avaliada,
existindo mais de uma dezena de estudos, três meta-análises e uma revisão Cochrane (9-12) com este
propósito. Embora existam alguns estudos positivos, no
seu conjunto os dados conhecidos não permitem sustentar uma indicação formal para a sua utilização como terapêutica de manutenção.
Outra área onde o uso dos salicilatos se encontra envolta em polémica é a profilaxia da recorrência pós cirúrgica, com uma vez mais os dados iniciais (11) a entrarem
em contradição com os trabalhos mais recentes (13). De
qualquer modo dada a ausência de estratégias completamente comprovadas, a terapêutica com salicilatos continua a admitir-se como alternativa, sobretudo no subgrupo de pacientes com doença do íleo terminal (14).
CORTICOSTERÓIDES
Os corticosteróides são frequentemente usados no tratamento da DC, sobretudo na indução da remissão. Do
ponto de vista clínico podem ser subdivididos em corticosteroides sistémicos e tópicos. No primeiro grupo
incluem-se as formulações orais e parentéricas da prednisolona, hidrocortisona, metil-prednisolona, etc e no
segundo as formulações em supositórios e enemas mas
também eventualmente o budesonido. Este fármaco
apresenta como características específicas uma potência
elevada associada a uma reduzida biodisponibilidade
sistémica, explicada por um efeito de primeira passagem
extenso, com formação de dois metabolitos sem actividade terapêutica.
O budesonido deve ser considerado como a primeira
escolha para a doença de Crohn ligeira a moderada
localizada ao íleo terminal e cólon ascendente. Esta
opção fundamenta-se nos trabalhos que mostram a sua
eficácia por comparação com o placebo (15) e superioridade em relação aos salicilatos (16). A dose recomendada é 9 mg por dia e o tempo para início de acção ronda
as duas semanas. Os trabalhos que comparam o seu uso
em relação à prednisolona mostram uma eficácia sobreponível associada a um perfil de segurança mais
favorável. Se em relação a este último aspecto o consenso é total, em relação ao primeiro parecem existir algumas dúvidas já que uma meta-análise dos diversos
ensaios evidencia menor eficácia do budesonido nos
doentes com CDAI > 300 (17).
Os corticosteróides ditos convencionais, prednisolona
ou metil-predenisolona, estão indicados para o tratamento de pacientes com sintomas considerados moderados a
severos, independentemente da localização bem como
dos doentes que falharam o budesonido. A eficácia
destes fármacos encontra-se documentada desde há mais
de duas décadas nos trabalhos cooperativos norte-americano e europeu (3, 4). No primeiro trabalho foram randomizados 162 doentes e a dose de prednisolona utilizada variou entre 0.5 a 0.75 mg / kg, no segundo foram
incluídos 215 pacientes tratados com 48 mg de metilpre-dnisolona.
Contrastando com o que acontece na indução da remissão não se encontra na literatura suporte significativo
para o uso dos corticosteróides como terapêutica de
manutenção. Assim no NCCDS (3) quer no subgrupo
que entrou em remissão com o tratamento médico quer
no subgrupo que entrou directamente na fase de
manutenção não se verificou vantagem dos corticosteróides sobre o placebo.
No ECCDS (4) embora exista uma menor taxa de recidivas no grupo tratado com metilprednisolona tal apenas é
significativo para o subgrupo de doentes que entraram
em remissão após terapêutica com corticosteróides, o
que parece traduzir mais a acção desta medicação nos
pacientes corticodependentes do que um efeito terapêutico de manutenção.
A estas limitações no suporte científico para o seu uso
associa-se uma taxa de efeitos secundários proibitiva
quando a sua utilização é muito prolongada. Cerca de
50% dos pacientes incluídos no NCCDS vieram a apresentar efeitos secundários (18) os quais particularmente
nos doentes com uso prolongado, normalmente definido
como mais de 12 semanas, podem incluir cataratas,
osteoporose e osteonecrose, miopatia, diabetes e aumento da susceptibilidade a infecções.
IMUNOSSUPRESSORES
Azatioprina e 6 Mercaptopurina
A 6 mercaptopurina ou sobretudo a sua pro-droga azatioprina são os imunossupressores mais utilizados na
doença de Crohn. Embora seja consensual que a sua
actuação se faz através dos metabolitos 6-tioguanina o
exacto mecanismo de acção permanece desconhecido,
indicando-se entre outras a sua capacidade de inibir a
proliferação e causar apoptose linfocitária, mas também
a suas propriedades anti-inflamatórias directas.
Contrastando com as dúvidas sobre o mecanismo de
acção encontram-se bem definidas a dose, o tempo de
latência até ao efeito clínico e até de certo modo a
duração do tratamento. Em relação aos dois primeiros
aspectos recomenda-se que a azatioprina seja utilizada
na dose de 2 a 3 mg / kg e que o benefício clínico deve
ser esperado, na maioria dos casos, ao fim de 2 a 3 meses
(19). No que concerne ao tempo de tratamento se bem
que não existam recomendações definitivas os recentes
trabalhos do grupo francês GETAID vieram pelo menos
demonstrar que mesmo em doentes em remissão há longos períodos a suspensão do fármaco provoca a médio
prazo aumento na taxa de recidivas (20).
Embora existam dois estudos que mostram eficácia da
azatioprina no tratamento das agudizações (21, 22) este
resultado está longe de ser uniforme pelo que esta indicação, sobretudo nos doentes corticorresistentes, tem
vindo a perder importância face à terapêutica biológica.
Assim a principal indicação para o uso da azatioprina na
doença de Crohn é a manutenção da remissão, nomeadamente em doentes corticodependentes. Este subgrupo
pode ser definido de forma mais restritiva, quando em
três meses de tratamento não é possível descer a dose do
corticóide além de 10 mg / dia (prednisolona) sem que se
verifique recidiva clínica ou quando esta se verifica até
três meses após ter terminado a corticoterapia (19) ou ser
entendido numa perspectiva mais ampla como o grupo
de doentes que apresentam agudizações frequentes e nos
quais é importante utilizar fármacos poupadores de corticosteróides no sentido de evitar a sua toxicidade por
dose acumulada. Existem pelo menos 7 estudos randomizados sobre o uso da azatioprina como fármaco de
manutenção, incluindo 3 em que os doentes eram corticodependentes. Em todos se verificou que esta estratégia
produzia taxas de manutenção de remissão estatisticamente superiores (23-25).
Um outro cenário onde a azatioprina tem sido utilizada é
na prevenção da recidiva pós cirurgia. Apesar de existirem algumas recomendações para o seu uso nestas circunstâncias (14, 26), sobretudo nos pacientes de alto
risco, a revisão da literatura revela a existência de dois
ensaios randomizados, um mostrando superioridade ver-
sus o placebo (27) e o outro resultados sobreponíveis à
messalazina (28), mas ambos com alguns deficits estruturais e por isso incapazes de sustentarem linhas de orientação definitivas.
Metotrexato
É menos usado que a azatioprina na doença de Crohn
mas constitui pelas suas propriedades imunomoduladoras e anti-inflamatórias um dos pilares do tratamento de
outras afecções com alguma sobreposição fisiopatológica como a artrite reumatóide e a psoríase. A existência de
alguns estudos preliminares com resultados promissores
levou a que fossem desenhados e concluídos dois estudos randomizados avaliando a eficácia do fármaco no
tratamento das agudizações (29) e na manutenção (30).
As doses recomendadas a partir desses estudos são
respectivamente 25 e 15 mg por semana administrados
por via parentérica, pois ao contrário do que acontece na
artrite reumatóide não existem dados que possam com
segurança sustentar a administração oral. Apesar disso
alguns autores admitem o uso dessa via quando as doses
são inferiores a 20 mg e não existe compromisso do
intestino delgado (31).
Infliximab
O Infliximab é um anti-corpo monoclonal dirigido contra o TNF-α humano e que é usado no tratamento da
doença de Crohn desde 1998. A sua eficácia no tratamento de pacientes com doença de Crohn foi avaliada
em dois estudos randomizados e controlados nos quais
foram incluídos doentes em fase activa apesar do tratamento com salicilatos, corticosteróides ou imunossupressores. No primeiro estudo foram incluídos doentes
sem fístulas tendo sido obtida uma resposta clínica
(diminuição de 70 pontos no CDAI) em 81% dos
pacientes tratados com 5 mg/ kg comparado com 17% no
grupo placebo (32). No segundo ensaio, dedicado à
doença fistulizante, foram incluídos 94 doentes com fístulas entero-cutâneas, a maioria peri-anais. O encerramento de todas as fístulas durante pelo menos 1 mês foi
conseguido em 55% dos doentes no grupo infliximab
(5mg/kg, às 0, 2, 6 semanas) versus 13% no grupo placebo (33). Estes estudos estabeleceram a fundamentação
da eficácia do infliximab e permitiram o desenho de outros com o propósito de definir quais os esquemas terapêuticos mais eficazes e ao mesmo tempo avaliar os
resultados a médio prazo. Num estudo englobando 580
doentes denominado ACCENT I e tendo como "end
points" primários a remissão à semana 30 e resposta à
semana 54 ficou demonstrado que o infliximab podia ser
utilizado como terapêutica de manutenção já que em
ambos os parâmetros se verificou uma diferença estatisticamente significativa com o placebo. Uma análise post
hoc efectuada sobre os mesmos pacientes demonstrou
ainda que a administração do fármaco a intervalos de 8
semanas apresentava algumas vantagens na eficácia mas
também nas taxas de cicatrização, número de cirurgias e
internamentos (34). Uma vantagem adicional da utilização do infliximab neste esquema é a diminuição da taxa
de anticorpos anti-infliximab, os quais pelo menos na
administração episódica foram associados a maior risco
de reacções à infusão e menor duração da resposta (35).
Um aspecto que não está definitivamente esclarecido é a
necessidade de associar imunossupressores (azatioprina
ou metotrexato) ao infliximab. Existem estudos nos
quais essa associação parece necessária para prevenir e
manter a resposta mas nenhum randomizado e controlado para responder a esta questão. Até que dados definitivos sejam obtidos tem prevalecido a ideia que na
doença de Crohn possa acontecer algo de semelhante ao
que se verifica na artrite reumatóide na qual se demonstrou o beneficio de associar metotrexato ao infliximab e
portanto a associação com os imunossupressores tem
sido recomendada (36, 37).
Resultados sobreponíveis aos obtidos nos doentes sem
fístulas foram conseguidos na doença fistulizante através
de um ensaio (ACCENT II) no qual foram incluídos 306
doentes (38).
Do conjunto destes estudos resultaram recomendações
consensuais sobre a dose, 5 mg/kg, e com algumas vozes
discordantes (39) sobre a necessidade de aplicar em
todos os doentes um esquema de indução com administrações às 0, 2 e 6 semanas bem como manutenção de 8
em 8 semanas.
Um outro aspecto intensamente debatido, até pelo carácter inovador que este fármaco representou, foi o seu
perfil de segurança. Embora seja globalmente considerado um medicamento seguro existem efeitos secundários
potenciais, inerentes ao próprio fármaco mas que podem
ser potenciados pela situação clínica habitualmente
grave e pelas terapêuticas concomitantes destes
pacientes.
Entre os efeitos secundários possíveis encontra-se o
aumento de susceptibilidade a infecções, sendo incontestável para algumas como a tuberculose e permanecendo dúvidas sobre outras (40). Existe também um risco de
reacções à infusão, as quais no entanto apenas numa
pequena percentagem correspondem a problemas clínicos relevantes, aparecimento de auto-anticorpos e raramente reacções de lúpus induzido por drogas. Particular
atenção tem sido dada ao possível aumento na incidência
de neoplasias, nomeadamente de linfomas, com os dados
disponíveis a não serem totalmente esclarecedores.
Assim, os dados iniciais divulgados pela FDA (41), a
qual encontrou um aumento na taxa de linfomas, contrastam com o registo TREAT (40) no qual esse aumento não é aparente. De qualquer modo é recomendável
que esta problemática faça parte da discussão a manter
com um doente que vai iniciar tratamento com infliximab ou com outro imunossupressor (26).
NOVOS FÁRMACOS
A área terapêutica da doença de Crohn é actualmente
sede de intensa investigação, existindo diversas moléculas a serem ensaiadas, e algumas já próximas da
aprovação pelas entidades reguladoras do medicamento.
A terapêutica biológica, iniciada com o infliximab será
brevemente enriquecida com novos fármacos anti-TNF,
nomeadamente o certolizumab e o adalimumab. O
primeiro é um fragmento Fab de um anticorpo humanizado que foi sujeito a um processo de peguilação e o
segundo é um anticorpo monoclonal humano, tendo
ambos sido considerados, em ensaios randomizados e
controlados, eficazes no tratamento da doença de Crohn
(42, 43, 44).
Ainda dentro da terapêutica biológica uma outra
molécula já ensaiada é o natalizumab, um anticorpo
monoclonal humanizado contra a integrina α 4. Este fármaco encontra-se numa fase de reavaliação pois apresentou resultados interessantes mas também um efeito
secundário preocupante (45, 46).
Uma outra linha de investigação centra-se no uso de probióticos sobretudo no tratamento de manutenção. Apesar
de alguns resultados promissores persistem dúvidas
sobre a real valia desta terapêutica.
Para além das moléculas descriminadas existem diversos agentes terapêuticos que estão ainda em fase de
avaliação ou que apresentam resultados contraditórios e
portanto não reuniram ainda consenso para serem admitidos como fazendo parte da terapêutica da doença de
Crohn.