Falta de açúcar...?
Falta de açúcar...?
Armando Pinto1
1 Oncologista Pediátrico do IPO do Porto
Foi no Serviço de Pediatria do Hospital Geral de Santo António, no Porto, que
iniciei o Internato de Pediatria na passada década de 80.
A preferência pela especialidade nasceu ainda durante o curso, porém o exacto
local do estágio dimanou da ligação que já tinha com aquele Hospital,
localizado na freguesia onde nasci e habitei, ao qual me dirigia primeiro como
utente e depois como estudante de medicina, para ocupar os tempos vagos,
iniciando-me na actividade clínica guiado por um grande amigo de infância, o
Dr. José Manuel Calheiros. Ajudou ainda o facto de, na altura, o Director ser o
Dr. Baltazar Valente, conhecido da minha mãe e também ' eis uma notável
curiosidade ' a circunstância de estar ali um médico regressado da Suíça que
alcançara imensa fama e prestígio na Cidade, por aliar a sua espontaneidade à
invulgar capacidade de comunicação e sobretudo ao contagioso entusiasmo que
transmitia quando falava da sua profissão: o Dr. Octávio Cunha.
O Serviço tinha instalações novas, constava que por acaso, pois haviam feito
umas obras para ampliar outro Serviço, porém, como os planos estavam mal feitos
e as camas de adulto «não passavam» nos corredores, foram obrigados a entregar
o espaço ao Serviço de Pediatria.
Passei ali anos absolutamente marcantes para a minha vida profissional e
pessoal. Uma parte de mim, do meu eu, uma fracção da minha identidade,
permanece ligada para sempre àquele Serviço, àquele Hospital e àquelas pessoas,
com as tonalidades e contrastes inerentes a quem vive intensamente.
Um dos acessos ao Serviço de Pediatria fazia-se por um elevador. Este era
guiado por um ascensorista ' bem sei que estão pasmados, mas era exactamente
assim, uma criatura que só fazia aquilo! ' um homem de meia idade, de tez
morena e aparência indiana, de baixa estatura mas bem «recheado», falador,
perguntador, «metido», conhecia-nos a todos e dava-se a comentários mais ou
menos atrevidos, que tinham nomeadamente a ver com as suas preferências por
este ou aquele, aquela ou aqueloutra. O homem era epiléptico, «Doutor, se eu
não tomo os comprimidos vêm-me uns ataques, espumo-me todo e só acabam na
Urgência», sendo em consequência lento, melado, pegajoso mesmo, tornando-se
insuportável naqueles dias em que, também nós, estávamos insuportáveis.
Uma ocasião, numa manhã soalheira, quente e mandriona, daquelas que acontecem
no Verão na Cidade do Porto, estava eu na Enfermaria acompanhado de um colega
estagiário de Clínica Geral, um homem muito «bem-posto», com um impecável ar de
médico que nos superava sobremaneira, bem mais idoso que nós, quase imberbes,
pois havia feito o curso de medicina como «estudante-trabalhador» ' que na
altura permitia uma espécie de «curso rápido» ' enquanto exercia a actividade
de Propagandista Médico ' profissão hoje designada por Delegado de Informação
Médica ' estava eu, dizia, num intervalo, quando o convidei para um café, ao
que ele aderiu com prazer.
Chamei o elevador e, quando as portas descerraram naquela lentidão que todos
reconhecem, apareceu o Sr. Manuel, o pressuroso ascensorista, mais ávido do que
nunca de uma pequena conversa, «Então vão para um cafezinho?», perguntou
olhandonos frontalmente, enquanto mantinha o gordo dedo indicador no botão de
sinalização de destino, «É isso mesmo, fiz agora um Dextrostix e estou aqui com
uma falta de açúcar !», respondeu o colega de clínica geral com a concertada
voz grave de locutor que o caracterizava.
As portas do elevador aproximaram-se, fechando-nos no contentor andante, onde
as pessoas se vêem obrigadas a prescindir do espaço razoavelmente aceite para a
proximidade, dando azo a que até os pensamentos se tenham que abafar, não vá o
forçado parceiro corpulento posto à nossa frente adivinhar quanto incomodam os
seus repugnantes dentes desalinhados e escuros, as portas fecharam, dizia eu, o
elevador iniciou a descida, indiferente à agonia do Sr. Manuel, entregue à
tentativa de alcançar o sentido do citado, « açúcar textix », enquanto coçava,
talvez com o mesmo dedo usado no botão, o lustroso couro cabeludo visível
através da rala cabeleira desbotada,
«textix textix ».
Para quem, como foi o meu caso, não estava ciente do que revoluteava naquela
pequena cabecinha, nada se sentia de relevante a passar, porém o Sr. Manuel ia
ansioso, antecipando a reabertura das portas sem resolver a insistente dúvida,
aflito como quando se fica inesperadamente sem pé, « textix açúcar », enquanto
o «contentor» prosseguia, indiferente, a descida.
O inevitável sobreveio, impôs-se, as portas desataram a abrir, aparentemente
mais apressadas do que seria desejável, e nós encetamos os primeiros movimentos
de abandono do elevador, todavia fomos interrompidos com uma pergunta
absolutamente inesperada: «Doutor, o senhor disse que está com falta de açúcar
nos testículos!?».