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Representação em texto

EuPTCVHe0872-07542012000200007

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-0754
ano2012
Issue0002
Article number00007

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Doença de Addison em idade pediátrica: um caso clínico

INTRODUÇÃO A insuficiência supra-renal pode classificar-se em primária, secundária ou terciária. Designa-se primária, quando a causa reside na própria glândula supra-renal. Nestes casos, existe habitualmente um défice de produção de glucocorticóides e mineralocorticóides. Na insuficiência secundária e terciária as causas são, respectivamente, hipofisária (défice de ACTH ou anomalia do seu receptor) e hipotalâmica (défice de secreção de corticotrofin releasing hormone), sendo predominantemente afectada a produção de glucocorticóides 1. As manifestações clínicas e os achados laboratoriais permitem estabelecer o diagnóstico diferencial.

Em 1855, Thomas Addison descreveu pela primeira vez a Doença de Addison, que englobava todas as causas de insuficiência supra-renal primária, sendo a tuberculose a principal etiologia 2.

Actualmente, o termo Doença de Addison designa a insuficiência primária do córtex supra-renal de etiologia auto-imune ou idiopática 3. Trata-se de uma doença rara, sobretudo na idade pediátrica. Em Portugal registam-se cerca de 500-600 novos casos/ano, com predomínio na idade adulta 4.

Outras etiologias, menos frequentes, de insuficiência supra-renal primária incluem doenças congénitas (défices hormonais ou enzimáticos), infecciosas, infiltrativas, traumáticas e iatrogénicas 5.

A forma de apresentação da doença pode ser aguda ou insidiosa, sendo a forma aguda rapidamente fatal se não tratada atempadamente. As manifestações clínicas são frequentemente inespecíficas, surgindo quando pelo menos 75% do tecido supra-renal está destruído 2. A hiperpigmentação muco-cutânea, que é mais marcada nas superfícies extensoras, pregas de flexão, aréolas mamárias e mucosas, é observada em mais de 90% dos doentes. Alguns indivíduos têm apetência pelo sal (salt craving). Analiticamente, a existência de hiponatremia, hipercaliemia, hipoglicemia e acidose metabólica deve fazer suspeitar de insuficiência supra-renal 3.

Esta doença pode ocorrer de forma isolada ou associada a outras endocrinopatias auto-imunes 6. A Síndroma Poliglandular auto-imune do tipo I (Síndroma de Withaker) caracteriza-se pela existência de pelo menos duas de três doenças: candidíase muco-cutânea crónica, hipoparatiroidismo e insuficiência supra- renal. O tipo II (Síndroma de Schmidt), mais frequente que o tipo I, manifesta- se geralmente na idade adulta e associa doença tiroideia, diabetes mellitus e insuficiência supra-renal. Em ambos os casos podem existir outras doenças auto- imunes associadas (doença celíaca, hepatite crónica, anemia perniciosa, vitiligo, entre outras) 7.

A Doença de Addison requer tratamento de substituição hormonal com corticóides (glucocorticóides e mineralocorticóides) ao longo da vida, sendo necessário ajuste das doses farmacológicas em situações de doença aguda 5.

CASO CLÍNICO Adolescente do sexo feminino, raça caucasiana, 14 anos de idade, filha única de pais não consanguíneos. Pai alcoólico. Sem doenças heredofamiliares relevantes.

A gestação foi de 36 semanas, vigiada e decorreu sem intercorrências. O parto foi eutócico, hospitalar, com índice de Apgar 9 e 10 ao primeiro e quinto minutos respectivamente. Antropometria ao nascimento adequada à idade gestacional. Efectuou rastreio endócrino-metabólico, sem alterações. Sem história de alergias ou intolerâncias alimentares, seguindo actualmente uma dieta equilibrada. Desconhecemos a evolução estaturo-ponderal, mas na data da observação tinha peso inferior ao percentil 5 e altura entre o percentil 10 e 25. Desenvolvimento psicomotor adequado, frequentando actualmente o ano com razoável aproveitamento. É acompanhada em Consulta de Psicologia desde os sete anos por alterações do comportamento que surgiram na sequência da situação de disfunção familiar. Sem outros antecedentes patológicos com excepção de internamento de curta duração, duas semanas antes da admissão, por desidratação hiponatrémica no contexto de gastroenterite aguda.

Cerca de três meses antes do internamento iniciou queixas de astenia, anorexia, perda de peso de 13% e humor depressivo. Nos dois dias anteriores ao internamento surge também com vómitos, diarreia e prostração de agravamento progressivo. Sem febre ou outra sintomatologia acompanhante.

Na admissão apresentava-se com mau estado geral, obnubilada, peso 34 Kg (<P5), estatura 153 cm (P10-25), IMC 14,5 Kg/m2 (<P5), TA 79/40 mmHg (<P5), FC 53 bpm, mal perfundida, com mucosas secas e olhos encovados, sinal da prega, discreta hiperpigmentação cutânea e mucosa, estádio IV de Tanner. Sem outros dados relevantes ao exame objectivo.

No estudo analítico inicial com hiponatremia (120 mmol/L), hipercaliemia (6,0 mmol/L), hipocloremia (89 mmol/L), hipoglicemia (32 mg/dL) e ureia aumentada (85 mg/dL), com creatinina normal (0,89 mg/dL). Gasimetria do sangue venoso com acidose metabólica ligeira (pH 7,20, bicarbonatos 14,8 mmol/L, pCO2 39,4 mmHg).

Hemograma sem alterações e proteína C reactiva inferior a 0,3 mg/dL.

Considerando as manifestações clínicas e o resultado da avaliação analítica, admitiu-se o diagnóstico de insuficiência supra-renal, tendo efectuado estudo endocrinológico (Quadro 1).

Quadro 1 Resultados do estudo da insuficiência suprarrenal

A prova de Mantoux foi negativa. A Tomografia Computorizada das glândulas supra-renais não revelou alterações. A pesquisa de anticorpos anti-supra-renal foi positiva. A investigação de síndroma poliglandular autoimune foi negativa (anticorpos anti-tiroideus, anti-paratiroideus, anti-factor intrínseco, anti- ovário, anti-pancreáticos, anti-endomísio, anti-gliadina e anti- transglutaminase).

Os exames realizados permitiram concluir tratar-se de uma insuficiência supra- renal primária, de etiologia auto-imune.

Iniciou terapêutica com fluidoterapia endovenosa e hidrocortisona endovenosa.

Após aquisição de tolerância oral iniciou fludrocortisona.

A evolução clínica foi favorável, com alta hospitalar após quinze dias, orientada para as Consultas de Endocrinologia Pediátrica, Adolescentes e Pedopsiquiatria. Manteve terapêutica de substituição por via oral com hidrocortisona 15 mg/m2/dia de 8/8 horas e fludrocortisona na dose de 100 mcg/ dia (em 2 tomas).Ficou assintomática cerca de 2 meses após a alta hospitalar.

Verificou-se aumento gradual do peso e 2 meses depois ocorreu a menarca.

DISCUSSÃO A Doença de Addison é uma patologia rara na idade pediátrica e que pode ser rapidamente fatal, se não for diagnosticada e tratada atempadamente 3. Nesta doente, o quadro de desidratação grave desproporcional às perdas estimadas, a apetência pelo sal e a hiperpigmentação cutânea e mucosa, permitiu colocar a hipótese de diagnóstico de insuficiência supra-renal. A presença de hiponatremia, hipercaliemia e hipoglicemia apoiaram este diagnóstico.

O facto da adolescente ser acompanhada em Consulta de Psicologia desde os sete anos por alterações de comportamento, e o aparecimento três meses antes de sintomas que podiam ser interpretados como um quadro depressivo, levou a que inicialmente também se tivesse colocado a hipótese de Perturbação Depressiva Major.

A insuficiência supra-renal primária pode apresentar-se de forma insidiosa, com queixas inespecíficas de fadiga, astenia, anorexia e progressão ponderal.

Menos frequentemente, surge de forma súbita, com compromisso hemodinâmico, muitas vezes precipitado por um episódio de doença aguda 8.

O diagnóstico é confirmado laboratorialmente pela associação de um valor sérico de cortisol normal ou baixo e de um valor de ACTH aumentado 2. A realização de prova de estimulação com ACTH torna-se dispensável nas formas de apresentação aguda e emergente, como neste caso.

Após confirmação do diagnóstico de insuficiência supra-renal primária é necessário determinar a sua etiologia. A causa auto-imune é a mais frequente nesta faixa etária, como no caso da nossa doente, sendo muito menos frequentes as causas infecciosas, infiltrativas, traumáticas ou iatrogénicas, que no entanto devem ser consideradas.

O diagnóstico de Doença de Addison obriga a investigar uma Síndroma Poliglandular auto-imune. Apesar de nesta doente essa investigação ter sido negativa, a possibilidade de outros auto-anticorpos poderem surgir mais tardiamente, implica manter vigilância clínica e laboratorial a longo prazo.

O tratamento da Doença de Addison utilizando corticoides (glucocorticóides e mineralocorticóides) em doses de substituição é feito durante toda a vida. Os adolescentes e os pais devem ser ensinados a proceder aos ajustes terapêuticos necessários em situações de stress/doença aguda 6.

Os doentes devem ter sempre consigo um cartão ou outro documento que identifique a sua doença, para que nas situações de descompensação o tratamento possa ser mais rápido e adequado.

CONCLUSÕES O diagnóstico de insuficiência supra-renal requer um elevado grau de suspeição clínica, uma vez que os sintomas e sinais iniciais são frequentemente inespecíficos. Nestes casos, os achados laboratoriais de desidratação hiponatrémica, hipercaliemia e hipoglicemia, acompanhados de hiperpigmentação cutâneo-mucosa, devem fazer suspeitar deste diagnóstico.


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