Causa moderna de uma dermatose antiga: Eritema ab igne
INTRODUÇÃO
O eritema ab igneé uma dermatose hiperpigmentada, com disposição reticular,
ocasionalmente eritematosa e telangiectásica. Resulta de uma exposição repetida
e prolongada a radiações infravermelhas em níveis insuficientes para a
ocorrência de queimadura (geralmente correspondentes a temperaturas entre os 43
e os 47ºC). O período entre o início da exposição à radiação e a ocorrência de
dermatose pode variar entre duas semanas a um ano, consoante a intensidade da
radiação e interposição de vestuário.(1,2)
Embora o mecanismo fisiopatológico não esteja claramente esclarecido,
inicialmente ocorre eritema cutâneo transitório (secundárioa um processo de
vasodilatação), com posterior evolução para lesões reticuladas persistentes,
eritemato-acastanhadas, devido à deposição de hemossiderina na derme.(3) As
lesões são geralmente assintomáticas, contudo ardor e prurido foram descritos
em alguns casos.(3-6)
O diagnóstico é clínico, estando apenas indicada biópsia cutânea quando há
suspeita de malignização.(6-9) As alterações histopatológicas são
inespecíficas, podendo incluir: hiperqueratose, atrofia da epiderme, infiltrado
liquenoide paucicelular, bem como alteração das fibras elásticas.(8) Em algumas
situações impõe-se o diagnóstico diferencial com livedo reticularis, vasculite
livedoide e poiquilodermia.(10)
O tratamento consiste primariamente na evicção precoce do fator desencadeante.
Nas zonas expostas à radiação ultravioleta é importante uma fotoproteção
adequada.(10)
Geralmente verifica-se resolução completa das lesões cutâneas, semanas a meses
após evicção do agente etiológico. Contudo, hiperpigmentação residual, atrofia
cutânea, hiperqueratose ou mesmo malignização, pode ocorrer em contexto de
exposição crónica.(10) O carcinoma espinocelular é o mais frequente, seguido do
carcinoma de células de Merkel.(4,5,7,11)
CASO CLÍNICO
Rapaz de 17 anos de idade, referenciado à consulta de Dermatologia por lesões
cutâneas na face anterior da coxa esquerda, com cerca de cinco meses de
evolução. Sem sintomas subjetivos associados ou história de traumatismo local.
Sem hábitos medicamentosos, à exceção de insulinoterapia desde os 13 anos por
Diabetes Mellitus tipo 1 (insulina administrada no abdómen). Restantes
antecedentes, pessoais e familiares, irrelevantes.
À observação, apresentava no terço médio da face anterior da coxa esquerda,
lesões maculosas, telangiectásicas, eritemato-acastanhadas, reticuladas e
livedoides, que não desapareciam à vitropressão (Figuras_1 e 2); sem outro
envolvimento cutâneo. Restante exame clínico normal.
No decurso da consulta, o doente confirmou utilizar diariamente o computador
portátil apoiado diretamente sobre as coxas, durante várias horas por dia,
desde há cerca de seis meses. A zona de maior sobreaquecimento do dispositivo
localizava-se à esquerda, sendo coincidente com a localização das lesões
cutâneas.
Perante a hipótese diagnóstica de eritema ab igne, foi recomendada evicção do
fator desencadeante, tendo-se verificado desaparecimento completo das lesões
cerca de um mês depois.
DISCUSSÃO
Eritema ab ignesignifica eritema causado pelo fogo. Encontra-se historicamente
associado a exposições prolongadas ao fogo ou fogões a carvão (braseiras),
resultando em lesões cutâneas tipicamente localizadas nos membros inferiores. A
sua incidência diminuiu após o surgimento do aquecimento central,(4,5,7) embora
continue a ser mais frequente em regiões com clima frio.(12) Atualmente atinge
até 3% da população,(1) sendo raro em idades jovens.(5,13)
Outras fontes de calor têm sido associadas à ocorrência de eritema ab igne,
como por exemplo: botijas de água quente, almofadas aquecidas, aquecedores
elétricos e radiadores de automóveis.
Desde a primeira publicação em 2004, casos de eritema ab igneinduzido pelo
computador portátil têm sido descritos na literatura.(1-5,8,10-12,14,15) As
lesões cutâneas envolvem tipicamente as coxas, podendo ser uni ou bilaterais.
Geralmente são mais acentuadas à esquerda, coincidindo com a zona de maior
sobreaquecimento da maioria dos computadores portáteis,(3-5) tal como se
verificou no nosso doente. Os principais componentes geradores de calor são as
Unidades de Processamento Gráfico e Central; a oclusão da ventoinha de
arrefecimento também contribui para o aquecimento destes dispositivos.(3,5,10)
O eritema ab igneinduzido pelo computador portátil é uma entidade clínica pouco
conhecida e provavelmente subdiagnosticada. Contudo, tendo em conta o uso
crescente e cada vez mais precoce destes dispositivos é previsível que haja um
aumento do número de casos nos próximos anos.
A possível irreversibilidade das lesões cutâneas e a gravidade das potenciais
complicações reforçam a necessidade de estar alerta para esta patologia.
Tratando-se de uma situação prevenível cabe aos profissionais de saúde informar
e esclarecer os pais e utilizadores.
Neste caso em particular poderá a coexistência de Diabetes Mellitus ter
facilitado o desenvolvimento desta dermatose? Embora não exista, até ao
momento, nenhum outro caso descrito de eritema ab igneinduzido pelo computador
portátil num doente diabético, consideramos esta questão pertinente atendendo
às potenciais alterações vasculares secundárias à Diabetes Mellitus, ainda que
não exista evidência clínica de outro envolvimento vascular neste doente.