Torção de hematossalpinge numa adolescente
INTRODUÇÃO
A torção isolada da trompa de Falópio é uma causa rara de dor abdominal aguda.
Estima-se que a sua incidência seja de 1 em cada 1,5 milhões de mulheres(1).
Dada a sua raridade, a incidência na infância e adolescência não é conhecida
(2).
A etiologia da torção tubária não está completamente esclarecida. Ocorre
geralmente associada a patologia tubária: quistos, tumefações, carcinoma da
trompa, hidrossalpinge, hematossalpinge ou endometriose.
O exame clínico é fundamental, contudo inespecífi A realização de ecografi com
Doppler a cores permite um estudo cada vez mais acurado das massas anexiais. No
entanto, o diagnóstico pré-operatório de torção tubária é difícil e realizado
em menos de 20% dos casos(1). O diagnóstico definitivo é intra-operatório.
CASO CLÍNICO
Os autores apresentam o caso de uma adolescente de 12 anos que recorreu ao
serviço de urgência por dor intermitente no quadrante inferior esquerdo do
abdómen, com dois dias de evolução, associada a náuseas. Não referia sintomas
sugestivos de patologia urinária ou gastrointestinal. A menarca ocorreu aos 11
anos, com ciclos regulares, sem antecedentes médico-cirúrgicos relevantes.
Ao exame objetivo, apresentava sinais vitais normais, defesa à palpação e
descompressão dolorosa do quadrante inferior esquerdo do abdómen. O exame
ginecológico bimanual foi evitado, dada a integridade himenial. Ao toque
rectal, palpava-se uma massa móvel, de consistência elástica, dolorosa, na
região anexial esquerda.
Não se verificaram alterações analíticas.
A ecografia pélvica revelou uma massa cística com aproximadamente 5 cm de maior
eixo, com conteúdo hiperecogénico (padrão reticular), sugestivo de quisto
hemorrágico. Não apresentava outras alterações ecográficas relevantes.
Dada a dificuldade diagnóstica, tentou-se a abordagem laparoscópica, que não
foi possível por indisponibilidade de material. A exploração por
minilaparotomia permitiu-nos observar uma tumefação do segmento distal da
trompa esquerda, de cor vinosa, com aproximadamente 5 cm de maior dimensão,
sugestiva de hematossalpinge, torcida quatro vezes sobre o seu próprio eixo
(Figura_1). O útero e o anexo direito não apresentavam alterações
macroscópicas. Não havia evidência de endometriose pélvica. Dado o aspeto
necrosado da trompa, realizou-se salpingectomia esquerda, com preservação
ovárica.
A peça operatória foi enviada para exame anátomo-patológico, que revelou áreas
de hemorragia e necrose, sem sinais de malignidade.
A recuperação no pós-operatório foi favorável e teve alta melhorada dois dias
após a intervenção cirúrgica.
DISCUSSÃO
Na pós-menarca, entre os diagnósticos diferenciais de dor anexial esquerda
deverão ser considerados: gravidez ectópica, rotura de corpo lúteo ou quisto
ovárico, abcesso tubo-ovárico ou torção de estruturas anexiais.
No caso apresentado/descrito, a evolução aguda do quadro clínico, com
agravamento súbito da dor de localização unilateral, associada a imagem
ecográfica de tumefação anexial, acompanhada de náuseas e vómitos, sugeriu a
hipótese diagnóstica de torção anexial.
A torção da trompa é uma entidade rara, que ocorre usualmente em idade
reprodutiva, e cujo diagnóstico pré-operatório é difícil. Pode estar associada
a diversas causas intrínsecas ou extrínsecas. Entre as causas intrínsecas
destacam-se: anomalias congénitas da trompa, hidrossalpinge, hematossalpinge,
neoplasia da trompa e cirurgia pélvica prévia, nomeadamente a laqueação
tubária. Entre as causas extrínsecas a considerar incluem-se/citam-se as
tumefações ováricas e para-tubárias, gravidez extra-uterina, traumatismo,
endometriose, aderências e congestão pélvica(1).
Krstic(3), em 1951, descreveu o primeiro caso de torção anexial associada a
hidrossalpinge numa adolescente de 13 anos. A hidrossalpinge na infância e
adolescência está mais frequentemente relacionada com doença inflamatória
pélvica, no entanto, em muitos dos casos descritos não se conhecem fatores
predisponentes(4).
A hematossalpinge está mais comummente associada a situações de gravidez extra-
uterina, endometriose, obstrução vaginal (com fluxo menstrual retrógrado),
outras anomalias müllerianas ou carcinoma da trompa(5,6). A sua incidência na
adolescência é muito rara.
Os achados ecográficos variam de acordo com o tipo de patologia anexial
associada, o grau de gravidade e a duração da torção.
Imagiologicamente pode observar-se uma tumefação quística, alongada, com septos
incompletos, com conteúdo de hipoecogénico (sugestivo de hidrossalpinge),
hiperecogénico (sugestivo de hematossalpinge) ou com conteúdo de ecogenicidade
variável. O Doppler a cores pode ser útil no diagnóstico diferencial, mas a
presença de um fluxo normal não exclui o diagnóstico de torção, dada a dupla
vascularização do ovário e da trompa(1,7).
O diagnóstico definitivo e tratamento são possíveis através da abordagem
cirúrgica.
Em todos os casos sintomáticos, se houver suspeita de torção anexial, é
mandatória uma abordagem cirúrgica, preferencialmente por via laparoscópica(4).
Na presença de sinais de necrose ou compromisso vascular da trompa, deve ser
realizada salpingectomia. Os ovários devem ser preservados sempre que possível,
mesmo perante sinais de necrose(1,7).
Como conclusão, sugerimos que no diagnóstico diferencial de dor abdominal aguda
numa adolescente seja considerada a torção isolada da trompa, apesar da sua
raridade. Segundo a nossa pesquisa/consulta bibliográfica, este é o primeiro
caso descrito de torção de hematossalpinge numa adolescente sem fatores
predisponentes conhecidos.