Neofobias Alimentares: importância na prática clínica
RESULTADOS
O termo Neofobia Alimentar (NA) define-se como uma relutância na aceitação de
novos sabores.
É sabido que os comportamentos alimentares têm milhões de anos de evolução e de
programação genética.
Garcia-Bailo et alidentificaram vários recetores para os diferentes sabores(2).
O recetor T2R para o sabor amargo, o recetor T1R associado à perceção do sabor
doce, os recetores PKD1L3 e PKD2L1 ligados ao sabor ácido, o recetor CD36 para
aumento do teor de gordura e o recetor TRPV1 para a perceção do sabor
salgado.
Os vários polimorfismos genéticos são responsáveis por diferenças na perceção
do paladar e hábitos alimentares, pelo que podem afetar escolhas e influenciar
o estado nutricional, de saúde e risco de patologias crónicas, como a obesidade
infantil que é cada vez mais uma realidade mais frequente.(2-4)
Por conseguinte, a hereditariedade tem um papel determinante na relutância em
aceitar novos sabores.(3-5)
Posto isto, pergunta-se: será que estaremos condenados pelos genes a uma dieta
monótona? A resposta é não.
As preferências de sabor refletem experiências repetidas com os diferentes
tipos de sabores e alimentos.
Assim, podemos influenciar os mecanismos inatos de preferência alimentar
através da experiência precoce, levando à modulação do paladar.
E segundo diversos estudos essa experiência precoce começa logo na fase intra-
uterina com a passagem transplacentar de sabores voláteis para o líquido
amniótico.(6,7)
O desenvolvimento dos órgãos sensoriais ocorre durante a fase embrionária,
entra a primeira e oitava semanas, e no início da fase fetal, com os impulsos
gustativos a serem transmitidos para os núcleos cerebrais originando o reflexo
salivar e movimentos da língua do feto.(6)
O feto deglute entre 200-760 mL de líquido amniótico por dia, de acordo com a
fase de desenvolvimento embrionário, estando exposto a um grande número de
compostos gustativos.
Estudo experimental de Mennella et al(6) mostrou que filhos cujas mães beberam
regularmente sumo de cenoura durante o terceiro trimestre da gravidez tinham
maior preferência por cereais com sabor a cenoura comparativamente a crianças
cujas mães não ingeriram sumo de cenoura e/ou cenouras durante a gravidez.
Stein et al (8) sugere que experiências precoces podem modificar a preferência
das crianças por alimentos salgados e doces. Tais observações são
significativas, quando pensamos que podem contribuir para patologias futuras
como hipertensão arterial, diabetes mellitus, obesidade infantil.
Desta forma, padrões de gosto cultural surgem antes de se entrar em contato
direto com os alimentos propriamente ditos.(6,7)
Estudos com alimentos como alho, cenoura, baunilha, mostraram que durante a
lactação ocorre passagem de sabores voláteis uma a duas horas após a sua
ingestão para o leite materno.(7,9)
No estudo de Forestell CA e Mennella JA(10) crianças amamentadas aceitavam
melhor pêssegos que latentes alimentados com leite de fórmula, o que se
correlacionou com a maior ingestão de fruta pelas mães durante a lactação.
Conclui-se, assim, que o leite materno constitui uma oportunidade única para
uma maior capacidade de adaptação à diversificação alimentar. Destaca-se a
importância de uma dieta variada, tanto para mulheres grávidas como lactantes.
Galloway AT et al(11) provaram que crianças amamentadas são menos exigentes e
estão mais dispostas a experimentarem novos alimentos.
Sabe-se que a NA é mínima entre os quatro e os seis meses de idade, altura em
que se inicia a diversificação alimentar, sendo muito pronunciada entre os 18 e
os 24 meses.(12)
A aceitação de um novo sabor até aos cinco anos necessita muitas vezes de 10 a
15 exposições repetidas, sendo que esse número diminui à medida que uma maior
quantidade de alimentos é adicionada à dieta.(13)
Contudo, a janela para habituação aos sabores é estreita, pelo que a
probabilidade das crianças não gostarem de alimentos introduzidos depois dos
quatro anos é maior.(9)
A capacidade de aceitação de novos sabores aumenta com a familiarização com
esse sabor, através do seu consumo repetido, pelo que a aquisição do gosto vai-
se conquistando. Neste sentido, deve-se encorajar a persistência na variedade
alimentar.(12) A importância da diversificação alimentar também se manifesta
quando crianças mais velhas e adultos, muitas vezes comparam novos sabores com
o repertório já conhecido (exemplo: este alimento faz-me lembrar maçã),
aceitando-o mais facilmente.
Os novos alimentos são mais prováveis de aceitação quando combinados com pratos
conhecidos, em vez de consumidos de forma isolada, mas sem mistura de sabores e
quanto maior for a diversidade de alimentos oferecidos à criança na refeição,
maior será a quantidade ingerida do novo alimento.(12,14)
Experiências prévias com paladares desagradáveis ou agradáveis irão determinar
preferências gustativas futuras. Desta forma, a aversão por um alimento que
cause sensações negativas, como náuseas ou vómitos durante o seu consumo, pode
permanecer para o resto da vida, quer o alimento seja ou não a verdadeira causa
da reação.(12)
Em contrapartida, sensações positivas podem moldar a preferência por um
alimento, pelo que as crianças gostam de alimentos que ingerem em situações
agradáveis, como em festas, e rejeitam os alimentos ligados a algo negativo,
como a pressão que muitas vezes é exercida para a ingestão de alimentos como
frutas e os legumes.(9,12) Tal, faz-nos refletir no tipo de alimentos muitas
vezes selecionados para as ocasiões comemorativas. Quanto à pressão, esta pode
ser eficaz no aumento do consumo de certos alimentos numa primeira instância,
mas ao longo do tempo as crianças aprendem a resistir-lhe, pelo que acaba por
ter um impacto negativo sobre o consumo de qualquer alimento.(12)
O estudo de Galloway, Fiorito, Francisco, e Birch (2006)(15), testou o impacto
da pressão para comer sopa em crianças entre os três e os cinco anos de idade
(N=27). Ao longo do tempo, as crianças que consumiram menos sopa foram
pressionadas para a comer, e tinham comentários mais negativos sobre a mesma,
em comparação com crianças que não foram submetidas a pressão.
Também no estudo de Batsell, Brown, Ansfield, e Paschall (2002)(16), crianças
que percebem que estão a ser forçadas a consumirem determinados alimentos
desenvolvem uma aversão cognitiva pelos mesmos, associando-os com
experiências alimentares negativas.
Existe um período janela, entre os seis e os nove meses, crítico para a
introdução das texturas alimentares, a fim de se proceder a uma correta
aprendizagem da mastigação e redução do risco de dificuldades tardias na
alimentação.(17)
Assim, a sequência da consistência da alimentação deve ser aumentada
progressivamente, começando-se por uma alimentação homogénea, depois granulosa,
seguindo-se partículas mais grosseiras e, por fim, fragmentos.
Existe também uma concordância entre mães e filhos nos gostos e nos não gostos,
sendo essa influência contínua, mesmo após os oito anos de idade.(9) Assim, o
exemplo parental de crianças mais velhas ou até mesmo de heróis de histórias
encoraja a experimentação de novos alimentos, caso o modelo crie uma impressão
positiva.
A modelagem consiste num meio eficaz para uma alimentação saudável, tornando as
crianças mais propensas a experimentarem um novo alimento, quando outras
pessoas o estão a ingerir. Nos estudos de Addessi, Galloway, Visalberghi, e
Birch, 2005(18) e de Salvy, Vartanian, Coelho, Jarrin, e Pliner, 2008(19), a
modelagem associou-se com um aumento do consumo de legumes ao longo de 12 meses
e aumentou a exposição das crianças ao sabor de novos alimentos.
Será que as crianças tolerariam o seu prato preferido todos os dias? A resposta
é não, devido a um mecanismo de defesa designado saciedade sensorial
específica, que nos impede de termos uma dieta altamente monótona. Assim, de um
dia para o outro as crianças exigem algo novo e rejeitam o prato preferido,
pelo que apenas ingerem quantidades limitadas, levando a uma saciedade rápida e
à rejeição de repetição mesmo que ainda queiram ingerir um alimento diferente
de seguida.
CONCLUSÕES
O gosto por determinados alimentos é um processo complexo que começa in útero,
continua com o aleitamento e permanece pela vida fora. Embora exista uma forte
componente genética que influencia os nossos gostos alimentares, tal pode ser
contrariado por exposições precoces e repetidas aos alimentos. O contexto das
refeições exerce uma influência fundamental sobre as preferências gustativas
posteriores, originando estruturação do comportamento alimentar, pelo que se
devem também ter cuidados especiais na configuração das refeições, fomentando
as escolhas saudáveis de alimentos.
As emoções, aspetos sociais e processos digestivos, são fatores influenciadores
da aquisição do gosto. As influências negativas, nomeadamente pressões, devem
ser evitadas, devendo-se valorizar os reforços positivos.
Dar à criança alguns alimentos preferidos juntamente com os novos alimentos e
manter a calma para as neofobias temporárias, talvez seja a chave para o
desenvolvimento das preferências gustativas mais benéficas para as crianças.
Estas preferências são muito estáveis e podem durar toda a vida, pelo que
devemos dar uma especial atenção às crianças e aos pais no processo de
educação do gosto.