Perturbações do Desenvolvimento da Linguagem: bases biológicas e classificações
Perturbações do Desenvolvimento da Linguagem: bases biológicas e classificações
Maria João Ximenes1,2,3, Isabel Pavão Martins1
1CH Lisboa Norte, H Santa Maria - Laboratório de Estudos de Linguagem
2CH Lisboa Norte, H Santa Maria - Dep. Pediatria - Unid. Desenvolvimento
3Escola Superior de Saúde - Instituto Politécnico de Setúbal ' Dep. Ciências da
Comunicação e Linguagem
As Perturbações Específicas da Linguagem (PEL) são perturbações do
desenvolvimento da linguagem e são bastante frequentes sobretudo nas crianças
mais jovens, estimando-se que afetem cerca de 7% das crianças em idade escolar.
Embora a maioria recupere até ao final do ciclo básico, a verdade é que se
associam a um elevado risco de dificuldades de aprendizagem escolar e a uma
baixa de autoestima que pode comprometer a inserção escolar e social das
crianças afetadas.
Nos últimos anos tem havido um grande esforço para compreender melhor,
classificar e intervir nestas perturbações.
Um avanço significativo resultou da identificação de uma mutação (FOXP2)
associada a uma forma familiar de PEL autossómica dominante caracterizada por
uma apraxia verbal. Este defeito afeta genes reguladores do funcionamento de
outro genes pelo que pode associar-se a uma disfunção mais vasta da expressão
genómica.
Outro avanço resultou da compreensão do défice cognitivo associado às PEL e que
parece consistir numa marcada dificuldade de discriminação e velocidade de
processamento auditivo (resolução temporal dos estímulos) e de defeitos na
consciência fonémica, aspetos que podem ser estimulados através de programas de
reabilitação específicos. Mais recentemente foram publicados estudos que
identificaram, através da imagiologia cerebral, formas atípicas de organização
cerebral para a linguagem que se encontram nas crianças com PEL, nomeadamente
uma perda da assimetria normal entre os dois hemisférios cerebrais no que
respeita ao processamento da linguagem.
Estas três abordagens da genética molecular, à neurofisiologia e imagiologia
cerebral podem abrir novas formas de intervenção terapêutica.
Outra questão diz respeito à classificação clínica destas perturbações. A
comunidade científica é unânime quanto à heterogeneidade destas perturbações,
quer quanto aos seus subtipos quer quanto à sua gravidade, no entanto
relativamente à classificação esta unanimidade já é mais difícil de encontrar.
Já há muito que se abandonou a ideia de que para avaliar a linguagem bastava
avaliar a expressão e a compreensão. Esta classificação era extremamente
redutora no entanto permitia alguma previsão do prognóstico e a sua avaliação
era simples. Ainda assim, por vezes as alterações na expressão e na compreensão
estavam relacionadas só com alguns domínios da linguagem, pelo que a utilização
duma classificação baseada nos domínios da linguagem afetados viria a permitir
a definição de uma intervenção mais específica e mais adequada. Assim, a
classificação neurolinguística da Rapin & Allen (1983 e 1988) teve em conta
os vários níveis de processamento da linguagem e permitiu definir síndromes com
padrões específicos para estas perturbações, com base em defeitos de
compreensão e expressão, assim como nos vários domínios linguísticos.
Em 2008, Friedmann & Novogrodsky classificam as Perturbações Específicas da
Linguagem em 4 subtipos: PEL-sintático, PEL-fonológico, PEL-lexical e PEL-
pragmático. Esta classificação exige uma avaliação muito minuciosa da linguagem
com testes específicos para cada domínio linguístico, permitindo caracterizar a
perturbação, com a referência ao critério o que permite encontrar um perfil de
linguagem que vai ajudar no planeamento da intervenção.