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Representação em texto

EuPTCVHe0872-07542013000400007

variedadeEu
ano2013
fonteScielo

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Psiquiátrico, aditivo ou orgânico: um desafio nos adolescentes

INTRODUÇÃO O alargamento da idade pediátrica até atingir os 18 anos de idade introduziu novos desafios e novas patologias no atendimento pediátrico, que obrigatoriamente refletiram a necessidade de abordagens distintas e adequadas ao novo grupo etário.

Tendo por base a mesma formação médica, sem a aquisição de conhecimento e técnicas especializadas a este grupo, esta estratégia de alargamento conduziu a dificuldades nos cuidados de saúde direcionados ao adolescente, que culmina numa eventual diminuição da qualidade assistencial.

No adolescente, tal como noutras faixas etárias (o recém-nascido, a criança, o idoso), é necessário um cuidado de saúde especializado. Trata-se de um período de desenvolvimento psíquico, sexual, social e cognitivo, raramente em uníssono ou em harmonia completa. É uma época de autonomização, de descoberta e de desenvolvimento de identidade própria, numa dinâmica repleta de insegurança. A sensação de invencibilidade e a necessidade de agradar aos pares traduz-se em comportamentos de risco, agressividade, flutuações de humor e instabilidade comportamental.

A habilidade do clínico em estabelecer uma relação médico-doente efetiva é crucial. É necessária uma interação confortável, respeitando o adolescente, e abordando-o sempre de forma não pejorativa, estabelecendo os limites da confidencialidade.

Os pais ou responsáveis pelo doente devem dar a sua perceção sobre o problema.

O pensamento clínico deve manter-se completo, objetivo e lógico. O diagnóstico diferencial continua a ser o desafio do Pediatra, nomeadamente em adolescentes com alteração do comportamento, problema cada vez mais frequente no nosso dia- a-dia. No topo de lista do diagnóstico diferencial para esta faixa etária têm presença constante as intoxicações alcoólicas, medicamentosas ou outras, as drogas de abuso e outros comportamentos de risco(1). O alerta para todas as hipóteses deve manter-se, valorizando as queixas do doente em toda a sua plenitude.

CASO CLÍNICO Apresentamos o caso de um adolescente de 16 anos, do sexo masculino, previamente saudável. Recorreu ao serviço de urgência por um quadro com poucas horas de evolução, caracterizado por apatia, ligeira desorientação, défice de concentração, noção de alteração da personalidade e desajuste comportamental, com défice de concentração. Referiu episódio de trémulo dos membros superiores e parestesias do membro inferior direito, revertidos. Negava traumatismo, consumo de drogas ou álcool ou intoxicação medicamentosa. Na semana prévia havia apresentado infeção respiratória ligeira e autolimitada das vias aéreas superiores. Ao exame neurológico, o doente estava vigil, algo confuso, com aparente afasia sensitiva; sem défices motores ou sensitivos, nem sinais meníngeos. Os sinais vitais eram normais, com apirexia e a glicemia normal.

Optou-se por manter o doente em vigilância. Algumas horas depois, o doente desenvolveu um quadro alucinatório, com desadequação do comportamento, composto por verborreia e agressividade verbal e física, simulando um episódio psicótico. Foi necessária a administração de diazepam e haloperidol.

As hipóteses diagnósticas colocadas foram: a intoxicação alcoólica ou medicamentosa, consumo de drogas, perturbação psiquiátrica primária ou patologia orgânica (nomeadamente de causa inflamatória ou infeciosa). Efetuou estudo analítico (hemograma, gasimetria e proteína C reativa), bem como radiografia de tórax, sem alterações. Prosseguiu-se o estudo com neuroimagem por tomografia axial computorizada: sem alterações. Realizou-se punção lombar, que demonstrou: pleiocitose (198 células/uL), com predomínio de mononucleares (99,5%), aumento da proteinorraquia (86 mg/dL) e glicorraquia normal (58 mg/ dL). No sentido de esclarecer a patologia efetuou posteriormente eletroencefalograma, que demonstrou traçado com assimetria a desfavor do hemisfério esquerdo e atividade lenta intermitente fronto-temporal esquerda traduzindo disfunção local assumindo por vezes forma de atividade paroxística interictal. A pesquisa de drogas e de álcool negativa, afastou a etiologia tóxica.

Dado tratar-se de um quadro agudo foi iniciado terapêutica empírica com aciclovir perante a hipótese de meningoencefalite de causa vírica, nomeadamente herpética; e iniciou ceftriaxone, indicado para etiologia bacteriana mais comum, apesar da glicorraquia normal. O doente permaneceu internado com o diagnóstico de meningoencefalite, tendo realizado ressonância magnética cerebral, que foi relatada como normal. O líquido cefalorraquidiano (LCR) revelou-se amicrobiano, os antigénios capsulares e o estudo virológico negativos, no entanto polymerase chain reaction(PCR) para Mycoplasma pneumoniaefoi positiva. Dada a evolução favorável do estado clínico do doente, com total regressão das alterações comportamentais nas primeiras 24 horas, não se introduziu nova antibioterapia ou corticoterapia. Efetuou eletroencefalograma de controlo ao dia, que foi normal. O doente teve alta, sem qualquer medicação. foi posteriormente reavaliado em consulta externa, estando assintomático.

DISCUSSÃO / CONCLUSÃO No caso clínico apresentado, tendo como ponto de partida uma alteração grave do comportamento num adolescente, foi possível chegar ao diagnóstico de encefalite por Mycoplasma pneumoniae,cuja apresentação clínica foi apenas de alterações comportamentais agudas, não incluindo outras manifestações, nomeadamente neurológicas e sem atingimento respiratório.

Perante um adolescente com alterações agudas do comportamento e sem história psiquiátrica prévia, é fundamental manter a suspeita de patologia orgânica, investigando-a sempre. O Mycoplasma pneumoniae é um agente essencialmente respiratório, com potenciais complicações extra-pulmonares, embora raras, sendo as neurológicas as mais frequentes na faixa etária pediátrica(2-5). Está associado a manifestações no sistema nervoso central muito diversas, desde cerebrite, ataxia cerebelosa, meningite de líquor claro, polirradiculopatia, mielite transversa, síndroma de Guillain-Barré, paralisia de nervos cranianos ou psicose aguda(6-8), podendo ocorrer por invasão direta do agente infecioso (como neste caso) ou por mecanismo imunológico. Não evidência de que a encefalite por este agente seja clinicamente distinta da causada por outras etiologias. A existência prodrómica de sintomatologia respiratória pode ser um indício importante, mas pode não existir(1,9,10).

A conexão causal entre infeção por Mycoplasma pneumoniaee doença psiquiátrica ou neurológica é posta em causa com base em casos clínicos como o apresentado, sendo a evidência serológica positiva para este agente fundamental, o que inevitavelmente conduz a um atraso no diagnóstico. A positividade para o Mycoplasma pneumoniaepor reação PCR no LCR é um resultado raro, mas que faz um diagnóstico rápido. A existência de quadros neurológicos associados a micoplasma tem sido descrita com frequência(2,6,8,11'14). Contudo, o reconhecimento deste agente infecioso como causa de sintomas psiquiátricos agudos em idade pediátrica tem sido descrito muito raramente(7,15). São raros os casos com apresentação exclusiva com sintomas bizarros e floridos de alteração do comportamento como no caso apresentado.

O mecanismo pelo qual o micoplasma se traduz em sintomatologia neurológica ou psiquiátrica permanece obscuro, existindo várias hipóteses, ainda sob investigação: mecanismo autoimune, produção de neurotoxinas ou invasão direta do cérebro e LCR(6,10,11). Este facto torna o tratamento difícil. Nenhum tratamento foi validado como standard. Os macrólidos permanecem o tratamento de escolha, apesar de não ser conhecido o seu real efeito no curso da sintomatologia neurológica. Os corticoesteróides são por vezes administrados, com base na hipótese de existência de componente imunológico, sem ter ainda confirmação de algum tipo de benefício major, podendo eventualmente acelerar o processo de recuperação(10).

Concluímos que o Mycoplasma Pneumoniaedeve ser considerado como possível agente responsável por encefalite em adolescentes, mesmo na ausência de sintomatologia respiratória.

Este caso clínico vem reforçar a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar do adolescente com alterações do comportamento. Realça ainda o desafio que constitui o alargamento da idade aos adolescentes nas unidades de agudos de Pediatria.


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