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Representação em texto

EuPTCVHe0872-07542013000200008

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-0754
ano2013
Issue0002
Article number00008

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Pâncreas anular: um caso clínico

INTRODUÇÃO O pâncreas anular é uma anomalia congénita rara, com uma incidência estimada de 1:10 000- 20 000 nascimentos. Caracteriza-se por uma banda ou anel de tecido pancreático, que circunda a porção descendente do duodeno, causando graus variados de obstrução intestinal extrínseca.1 O pâncreas forma-se entre a quinta e a oitava semana de vida embrionária, resultando da fusão de uma porção dorsal ' que vai formar o corpo e a cauda ' e uma ventral e bífida ' que vai formar a cabeça do pâncreas. Habitualmente, os dois componentes da porção pancreática ventral fundem-se e fazem uma rotação em torno do duodeno, colocando-se sob a porção pancreática dorsal. Ocasionalmente, estes dois componentes migram em sentidos opostos, rodeando o duodeno, formando, assim um anel pancreático.1,2 Este anel é parcial em cerca de 75% dos casos.3 Esta disposição anatómica pode ser assintomática, diagnosticada apenas na idade adulta, ou encontrada apenas em estudos necróticos. No entanto, se o anel pancreático causar obstrução duodenal, os sintomas podem surgir logo após o nascimento, sendo muitas vezes indistinguíveis dos quadros de atrésia duodenal ou de má-rotação intestinal. O pâncreas anular é responsável por cerca de 1% das obstruções intestinais no período neonatal e 40% destas, são situações de urgência cirúrgica.4,5

CASO CLÍNICO Grávida de 33 anos, G2P1, sem antecedentes patológicos pessoais ou familiares relevantes. Gravidez vigiada, de baixo risco. O estado materno-fetal clínico, analítico e ecográfico manteve-se tranquilizador e não ocorreram intercorrências até às 32 semanas de gravidez. Nesta altura, foi realizada a ecografia do terceiro trimestre e foi observado o sinal da dupla bolha, em corte transversal do abdómen fetal, sugerindo uma obstrução ou atrésia duodenal (Figura_1). O volume de líquido amniótico (LA) era normal e não foram observadas outras anomalias. A ecocardiografia fetal foi normal. O estudo citogenético foi recusado pelo casal. Após apresentação do caso e discussão multidisciplinar entre as equipas de Obstetrícia, Pediatria e Cirurgia Pediátrica, programou-se a indução do trabalho de parto para as 39 semanas. O recém-nascido do sexo feminino, nasceu por parto eutócico, com somatometrias adequadas à idade gestacional (P=2570 g, C=47,5 cm, PC=32 cm), índice de Apgar: 9-10 e sem dismorfias. Pela suspeita pré-natal de obstrução intestinal alta, ficou em pausa alimentar, com sonda gástrica em drenagem; clinicamente estável.

A radiografia abdominal simples confirmou o sinal da dupla bolha, observado na ecografia obstétrica (Figura_2). Em D3 foi submetido a laparotomia exploradora alta, tendo sido observado pâncreas anular. Foi efetuada lise de bandas de Ladd e duodeno-duodenostomia topo a topo. Em D16, por quadro de obstrução intestinal alta, foi re-intervencionado e efetuada lise de bridas. O pós-operatório evoluiu sem novas intercorrências, com evolução ulterior normal, tendo tido alta em D31.

O cariótipo foi normal - 46XX.

CONCLUSÃO Existe um largo espectro de anomalias congénitas do trato gastrointestinal (GI), que constitui causa significativa de morbilidade pediátrica. Estas anomalias incluem os distúrbios obstrutivos completos ou parciais (atrésia/ estenose), as anomalias de rotação/fixação, as duplicações e as compressões extrínsecas. Os métodos de imagem são importantes na determinação do seu diagnóstico, etiologia e abordagem terapêutica. A atrésia duodenal pode ser uma anomalia isolada. No entanto, em cerca de 30% dos casos, associa-se à trissomia 21 e pode estar presente na associação VACTERL (anomalias Vertebrais, Atresias gastro intestinais, Cardiopatia, fístula Traqueo-Esofágica, anomalias Renais e dos membros.6,7,8 A atrésia duodenal está também associada com a presença de pâncreas anular.

Durante o período pré-natal, o achado ecográfico, em corte transversal do abdómen, do sinal da dupla bolha (em que a maior, à esquerda, corresponde ao estômago e a menor, à direita, ao duodeno proximal), é diagnóstico de obstrução intestinal, mas não necessariamente de atrésia.3,10 No entanto, na ausência de exames com maior acuidade para um diagnóstico diferencial, deve-se considerar a elevada associação entre atrésia duodenal e trissomia 21, bem como com outras anomalias sistémicas. Desta forma, deve ser proposta a realização do estudo citogenético fetal para determinação do cariótipo e a realização de um estudo ecográfico morfológico multissistémico detalhado, incluindo a ecocardiografia fetal.

Têm sido investigados outros marcadores ecográficos para diagnóstico de pâncreas anular. Alguns estudos descrevem a possibilidade da presença de uma banda hiperecogénica, circundante ao duodeno. Este achado, juntamente com o sinal da dupla bolha, aumenta a especificidade do diagnóstico.3 Ao contrário do caso descrito, em que a quantidade de LA permaneceu normal, o hidrâmnios é um achado frequente durante o terceiro trimestre, na maioria das situações.2,8 Assim, o diagnóstico pré-natal precoce permite uma orientação e um aconselhamento parental individualizado, o rastreio de anomalias associadas, a possibilidade de um diagnóstico citogenético e o planeamento do parto num centro referenciado, com o necessário suporte neonatal.

A partir do período neonatal, a radiografia abdominal é o meio mais valioso no diagnóstico de obstrução do trato GI. Em recém-nascidos saudáveis, 3h após o nascimento, o intestino delgado está habitualmente repleto de gás, pelo que o aparecimento do sinal da dupla bolha é sugestivo de obstrução duodenal.

A apresentação clínica de pâncreas anular é variável e, embora os achados imagiológicos o possam sugerir, o seu diagnóstico definitivo ocorre apenas durante a cirurgia, com a identificação de uma banda de tecido pancreático a envolver o duodeno.

Tal como no caso apresentado, enfatizamos a abordagem multidisciplinar, entre obstetrícia, neonatologia e cirurgia pediátrica, para uma orientação precoce e adequada, de forma a reduzir a morbilidade neonatal.


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